26 de maio de 2010

O Evangelho dos Autômatos I - Tem pizza pra todo mundo

Todo processo epistemológico saudável, a meu ver, deveria contar com dois elementos, dois braços necessariamente diferentes: dedução e indução.

A descrição de um modelo (científico, técnico, social, filosófico), para que seja cognoscível, adaptado, inteligível, coerente com a realidade e, finalmente, utilizado, deve passar por algumas etapas simples, que poderiam ser descritas como:

1. Fazer uma descrição detalhada e clara do problema a ser tratado;

2. Identificar os fatores importantes;

3. Propor (ou refinar) um modelo;

4. Coletar dados e informações sobre o problema e voltar para 2, de acordo com os dados coletados da realidade;

5. Caso o modelo seja satisfatório, manipular o modelo com as variáveis disponíveis para verificar sua validade;

6. Propor, dentro do modelo, uma solução para o problema;

7. Tirar conclusões apropriadas, coerentes com o modelo.

Assim, o modelo, que nada mais é que um modelo, pode apresentar bem ou mal a solução para determinado problema.

A indução é utilizada para as etapas ‘braçais’ do esforço intelectual: medidas, contas, metodologia, elaboração de um modelo coerente, refino do modelo. A indução, para alguns, é o próprio método científico. É o grande NÃO à abstração delirante. É o alicerce do empirismo por excelência.

Já o seu diferente é a dedução: um mundo de imaginação, de criação, com concatenação lógica de ideias, por vezes, num crescendo. Da dedução, retiramos as conclusões, concluímos outras coisas. É o item 7 e só aparece a partir daí.

Brincando com esses dois irmãos, chegamos, por fim, às conclusões, que só poderão se encerrar quando o problema encerrar. Mas eu e você andamos na rua o suficiente para sabermos que os problemas nunca acabam. Um problema sempre gera outro. Assim, a dialética (a mesma que Hegel sistematizou – tese-antítese-síntese) nunca acaba, sempre transformando uma síntese prontinha (no nosso caso, uma solução deduzida a partir do modelo) em uma nova tese, sujeita a uma nova antítese, a gerar nova síntese... ad infinitum.

O velho debate teológico entre calvinismo e arminianismo é fruto desse tipo de problema, que não se quer resolver. É uma dialética indissolúvel, mas que é resultado, não da qualidade de dois modelos equilibrados, mas de um modelo que quase não tem base indutiva em sua elaboração, contra outro que tem bases bem mais razoáveis.

Mas, sem mais delongas, dos 5 pontos do calvinismo (Depravação Total, Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível e Perseverança dos Santos) comecemos nossa crítica pelo que há de mais deficiente no modelo calvinista: Expiação Limitada.

Caso você nunca tenha topado com isso na vida, deixe-me brevemente escrever o que isso significa: Jesus morreu apenas por seus eleitos. Ou seja, a expiação dos pecados é apenas eficiente para um grupo de pessoas. Diria Agostinho que a expiação é “suficiente para todos, mas eficiente para os eleitos”. Por mais que eu o considere com grande admiração, por ter sido um cristão autêntico, mais coerente que seu principal opositor, Pelágio, não posso me deixar de perguntar: o que significa isso de fato? A resposta é: não significa nada. É a mesma coisa que dizer que Jesus só morreu por um grupinho, uma meia dúzia.

Mas esse texto está ficando muito sério, vamos animá-lo com uma imagem.

Imaginemos, portanto, que estamos numa reunião de crentes. O tempo passa, a discussão fica acalorada, bate a fome... Aí, eu digo, com um olhar de quem tem uma ideia: “gente, já volto.”

Volto eu com uma pizza. Uma, não, 30 pizzas tamanho família, refrigerante, torta de prestígio, enfim, a farofada completa. Todo mundo se anima, os olhos suplicam, e eu falo: “galera, essa pizza é suficiente para todo mundo!” Neguinho vibra, pois, realmente, iriam sobrar umas 20 pizzas, pois era reunião de oração e foi só uma meia dúzia. O pessoal começa a me achar até pessoa boa, generosa, amável, solícita, prestativa, amiga, cristã... E, no momento que iam me elogiar, eu digo “gente, eu disse que é suficiente, mas só é eficiente pra 2 que eu escolher aqui, ok?”

Aliás, eu ainda falo pra um dos dois comedores de pizza (vamos chamar assim os eleitos) que eu os escolhi e eles têm que me defender, perseverar, e falar pros outros famintos que eu escolho dar pizza pra quem eu quiser. Mas, bem, a pizza era mesmo suficiente para todos.

Isso faz algum sentido pra você?

Que dizer do Deus do universo, que a Bíblia cisma em dizer que é bom, que ama os homens, que não faz acepção de pessoas, que quer que todo mundo saiba da verdade e, ainda por cima, atinja o pleno conhecimento dela? Que dizer desse Deus? Pra mim qualquer tentativa de constranger o amor de Deus é um erro. É amor superabundante, amor que se mistura com justiça, amor que é misericordioso com o faminto. Amor gracioso de verdade.

Assim, por um lado, se a expiação limitada é uma decorrência lógica da eleição incondicional (de que trataremos com calma em outro texto), por outro ela é uma mentira à luz da Bíblia e, na melhor das hipóteses, uma conseqüência de implicações maldosas.

Uma coisa é sustentar heresias, outra, que pra mim vai além da heresia, é sustentar a maldade. Pois a heresia é questão de política doutrinária: “você não acredita no que eu te digo que é verdade, então é herege.

