24 de julho de 2010

O Evangelho dos Autômatos IV - O determinismo brevemente explorado

O universo é um lugar raro. Um lugar do tempo, do espaço, das partículas, da energia, da vida. Dificilmente encontraremos um outro universo, ainda mais um para chamarmos de nosso. Nosso universo.


Nosso universo parece que teve um início. Todo mundo concorda, inclusive cristãos e cientistas ateus, num formidável plano nivelador da fé no que não se sabe. Contudo, os primeiros crêem por causa da revelação e os segundos, por outro tipo de conclusão. Mas ainda não é hora de tratarmos dos últimos.


No balaio do cristianismo, o bom procurador encontra tesouros formidáveis sobre impressões o divino, da relação com o Criador, de Sua realidade em meio aos homens, constrangedoramente presente, ainda que invisível. E, diante dessa presença, podemos tomar o caminho de sua interpretação como uma presença livre, em vez de sufocante. Isso é o que defendo, ou tenho tentado defender em meus textos.


Pois bem, tratemos daquilo que podemos ver. Se não ver, medir.

Einstein, mesmo no topo de sua genialidade em conceber a estrutura gravitacional do universo, considerou a maior das correntes do pensamento físico, a mecânica quântica, como algo irreal, por percebê-la perturbadora, no Princípio da Incerteza, de Heisenberg.


Esse princípio postula que uma determinada partícula elementar (como um elétron) não pode ter duas de suas mais básicas informações medidas ao mesmo tempo. Ou sabemos a velocidade (através de seu momento) ou a posição em que a partícula está. Não conseguimos nunca saber os dois com precisão absoluta ao mesmo tempo. Esse princípio é um dos alicerces da mecânica quântica, do qual se extrai a interpretação física de que, uma vez que não sabemos onde uma partícula está e com que velocidade se move, o que podemos prever é somente a probabilidade de ela estar em determinada região do espaço, em determinado tempo (ou em determinada região do espaço-tempo).


Ao se defrontar com o Princípio da Incerteza, Einstein gracejou numa discussão, dizendo que isso seria simplesmente asneira, perguntando a Niels Bohr se “Deus jogaria dados”. Sua indagação seria sobre a possibilidade de que Deus fizesse apostas com a realidade, como num cassino (evidenciada pelo verbo alemão würfen). A resposta de Bohr foi de que “desde os tempos antigos os filósofos aconselham cautela ao lançar atributos cotidianos sobre Deus”.


A mecânica quântica, entretanto, permanece como parte das melhores explicações sobre o movimento do que há de mais fundamental na matéria, e o princípio da incerteza não escapa de ser uma interpretação coerente e válida, fisicamente, da realidade.


Realidade real, que fique claro: da minha vida, da sua, do universo, e de todo o apanhado minúsculo do que ocorre nas teias de relações entre quaisquer componentes do que conhecemos (até hoje) como matéria.


Eu me faço a pergunta necessária, talvez simples ou óbvia demais: como entender uma bagunça probabilística casual em sintonia com a harmonia impressionante que encontramos nos eventos importantes da vida? Ou na geração da própria vida? A probabilidade de que um evento assim complexo ocorra (ainda mais de forma abundante, ramificada, incontável e sinérgica) me espanta. É o milagre. A matéria nos aponta que mesmo a menor das partículas anda aleatoriamente pelo espaço, choca-se aleatoriamente e, mesmo assim, temos vida inteligente, consciente e todo o apanhado de circunstâncias adicionais que a mantêm subsiste graciosamente. Acho que ninguém esperaria tamanha sintonia a partir da bagunça quântica, invisivelmente orquestrada.


Fato é que a aleatoriedade existe, mas, paradoxalmente, algum determinismo também, pois não somos apenas um punhado de matéria orgânica rodopiando.


Bem, pelo menos tento não nos ver assim, flutuando como frutos do mero acaso. O acaso, por acaso, acabaria eventualmente deixando de ser acaso. Portanto, acredito em um acaso “programado” e controlado dentro de circunstâncias planejadas.


