19 de junho de 2010

O Evangelho dos Autômatos III - Maravilhosa graça

A última coisa que abordei foi a depravação total, ponto mais ou menos pacífico da teologia calvinista e da arminiana. Bem, pelo menos em termos. Meu ponto de vista está bastante ao lado do de Arminius e, como apresentado, do de Ricoeur: Adão não foi o único homem com capacidade de escolha. Somos, todos nós, Adão e Eva.

O pecado é original em cada homem e mulher como entidade inescapável, ou melhor, como a inauguração cotidiana de uma condição nunca antes vista na imagem de Deus, ao invés de uma cronologia simples e rasa do primeiro homem.

Pensar que apenas Adão e Eva tiveram alguma escolha e que, após esses dois, toda a humanidade foi destinada a pecar independentemente de sua própria vontade, parece-me uma resposta muito superficial, vaga, incoerente e incompleta. Desculpem-me a sinceridade, mas isso cheira a “leite”.

Antes de falar sobre tal depravação (e voltarei para ela ainda um pouco aqui), fiz questão de começar esta série de textos pela condição necessária do raciocínio determinista, em vez de uma condição suficiente e, com a alegoria de uma noite de boa pizza, brinquei com o conceito esquizofrênico da expiação limitada.

Devo dizer isso mais uma vez: não tenho medo de falar mal do calvinismo, pois ele se presta, por si mesmo, a uma caricatura malvada, uma face incontestavelmente cruel de Deus. Nem Calvino, ao que indica, cria na expiação limitada. E, assim, o calvinismo talvez seja um primeiro passo para a compreensão do divino, do absoluto, do transcendente, mas certamente não pode ser o último, pois amordaça o amor em nome da soberania. Mais parece uma teologia com princípios de Política Internacional, em vez de uma teologia baseada no Deus do amor e da bondade. Esse prisma de leitura, pra mim, a não ser de forma oportuna demais, não serve.

O monergismo, ao tempo da Reforma, é aceitável, diante do quadro que se tinha então: uma igreja arbitrária, superpoderosa, mesquinha e sacerdotal que ditava as regras sobre quem ia e quem não ia pro céu.

O purgatório, a compra e venda de indulgências, os autoflagelos, um ser humano postado como substituto de Cristo, etc. tudo isso serviu como pano de fundo para uma teologia que, em verdadeiro grito de liberdade, confrontou a autoridade da ICAR, colocando o dedo na cara: quem é você, instituição, pra dizer o que o Deus do universo pode ou não pode fazer?

Quem é o papa pra dizer quem é e quem não é salvo? Quem salva é Deus! O homem não mete o bedelho nisso.

Pena, pena mesmo é ver que nossos amados reformadores também repetiram uma lógica de pequena inquisição, de anti-semitismo, segregação e limpeza moral, à moda da ICAR, em nome de sua Reforma. Reforma que, no final das contas, eu, como evangélico, embora reconheça erros, acho que foi o melhor acontecimento do ocidente.

Voltando e avançando no assunto, surge o ponto central do calvinismo: o determinismo. O resto é “penduricalho” filosófico.

Sem medo de errar, podemos colocar o calvinismo no mesmo lugar do determinismo e, como a ocasião vai pedir, pintar uma cruz na embalagem pra dizer que é o mesmo determinismo de sempre, mas, agora, cristão.

Entretanto, para entender o porquê do determinismo, expresso na eleição incondicional, temos de entender o mecanismo, a engrenagem que opera a salvação de tamanha força inevitável; a engrenagem do pensamento cristão que opera o pensamento exclusivista como uma conclusão à parte: a graça irresistível.

Diante do conceito da depravação total do calvinismo, a graça irresistível só pode ser entendida sob a forma de uma violação da vontade humana.

Isso deve ocorrer, pois a depravação é total, ou seja, o homem não tem nenhum meio de olhar para alguma coisa boa (como a salvação) e querê-la. É impossível. A depravação total deixa de ser apenas um estado de cegueira: é cegueira, surdez, demência, podridão, lama, lama e mais lama. O homem é um quase porco, deixou de ser homem. Nesse tipo de raciocínio, do homem pro diabo é um pulo.

E, para salvar alguém assim, somente um nocaute espiritual vai ser suficiente.

Ou estou enganado? Vejamos...

