18 de janeiro de 2011

Jogos e trapaças

Todo mundo já brincou, pelo menos alguma vez na vida, daqueles joguinhos de memória, em que as cartas estão viradas e o jogador as vai desvirando, aos pares. Quando as duas figuras são iguais, ele avança, deixando ambas desviradas. O objetivo é desvirar todas as cartas o mais rápido possível e, para isso, é preciso ter uma memória de curta duração boa. Atualmente, é quase impossível não encontrar esse tipo de jogo de forma virtual, desde os mais simples, para crianças, até os mais sofisticados.

Uma outra prática possível para o mesmo estilo de jogo é a cata de pés de meias iguais num mesmo baú de roupas. E, cá entre nós, embora seja bem mais útil, nossa disposição para nos divertirmos com o jogo das meias é bem menor do que com jogos virtuais. O vencedor é aquele que consegue calçar as meias do mesmo par e, ainda assim, ir animado para o trabalho. Pode-se considerar, para fins da atividade intelectual, o mesmo que o jogo virtual, só que parte da realidade prática dos homens. Mais: embora ninguém vá te zombar por desistir do jogo de cartas, experimente sair de casa com uma meia rosa e outra preta. A não ser que você seja um adolescente revoltado ou esteja indo a uma festa ploc, é ridículo.

Não é possível enxergar muita diferença entre os 2 jogos, no que diz respeito ao objetivo entre as duas atividades. O objetivo é formar os pares corretos, com base na igualdade entre as formas e cores das figuras. No caso do jogo com cartas, ou virtual, as figuras estão nas cartas. No caso das meias, elas são as próprias figuras. As diferenças são óbvias. Enquanto as cartas ficam dispostas sobre uma mesa, ou na tela do computador, de forma organizada, alinhadas de forma apropriada, as meias estão no baú, todas bagunçadas e misturadas. Enquanto uma meia só serve se houver um pé para enfiar, as cartas e figuras nos estimulam mais os olhos. Mas, no fundo, no fundo, o jogo é o mesmo.

Um é um jogo para quem está querendo passar o tempo. O outro é um jogo que ocupa o tempo. Um é diversão, o outro, trabalho braçal.

De forma semelhante, a experiência humana é cheia de atividades que, embora não se pareçam muito à primeira vista e até possam ser vistas como contrárias, no fundo guardam uma relação misteriosa de similaridade.

As religiões, por uma leitura através do prisma da antropologia e da sociologia, podem ser consideradas como sistemas de símbolos com suas próprias linguagens. O cristianismo, por exemplo, incorpora os símbolos da eucaristia, do sacramento, do sacrifício salvífico de Cristo, dentro de espectros familiares à linguagem do judaísmo, que, por sua vez manteve seus próprios símbolos e ampliou a gama de relações entre eles, na leitura da torá, no seguimento de ritos tradicionais milenares, na afirmação do monoteísmo e do messianismo davídico. Para cada símbolo, um mistério como pano de fundo, experiências variadas e razões que caminham ao lado das experiências coletivas e individuais daquele que crê. Pelo menos essa é uma maneira de enxergar as coisas. Eu, como cristão, abracei um prisma de leitura, diria, um pouco mais abrangente: o do relacionamento com Cristo. Diria que os simbolismos ajudam muito, mas não são a substância da relação.

Mas, é interessante dar prosseguimento ao raciocínio e não abortá-lo com minha experiência pessoal logo de início.

Tenho acompanhado, no passado de forma tímida, mas mais atualmente como quem quer entrar na conversa, algumas das disputas intelectuais sobre a inexistência de Deus. Dizendo assim, acho que não faço jus às declarações.

Na verdade, o ateísmo militante do presente século atua em duas frentes. Uma é a destruição da verdade absoluta, dos absolutos em geral, como se fossem o mais terrível dos pecados. Deus nos livre de crer em um Deus absoluto! Outra frente, se não faz a assertiva de que tal coisa como a verdade não existe, vai além, com um armamento extremamente pretensioso, cujo projeto é trazer para dentro da perspectiva ateísta a própria verdade absoluta. Não há verdade fora do ateísmo.

Homens como Richard Dawkins e Christopher Hitchens têm tentado, num projeto audacioso, a pregação da destruição da religião. Têm devotado suas existências à nobre causa do extermínio da fé e, dentro de seu espectro cultural, da fé cristã, como causa maior do mal na sociedade ocidental. Mas, no caso de o cristianismo não servir, há sempre o fanatismo islâmico como bode expiatório da estupidez e do desequilíbrio irracional dos produtos da religião.

