18 de dezembro de 2010

O Evangelho dos Autômatos V - A convergência

De fato, se há uma palavra que vale a pena percutir na relação entre os cristãos é a seguinte: casa.

Certamente não é pelo fato de morarem todos juntos, pois não moramos; ou mesmo por todos terem um mesmo histórico familiar, pois não temos; mas, pelo amor, nos tornamos irmãos. Dificilmente encontraremos uma palavra melhor para um tratamento adequado entre os cristãos. “Colega” é uma palavra profissional, “amigo”, às vezes, muito afetiva e talvez apenas os presidiários convertidos possam se chamar “comparsas” entre si sem que isso soe completamente estranho.

Casa é a palavra adequada, pois nela encontramos irmãos. Nela temos irmãos. Nela, amoroso ou dolorido como for, somos irmãos. E que casa seria essa?

Penso na casa cheia de gente que levamos conosco por todo lado e, se afrontados, não deixamos de falar que por mais que nossos parentes sejam gente problemática, são nossos parentes e, se cabe a alguém falar mal deles, primeiro seremos nós que falaremos. Ao intruso fofoqueiro não cabe nem uma migalha de oportunidade para maldizer os nossos. Ao menos assim seria uma irmandade que se protege mutuamente.

Creio na igreja como a casa que carregamos no peito e nas costas, cada um dos irmãos.

Nosso pai é um só e é o nosso pai. O Pai nosso, de todos os cristãos dessa terra.

É desta forma que eu gostaria de iniciar o comentário acerca do último ponto do calvinismo, “a perseverança dos santos”, encerrando, ao menos por ora, minhas considerações sobre o assunto. Talvez não seja muito um encerramento, mas um interlúdio muito grande, sem expectativa da volta dos atores ao palco.

Deus é o nosso pai celeste. “Nosso” como em “tão meu quanto seu”. E o que se fala dEle é também coisa nossa, a ser debatida entre nós, com respeito e reverência, como os tipos de presentes e nominações que queremos dar àquele que tudo merece. Assim entendo debates acalorados que querem chegar às conclusões que arranhem ao menos em parte as revelações sobre o amor de Deus.

Na irmandade da igreja, eu não concordo com muitos de meus irmãos sobre uma infinidade de assuntos. Mas nem por isso deixam de ser meus irmãos e, mais ainda, nem por isso devem ser diminuídos como irmãos. Mesmo nas brincadeiras em casa um chama o outro de feio e burro, mas dificilmente isso seria coisa para se aprovar.

Mas falava eu do calvinismo, de seu último ponto, em que eu, mui honestamente, não vejo saída. Não há porque deixar de concordar com meus irmãos calvinistas no que diz respeito à qualidade temporal da salvação.

Eu, como bom batista (ok, pode ser que eu não seja “bom”, mas fiquemos com batista), creio na salvação eterna. Isso ninguém tira da minha cabeça que seja um fato, mais do que uma especulação. Na verdade, nem é tanto da cabeça. Para mim, embora algum empoeirado teólogo vá questionar, não é tanto uma questão de teologia quanto de experiência.

Chamem-me de místico, mas não há mistério mais impressionante do que a pessoa saber que não vai morrer, ainda que morra. É uma daquelas situações em que faltam palavras para descrever com a clareza necessária o que de fato representa um novo nascimento ou uma vida eterna. Nada do que temos em mãos consegue satisfazer plenamente o que é a realidade inédita do cristão. Dizer que passou da vida para morte é uma descrição rouca, pois nem mesmo os nervos, as artérias e os sentidos dão conta da nova realidade chocante que é a vida de Deus nos enchendo os pulmões.

Assim, da forma como vejo as coisas, uno-me aos meus irmãos calvinistas para gritar que existe uma vida nova, um novo vinho, uma água viva que espanta a sede de forma completa.

Embora discordemos do acesso a essa vida, numa coisa concordamos: é coisa da qual não se caminha para longe.

Digo isso convicto de que existem verdadeiros mistérios nas Escrituras que podem me contradizer, caso vistos de outro ângulo. Mas esses mistérios me inquietam menos, não me convencem tanto quanto a força e a ternura do amor divino, prisma pelo qual leio o sagrado.

Pode-se pensar que há contradição entre o que afirmei em textos anteriores, mas não diria que este seria o caso. Há um velho princípio que pode muito bem se aplicar à realidade da salvação: quem nunca a teve nunca a poderia perder. Esboço, como complemento, que aquele que ainda vê e não quer a salvação, este dificilmente vai “perder” alguma coisa, pois a salvação lhe é estranha. Seu querer, que julgo ser exclusivamente seu, ou melhor, a dose mínima de discernimento que faz do homem mais que uma doninha ou um macaco em um momento consciente está direcionado para fora de Deus. É a pessoa que, míope, não quer óculos, pois pensa enxergar melhor sem eles; faminta, quer primeiro trabalhar para ganhar o pão, ante à oferta genuína de caridade.

Há um outro lado da história, que toca o cristão “morno”, sem dúvida. Um fogo consumidor, um noivo ciumento e um único Senhor absoluto estão todos, triunicamente, dispostos a zelar pela Vida dada, seja ela vivida com ou sem responsabilidade. Por mais que quiséssemos, a vida, agora insuflada com um novo sopro, não é nossa, por mais que nossas escolhas sejam.

Justamente pelo fato de a vida não ser nossa, nossas escolhas são mais nossas, pois podem assumir a leveza maravilhosa dos sonhos pelos encontros afetivos que virão ou, em diâmetro oposto, a gravidade das penosas teimosias infantis dos desejos por besteiras passageiras.

Assim, estamos em ponto de convergência, eu e meus irmãos calvinistas, seja lá no que mais crerem, quando dizemos com o coração que a salvação é eterna e que nada poderá nos separar do amor de Deus, nem outra criatura, nem poderes, nem altura, largura ou profundidade, nas palavras apostólicas.

Poderíamos aqui alugar o leitor com palavras pesadas e enfadonhas sobre sistemas, arranjos e lógicas da teologia, mas acho que não é preciso mais do que o alarmante bom senso: se qualquer coisa dependesse de um grande pecador como eu para a manutenção da salvação em vez de depender dos atributos de Cristo, eu nunca seria salvo.

Mas, como eu disse antes, não há razão que vença a experiência, pois é esta última que dá subsídios para que se formule a primeira. A vida que pulsa no cristão é nova, mais poética e real; não por ele mesmo, mas pelo Deus que nele habita.

2 comentários:

pr Jonny disse...

excelentes postagens! Poderia até chamá-lo de arminiano moderado ou de calvinista de um só ponto;Mas isto não importa, afinal, rótulos são muros construídos para segregar e pré-conceituar.

André von Held Soares disse...

Olá, Pr. Jonny!
Muito obrigado pela presença e pelo comentário!
Fique à vontade e volte sempre.

Realmente, rótulos limitam muito nossa maneira de enxergar as coisas.

Um abração!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.