8 de maio de 2010

O Problema do Ecumenismo

Em Niterói, logo na entrada da cidade, para quem vem da ponte Rio-Niterói, há um grafite interessante. É uma imagem de Cristo, com alguns dizeres ao lado. Se você visita frequentemente Niterói, sabe do que estou falando. Se não, deixe-me fazer uma breve descrição: é um busto de homem em tom de azul e cinza que sustenta um semblante heróico, meio Che Guevara, com uma coroa de espinhos na cabeça e com olhos de bondade encarando o observador. É um desenho bem feito. Ao lado está escrito: “Ele não tinha cor, raça, nem religião”. Eis o ponto.

Jesus tinha isso tudo e muito bem delimitado: era caucasóide, provavelmente com feição arábica, por ser judeu, de raça e religião.

Não tenho tanta preocupação com o Jesus Histórico, como uma entidade mais real que o Jesus da fé. Mas essa é dose... É uma abstração tão grande, uma dedução tão maluca e uma tentativa metafísica de transformar Jesus no “Jesus que você quiser” de forma muito ilusória. É um Jesus de mercado.

O pior é o seguinte: tenho a impressão de que o grafite foi feito da forma mais bem intencionada possível. Parece alguém que quer passar uma mensagem de tolerância, de boa convivência entre os irmãos desse mundo, da fraternidade universal que deve encher os corações dos homens, independentemente de cor, raça ou religião. Ecumenismo.

Ecumenismo vem de “oikoumene”, palavra que guarda a mesma origem que economia e ecologia e que orbita em torno de “casa”, da “habitação” comum. O fato de expressar o sentido de uma convivência harmônica em meio à diferença de posturas só faz corroborar o lema de solidariedade humana. Nisso, só uma pessoa violenta chamaria o ecumenismo de algo ruim.

Mas surge em mim uma desconfiança de que não é exatamente isso que se quer dizer com ecumenismo hoje em dia. Não me prestaria a inquisidor, mas parece-me que ecumenismo hoje define uma posição de partilha total, como se todo mundo, no fundo, cresse na mesma coisa. Isso é falacioso, mas soa verdadeiro.

Meu problema com o ecumenismo aparece (problema para mim, que fique claro), pois, se nem com meus irmãos em Cristo eu consigo ter uma só mente, ou “um só pensar”, como nos diria o apóstolo Paulo, quanto mais com outras expressões de fé. Não quero nem dizer que minha fé seja superior (é claro que eu acredito que ela seja, senão não a professaria), mas ela é diferente. Tomando as religiões monoteístas clássicas, judaísmo, cristianismo e islamismo, nem nós convergimos. Quanto mais as outras formas de ver o mundo: hindu, budista, tao, xinto...

Aliás, este pequeno texto não vem a propósito de searas alheias ao cristianismo: dentro da nossa própria fé eu não consigo convergir com algumas doutrinas.

Tomemos dois exemplos interessantes: catolicismo e calvinismo. Tá certo, é um recorte ruim, pois um é um balaio onde cabe tudo e no outro não cabe nada. Mas tenha o leitor paciência, por favor.

Eu não consigo esposar alguns dos pontos do calvinismo (os tais “TULIP”) e os acho, pra falar a verdade, pretensiosos e falsos em relação ao evangelho do Jesus da Bíblia. É claro que um defensor do calvinismo vai me chamar justamente das coisas que falei, mas, de novo, paciência...

Por outro lado, nossa Senhora!, a Igreja Católica Apostólica Romana é a instituição que deveria ter sido enterrada há muito. Dizer que ela matou, roubou, forjou, enganou, isso tudo fica no passado. Mas hoje em dia ainda ter um representante como o Papa, me parece meio complicado.