Entretanto, gostaria de unir minha voz, pequena, por certo, ao gigante coro do bom senso e argumentar sobre os fundamentos epistemológicos do debate, pois parece que a presença da ciência é invocada como se fosse ela a entidade que garantisse a inexistência de deidades.

Se o ateísmo tem um mérito, esse mérito é a valorização da ciência. Se o ateísmo tem um demérito, esse demérito é a formação de um establishment científico. Guardando os rancores de alguns impulsos iluministas, a ciência é eleita como a expressão única da Razão, como expressão da verdade. Como a própria verdade. As citações são muitas para expor todas, mas vamos ficar com uma do físico norte-americano, recebedor do prêmio Nobel, Steven Weinberg:

“Eles sentiram que a ciência seria corrosiva às crenças religiosas e se preocuparam com isso. Droga, acho que eles estavam certos! Ela corrói crenças religiosas e isso é uma coisa boa!”

Não é difícil encontrar esse tipo de frase em portais do saber. Entretanto, é interessante por dois aspectos: sua penetração e sua superficialidade em termos do que se possa ter como religião. Em relação à penetração, é fato aceito (deveria ser) que, assim como há um bando de gente indo às igrejas sem entender o que seja graça, há um bando de gente odiando as mesmas sem saber o que é graça e sem o vigor intelectual dos cientistas em que se escoram. Assim como qualquer movimento social que envolva as massas, o ateísmo tem mercado. Em franca expansão. Não me espantaria se encontrasse, daqui a poucos anos, a Igreja Ateísta Geral do Naturalista Britânico a disputar sua membresia com a Católica Apostólica Romana.

O segundo ponto, a superficialidade da argumentação, se mostra uma das mais patentes contradições de um movimento que pretende negar a fé alheia, com base no que se supõe ser um elemento neutro: a ciência.

A não ser que cientistas ateus sejam pessoas nascidas de forma diferente que todas as outras, vindas de marte ou da lua, até onde eu saiba o terreno de discussão da validade dos argumentos sobre a religião é humano. Humano como a religião e suas alegadas e reais podridões.

E a ciência, longe de sair incólume da disputa, pelo contrário, sai manchada, cada vez que é usada para fora de seus propósitos investigativos. Aliás que é a ciência? Pergunto e ouso que me digam uma resposta. Qualquer um. Não é fácil arranjar uma definição para ciência que não a empurre para o método científico ou para “princípios”, “saber”, “instrução”, “conhecimento humano baseado na razão e experimentação”, etc.

É difícil estabelecer o que isso de fato quer dizer, pois, se vista de forma ampla, a ciência, tanto a utilizada para estudar os babuínos quanto para se estudar as estrelas, tem a característica de ser a ampliação dos saberes do homem sobre os objetos. Ou seja, por mais objetiva que seja em seu foco, a ciência é necessariamente subjetiva, pois requer um sujeito que avalie e julgue resultados objetivos. E como qualquer outra porção de experiência, a ciência, ou melhor, os cientistas, tão humanos quanto o mais religioso dos homens, julga com alguma dose de subjetividade dados objetivos. Isso vale tanto para o cientista ateu, quanto para o cientista católico ou hindu.

É memorável quão óbvio é o argumento oferecido pelo parágrafo anterior e, entretanto, é mais memorável ainda o fato de que uma confusão dos diabos atormente pessoas que exibem graciosamente suas armas intelectuais. A idéia de que a ciência pode e deve suplantar o conhecimento produzido pela religião é um projeto antigo, mas impressionantemente atual. Há dúzias de respeitáveis cientistas que alegam que a ciência deve ser a via de interpretação da realidade e, em hipótese alguma, algo como a religião. Homens que, embora sejam excelentes com as equações, provavelmente são sofríveis com poemas. E, pior ainda, homens que nem bons com as equações são, mas, mesmo assim, invocam a autoridade alheia para lhes servir de justificativa no abraçar de uma fé no vazio.

Digo fé no vazio e não o que alguns homens gostam de dizer, que seria a falta de fé. Falta de fé é a única coisa que, de pronto, numa discussão sobre ciência pode ser descartada.

“Em ciência, assim como em tantas outras áreas da vida, a fé é a sua própria recompensa.” Com essa frase, o notável David Berlinski termina um de seus capítulos do delicioso The Devil’s Delusion: Atheism and its scientific pretensions. Ele está absolutamente correto. Nada mais requer a ciência além da recompensa de que, estando suas previsões corretas, as pessoas passem a acreditar nela. Não só a ciência, mas assim acontece com a justiça e a arte, por exemplo.