Mas desde o início, falávamos de calvinismo. É chegada a hora de abordar a eleição incondicional, como vela central a guiar um navio estrangeiro pelos mares do cristianismo primitivo. O capitão Agostinho, gênio e santo, merece nossas honras por ter levado a nau por tanto tempo e, ainda hoje, fazer adeptos de sua concepção de mundo.


A eleição, pelo prisma de Agostinho, parece ser de um determinismo suave, um determinismo que vence pelo amor que constrange. A graça é irresistível por sua própria qualidade de graça: uma vez que a graça de Deus se mostre ao homem, ele não vai querer ficar fora da graça, vai querê-la como a própria vida, como a única salvação, e ela não vai deixar, de forma alguma, de lhe ser eficaz. Além disso, a eleição tem que ser de Deus para o homem, de forma prescritiva, incondicional, pois o estado de miséria em que me encontrava era demais para que qualquer escolha minha fosse válida, ou pudesse ser levada em conta. O mais vil dos homens não pode escolher a beleza ou a santidade do Senhor. Por ser quem eu era, eu nunca poderia ter visto o que vejo hoje.


Assim, quero dizer, desse jeito, eu creio com todas as palavras. Eu sou um miserável e a salvação do Senhor me alcançou e eu só fiz recebê-la, mesmo na minha imundície.


O raciocínio de Agostinho vai andando de forma fabulosa e encontra verdadeiras fórmulas gostosas de se apreciar: como poderei ser salvo se nunca o desejei? Ou melhor, como desejarei a quem nunca conheci e como conhecerei a quem nunca desejei? Estas perguntas mexem com a gente, mas estão num panorama muito mais retórico do que lógico, para encontrarem sua validade.


Agostinho era mestre em contrapor e completar suas frases com antíteses e pensamentos circulares, poeticamente belíssimos e meio proverbiais, do tipo que não se vê a saída e sempre parece haver uma construção de projeção à frente (o exemplo de que mais gosto é “creio para entender e entendo para crer”).


Não sou, nem de longe, o melhor conhecedor de suas obras, mas mesmo Agostinho escreveu muito e, algumas vezes, de forma uma tanto resvalada em contradições patentes, de forma que um sistema agostiniano é impossível, pelo fato de ele tratar de diversos problemas filosóficos de forma interessante, mas dando a cor do argumento certo, na hora certa. Por exemplo, Agostinho, ao rebater o problema do mal, tece a idéia de que o mal é a ausência de Deus, como a sombra, a ausência de luz. Deste tipo de raciocínio seria impossível deduzir que Deus tenha decretado todas as coisas, pois, como seus decretos têm o peso de Sua presença efetiva, seria impossível que a ausência fosse decretada por Ele. Ou seja, se Seu decreto lá está, há um mandado seu, que inviabiliza a ausência.


Assim, o problema da salvação, no embate de posições teológicas é problema de sistema: como fica a negativa da salvação? Seria um tanto ilusório pensar que só existem arminianismo e calvinismo como sistemas possíveis. Melhor é enxergar um deles e se ater às conclusões necessárias. Este tem sido meu esforço ao longo destes textos: uma crítica ao calvinismo como sistema e uma apologia às correntes que reconhecem a liberdade humana, ainda que falha.


Nos mesmos mares da existência, Calvino ousou, de forma piedosa e, ao mesmo tempo, teocrático-ditatorial, dar resposta sócio-teológica ao problema. Mas pesar a mão só sobre Calvino talvez fosse maldade, haja vista a prática reformada, de um modo geral, com seus contornos do monergismo para a resposta sistemática da questão soteriológica, que não pode ser atribuída exclusivamente a Calvino, nem puramente à sua obra, mas a um apanhado de gente, de convenções, sínodos, confissões, etc.


Mas, no grosso, o projeto calvinista é claro em ter ido bem além da proposta agostiniana, dando resposta ao que pairava em silêncio: e a rejeição? Deus rejeita o resto de gente que Ele não escolhe?


Lutero foi diplomático em calar nessa resposta. Sua preocupação estava mais em dar um esfrega na ICAR, por conta de sua mega-autoridade papal, decidindo arbitrariamente quem ia e quem não ia para o céu, como se o mesmo fosse invenção e propriedade humanas, cujo direito exclusivo estava sob a tutela pontifícia.


