13 de janeiro de 2011

Um lamento sobre a minha velha Nova Friburgo

Minha família está bem. Minha cidade, não.

Minha cidade, digo, como cidade do coração, que me agüentou, viveu comigo durante tanto tempo, rindo na minha infância, me apresentando à adolescência e me introduzindo na juventude.

Nova Friburgo, se os friburguenses me permitem, é minha também, embora não tenha ali nascido.

Um mundo de chuva atropelou a cidade nesta semana. Rápido, a água encheu todo o centro da cidade e trouxe para baixo massas de terra, casas, prédios e pessoas.

Daqui de longe, sem conseguir falar pelo telefone, sem notícias dos queridos, a preocupação é inevitável.

As imagens são simplesmente assustadoras. Um flagelo d’água que desce dos céus chicoteando pessoas comuns, sem o menor anúncio do juízo, é a própria natureza incontida, indomável, imparcial.

Um hospital inteiro teve que, às pressas, ser transferido para outro, estradas de acesso foram interditadas, ruas mais pareciam rios, catástrofe atrás de catástrofe. Famílias perderam tudo e ficaram reduzidas a poucas pessoas.

Tenho certa inclinação para a contemplação do mistério e não consigo deixar de perguntar: por quê?

Creio que só há duas respostas possíveis, além de “não sei”.

A segunda complementa a primeira, imagino. Começaria, então, dizendo que falta governo, legislação de moradia adequada, planos de emergência, obras para escoamentos alternativos, planejamento urbano nas áreas de maior risco e todo o discurso óbvio que sai direto dos telejornais. Nada disso falha no discurso, está correto.

Por outro lado, ousaria dizer que confiamos muito nas estruturas humanas. Por serem de concreto, cremos que as estruturas são absolutamente concretas. Não são, absolutamente.

Em tempos de catástrofe, a memória parece ser mais forte que a própria realidade, pois se nega a crer que a destruição é o caminho natural das coisas vividas. O apego à vida como a conhecemos, na lida dos problemas cotidianos, é sintomático, apresenta um instinto que não se inclina à perturbação; quer sobreviver não apenas de qualquer coisa, mas da vida com seus contornos humanos. No caso, da vida na Serra, com o teleférico funcionando na praça do Suspiro, com namorados na praça Getúlio Vargas e o comércio na Alberto Braune.

A geologia nos diria, com frieza petrificada, que o natural é que as coisas caiam. A cidade, contudo, nos diz que o natural deve ser a esperança de ver um bebê saindo de debaixo da terra, alertando que há esperança a ser perseguida e que, no fim das contas, embora enlameada, a cidade retomará sua vida. Sua vida de cidade, de organismo vivo interconectado por homens e mulheres. Os mesmos que, no começo da retomada do chão, da rua e das casas, humildemente se ajudam uns aos outros com águas, alimentos e solidariedade.

Do alto da montanha é possível ver as coisas. Daqui de baixo só é possível esperar.

Ah, minha Nova Friburgo, seria impossível não chorar por você!

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Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.