21 de dezembro de 2010

Heróis

Ultimamente, uma das coisas que mais me aproximou da internet, de ficar grudado acompanhando, foi o largo vazamento de documentos secretos do wikiLeaks.

Outra notícia, que vale a pena registrar, é a manifestação do Dom Manuel Edmilson da Cruz, que recusou honraria do Senado Federal, por causa do alto auto-aumento de 61%.

Vamos falar do primeiro caso, internacional, pra depois falar da fofoca tupiniquim.

Estou pronto a dizer que a questão toda merece um filme e, quando for feito, estarei nas fileiras do cinema.

Se fosse eu a escrever a sinopse do filme, começaria escrevendo o seguinte:

“Um único homem consegue deixar a maior potência do mundo irritada, como se fosse uma criança mimada, acostumada a fazer artes na casa dos outros (mas só quando ninguém está vendo) e contar umas mentirinhas brancas da diplomacia: desde a transferência clandestina dos presos de Guantanamo para o Brasil até chamar o presidente russo de Robin. Antes as coisas virassem só conversa fiada... os EUA do pós-guerra fria e da interminável guerra ao terror empreendem uma caçada magnífica ao homem que se entregou por conta de seus valores. Esse homem é o agente Assange, Julian Assange.”

Ou alguma coisa do gênero.

Toda a história dos vazamentos do wikiLeaks me faz questionar pelo menos duas coisas:

1. o grau compromisso da grande mídia, que ora fica quieta e ora esperneia por liberdade de imprensa, mas que em muito pouco compra brigas como a que um ilustre desconhecido comprou;

2. a falta de méritos da Suécia em dar o Prêmio Nobel da Paz e isso ser um privilégio da Noruega;

O primeiro ponto é óbvio demais para exigir detalhamentos. Aí estão a Globo, a Veja, o Estadão, o Washington Post, The Economist, Le Monde, El País, Der Spiegel e toda a miríade de grandes jornais e revistas que enfrentam o mundo com suas verdades tão patentes que têm a coragem de, vejam só, publicá-las. Isso me remete a uma pergunta velha, vinda da boca de um político antigo: “Que é a verdade?” Deve ser o que publicam no Estadão...

O segundo ponto merece algumas considerações.

Assange, o homem da hora, caçado pela Interpol, deveria ser entregue à Suécia, extraditado por conta de crimes sexuais “muito graves”, de acordo com o juiz que estava com o seu caso. O homem se entrega voluntariamente e fica preso uns dias para depois ser solto. Interessante é que os crimes sexuais vieram bem a calhar, não sendo estupro, não senhor.

Leio aqui na Veja, portal da verdade:

“Em agosto, duas suecas foram juntas à polícia denunciá-lo (Assange) por crimes sexuais. Anna Ardin, uma militante feminista de 31 anos, hospedou Assange em seu flat de Estocolmo durante uma semana. Em uma das transas, ele não obedeceu quando ela pediu que parasse depois de o preservativo se rasgar. Dias antes, Assange e a fotógrafa Sofia Wilen, de 27 anos, haviam mantido relações sexuais. Sofia disse que eles começaram a fazer sexo no apartamento dela, mas, quando Assange se recusou a colocar um preservativo e ela tentou parar, foi coagida por ele a continuar. O hacker australiano defendeu-se dizendo que as parceiras estão mentindo.”(Veja, edição 2195, ano 43, nº 50, de 15 de dezembro de 2010)

Não vou entrar no mérito da sexualidade alheia, mas me parece que a questão realmente é outra, no que diz respeito ao julgamento da volúpia do homem.

Querem castrar Assange por outros motivos, motivos de liberdade, de poder, de não ser dado a um único homem o poder de fazer uma potência se abaixar para recolher seu lixo.

Mas, intrigante é o seguinte: a Noruega concedeu, neste mesmo ano de 2010, o Prêmio Nobel da Paz a um chinês, Liu Xiaobo, que está preso, imaginem vocês, por pedir mais liberdade em seu país. Um homem que, por fazer uma carreira de não-violência, acabou em cana em um país altamente opressor às liberdades individuais, valor aparentemente cultivado em todos os cantos do mundo. Diz a Folha de São Paulo on line:


O presidente do comitê do Nobel, o norueguês Thorbjoern Jagland disse que "a China tem se tornado uma grande potência em termos econômicos e políticos, e é normal que grandes potências estejam sob críticas". Jagland disse que Liu é um símbolo da luta pelos direitos humanos na China.

O premiê norueguês, Jens Stoltenberg, afirmou não ver motivo para a China punir a Noruega como país pelo prêmio. "Eu acho que seria negativo para a reputação da China no mundo se eles decidissem fazer isso." (Folha.com, 08.10.2010)


Ano passado, se não me falha a curta memória, quem ganhou o Prêmio foi o presidente norte-americano Barack Obama “por seus esforços para reduzir os estoques de armas nucleares e por seu trabalho pela paz mundial”. Deve ser isso mesmo que o irmão Obama anda fazendo.

Mas o wikiLeaks, por outro lado, divulgou que existe um número considerável de bombas nucleares de propriedade dos EUA na Europa. Coisa boba também, são mísseis de curto alcance, de 500, 600 km no máximo, espalhados na Bélgica, Holanda, Alemanha e Turquia.

O problema é que, mesmo que haja qualquer tipo de acordo capitaneado pelos EUA de retirar esses mísseis (START, Restarte, etc.) fica a pergunta: quem é que vai tirar os primeiros na Europa central sem retirar da velha Turquia?

Mas isso tudo é detalhe.


A questão absoluta que se coloca é: como é que pode, prender assim uma pessoa por divulgar informações verdadeiras e que não ferem a honra das pessoas (não xingou ninguém, nem usou palavras indecorosas), informações de interesse publicíssimo?

E mais, como é que a Suécia, que é aparentada à Noruega e dá outros prêmios incríveis pelas realizações humanas, pede que Assange seja extraditado para lá?

Achei irônico e muito legal que a Rússia tenha feito uma moção para darem o Prêmio Nobel da Paz a Assange.

Bem, pisando o nosso chão, Dom Manuel Edmilson da Cruz falou bonito como nunca vi.

Em seu sermão, recusou receber uma comenda do Senado, por achar que aquela casa não era digna da comenda que outorgava. Dignidade, se tem preço, certamente não pode comprada nem com um aumento de 61% de salário de picaretas.

Disse o querido bispo:

“A comenda hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Câmara. Não representa. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la. Ela é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, à cidadã contribuinte para o bem de todos, com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”, afirmou o bispo.

Ele destacou que o aumento dado aos parlamentares deveria ter como base o reajuste que será concedido ao salário mínimo, de cerca de 6%. “O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isso não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os direitos humanos do nosso povo”.(G1, 21.12.2010)

Seria bom se todo mundo reconhecesse um herói quando visse um. Só neste texto, tem uns 3: Assange, Dom Manuel, e Xiaobo.

Há uma mesma característica em todos três: eles não usam armas.

Sorry, Mr. President...

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Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.