15 de janeiro de 2013

Babel e a incerteza



A certeza não parece ser a substância ou a essência da experiência humana. A locomotiva da razão parece precisar de fé como combustível de seu motor.

Vamos começar com uma das afirmações filosóficas mais simples e penetrantes: “só sei que nada sei”. Pode parecer um arremedo filosófico da humildade, uma fórmula antiga da pieguice, mas acho que julgar Sócrates assim seria um tanto injusto com o homem que enfureceu a democracia ateniense com seus questionamentos e método. Parece que a fibra moral do homem, ao menos no questionamento filosófico, era inexpugnável. De qualquer forma, isso deixa de ser relevante diante da própria validade e permanência da máxima como fundamento da pesquisa: quem quer saber qualquer coisa deve primeiro admitir que não sabe de nada.  

Avançando uns 5 séculos, também o apóstolo Paulo escreve algo similar: “E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” (1Co.8:2). Entretanto, se em Sócrates temos uma quase confissão, a direção de Paulo é um pouco mais afastada de si mesmo, para extrapolá-la ao coletivo. E, de fato, sobre Deus, o absoluto mistério, quem pode bater no peito e dizer que sabe qualquer coisa?

Na Alemanha dos anos 1900, David Hilbert havia montado um programa direcionado a resolver 23 problemas da matemática que persistiam no horizonte e que, se eliminados, a tornariam um todo harmônico, completamente coerente e amparado nas regras básicas do 2+2, a aritmética. Resolvidos os problemas com base na construção elementar da aritmética e subindo de pouquinho em pouquinho a complexidade, a matemática seria uma fortaleza teórica perfeita, auto-referente e de absoluta coerência. Infelizmente para Hilbert, surgiu um outro gênio que percebeu que isso não seria possível.

O austro-húngaro Kurt Gödel desmontou a “teoria de tudo” da matemática, a torre de Babel teórica, antes mesmo de ela nascer, com seus 2 Teoremas da Incompletude. Gödel viu que era (e ainda é) impossível provar a validade de uma premissa dentro de uma teoria que a utilize. A validade da premissa só pode ser provada em uma teoria maior, que compreenda um mecanismo de prova da premissa. Assim, uma teoria que funcione (que seja consistente) não precisa, ou melhor, não pode ser completa. E a teoria que é completa e explica qualquer asserção é, necessariamente, inconsistente, ou seja, ela vai cair inevitavelmente em contradições de auto-referência. O exemplo mais comum disso está na beleza dos paradoxos que bem poderiam ser desenhados por Escher.

O paradoxo do mentiroso, que inspirou o próprio Gödel, é um reflexo dessa inconsistência da linguagem. Se um pessoa diz “eu estou mentindo”, é impossível saber se isso é uma verdade ou uma mentira, pois, se a afirmação é verdadeira, logo a pessoa está mentindo. Se, por outro lado, a afirmação é falsa, a pessoa estaria falando uma verdade, o que contradiz o enunciado do que ela está dizendo de fato. Esse tipo de paradoxo não tem solução e, aparentemente, é inofensivo em nossas vidas.

Entretanto, nossas ferramentas mais precisas não conseguem tapear esse problema de lógica, de modo que é impossível que um computador não cometa erros quando se depara com esse tipo de questão, pois se sua linguagem é completa, ela é necessariamente inconsistente pela auto-referência a uma operação que lhe é imanente. Imagine um comando de computador para imprimir a frase “esta afirmação é mentirosa” somente caso seja verdadeira. Assim, existem pressupostos que têm de ser simplesmente aceitos para que uma teoria matemática funcione.

Veja, não estamos falando de química, engenharia ou geografia, que seriam ramos menos precisos para afirmações absolutas. Na escala de precisão, nada é como a matemática, que é, por excelência, a ciência dos absolutos. Nela se verifica que existe uma indecidibilidade fundamental. Existem sistemas lógicos que são, por natureza, incoerentes. Na pior das hipóteses, os matemáticos garantiram seus empregos para sempre, pois não é possível uma matemática totalitária que mande em si mesma. Se em alguma teoria totalizadora surgirem as provas da validade de suas premissas, a teoria implode pela inconsistência e dirá a todos: “eu estou mentindo.”

Se a partir da filosofia e teologia clássicas podemos abraçar uma docta ignorantia e na lógica moderna arrumamos um bom argumento para a desvalorização de um amontado racional completamente auto-suficiente, a demonstração do acerto dessa postura se mostra também um pilar epistemológico da mecânica quântica. É realmente fenomenal que a indefinição tenha seu equivalente no universo que nos circunda. O Princípio da Incerteza nos informa que é impossível saber a posição e a velocidade de uma partícula ao mesmo tempo e, com isso, tudo o que podemos descobrir sobre o comportamento das indomáveis partículas elementares são probabilidades de onde estão e com que velocidades estão viajando. Heisenberg sabia das coisas e teve um insight maravilhoso. O interessante é que esse é um princípio da mais alta validade, com consequências das mais inesperadas (por exemplo, a comprovação do bizarro condensado de Bose-Einstein), que surge de um raciocínio coerente, elegante e simples: para ver qualquer objeto, é preciso que a luz toque o objeto, seja refletida e entre em nossos olhos.

