1 de abril de 2010

Abrindo cortinas

Para, em especial, Francisco, do texto “Esquerda, direita, volver!”

Agradeço seus comentários e sua retificação sobre minha "picaretagem".

Eu acho que, de novo, a questão do Girard, embora você aponte como o "Eldorado" do texto da Norma, não explica muito.

Aliás, como disse minha noiva, a Ultimato não publicou previamente uma bibliografia obrigatória para a leitura do artigo. Portanto devemos considerar os argumentos “a seco”, mesmo.

Por outro lado, se você realmente acha que para discutir um texto político (não filosófico) é necessário "casar" com o pensamento de Girard e seguir adiante cegamente, até onde as conclusões chegarem, eu vou ter que parar de falar sobre o assunto, ou qualquer um que seja, pois isso elimina o espaço para o debate. Aliás, se o Girard é tão importante assim nisso (realmente, admito que não sei), podemos colocar toda a discussão política em suas mãos e deixar pra lá, pois é inútil discutir entre nós, reles mortais, leitores de revistas comuns como a Ultimato ou de blogs de crente, como o meu e o da Norma. E dessa, infelizmente, nem você escapa, hehe.

Se "todo o texto da Norma parte do Girard", ela tinha que ter ficado nele, nas suas mesmas bases religiosas de expiação. De fato, se o título fosse "Por que não sou socialista", ou "Por que não sou comuna, camarada", ou qualquer coisa do gênero, eu não teria me manifestado, pois nem eu sou nenhum dos dois.

Mas "esquerda" é forte. E, em vez do que você considera ser Girard, é o título de um texto que dá o tom da conversa.

Eu dialogo abertamente com o Girard, a seu pedido, sem problemas: acho corretíssimo isso e acho bonita sua maneira de ver as coisas: os mal-resolvidos socialistas que tentaram expurgar o mal, por não encontrarem a solução em Cristo, acho belíssimo e real. Mas não existe apenas o mecanismo de expiação no jogo político. Aliás, nunca ouvi ninguém fazer política com isso como consideração básica. Nem economia. Ficar só nele é omitir questões igualmente (eu diria mais) sérias, como os privilégios dos partidos comunistas e socialistas, frutos do que penso ser orgulho e, se me permitir, de um senso de darwinismo social auto-legitimado.

Para Weber, a partir de um cenário de seleção social (vitória daqueles que possuem qualidades de força, devoção, originalidade, técnica demagógica, etc.) a realidade social se dá num complexo de estruturas de dominação.

É uma teia. Portanto, é impossível pegar somente um veio teórico e sair andando (ou panfletando) como se fosse a única coisa que existe.

A sua esquerda, dada a defesa apaixonada, é toda identificada como uma coisa só.

É isso? Você concorda com isso? E o centro? E a centro-esquerda?

Respeito o Olavo de Carvalho, ele escreve muito bem e ele tem um texto bom aí na rede, "A verdadeira direita". É legal, pois, ao vorazmente atacar a esquerda, ele a torna caricata, quase comedora de criancinhas, e sempre cega, babona, ao chamar o partidário de direita de nazista. Ele tem muita razão. Mas, uma vez identificado o seu grupo político, que maneira melhor de defendê-lo que criar uma caricatura do "inimigo"?

Se é só este o pensamento que vale em política, valha-nos Deus, pois estamos mal, muito mal... Se é só direita e esquerda, estamos pior...

Eu e você, que participamos das eleições mais recentes, sabemos que a coisa não é assim. E, no Brasil, nunca foi. Nunquinha. Esquerda sempre foi o lado da "oposição". Na verdade, seria preferível uma nomenclatura adequada de "situação" e “oposição”, em vez de “direita” e “esquerda”, pois, diferentes destes últimos termos, os primeiros não confundem. De resto, temos que chamar os bois cada um com seu nome correto: comunismo, anarquismo, socialismo, sócio-democracia, etc., pois toda hora alguém muda de partido. Veja que não incluí as designações econômicas, mas só políticas, pois ainda trazem mais complicação. Acho que a confusão, lidando com este tipo de assunto, é inevitável. A miríade de partidos e as constantes infidelidades partidárias são mostra clara de que não tem movimento coeso e, menos ainda, imaculado no nosso Brasil. Desculpe-me, mas a cena política brasileira, incluída a direita como protagonista, é uma lama em que chafurdam com gosto os porcos.

Não defendendo o atual governo do PT, mas a esquerda imaginária é o PSTU, o PCO, partidos que são quase inexpressivos diante do cenário nacional e que não têm voz nem crédito, e, por se auto-intitularem uma “verdadeira esquerda” nem são alinhados com o PT. São caricatura, ou melhor definindo, um projeto anacrônico falido.

Mas a postura crítica em relação ao liberalismo econômico clássico ("laissez faire, laissez passer") é vital para que haja a manutenção dele mesmo funcionando da melhor forma. Aliás, diga-se que este tipo de ideologia liberal só surgiu por causa da esquerda de seu tempo, os iluministas diante do Absolutismo.