Mas o projeto calvinista, não. Deu resposta: Deus rejeita.

Deus elege e rejeita incondicionalmente. O homem não só não participa de nenhuma parte desse processo, como a própria idéia de parceria é uma fraude. Deus nunca poderia colocar ao homem uma escolha. Os rejeitados são rejeitados por Deus, filhos da ira, vasos de perdição, justamente feitos para o propósito de serem quebrados, não que isso decorra de alguma vontade destes rejeitados, mas por decorrer da vontade única, exclusiva e soberana de Deus.

Diante disso, a argumentação básica é: mas e a liberdade humana, onde fica? Ela só acontece na terra, passageiramente, de forma ilusória, não relacional? O projeto de Deus para o homem é esse mesmo: uns para um lado, outros para o outro, a priori, sem a possibilidade de relação entre Deus e o homem?


A resposta do calvinismo é, de novo, firme: sim, o homem nada escolhe, já foi tudo determinado, antes que houvesse chance de qualquer escolha.

Independe da escolha do homem ser salvo ou não. Ou melhor, Deus não só viu como preordenou todas as coisas da maneira como elas se desenrolam.


E aí, amigo, a vaca foi pro brejo...

Pois o problema fundamental do mal tem a resposta em Deus. Deus criou o mal, o determinou e o faz funcionar, de acordo com o seu querer.


Minha dificuldade é a seguinte: como é que a gente, agora, identifica o mal? Pela Bíblia, alguém diria.

Mas, se Deus predeterminou o mal e predeterminou a escritura dos critérios por meio dos quais o mal fosse detectado, e, além disso, ainda predeterminou que nós o realizássemos, de acordo com a sua vontade, como é que nós poderíamos ser julgados por isso? Simplesmente pela leitura de que foi feita uma coisa errada por nossas mãos, mas de acordo com a vontade irresistível de Deus? Qual é a diferença causal entre o bem e o mal?


Esse é um problema “material”: nossas mãos passam a ser as mãos de Deus, em forma de miniatura, de títere, marionete. Não creio que o Deus vivo seja o Master of Puppets, “pulling the strings”. Não creio que sejamos autômatos. E estou em boa companhia. C. S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples, escreveu o seguinte:



“Deus criou coisas dotadas de livre-arbítrio: criaturas que podem fazer tanto o bem quanto o mal. Alguns pensam que podem conceber uma criatura que, mesmo desfrutando da liberdade, não tivesse possibilidade de fazer o mal. Eu não consigo. Se uma coisa é livre para o bem, é livre para o mal. E o que tornou possível a existência do mal foi o livre-arbítrio. Por que, então, Deus o concedeu? Porque o livre-arbítrio, apesar de possibilitar a maldade, é também aquilo que torna possível o qualquer tipo de amor, bondade e alegria. Um mundo feito de autômatos – criaturas que funcionassem como máquinas – não valeria a pena ser criado. A felicidade que Deus quis para suas criaturas mais elevadas é a felicidade de estar, de forma livre e voluntária, unidas a ele e aos demais seres num êxtase de amor e deleite ao qual os maiores arroubos de paixão terrena entre um homem e uma mulher não se comparam. Por isso, essas criaturas têm de ser livres.” (no capítulo A Alternativa Estarrecedora)



O conceito de decreto divino, além de idealizado necessariamente por uma mentalidade engendrada nos mecanismos políticos, que raciocinam sobre Deus não como um Jesus de Nazaré amigo e presente, mas como o grande César do mundo; tal conceito exige dele seus decretos, na mesma forma de governar mesquinha de uma pessoa maldosa e não vê o absurdo que oferece. Nas palavras de Saramago: “será que as pessoas que matam em nome de Deus não percebem que fazem de Deus um assassino?” De forma semelhante, será que as pessoas, ao atribuírem a Deus a causa dos males desse mundo, não percebem que fazem dele a fonte do mal? Provavelmente, nosso velejador Agostinho não concordaria com isso.