Mas se formos encolhendo o tamanho do objeto que queremos observar até o tamanho de uma partícula similar ao tamanho da luz (não se esqueça que a luz tem um comportamento de onda e de partícula – o fóton – ao mesmo tempo), para que o objeto seja visto teremos que lançar a luz sobre ele e captar o que for rebatido de volta. Mas, se objeto e fóton têm dimensões similares, isso será como tentar encontrar um ratinho vestido com colete de borracha dentro de um quarto totalmente escuro disparando tiros no bicho e ficar esperando a bala voltar. Talvez seja mais fácil se guiar por um gemido do ratinho. Pode-se, de outro modo, pensar a situação como um jogo de sinuca quântico, em que se quer saber onde a bola preta está, de onde veio e para onde está indo, com o único recurso de bater a bola branca nela, de olhos vendados. Na hora em que ouvirmos um “clac!” encontramos a partícula e saberemos mais alguma coisa quando a bola voltar para nós.

Enfim, o ponto é que para conhecer exatamente a velocidade e a posição de uma partícula, o observador precisará interferir na trajetória da partícula jogando alguma “coisa” que ele manipule (outra partícula) em cima dela e esperar que a partícula a rebata. O que pode ser medido será alguma diferença entre o que foi jogado e que voltou no rebote. Dessa forma, é impossível saber a posição e a velocidade das menores partículas ao mesmo tempo, pois qualquer técnica de observação no nível quântico afetará a posição ou velocidade original da partícula. Nesse nível, o observador afeta então o resultado da observação, pelo simples fato de observar.

Esse princípio é tão visceralmente oposto ao determinismo, que toda a mecânica quântica, a teoria matemática mais exata e potente que temos para explicar a realidade físico-química em que vivemos, está baseada no cálculo de probabilidades dos eventos, em vez da certeza deles. 
Existe, com razão, uma resistência grande por parte de físicos com a popularização da afirmação de que a própria observação de um evento já o altera, especialmente para questões macroscópicas em que o observador, só por observar, não afeta em nada o experimento (ou não aparentemente). Extrapolar esse tipo de raciocínio muitas vezes implica em falar besteira, mas a intervenção social de alguns observadores de fato interfere com a realidade de alguns sistemas sociais. Antes de falar da sociedade, talvez seja útil começar por uma cabeça isolada.

No mesmo século XX, Freud preparava sua psicanálise sob a sombra de uma incerteza em seu método. Imagino a fumaça de um charuto subindo de um cinzeiro, num café na fria Viena sob o sol, numa conversa com seu único confidente, Wilhelm Fliess. Fliess vai embora e, no fundo da memória, vem uma doce lembrança de como as amizades são boas, em especial na infância, aquele tempo perfeito em que não há qualquer problema com os pais ou desejos reprimidos. Mas, espere um minuto... é isso mesmo? Não! É na infância que há desejos dúbios intrincadamente relacionados com a sexualidade e o afeto pela mãe e o inconsciente movimento de rejeição do pai – pensa Freud.

Poderia ter sido assim, depois de uma conversa de bar amistosa, que a formação do conceito do Complexo de Édipo tivesse ocorrido, fruto de uma lembrança errada. Não faço ideia de como tenha sido, mas parece que resultou da auto-análise dos sonhos de Freud, após a morte de seu pai. Ele determinou que suas próprias neuroses vinham da hostilidade com relação ao seu bronco pai e à atração pela mãe afetuosa.

Mas vale enfatizar algo que sustenta a psicanálise: para que uma neurose decorrente de um trauma seja tratada, é preciso que se fale sobre ele. Com as ferramentas teóricas de um cientista, devemos separar algumas coisas: a experiência, a lembrança e o sintoma. Poderíamos acrescentar a esses termos também o relato do trauma. Cada um aparece de forma diferente no tempo e, como Freud e muitos psicólogos descobriram, muitas vezes, o relato do trauma não casa com o que de fato aconteceu. A memória engana.

Há, inclusive, testes para comprovar essa deficiência fugidia da memória, com listas de palavras, em que o sujeito enfia uma palavra que não estava originalmente na lista, por associação com as originais. Por exemplo, se alguém começa a falar “geometria, lados, ângulos, três, forma, polígono, pontos”, etc., é bem provável que a pessoa faça a associação com a palavra “triângulo” e, assim, quando perguntada sobre quais palavras foram ditas, ela responda “triângulo”, sem que a mesma nunca tenha sido dita. Ela não se lembra se foi dita, mas parece que sim. 