As reformas entram todas junto no corpo iluminista e abrem caminho para uma via de mão dupla. Dupla, não, tripla, quádrupla, plural. Rousseau, Voltaire, e até Adam Smith, veja você, podem ser chamados homens das luzes, atualmente. A mesma teoria (liberal até a próstata) que impulsionou a Revolução Francesa para a contrariedade do Absolutismo era a "esquerda" de então. E nem lá era monolítica. Tinha democrata e já tinha um gérmen de socialismo com Babeuf. Muita ironia...

Punição de dissidentes, ninguém quer. Bem, eu não quero, mas isso não acontece aqui por ser governo de "esquerda" hoje. Já aconteceu o contrário, com o regime de 64.

Aí eu me pergunto: Lula é de esquerda, no sentido que a Norma usou? Do mesmo jeito que Cuba, Venezuela, URSS, RDA, Coréia do Norte, China? Acho que é bem difícil... Ele fala é um monte de bobagens. Por exemplo, em relação aos dissidentes de Cuba, quando não tem um diplomata ajudando nos discursos.

Agora vamos ao que mais te agrada: voltar ao Girard. A seguinte frase: "Para confessar esse endosso, precisaria necessariamente subverter todo o pensamento bíblico, substituindo a criação divina pela matéria autônoma, o pecado original pela propriedade privada, a salvação em Cristo pela revolução socialista", não pode ser explicada por Girard, por meio das palavras do texto. Ou pode? Se pode, eu perdi onde, exatamente. Ao que parece, o seu argumento poderia ser posto da seguinte maneira:

1. existe um mecanismo de expiação;

2. este mecanismo de expiação explica a maldade dos Estados socialistas do séc. XX;

3. o cristão que é de “esquerda” entra ou aceita este mecanismo.

Não sou perito em lógica, mas este é um sofisma da pior qualidade. 3 não tem relação NENHUMA com 2!

Digo isso, pois:

a. “esquerda” não quer necessariamente dizer “socialista” ou “comunista”;

b. o cristão, para ser cristão, se subverte o “pensamento bíblico”, deixa de ser cristão (vamos entender essa expressão aqui como “as doutrinas clássicas do cristianismo, comuns a todos os cristãos”). Assim, ele aceita o sacrifício de Cristo antes que qualquer outro mecanismo de expiação se anuncie. Logo, a proposição 3 não faz sentido, pois o cristão não entra no mecanismo, nem pode aceitá-lo, pois entrar nele é deixar de ser cristão;

c. o mecanismo de expiação não é ‘privilégio’ da esquerda, mas de diversas religiões em todos os tempos, com panoramas políticos completamente segmentados e distintos. Não é caso político, é fenomenologia da religião, ou antropologia;

d. a “direita” nunca utilizou o mecanismo de expiação? Pois se usou, temos um fundamento para todos os grupos políticos. Não foi Mussolini que deu as mãos ao Papa Pio XI, em Roma? E vai me dizer que a ICAR é de esquerda?

Ou seja, o argumento de Girard só se aplica dentro da ótica que você quer usar, hermética, com um tapa olhos, já direcionada para o seu caminho certo.

Sendo menos rigoroso: que cristão autêntico faz efetivamente isso de subverter a Bíblia desse jeito, meu Deus?!

Isso, simplesmente, não existe. O texto e essas ideias fazem parecer que, para afirmar qualquer tipo de pensamento desviante da “posição” de “direita”, a pessoa tenha de rejeitar a fé. É o quê, “caça às bruxas” na igreja?

Eu reitero, não sou militante de coisa nenhuma, mas dizer que a posição de esquerda é única e contrária a Cristo é não entender sua formação plural.

Se o termo se deteriorou e é usado exclusivamente para falar de "socialista", desculpe-me por toda a discussão, seria desnecessário eu ter escrito isso tudo e retrucado.

Mas, claramente, não é, pois justamente o que se oferece no título “Por que não sou de esquerda” dificilmente é o que se recebe no texto em relação à esquerda, mas sim em relação ao socialismo.

Falar que o socialismo é ruim, tudo bem, eu concordo com você: os exemplos históricos todos foram péssimos e eu é que não quero ver o mundo com o Estado mandando nas minhas e nas suas liberdades individuais, inclusive a de protestar.

Mas esquerda, do jeito que temos hoje, não é isso, preto no branco.

O trocadilho era em relação ao significado da palavra 'católico': perfeito e universal, que acho que fica engraçado diante da especificidade da ICAR. Mas não quero falar sobre isso, para não desvirtuar a conversa.

A questão é: é a esquerda monolítica do modo como vocês nos fazem supor ou isso foi um equívoco?