Se o homem tiver alguma centelha de desejo por ser salvo, isso significa que ele tem em si uma pontinha de dignidade que o retira de sua condição de depravação por algum momento, nem que seja por um momentinho de legalismo. Daí, ele deixa de ser um ser totalmente depravado, de onde se conclui que a depravação não é total (mesmo que ocorra por 99% da existência humana).

Portanto, para que haja coerência com uma depravação total, com o pecado original de Adão e qualquer outro tipo de raciocínio circular sem relação saudável com a realidade, somente uma graça irresistível para salvar o homem. Mas veja, mesmo que essa graça seja irresistível, ela pode ser irresistível e nunca entrar na vida dos homens.

Na verdade, a vida de depravação de todos os homens, que mesmo após a conversão deixam de ser, antes de qualquer outra coisa, depravados em partes de suas vontades justamente por abrirem mão de alguns desejos; enfim, a vida de depravação poderia olhar para uma graça inalcançável, mas nunca desejá-la, pois desejá-la seria transgredir a depravação.

Mas vamos além, olhar a irresistível graça.

Eu a creio irresistível, mas com a devida liberdade poética que o termo “irresistível” carrega consigo.

Irresistível como o mar, numa tarde de muito calor. Irresistível como água num deserto. Irresistível como os olhares da minha noiva.

Eu os desejo. Desejo, porque são coisas boas, são mesmo irresistíveis. O homem deseja a salvação, justamente pelo fato de ver que há uma saída da situação deplorável de seus outros desejos, uma saída da depravação para a condição de harmonia com o Pai das luzes.

E se não deseja, é porque não entendeu direito o que significa ser salvo. Ou, igualmente real, porque não quer ser salvo, não vê necessidade nisso, enxerga sua existência como a única que há e a única em que pode colocar suas mãos, ou digna de seus investimentos de tempo e intelecto.

Ele desvia o olhar para outra mulher, menos bela, mas mais possível. Em vez do mar, a piscina do condomínio. Em vez da água, acusa de miragem o que vê.

É questão, a meu ver, de vontade e não da castração da vontade.

A graça irresistível, tomada como um conceito calvinista, transforma a beleza de algo irresistivelmente terno, harmônico e amoroso, em algo que tem que ser imposto para conseguir seu efeito. É um estupro metafísico.

Quando somada ao princípio da depravação total, a graça irresistível torna algo que tem valor e potência inerentes e inegáveis (a graça), em algo que, destituído de tais virtudes, tem de se fazer valer pela força e por pequena violência.

Arrasta o homem de sua condição inicial à força para a nova condição de salvo.

Não permite a reflexão dos filhos pródigos, o arrependimento sincero, o enxergar de si consciente. Não permite um salto de fé.

Penso que devemos ir além: qual a extensão da graça irresistível?

Eu a creria se ela tocasse todas as pessoas.

Não parece ser o caso. Bem, não para o calvinismo, de qualquer forma. Faço questão aqui de não entrar na polêmica do inferno, pois essa gente que não é tocada pela graça irresistível vai toda para o inferno. Na verdade, seria melhor dizer que, de seres humanos, os não eleitos não têm muito. Podem muito bem ser vistos como um punhado de compostos orgânicos, um emaranhado trabalhoso de células, fluidos e incompreensões, sem qualquer propósito, que só faz atrapalhar a vida de gente que é gente mesmo. Eleita, escolhida, irresistivelmente agraciada.

Interessante mesmo é pensar: que critério Deus utilizou? Quero dizer, será que foi uma escolha aleatória? Do tipo “uni, duni, tê” ? Ou será que ele viu alguma coisa melhor em alguma porção de depravação que em outra? Se viu, é porque há os menos depravados, naturalmente melhores. Ou o raciocínio é o contrário: quanto maior a depravação, melhor a escolha?

Nenhuma dessas duas opções faz sentido, pois inclui um critério diante de algo que não necessita de critérios.

A graça irresistível, fica presa, se a eleição for incondicional. E a eleição fica presa se a graça for resistível. Esse é o paradoxo que machuca os cristãos sinceros em nossos raciocínios. Mas a saída é pensar mesmo que Deus é amor e nem sua graça, nem sua eleição estão presas.

A graça é maravilhosa, não violenta. A graça é maravilhosa, justamente por um pecador reconhecer isso com prontidão, de sua eficácia. “Maravilhosa”, “imensurável e sem fim”, “grandiosa”, “suficiente para mim”, diria o belíssimo hino.