“O Papa, Bispo de Roma e sucessor de São Pedro, "é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos, quer da multidão dos fiéis" "Com efeito, o Pontífice Romano, em virtude de seu múnus de Vigário de Cristo e de Pastor de toda a Igreja, possui na Igreja poder pleno, supremo e universal. E ele pode exercer sempre livremente este seu poder.” (Catecismo da Igreja Católica, §882, disponível em http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/s/sumo.html)

Até “sucessor de São Pedro”, tudo bem, vamos relevar o hiato de uns 3 séculos, pois essa tradição pode bem se servir de poesia (duvidosa, mas poesia). Dizer que é “unidade” de fiéis já começa a azedar. Mas declarar e manter em documento formal que é substituto de Cristo e possui “poder pleno, supremo e universal” é demais pro meu estômago. Isso não me parece em nada com algo vindo de Deus. Aliás, parece que a palavra “Papa” pode ser facilmente substituída por “Deus”que a alteração será só na pessoa de quem se fala, não nos atributos.

Por isso, mesmo que se louvem as empresas sociais católicas, sua tradição milenar, sua pluralidade e outros atributos das instituições milenares, que dizer diante de suas formulações imiscuídas na mentira, no que lhe há de mais basilar? Digo basilar, pois não creio que a Igreja Católica seja só de intelectuais e teólogos, mas de muitos burocratas e sacerdotes, que, de acordo com a ocasião, fazem questão de reafirmar autoridade papal e corroborar sincretismos religiosos.

Uma coisa, contudo, me admira na ICAR. Realmente me admira e me deixa pasmo: o grupo de bons teólogos que ela soube fornecer ao mundo, que simplesmente não ligam para o Papa e o entendem de maneira diversa de seu Catecismo. Quer dizer, eu acho que seja assim, pois como explicar Hans Küng, Thomas Merton, Henri Nowen, Brenan Manning? Há ali o espaço para a diversidade. Isso é, de fato, um dom divino. Embora eu retire esses da maldade, não retiro o que disse da Igreja. Embora eu esteja disposto a retirar e retire todos os meus irmãos católicos de uma rotulação ‘perversa’, inclusive o atual papa, pois não me compete julgar ninguém (graças a Deus!); eu não retiro uma visão completamente condenável da instituição da ICAR. Pra mim ela é o cadáver insepulto que cada dia mais faz exalar seu odor no meio da sociedade.

Como eu havia falado anteriormente, há um outro grupo que me deixa maluco: os calvinistas. Seus pontos do Sínodo de Dort são pra mim a demonstração de que o céu parece ser um “clubinho” e que, pra entrar, tem que ter a carteirinha de Calvino. Não precisa ser a carteirinha de Cristo, mas a de Calvino. Se não, nã-na-ni-na-não! E não adianta ser católico, pois o Papa aqui também não manda (graças a Deus!).

Totalmente depravados são sempre os outros e, coincidentemente, os rejeitados incondicionalmente, também. O calvinista é clarificado, iluminado, revelado, esclarecido e, se pecar, bem, azar dos outros. Ou você já ouviu um calvinista dizer que é predestinado ao inferno? Duvido muito...

Mas o que acho pior no calvinismo é a falsa humildade: expiação limitada.

Isso reduz o sacrifício de Cristo ao nível de uma bizarra preferência de Deus por verter seu próprio sangue só pelos que “merecem”. Ah, mas espere, eles não merecem, pois foi Deus quem os escolheu. Então por que é que Deus derramou sangue por aqueles que ele já tinha escolhido? Hum... Não entendeu? Nem eu. Vamos reiniciar: Deus poderia ter retirado o pecado do mundo de qualquer jeito, pois ele, afinal, é Todo-poderoso, correto? Correto. Mas escolheu retirar pelo sacrifício de Cristo, por amor ao mundo, certo? Certo. Mundo todo, não foi, não? Não, aí você errou! Foi de um grupo pequeno, através de um sacrifício “pra inglês ver”. “Só pra esfregar na cara” dessa humanidade corrompida. Isso faz algum sentido? Claro que não!