Tomando a justiça para a análise de uma palavra ampla como “ciência” é, seria interessante procurar suas justificativas de forma científica, especialmente sob as perspectivas darwinianas. Que tal deixar a seleção natural cuidar de nossas crianças, em vez de qualquer espécie de amparo sócio-afetivo? Até mesmo alguns grandes mamíferos, como nossos amáveis cães, comem seus filhotes. Ou que tipo de justificativa poderiam conceitos como “direito adquirido”, “Estado de Direito”, “pessoa jurídica” ter diante da placidez do universo? A quem exigiríamos um “habeas corpus”, caso, de uma hora para outra, fôssemos enjaulados por algum déspota maluco? Isso não representaria absolutamente nada diante da realidade crua do universo, desde as partículas elementares até as explosões de supernovas. E, no entanto,essas coisas representam muito do que vivemos.

César Lattes disse certa vez que a ciência é a irmã bastarda da arte. Deve ser verdade. Mas deve ser igualmente verdade que a arte nem sempre é a irmã mais equilibrada. Justamente por ser a expressão humana do que é humano, animal e espiritual. Divino e diabólico.

Acho que eu seria um péssimo crítico de arte. Aliás, imagino que muitos críticos de arte sejam de fato ruins como eu, e ainda por cima conseguem ganhar a vida assim. De qualquer forma, em minha ignorância admitida, devo confessar que me sinto completamente contente quando participo, nem que seja só com o olhar, de uma exposição agradável das expressões artísticas dos outros. E quando é desagradável e consigo perceber que o efeito pretendido era justamente esse, de desagradar, não me sinto tão ignorante e também consigo apreciar. Afinal, é humano, como eu. Não precisa de muitas justificativas. Um suposto refinamento, que tem por objetivo traçar o itinerário da interpretação escolada, como se fosse a única possível, como já ouvi de alguns artistas, limita o contato do observador, os diferentes espectros de olhares lançados a um mesmo objeto.

O mesmo comentário pode ser aplicado a panoramas cada vez mais específicos dentro das artes, como na música, na literatura, na poesia, etc.

Isso posto, fica difícil olhar a ciência como o martelo do mundo. Da mesma forma que eu não desejaria viver numa sociedade surrealista o tempo todo, mas posso imaginar que isso seja divertido, não acho que as ciências devam ocupar o centro de todos os debates a respeito da verdade.

O que me traz de volta à reflexão a respeito da própria verdade e de como a acessamos. Nada mais misterioso do que um homem dizer que não acredita em verdade absoluta. Isso é simplesmente impossível, ou só é possível se, no minuto seguinte, ele disser que mudou de idéia. A própria idéia de enunciar um absoluto requer sua existência. Se o absoluto não existe, como é que se pode afirmar algo tão absoluto como a inexistência de verdades absolutas? A lógica, aí, dá pau. O que se pode dizer é que alguém não acredita em algumas, ou muitas, proposições que se vestem com a roupagem de verdades absolutas. Mas ainda fica difícil de saber como é que essa afirmativa ajuda a não ter fé. Pois, de qualquer forma,alguma fé sempre existirá: ou positiva ou negativa.

O outro mistério e esse é engendrado por aqueles que chegaram à conclusão acima e a desenvolveram até mais longe, afirmando que negam o Absoluto, mas aceitam um outro tipo de absoluto, que é o de que tudo o que não seja visível, palpável e físico não deve ser acreditado. Queria ver alguém falar isso do amor ou da angústia, com a mesma eloquência.

Retornando ao jogo de cartas, o que um ateu que toma emprestado os símbolos da ciência faz, no íntimo, é uma transposição religiosa. E isso pode ter se desenvolvido a partir de uma conversão ao ateísmo, ou da simples permanência na vontade de em nada crer. Em vez do crucifixo, a régua, em vez dos santos, a intercessão é dos homens e mulheres piedosos da busca pela verdade científica acima de todas as outras, em vez da eucaristia, a maravilha da competição argumentativa. E há dogmas de diferentes qualidades. Uns mais fortes que outros. Diria, por exemplo, do darwinismo, lato sensu. Darwinismo biológico, darwinismo social, psicologia behaviorista evolucionista, etc. O dogma é mais forte que a morte. E defendê-lo, embora visivelmente seja senso comum, é o martírio maior.