Entretanto, comecei este texto escrevendo sobre física. Talvez fique clara a oposição entre decreto e lei.


Para o decreto, qualquer insinuação de acontecimento, caso tenha acontecido, é visto como um resultado causal da vontade e determinação de Deus.


Decretos não são leis, para as quais Deus daria um caráter geral de lei, com a limitação natural que elas têm, com as consequências normativas dos diferentes fenômenos (físicos, políticos, morais).


Se dizemos que Deus decreta todas as coisas, Ele, então, decreta desde o movimento dos meus dedos neste teclado, até sua leitura letra a letra de cada palavra neste pequeno texto e cada passagem de fótons para dentro da sua retina e todos os impulsos elétricos que ocorrem no seu cérebro, leitor.


Mas, se, por outro lado, falamos que há leis que Deus estabeleceu, sabemos que, todas as vezes em que você se sentar no computador e ele estiver funcionando direito, de acordo com suas leis internas, o fenômeno será semelhante, por seguir o mesmo padrão normativo (fótons são sempre recepcionados por retinas saudáveis, etc.) e a complexidade aumenta. Mas veja: se Deus estabeleceu leis, não há a mínima necessidade de seus “microdecretos”. O que ocorre é que Ele julga, de acordo com a lei que Ele mesmo estabeleceu, ou permite que, dadas as condicionantes básicas para que o fenômeno ocorra, as conseqüências surjam, naturalmente (ou sobrenaturalmente, de acordo com o Seu conselho de intervenção).


Contudo, se decreta todas as coisas, as leis se tornam uma impossibilidade incontornável, havendo sempre uma coincidência de fenômenos parecidos sempre que se manifestem situações similares. Ou seja, se uma bola cai uma vez, Deus determinou que ela caísse. Se ela cai na segunda vez, Deus determinou que ela caísse de novo, por pura coincidência, da Sua vontade. Muito embora a vida possa ser assim, não acho que seja. Pelo menos, não temos base empírica para afirmar isso em nenhum ramo do saber.


Por essas e outras, não creio que haja o caráter determinístico do universo e, portanto, rejeito o calvinismo, pois creio que Deus, mais do que decretos, estabeleceu leis, que são superiores em substância, em conteúdo.


A partir desse aspecto de lei física, o mesmo se desenrola para algumas questões morais, pois Deus é Deus que cria de acordo com Ele mesmo, em sintonia: como é que Deus decreta todas as coisas e o pecado não é decretado? Necessariamente, na visão supralapsariana, Deus é o autor do pecado, sem causa secundária. Isso para mim tem cheiro forte de podridão. Supralapsarianismo, para mim, embora alguns calvinistas certamente discordarão, é sinônimo necessário de calvinismo, pois é impossível sustentar que Deus decrete todas as coisas, ao mesmo tempo que há coisas que Ele não decretou. Honestamente, não consigo ver o calvinismo sem ver o determinismo forte ao extremo (quando muito suave ele é, simplesmente, inconsistente e é permeado pelo saudável "vírus" da liberdade).


Impressiona-me um pouco ver o avanço do Direito, da teoria Geral do Estado e de sua divisão de poderes, ao mesmo tempo em que conceitos agarrados ao que há de mais arcaico na compreensão de sistemas jurídicos sejam a fonte de um suposto sistema dentro do qual Deus legisla. Deus é o César, o Czar, o faraó do universo. Bem, pelo lado positivo, Ele pelo menos não é um reles presidente.


Creio que ele seja incomparavelmente maior do que qualquer tipo de poder engendrado em sistemas normativos humanos. Ainda mais algo tão arbitrário como um decreto. Isso diminui seu poder criativo de fazer um universo que se sustenta por Ele, por seu próprio fôlego.


O sopro de Deus, seu fiat, confere a realidade em que pairamos. O mais fantástico é que Ele não parou por aí, mas veio até nós e nos propõe relacionamento verdadeiro, no qual nunca poderíamos pensar, mas a que temos acesso perene, por Jesus Cristo.

Relacionamento de verdade, com liberdade de escolhas.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.