24 de dezembro de 2010

José

E agora, com o menino?

Tem mesmo mistérios de Javé sobre a terra. Nunca pensei que fosse ver um anjo... A princípio, parecia mesmo algo terrível. Mas até agora a dúvida me cerca: será mesmo o menino... Pelo que o anjo disse no sonho, sim. E é um pouco estranho, pois parece que, em vez de meu filho, está para nascer meu pai!

Tem sido tudo tão confuso... Primeiro, Maria ficou grávida. Que foi aquilo?! Ainda bem que não segui meu primeiro impulso. Quase chego a desmanchar a coisa toda. Lembrei de como Davi roubou a mulher de Urias. E eu, burro, pensando que a Galiléia estaria livre desse tipo de pecado! Seria Maria como Bate-Seba?

Talvez nem devesse pensar nessas coisas, pois esses eventos certamente não são coisa normal, que a gente vê todo dia. Quando pensaria nisso na carpintaria, entre ripas e tábuas?

Depois, me veio o sonho, como nunca antes algo tão leve e forte me tivesse pegado: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela se gerou é do Espírito Santo.”

Acreditaria no sonho e voltaria atrás com o plano?

Confesso que me feriu o orgulho dos homens. Recebi minha mulher, mas não a conheci até agora. Deus, como tem sido difícil. Eu cri.

Mesmo assim, os olhares ficaram cada vez mais rudes na minha direção. Deveria era ter dado um soco naquele tio de Maria, pelo comentário.

Se fui tolo, não sei. Agora, de novo, aqui, sem achar lugar. Acho que vamos ter que dormir com os animais.

Meu Deus, que hora pra eu ter de vir a Belém! Contam a gente pra pagar mais impostos. Maria com esse barrigão, acho que vai nascer... Vai nascer... Ai, meu Deus, é agora! Agora... E agora?

– Força, Maria! Isso, força! Nasceu, nasceu! É o menino! Seu nome é Jesus, meu filho! O primogênito. Vou arrumar aqui a manjedoura. Ôôô! Ôôô! O resto dos animais já se deitou. Pode colocar aqui, Maria... isso, assim.

Nossa, que noite maravilhosa!

Vem chegando gente. Mas quem seria a essa hora aqui? Uns pastores, andam agitados. O anjo também lhes falou. Mais gente. Parecem importantes, gente destacada. O anjo, a estrela, os reis. Esse menino é mais que eu poderia ter.

Há algo maravilhoso aqui, pois a virgem deu à luz um filho, os magos vieram guiados pela estrela e os anjos anunciam aos homens a paz. Não há o que temer.

É mesmo a glória do mundo todo, aqui, entre nós. Chegou o filho de Davi. Meu filho. O filho de Deus.

Natal de 2010

21 de dezembro de 2010

Heróis

Ultimamente, uma das coisas que mais me aproximou da internet, de ficar grudado acompanhando, foi o largo vazamento de documentos secretos do wikiLeaks.

Outra notícia, que vale a pena registrar, é a manifestação do Dom Manuel Edmilson da Cruz, que recusou honraria do Senado Federal, por causa do alto auto-aumento de 61%.

Vamos falar do primeiro caso, internacional, pra depois falar da fofoca tupiniquim.

Estou pronto a dizer que a questão toda merece um filme e, quando for feito, estarei nas fileiras do cinema.

Se fosse eu a escrever a sinopse do filme, começaria escrevendo o seguinte:

“Um único homem consegue deixar a maior potência do mundo irritada, como se fosse uma criança mimada, acostumada a fazer artes na casa dos outros (mas só quando ninguém está vendo) e contar umas mentirinhas brancas da diplomacia: desde a transferência clandestina dos presos de Guantanamo para o Brasil até chamar o presidente russo de Robin. Antes as coisas virassem só conversa fiada... os EUA do pós-guerra fria e da interminável guerra ao terror empreendem uma caçada magnífica ao homem que se entregou por conta de seus valores. Esse homem é o agente Assange, Julian Assange.”

Ou alguma coisa do gênero.