Maldade, não. Maldade vai além do entendimento doutrinário e transborda para um nível de entendimento que qualquer ser humano consegue compreender.

A expiação limitada apresenta um Cristo pequeno, desumano, elitista. Mas, de elitismo, falaremos mais adiante.

Como disse no início, utilizar a dedução, somente, é uma falha. Podemos pensar qualquer coisa e prosseguir, em crescendo, ad astra, com um quadro que nem palidamente se assemelha ao real. Se alguém tiver dúvidas acerca do que estou falando, por favor, faça o movimento indutivo de pesquisar as Escrituras sagradas e me mostrar onde a gente acha a expiação limitada. Antes disso, caso isso não seja encontrado lá (digo “caso” com ironia), uma outra postura se faz absolutamente necessária. A expiação, queiram ou não queiram os meus irmãos comedores de pizza, é absolutamente universal.

24 de maio de 2010

O Evangelho dos Autômatos - Introdução

Faz um tempo que eu queria fazer uma crítica sobre o calvinismo.

Este é um prólogo para os textos que virão, acerca do assunto.

Na verdade, pensei que o melhor seria me demover da vontade de escrever textos assim, mas é o tipo da coisa que não consigo. Peço desculpas, pois o tema é visceralmente confrontador e não há quem não escolha um lado (ou que se diga a ele predestinado) e defenda suas posturas.

Entretanto, faço algumas ressalvas para os textos que se seguirão.

Primeiro, penso que não existe nenhuma relação necessária e direta entre ideologia política (no sentido tradicional de ‘direita’ e ‘esquerda’) e a discussão filosófico-teológica sobre calvinismo e suas oposições. Digo isso, pois o próprio desenvolvimento histórico-político das nações atuais não me permite (talvez por ignorância minha) trazer nenhum tipo de manifestação filosófica no engajamento e militância políticos, de forma estrita. Ou seja, prefiro, aqui, não fazer nenhuma relação entre calvinismo-direita, “não calvinismo”-esquerda, embora isso seja extremamente tentador e mais provocante ainda no debate. Felizmente, os exemplos de cristãos de direita protestantes e católicos que são contrários ao calvinismo proíbem-me de ceder à tentação de fazer tal correlação. Ainda bem! Portanto, salvo quando se fizer expressa menção do assunto, nenhuma relação necessária há entre arminianismo (ou “não calvinismo”) e esquerda. Há, sim, um sentido político de forma geral, em que as correntes de pensamento teológico impulsionam-nos às ações humanas necessariamente políticas; se direita ou esquerda, vai depender de muita coisa mais.

Segundo, meu interesse é o de fazer uma crítica, colocando o que penso no lugar do que considero insuficiente, fraco ou mau. Dou-me o direito de colocar aqui uma caricatura, para a qual dou o direito de réplica a quem quiser debatê-la. Caricatura do calvinismo, conforme enunciado pelos 5 pontos do Sínodo de Dort. Na verdade, oposta a tais pontos, tentarei ser meticuloso e considerar todos os pontos, 1 por 1.

Terceiro, evitarei utilizar inúmeras passagens bíblicas de forma literal, a não ser que, infalivelmente, haja consenso sobre a interpretação de tais passagens, pois considero que, antes de ser um produto da leitura da Bíblia, as visões de mundo determinista e indeterminista representam, na maioria das vezes, as lentes com que se vai chegar ao texto sagrado. Assim, roubam a cena e se tornam não a conclusão, mas o ponto de partida para conclusões das Escrituras. Quando isso acontece (e acontece com muito mais freqüência do que estamos dispostos a aceitar), é impossível o diálogo estritamente com bases nas Escrituras. Na carta aos Romanos, aos Efésios e aos Coríntios, que são as tábuas de onde se extrai o calvinismo mais puro, caso se faça necessário, tentarei auxílio com mestres que já tenham falado (certamente, muito melhor que eu).

Quarto, não vou debater “Deus”, pois Deus não se debate. A Ele a gente aceita, obedece, ama, adora, dá o coração, a vida, a alma, o espírito e o corpo; mas não debate. O que vou debater são as visões de “deuses”, talvez. “Deuses” que se opõem e, às vezes, se excluem. Portanto, não tenho medo do argumento da autoridade alheia (algo como: “quem é você para falar de Deus?”), pois não vou falar dEle, mas do que estão dizendo que Ele é. Ademais, quem é qualquer coisa pra falar de Deus? Se esse argumento fosse mesmo verdadeiro, essa discussão nem existiria, pois o suposto defensor também se veria na condição de falho defensor. Deus, definitivamente, não precisa de defensores. Por isso, não o debateremos, mas debateremos muito o que falam dEle.

Por último, o que foi dito nos parágrafos anteriores é uma prova de que as Escrituras sagradas, na verdade, envolvem um todo complexo, sem lado definido por completo. Em outras palavras, a Bíblia abraça tudo, todo o paradoxo, de forma que, de fato, não conseguimos entender. Enquanto fazemos questão de separar, ela une o que para nós é impossível nos limites da lógica formal, do cotidiano, da experiência e nos desafia na fé. Contudo, não nos é escusado refletir, raciocinar, e tentar entender sobre a vida que Deus nos deu e como é nosso relacionamento com Ele, com Suas criaturas, com nossos irmãos em Cristo, com nossos amigos e o mundo que Ele criou e que dEle se afastou, à luz de Sua revelação em Seu Filho e em Sua Palavra.

Credo ut intelligam et intelligo ut credam.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.