Infelizmente, o calvinismo faz a suposição que considero a pior, pois alija a graça, querendo-lhe dar pujança.

Por outro lado, talvez seja frutuoso pensar na graça irresistível em sua profundidade nos crentes. A graça “terminou o serviço” ali na salvação? Ou continua tocando o crente, desculpe, o eleito, por toda a sua vida, não só indicando que caminho tomar, mas fazendo que ele ande por esse caminho, de forma igualmente irresistível?

Ou seja, o eleito faz tudo o que Deus quer? Sempre?

Caso não seja assim, por que a resistência?

Isso não me faz sentido. Melhor seria redefinir as coisas, em vez de forçar as marchas erradas para defender o vento, ou uma imagem de um deus que não se parece com Deus.

Mas a graça irresistível, como um empurrão contra a vontade, é apenas uma premissa, uma base para algo mais amplo, o suporte para a castração da liberdade. E tenho vontade de escrever isso em outro texto. De forma irresistível.

4 de junho de 2010

O Evangelho dos Autômatos II - Trégua teológica

No último texto, escrevi sobre a expiação limitada, ponto do calvinismo que acho ser o mais controverso e, mesmo, avesso à própria Bíblia (repito aqui que qualquer um que tenha dúvidas, que me aponte um único versículo bíblico onde isso se encontra).

Mas, quisera eu dizer que isso é o único ponto a ser debatido (ou refutado) do calvinismo.

Entretanto, como uma espécie de trégua temporária, é interessante pensar na condição em que todos estamos, ou estávamos, antes de conhecermos a Cristo.

Todos pecamos e, daí, dizer da depravação total do homem natural. Ou seja, o homem não tem condições de fazer o bem, por si mesmo, mas somente se Deus, por sua graça o inspirar a fazê-lo.

É interessante que tanto o arminianismo quanto o calvinismo se dêem tão bem nesse ponto e, mesmo assim, cheguem a conclusões distintas.

O calvinismo dirá que o homem está morto e, morto, não pode fazer nada, a não ser permanecer neste estado até que a graça de Deus o eleja.

Já o arminianismo, através de uma leve variação, diz que o homem está se afogando (e não afogado e debaixo d’água, como seria no calvinismo) e Deus pode libertar o homem que deseja ser salvo.

Isso, naturalmente, em termos de salvação.

Ambos, portanto, concordam com o que seria um resumo da teologia paulina: a salvação começa e termina em Deus.

Temos um Deus maravilhoso, amoroso. Um Deus que, a despeito de nossa insistência em auto-afirmação, auto-justificação, é o único que tem como salvar o homem de seus delitos e pecados.

Cavando mais fundo um pouco, vemos que a depravação total atende, muito basicamente, por um outro nome: pecado original.

Paul Ricoeur, numa exposição lúcida, nos expõe que o pecado original é a própria construção de uma “tara hereditária” e é ousado:

“A minha intenção não é de todo opor, neste nível de abstração, uma formulação a uma formulação: não sou dogmático. A minha intenção é refletir sobre a significação do trabalho teológico cristalizado num conceito como o de pecado original. Ponho um problema de método. Com efeito, este conceito tomado como tal não é bíblico e, todavia, ele pretende [...] dar conta, através de um aparelho racional sobre o qual teremos de refletir, do próprio conteúdo da confissão e da pregação ordinária da Igreja. Refletir sobre a significação é, pois, reencontrar as intenções do conceito, a sua potência de reenvio àquilo que não é conceito mas anúncio, anúncio que denuncia o mal, e anúncio que pronuncia a absolvição. Numa palavra, refletir sobre a significação é, de uma certa maneira, desfazer o conceito, decompor as suas motivações e, por uma espécie de análise intencional, reencontrar as “fleches de sens” que visam o próprio kerigma.

Acabei de empregar uma expressão inquietante: desfazer o conceito. Sim. Penso que é preciso destruir o conceito como conceito para compreender a intenção do sentido: o conceito de pecado original é um falso saber e deve ser destruído como saber; saber quase jurídico da culpabilidade dos recém-nascidos, saber quase biológico da transmissão de uma tara hereditária, falso saber que bloqueia numa noção inconsistente uma categoria jurídica de dívida e uma categoria biológica de herança.” (Ricoeur, Paul. O Pecado Original: Estudo de Significação, 2008 disponível em http://www.lusosofia.net/textos/ricoeur_paul_pecado_original_estudo_de_significacao.pdf)

Quem sou eu para falar alguma coisa sobre um dos assuntos mais controversos do cristianismo e de toda a teologia?!!! Vou ficar aqui meio em cima do muro, mas com as duas pernas pro lado de que Ricoeur.