Toda a história dos vazamentos do wikiLeaks me faz questionar pelo menos duas coisas:

1. o grau compromisso da grande mídia, que ora fica quieta e ora esperneia por liberdade de imprensa, mas que em muito pouco compra brigas como a que um ilustre desconhecido comprou;

2. a falta de méritos da Suécia em dar o Prêmio Nobel da Paz e isso ser um privilégio da Noruega;

O primeiro ponto é óbvio demais para exigir detalhamentos. Aí estão a Globo, a Veja, o Estadão, o Washington Post, The Economist, Le Monde, El País, Der Spiegel e toda a miríade de grandes jornais e revistas que enfrentam o mundo com suas verdades tão patentes que têm a coragem de, vejam só, publicá-las. Isso me remete a uma pergunta velha, vinda da boca de um político antigo: “Que é a verdade?” Deve ser o que publicam no Estadão...

O segundo ponto merece algumas considerações.

Assange, o homem da hora, caçado pela Interpol, deveria ser entregue à Suécia, extraditado por conta de crimes sexuais “muito graves”, de acordo com o juiz que estava com o seu caso. O homem se entrega voluntariamente e fica preso uns dias para depois ser solto. Interessante é que os crimes sexuais vieram bem a calhar, não sendo estupro, não senhor.

Leio aqui na Veja, portal da verdade:

“Em agosto, duas suecas foram juntas à polícia denunciá-lo (Assange) por crimes sexuais. Anna Ardin, uma militante feminista de 31 anos, hospedou Assange em seu flat de Estocolmo durante uma semana. Em uma das transas, ele não obedeceu quando ela pediu que parasse depois de o preservativo se rasgar. Dias antes, Assange e a fotógrafa Sofia Wilen, de 27 anos, haviam mantido relações sexuais. Sofia disse que eles começaram a fazer sexo no apartamento dela, mas, quando Assange se recusou a colocar um preservativo e ela tentou parar, foi coagida por ele a continuar. O hacker australiano defendeu-se dizendo que as parceiras estão mentindo.”(Veja, edição 2195, ano 43, nº 50, de 15 de dezembro de 2010)

Não vou entrar no mérito da sexualidade alheia, mas me parece que a questão realmente é outra, no que diz respeito ao julgamento da volúpia do homem.

Querem castrar Assange por outros motivos, motivos de liberdade, de poder, de não ser dado a um único homem o poder de fazer uma potência se abaixar para recolher seu lixo.

Mas, intrigante é o seguinte: a Noruega concedeu, neste mesmo ano de 2010, o Prêmio Nobel da Paz a um chinês, Liu Xiaobo, que está preso, imaginem vocês, por pedir mais liberdade em seu país. Um homem que, por fazer uma carreira de não-violência, acabou em cana em um país altamente opressor às liberdades individuais, valor aparentemente cultivado em todos os cantos do mundo. Diz a Folha de São Paulo on line:


O presidente do comitê do Nobel, o norueguês Thorbjoern Jagland disse que "a China tem se tornado uma grande potência em termos econômicos e políticos, e é normal que grandes potências estejam sob críticas". Jagland disse que Liu é um símbolo da luta pelos direitos humanos na China.

O premiê norueguês, Jens Stoltenberg, afirmou não ver motivo para a China punir a Noruega como país pelo prêmio. "Eu acho que seria negativo para a reputação da China no mundo se eles decidissem fazer isso." (Folha.com, 08.10.2010)


Ano passado, se não me falha a curta memória, quem ganhou o Prêmio foi o presidente norte-americano Barack Obama “por seus esforços para reduzir os estoques de armas nucleares e por seu trabalho pela paz mundial”. Deve ser isso mesmo que o irmão Obama anda fazendo.

Mas o wikiLeaks, por outro lado, divulgou que existe um número considerável de bombas nucleares de propriedade dos EUA na Europa. Coisa boba também, são mísseis de curto alcance, de 500, 600 km no máximo, espalhados na Bélgica, Holanda, Alemanha e Turquia.

O problema é que, mesmo que haja qualquer tipo de acordo capitaneado pelos EUA de retirar esses mísseis (START, Restarte, etc.) fica a pergunta: quem é que vai tirar os primeiros na Europa central sem retirar da velha Turquia?