Acho que, com isso, honestamente, encerrei minha argumentação sobre o assunto. Cada um fique com sua posição política, mas não tente legitimá-la às custas de Cristo, pois não é de bom tom e estamos cheios disso na mediocridade dos dias de hoje.

Unamo-nos como irmãos, procurando o melhor de cada lado da conversa. Se liberdade, liberdade; se ajuda aos pobres, ajuda aos pobres. Acho que esse é o esforço que vale a pena e o que está na mente do nosso Senhor, quando fala que devemos amar o próximo. Se algo aqui ofende, minhas desculpas, mas fiquei empolgado com a discussão e estaria mais do que pronto a retirar uma linha ou outra, caso alguém se sinta ofendido.

4 comentários:

Roger disse...

Oi André,

gostei muito do seu texto enxuto.
Primeiro ele define (ou pelo menos dá contornos) ao termo "esquerda".

Você mostra, com toda razão, que as esquerdas são muitas e que jogar tudo num só balaio, não é somente complicado mas errado.

Isso é fato. Vi isso em minha época de DCE onde meus colegas do PT ou PSDB estavam radicalmente opostos ao PCdoB e vice versa. Isso é observado também no racha PT x PSTU. Aqui na Alemanha o SPD tende mas jamais faria uma aliança com o Links Partei (que seria continuação do Partido Comunista da Alemanha do Leste).

Qualquer cristão que tenha o mínimo de consciência política e entenda o mínimo do que seja evangelho e Reino de Deus, saberá diferenciar as esferas de ação de cada proposta. Aliás, um cidadão comum institivamente saberá apontar qual "plano" tem sua tônica nas coisas espirituais e eternas, e qual tem a tônica no que é temporário e material.

A dificuldade, para alguns, está justamente quando as duas esferas se cruzam - e elas sempre se cruzarão. A meu ver cabe a consciência de cada um, tando pelo lado espiritual, quanto pelo lado material, escolher qual linha seguir. Eu particularmente acho qualquer proposta que favoreça uma distribuição de renda mais justa, mais coerente com as páginas da Bíblia.

Finalmente, concordo com você, já havia colocado isso no meu texto crítca, que esta história de Girard é puro sofisma. Você observou bem, além de não fazer lógica nenhuma com os pontos do texto, ninguém precisa buscar Girard para explicar algo que é do senso comum (bode expiatório). Eu acho ainda mais engraçado apelarem para Girard como se fosse uma porte de escape para saírem do debate.

Um forte abraço,

Roger

André von Held Soares disse...

Olá, Roger!
Es ist sehr gutt, dass du hier bist und schreibst!
De onde na Alemanha você fala? Morei em Mannheim em 2008, quando fiz meu projeto final de curso na Hochschule de lá. Eta coisa boa!
Pois é, na Alemanha há um cenário maduro pra se debater esse tipo de coisa nas raias formais, pois há uma influência ainda grande dos remanescentes da RDA e ninguém seria louco de dizer que, hoje, a esquerda de lá (ou daí) é a mesma que foi antes do muro. E ela existe mesmo e é influente.
Taí um exemplo cabal, sem perigo, capitalista, potência europeia, intelectualizada, berço das teorias.
Aliás, Norma, se você ler isso aqui, já fica respondido o seu outro comentário lá no "Esquerda, direita, volver!"
Muito obrigado pela visita, Roger, pelo comentário e, graças a Deus, pela convergência, não só na tolerância, mas, muito mais especialmente, no evangelho.

É verdade que o dilema do cristão é esse mesmo: o de transitar entre o temporal e o eterno. John Stott, se não me engano, é quem fala que o crente vive no problema do "já" e "ainda não". Já é salvo, herdeiro dos céus, Filho de Deus, mas ainda não deixa de pecar, só vê os problemas herdados do dia anterior, ainda não viu seu Irmão.
Com certeza, o desafio é dar coerência a uma vida de cristianismo fiel aos princípios bíblicos, sem mascarar as dificuldades de olhar o próximo, a troco das liberdades individuais.
Se perdemos isso no plano 'teórico', que será da prática?!
De capitalismo nos templos, eu estou farto: basta ver a IURD, RR, Malafaia, etc.
Aliás, eu publiquei aqui no blog um texto, também meio político, contra o absurdo de um Conselho Federativo de Teólogos. Tá muito grande, mas acho que equilibrado.

Um forte abraço,
André

Roger disse...

Oi André,

eu moro perto de Nürenberg.
Legal saber que você já passou por essas bandas aqui.

Grande abraço,

Roger

Marcello de Oliveira disse...

Shalom!

Uma alegria conhecer seu blog. O Eterno resplandeça o rosto Dele sobre ti!

Medite no Sl 36.8,9

Nele, Pr Marcello

Visite: http://davarelohim.blogspot.com/

e veja o texto:

Ressurreição: A morte da morte

P.s>>> Caso vc se identifique com o blog, torne um seguidor. Será uma alegria!

grato

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.