Por isso, Freud ensina que as lembranças infantis dos primeiros anos, na verdade, não emergem mas são formadas (construídas) tão logo a pessoa comece a pensar no passado, como uma criança mais crescidinha. A conclusão é que todo mundo joga um pouco do que está vivendo em cima de lembranças do passado e, assim, modifica a própria lembrança, ao sabor de algumas variações de humor e das circunstâncias imediatas, dentro de algumas margens. Há memórias boas, mas parece que mesmo nas melhores ela não é algo 100% confiável.

Isso, para mim, é como o Princípio da Incerteza aplicado à psicologia. É a sinuca psicológica. No nível mais fundamental, ao tentar acessar uma lembrança para ver sua causa, a pessoa pode eventuamente mudar o que foi a causa baseada no que está vivendo agora. Talvez esse problema decorra justamente da incerteza das partículas elementares, os elétrons que passeiam pela nossa cabeça, e da linguagem. Lança-se um acesso à memória que bate na lembrança e volta uma leitura ligeiramente diferente do que de fato ocorreu. Para Freud, a chave de interpretação dessa discrepância é a própria linguagem. Entre a “lembrança encobridora” (é o termo que ele usa) e o trauma está provavelmente uma expressão verbal que faça a associação entre as duas.

Apelando a um ligeiro e temporário ajuste no foco, o exemplo da torre de Babel talvez nos faça olhar as coisas do ponto de vista da certeza, dos projetos infalíveis e completos e sua patente incapacidade de responder de forma definitiva aos problemas sociais, justamente pela presunção da sabedoria absoluta. Migdal Bavel foi o termo cunhado para designar uma mega fortaleza militar cosmopolita, (quase) certamente a Babilônia. Era um projeto de perfeição e, provavelmente, muito pouco tinha a ver com a construção vertical de um prédio infinito, mas muito mais com um projeto antigo de hegemonia cultural. O ensinamento bíblico é de que esse tipo de projeto está fadado ao fracasso, pois, por muito pouco, os homens podem começar a se desentender. Não nos sirvamos apenas de Babel, mas da história do século XX e suas guerras, para ver que os projetos megalômanos assentados na certeza absoluta de que determinada convicção é a verdade fundamental sobre a qual a humanidade deve se estabelecer socialmente são os que mais sofrimento e confusão trouxeram ao homem. A ruína não está na engenharia civil de Babel, mas na visão de mundo, nos tijolos culturais. Na engenharia social. Parece que os projetos totalitários guardam esse resquício de certeza bem intencionada, de uma linguagem única, que se implode.

Divagando um pouco, o equivalente a tentar resolver os paradoxos envolvidos nos teoremas de Gödel pela lógica ou na sociedade pela engenharia social da hegemonia cultural para a qual a humanidade parece avançar seria o equivalente ao melhor neurocirurgião do planeta fazer um procedimento em seu próprio cérebro, para curar uma deficiência. Isso, em vez de ser o ápice da conquista da ciência, parece que seria um desastre. Entretanto, parece que as ideias de hegemonia cultural são das mais sedutoras em determinadas perspectivas da religião, da ciência e da formação cultural. Nossos problemas não podem ser resolvidos internamente, podem ser somente descritos e impulsionados a novas escalas de conhecimento pela certeza do indefinido, do limite. Parece que, esbarrando em um limite, a descrição dele, a retificação da experiência, impulsiona a novos saberes e experiências, nos diferentes campos integrados: científico, artístico, afetivo, moral e espiritual.
Só é possível conviver em algum tipo de harmonia com a razão, assumindo os riscos de seu erro, quando há suposição da totalidade e de sua auto-suficiência. Nesse prisma, a Fé simples deve rir deliciosamente, imagino, pois sua ambição certamente não é megalômana como o projeto da Razão. Digo da fé como a aceitação imediata de um fato não comprovado, mesmo que a aceitação seja para que se comprove, por retificação, que o fato é infundado. Mesmo assim, se recorrerá a uma premissa melhor pela fé. Entretanto, há os perigos da fé absoluta como certeza inescapável. Daí, soa uma risada diabólica da ignorância, à qual é possível nos prendermos pela aceitação das premissas falsas e nos apegarmos a elas. Dela vivem os parasitas que vemos na TV.

A indefinição fundamental que envolve o homem em sua pequena existência é ao mesmo tempo libertação e prisão. Uma prisão pela presente desconfiança dos sentidos e da própria razão. Libertação da perfeição, pelo afastamento da presunção de se alcançar a verdade absoluta e última pelo raciocínio puro e exato. Uma prisão pelo trabalho contínuo que, mal direcionado, levará ao desgaste da busca pelo intangível. Libertação para um trabalho de transformação de prazo indefinido, em que o mal vai sendo combatido diariamente com um pouco de bem que é possível fazer, dentro da forças reais que se tem. Prisão pelo mal que devagar pode nos ir sugando para o projeto da certeza, da arrogância e da conquista triunfalista. Libertação pela possibilidade de reconduzir os caminhos perenemente, driblar o sofrimento de forma criativa, encontrar novas possibilidades de amar e ser.

O salto de Kierkegaard. Eis aí o convite da indefinição, em sua demolição do projeto de todas as torres de Babel.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.