Mas isso tudo é detalhe.


A questão absoluta que se coloca é: como é que pode, prender assim uma pessoa por divulgar informações verdadeiras e que não ferem a honra das pessoas (não xingou ninguém, nem usou palavras indecorosas), informações de interesse publicíssimo?

E mais, como é que a Suécia, que é aparentada à Noruega e dá outros prêmios incríveis pelas realizações humanas, pede que Assange seja extraditado para lá?

Achei irônico e muito legal que a Rússia tenha feito uma moção para darem o Prêmio Nobel da Paz a Assange.

Bem, pisando o nosso chão, Dom Manuel Edmilson da Cruz falou bonito como nunca vi.

Em seu sermão, recusou receber uma comenda do Senado, por achar que aquela casa não era digna da comenda que outorgava. Dignidade, se tem preço, certamente não pode comprada nem com um aumento de 61% de salário de picaretas.

Disse o querido bispo:

“A comenda hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Câmara. Não representa. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la. Ela é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, à cidadã contribuinte para o bem de todos, com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”, afirmou o bispo.

Ele destacou que o aumento dado aos parlamentares deveria ter como base o reajuste que será concedido ao salário mínimo, de cerca de 6%. “O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isso não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os direitos humanos do nosso povo”.(G1, 21.12.2010)

Seria bom se todo mundo reconhecesse um herói quando visse um. Só neste texto, tem uns 3: Assange, Dom Manuel, e Xiaobo.

Há uma mesma característica em todos três: eles não usam armas.

Sorry, Mr. President...

18 de dezembro de 2010

O Evangelho dos Autômatos V - A convergência

De fato, se há uma palavra que vale a pena percutir na relação entre os cristãos é a seguinte: casa.

Certamente não é pelo fato de morarem todos juntos, pois não moramos; ou mesmo por todos terem um mesmo histórico familiar, pois não temos; mas, pelo amor, nos tornamos irmãos. Dificilmente encontraremos uma palavra melhor para um tratamento adequado entre os cristãos. “Colega” é uma palavra profissional, “amigo”, às vezes, muito afetiva e talvez apenas os presidiários convertidos possam se chamar “comparsas” entre si sem que isso soe completamente estranho.

Casa é a palavra adequada, pois nela encontramos irmãos. Nela temos irmãos. Nela, amoroso ou dolorido como for, somos irmãos. E que casa seria essa?

Penso na casa cheia de gente que levamos conosco por todo lado e, se afrontados, não deixamos de falar que por mais que nossos parentes sejam gente problemática, são nossos parentes e, se cabe a alguém falar mal deles, primeiro seremos nós que falaremos. Ao intruso fofoqueiro não cabe nem uma migalha de oportunidade para maldizer os nossos. Ao menos assim seria uma irmandade que se protege mutuamente.

Creio na igreja como a casa que carregamos no peito e nas costas, cada um dos irmãos.

Nosso pai é um só e é o nosso pai. O Pai nosso, de todos os cristãos dessa terra.

É desta forma que eu gostaria de iniciar o comentário acerca do último ponto do calvinismo, “a perseverança dos santos”, encerrando, ao menos por ora, minhas considerações sobre o assunto. Talvez não seja muito um encerramento, mas um interlúdio muito grande, sem expectativa da volta dos atores ao palco.

Deus é o nosso pai celeste. “Nosso” como em “tão meu quanto seu”. E o que se fala dEle é também coisa nossa, a ser debatida entre nós, com respeito e reverência, como os tipos de presentes e nominações que queremos dar àquele que tudo merece. Assim entendo debates acalorados que querem chegar às conclusões que arranhem ao menos em parte as revelações sobre o amor de Deus.

Na irmandade da igreja, eu não concordo com muitos de meus irmãos sobre uma infinidade de assuntos. Mas nem por isso deixam de ser meus irmãos e, mais ainda, nem por isso devem ser diminuídos como irmãos. Mesmo nas brincadeiras em casa um chama o outro de feio e burro, mas dificilmente isso seria coisa para se aprovar.

