24 de maio de 2010

O Evangelho dos Autômatos - Introdução

Faz um tempo que eu queria fazer uma crítica sobre o calvinismo.

Este é um prólogo para os textos que virão, acerca do assunto.

Na verdade, pensei que o melhor seria me demover da vontade de escrever textos assim, mas é o tipo da coisa que não consigo. Peço desculpas, pois o tema é visceralmente confrontador e não há quem não escolha um lado (ou que se diga a ele predestinado) e defenda suas posturas.

Entretanto, faço algumas ressalvas para os textos que se seguirão.

Primeiro, penso que não existe nenhuma relação necessária e direta entre ideologia política (no sentido tradicional de ‘direita’ e ‘esquerda’) e a discussão filosófico-teológica sobre calvinismo e suas oposições. Digo isso, pois o próprio desenvolvimento histórico-político das nações atuais não me permite (talvez por ignorância minha) trazer nenhum tipo de manifestação filosófica no engajamento e militância políticos, de forma estrita. Ou seja, prefiro, aqui, não fazer nenhuma relação entre calvinismo-direita, “não calvinismo”-esquerda, embora isso seja extremamente tentador e mais provocante ainda no debate. Felizmente, os exemplos de cristãos de direita protestantes e católicos que são contrários ao calvinismo proíbem-me de ceder à tentação de fazer tal correlação. Ainda bem! Portanto, salvo quando se fizer expressa menção do assunto, nenhuma relação necessária há entre arminianismo (ou “não calvinismo”) e esquerda. Há, sim, um sentido político de forma geral, em que as correntes de pensamento teológico impulsionam-nos às ações humanas necessariamente políticas; se direita ou esquerda, vai depender de muita coisa mais.

Segundo, meu interesse é o de fazer uma crítica, colocando o que penso no lugar do que considero insuficiente, fraco ou mau. Dou-me o direito de colocar aqui uma caricatura, para a qual dou o direito de réplica a quem quiser debatê-la. Caricatura do calvinismo, conforme enunciado pelos 5 pontos do Sínodo de Dort. Na verdade, oposta a tais pontos, tentarei ser meticuloso e considerar todos os pontos, 1 por 1.

Terceiro, evitarei utilizar inúmeras passagens bíblicas de forma literal, a não ser que, infalivelmente, haja consenso sobre a interpretação de tais passagens, pois considero que, antes de ser um produto da leitura da Bíblia, as visões de mundo determinista e indeterminista representam, na maioria das vezes, as lentes com que se vai chegar ao texto sagrado. Assim, roubam a cena e se tornam não a conclusão, mas o ponto de partida para conclusões das Escrituras. Quando isso acontece (e acontece com muito mais freqüência do que estamos dispostos a aceitar), é impossível o diálogo estritamente com bases nas Escrituras. Na carta aos Romanos, aos Efésios e aos Coríntios, que são as tábuas de onde se extrai o calvinismo mais puro, caso se faça necessário, tentarei auxílio com mestres que já tenham falado (certamente, muito melhor que eu).

Quarto, não vou debater “Deus”, pois Deus não se debate. A Ele a gente aceita, obedece, ama, adora, dá o coração, a vida, a alma, o espírito e o corpo; mas não debate. O que vou debater são as visões de “deuses”, talvez. “Deuses” que se opõem e, às vezes, se excluem. Portanto, não tenho medo do argumento da autoridade alheia (algo como: “quem é você para falar de Deus?”), pois não vou falar dEle, mas do que estão dizendo que Ele é. Ademais, quem é qualquer coisa pra falar de Deus? Se esse argumento fosse mesmo verdadeiro, essa discussão nem existiria, pois o suposto defensor também se veria na condição de falho defensor. Deus, definitivamente, não precisa de defensores. Por isso, não o debateremos, mas debateremos muito o que falam dEle.

Por último, o que foi dito nos parágrafos anteriores é uma prova de que as Escrituras sagradas, na verdade, envolvem um todo complexo, sem lado definido por completo. Em outras palavras, a Bíblia abraça tudo, todo o paradoxo, de forma que, de fato, não conseguimos entender. Enquanto fazemos questão de separar, ela une o que para nós é impossível nos limites da lógica formal, do cotidiano, da experiência e nos desafia na fé. Contudo, não nos é escusado refletir, raciocinar, e tentar entender sobre a vida que Deus nos deu e como é nosso relacionamento com Ele, com Suas criaturas, com nossos irmãos em Cristo, com nossos amigos e o mundo que Ele criou e que dEle se afastou, à luz de Sua revelação em Seu Filho e em Sua Palavra.

Credo ut intelligam et intelligo ut credam.

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Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.