Na verdade, a ótica é a de que nem uma gota poderia ser desperdiçada por essa miséria que é o homem. Mas tem uns homens que, pelos motivos divinos (que não estão em questão, não podem e nem devem ser levantados diante de um calvinista – embora, diante do próprio Deus soberano do universo, eu não veja problema em lhe perguntar, desde que com humildade e reverência), enfim, por esses motivos, há homens que são ‘os caras’. São salvos para que creiam e não o contrário, que creio ser o real: crer para ser salvo. Aliás, é “quem crer será salvo”, ou é “quem é salvo é porque crê”?

Interessante mesmo é ver que é raríssimo ver calvinista pobre, miserável. Na verdade, é sempre o outro lado que fica com o ônus. Deus que os quis. Quis não, predeterminou que eles vivessem assim. O determinismo filosófico, até o raciocínio científico do século passado eu entendo. Depois da mecânica quântica, falar disso na filosofia determinista já é meio esquisito. Mas defender esse tipo de baboseira na teologia é de mau gosto. Mas tudo bem, teologia não tem que agradar aos homens, não é mesmo? Tem que criar uma imagem de Deus distante e desapegada, para que o homem viva em solidão trilhando seu caminho pelo mundo, certo de sua diferença diante dos outros homens, coitados, e lutando para melhorá-lo, enfiado no trabalho, em fazer o bem, perseverando santamente na política, na economia, etc. Relembrando os clássicos, este é o espírito de Deus ou do capitalismo?

Pra terminar: já participei de um culto em que havia um grupo de católicos, numa igreja luterana, no Rio. Eram, se não me falha a memória, 3 padres e 2 freiras. Lá pelas tantas, houve o momento da ceia do Senhor. “Todos estão convidados à mesa”, disse o pastor. Todos ouviram, pois o templo é bem pequeno, tenho certeza. Não só isso, mas antes desse momento, um dos padres ‘teve a palavra’ e falou para toda a igreja. Imagine você que nenhum (nem umzinho) partilhou do pão ou do vinho com o resto dos mortais protestantes, mesmo depois de o padre haver falado em como era bom estar ali, com os irmãos em Cristo. Repito a pergunta: você entendeu? Dessa vez, acho que podemos responder ecumenicamente: eu entendi.

6 comentários:

Dri D disse...

Interessante seus argumentos, especialmente a idéia do calvinista que acredita que ele não é um predestinado. Nunca tinha pensando nisso :) Cada vez mais eu penso que Deus é tão grande, tão multiforme que muitas coisas me ficarão encobertas por causa da minha limitação até o dia em que me encontrarei com Ele face a face. Continue firme na publicação de suas idéias.

André von Held Soares disse...

Dri D,
Muito obrigado pela presença aqui! Pode deixar que continuarei a publicar, sim. Aliás, desse texto espero abrir uma série de outros textos sobre a fé cristã, meus problemas com algumas formas, e a real maravilha de ser cristão integrado ao corpo de Cristo ilimitado pelas minhas barreiras.
Beijos mil.

Liege Lopes disse...

Parabéns André!
Eu concordo com você e creio que a gente precisa falar mais sobre essas coisas. Acredito na Graça salvadora para todas as pessoas, não apenas para alguns poucos privilegiados. Não acredito no sacrifício da cruz apenas para alguns. Na verdade, esta idéia me parece muito absurda. Acredito num Deus grande, que deseja relacionar-se com o homem, e que este relacionamento implica na liberdade do homem de escolher os seus caminhos.

André von Held Soares disse...

Liege,
Muito obrigado pelo comentário.
Bem, já conversamos bem mais do que isso hoje, né?
Beijos mil.

Preto disse...

BIZARRO. Isso serei se diminuir o sacrifício do meu Jesus ao egoísmo religioso de alguns... Não serei digno de pena diante do meu Deus.

André von Held Soares disse...

Salve, Preto!
Eu concordo que diminuir o sacrifício do nosso Jesus por conta de "egoísmo religioso" (não poderia encontrar uma melhor expressão para essa coisa estranha) é a pior coisa que um cristão pode fazer. Loucura no pior sentido do termo: maldade.
Um abração e a paz!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.