O pecado original serve como simbologia de um lugar teológico que aponta para o mal. Um mal que, segundo Agostinho, é imaterial e o próprio caminho que segue em direção oposta à direção de Deus.

Agostinho, bem como todo o cristianismo de então (incluindo Pelágio), tem em mira rechaçar o mais virulento movimento cristão: o gnosticismo. Para o gnosticismo, o mundo é mau, ou, dizendo de outra forma, a “mundaniedade” é o próprio mal.

O projeto de resposta de então foi o de olhar para a criação, não como algo mau, mas de enxergar no homem o poder de fazer o mal. Assim, o pecado original é fruto de uma potência para fazer mal, não de uma natureza má. Potestatem indicat, non naturam.

Mas e a hereditariedade? Como é que esse vírus do pecado passou para mim? Eu pequei em Adão? Ou pequei como Adão?

Naturalmente, minha inclinação, de novo com Ricoeur, é a de que a segunda opção seja a mais correta.

O pecado original, assim visto, não está original em seu aspecto cronológico, visto como primeiro e, portanto, original em Adão, tão somente. Não. Creio que, muito mais do que mostrar um evento isolado e, digamos, “privilegiado” em relação ao livre arbítrio humano, o pecado como foi com Adão é a nós pecado tão original e pútrido, sem inventividade ou originalidade. Adão, o terroso, o vermelho, o “barroso”, é uma representação de todos nós, terrícolas, pecadores em nossas escolhas.

Armínio apresenta um raciocínio maravilhoso em relação a esta liberdade: resistência. E, aqui, o acho dos mais piedosos.

O homem resiste a Deus, como impulso natural, consciente e inconsciente. Diria que sua deficiência está unicamente em ver o pecado em sua ordem cronológica. Uma vez dado um olhar no pecado do que ele é em verdadeira separação de Deus e pela mensagem graciosa do evangelho que nos chega como o fôlego para um novo nascimento de liberdade; aí com consciência, como gente grande e, ao mesmo tempo, como meninos e meninas que aceitam a boa nova, aceitamos um convite de não resistir à graça do Senhor do Universo.

Talvez eu não devesse... Ah! A vida é curta.

Mãos à obra, que é o momento certo de falar de vez o que penso.

E quem é o “totalmente depravado”? Cadê o escolhido, o eleito, que não se enxerga como um pecador ainda em processo de regeneração?

Quando a gente vê o aspecto meramente doutrinal, fica perplexo, pois parece que, se o calvinismo está correto, o cristão nem peca mais, deixou de pecar. A depravação de outrora passou por completo. Deus fez uma obra completa com um estalar de dedos e, voilá, eis o homem perfeito: o cristão!

Se isso for verdade, alguém, por favor, me avise em que mundo, pois eu quero ir para lá.

Aqui não é o céu, até onde eu saiba. Ou é? Deixe-me esclarecer melhor: a igreja não é perfeita, ou é? Deixe-me esclarecer ainda mais: as igrejas dos eleitos não são perfeitas, ou são?

Vamos fazer uma retrospectiva da história da igreja cristã, da reformada, inclusive, e é só esperar pelos escândalos. Escândalos tão brabos que deixam a gente corada.

Mas o bom calvinista me dirá: esses aí não eram eleitos. Eu honestamente me pergunto: quem é melhor que nossos irmãos que caíram? “O que está de pé olhe para que não caia.” Essa “depravação total” sempre anterior, embora se enquadre em sistema teológico, não faz o sentido adequado da verdade de nossa falibilidade, pois, quando enunciada da forma que é, os cristãos (e gostaria de pensar aqui no sentido mais abrangente possível do termo: todos que aceitaram o evangelho de Jesus) estamos todos no quadro dos “ainda parcialmente depravados”.

Mas graças a Deus por Jesus Cristo, que nos salva da depravação e do pecado, nos dando a liberdade real de fazer o bem, pelo toque de sua graça maravilhosa.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.