Mas falava eu do calvinismo, de seu último ponto, em que eu, mui honestamente, não vejo saída. Não há porque deixar de concordar com meus irmãos calvinistas no que diz respeito à qualidade temporal da salvação.

Eu, como bom batista (ok, pode ser que eu não seja “bom”, mas fiquemos com batista), creio na salvação eterna. Isso ninguém tira da minha cabeça que seja um fato, mais do que uma especulação. Na verdade, nem é tanto da cabeça. Para mim, embora algum empoeirado teólogo vá questionar, não é tanto uma questão de teologia quanto de experiência.

Chamem-me de místico, mas não há mistério mais impressionante do que a pessoa saber que não vai morrer, ainda que morra. É uma daquelas situações em que faltam palavras para descrever com a clareza necessária o que de fato representa um novo nascimento ou uma vida eterna. Nada do que temos em mãos consegue satisfazer plenamente o que é a realidade inédita do cristão. Dizer que passou da vida para morte é uma descrição rouca, pois nem mesmo os nervos, as artérias e os sentidos dão conta da nova realidade chocante que é a vida de Deus nos enchendo os pulmões.

Assim, da forma como vejo as coisas, uno-me aos meus irmãos calvinistas para gritar que existe uma vida nova, um novo vinho, uma água viva que espanta a sede de forma completa.

Embora discordemos do acesso a essa vida, numa coisa concordamos: é coisa da qual não se caminha para longe.

Digo isso convicto de que existem verdadeiros mistérios nas Escrituras que podem me contradizer, caso vistos de outro ângulo. Mas esses mistérios me inquietam menos, não me convencem tanto quanto a força e a ternura do amor divino, prisma pelo qual leio o sagrado.

Pode-se pensar que há contradição entre o que afirmei em textos anteriores, mas não diria que este seria o caso. Há um velho princípio que pode muito bem se aplicar à realidade da salvação: quem nunca a teve nunca a poderia perder. Esboço, como complemento, que aquele que ainda vê e não quer a salvação, este dificilmente vai “perder” alguma coisa, pois a salvação lhe é estranha. Seu querer, que julgo ser exclusivamente seu, ou melhor, a dose mínima de discernimento que faz do homem mais que uma doninha ou um macaco em um momento consciente está direcionado para fora de Deus. É a pessoa que, míope, não quer óculos, pois pensa enxergar melhor sem eles; faminta, quer primeiro trabalhar para ganhar o pão, ante à oferta genuína de caridade.

Há um outro lado da história, que toca o cristão “morno”, sem dúvida. Um fogo consumidor, um noivo ciumento e um único Senhor absoluto estão todos, triunicamente, dispostos a zelar pela Vida dada, seja ela vivida com ou sem responsabilidade. Por mais que quiséssemos, a vida, agora insuflada com um novo sopro, não é nossa, por mais que nossas escolhas sejam.

Justamente pelo fato de a vida não ser nossa, nossas escolhas são mais nossas, pois podem assumir a leveza maravilhosa dos sonhos pelos encontros afetivos que virão ou, em diâmetro oposto, a gravidade das penosas teimosias infantis dos desejos por besteiras passageiras.

Assim, estamos em ponto de convergência, eu e meus irmãos calvinistas, seja lá no que mais crerem, quando dizemos com o coração que a salvação é eterna e que nada poderá nos separar do amor de Deus, nem outra criatura, nem poderes, nem altura, largura ou profundidade, nas palavras apostólicas.

Poderíamos aqui alugar o leitor com palavras pesadas e enfadonhas sobre sistemas, arranjos e lógicas da teologia, mas acho que não é preciso mais do que o alarmante bom senso: se qualquer coisa dependesse de um grande pecador como eu para a manutenção da salvação em vez de depender dos atributos de Cristo, eu nunca seria salvo.

Mas, como eu disse antes, não há razão que vença a experiência, pois é esta última que dá subsídios para que se formule a primeira. A vida que pulsa no cristão é nova, mais poética e real; não por ele mesmo, mas pelo Deus que nele habita.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.