As cartas são viradas numa dimensão que pode ser especialmente criada com o fim de defender uma realidade que apóie a causa ateísta: multiverso, teoria M, e toda a matemática especulativa sem a mínima comprovação. Viagens no tempo que só requerem o devaneio e levam ao êxtase de Teresa de Ávila. Tudo coisa da cabeça, um punhado de equações, computadores e nenhuma realidade observável.

Por outro lado, ainda no jogo de colocar as figuras juntas, quando lidamos com as meias, vemos que a situação real é bem mais difícil. Pés de meias somem, se foram mal lavadas, as meias desbotam, rasgam, fedem. Requerem o cuidado necessário para sobreviver à realidade e, somente com o cuidado real, podem ser manejadas com o tempo. Quero dizer com isso que, embora a religião tenha suas doses de escape e possa ser considerada um jogo de memória, ela é muito mais que isso, pois, assim como as meias, precisam ser limpas para serem usadas. Muito mal comparando, é claro. As religiões sinceras, sobretudo o cristianismo, requerem pureza e, mesmo assim, lidam com o sofrimento quotidiano, dando significado à vida, na própria vida, sem invenção de universos adequados para funcionar as tentativas de abstrações matemáticas. Se há um céu, é porque ele é uma nova terra, uma nova cidade.

Por fim, para ver como a ciência nos ajuda, a partir de sua própria história no ocidente (e não só nele) eu traria as palavras de Werner Heisenberg para dentro da conversa: “O primeiro gole do copo das ciências naturais faz o ateu; mas ao fundo do copo o espera Deus.”

13 de janeiro de 2011

Um lamento sobre a minha velha Nova Friburgo

Minha família está bem. Minha cidade, não.

Minha cidade, digo, como cidade do coração, que me agüentou, viveu comigo durante tanto tempo, rindo na minha infância, me apresentando à adolescência e me introduzindo na juventude.

Nova Friburgo, se os friburguenses me permitem, é minha também, embora não tenha ali nascido.

Um mundo de chuva atropelou a cidade nesta semana. Rápido, a água encheu todo o centro da cidade e trouxe para baixo massas de terra, casas, prédios e pessoas.

Daqui de longe, sem conseguir falar pelo telefone, sem notícias dos queridos, a preocupação é inevitável.

As imagens são simplesmente assustadoras. Um flagelo d’água que desce dos céus chicoteando pessoas comuns, sem o menor anúncio do juízo, é a própria natureza incontida, indomável, imparcial.

Um hospital inteiro teve que, às pressas, ser transferido para outro, estradas de acesso foram interditadas, ruas mais pareciam rios, catástrofe atrás de catástrofe. Famílias perderam tudo e ficaram reduzidas a poucas pessoas.

Tenho certa inclinação para a contemplação do mistério e não consigo deixar de perguntar: por quê?

Creio que só há duas respostas possíveis, além de “não sei”.

A segunda complementa a primeira, imagino. Começaria, então, dizendo que falta governo, legislação de moradia adequada, planos de emergência, obras para escoamentos alternativos, planejamento urbano nas áreas de maior risco e todo o discurso óbvio que sai direto dos telejornais. Nada disso falha no discurso, está correto.

Por outro lado, ousaria dizer que confiamos muito nas estruturas humanas. Por serem de concreto, cremos que as estruturas são absolutamente concretas. Não são, absolutamente.

Em tempos de catástrofe, a memória parece ser mais forte que a própria realidade, pois se nega a crer que a destruição é o caminho natural das coisas vividas. O apego à vida como a conhecemos, na lida dos problemas cotidianos, é sintomático, apresenta um instinto que não se inclina à perturbação; quer sobreviver não apenas de qualquer coisa, mas da vida com seus contornos humanos. No caso, da vida na Serra, com o teleférico funcionando na praça do Suspiro, com namorados na praça Getúlio Vargas e o comércio na Alberto Braune.

A geologia nos diria, com frieza petrificada, que o natural é que as coisas caiam. A cidade, contudo, nos diz que o natural deve ser a esperança de ver um bebê saindo de debaixo da terra, alertando que há esperança a ser perseguida e que, no fim das contas, embora enlameada, a cidade retomará sua vida. Sua vida de cidade, de organismo vivo interconectado por homens e mulheres. Os mesmos que, no começo da retomada do chão, da rua e das casas, humildemente se ajudam uns aos outros com águas, alimentos e solidariedade.

Do alto da montanha é possível ver as coisas. Daqui de baixo só é possível esperar.

Ah, minha Nova Friburgo, seria impossível não chorar por você!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.