7 de março de 2010

"A sabedoria mora com gente humilde..."

Um dos desafios, talvez o maior, nas relações morais e éticas humanas, é a conquista de um caráter humilde. Isso tanto entre religiosos, cristãos, agnósticos, ou seja o que forem. Ou a humildade é simplesmente desconsiderada, como no caso de Nietzsche, que joga no lixo todas as virtudes que chama de "fracas", ou, se levada a sério, é uma pedra necessária na formação do indivíduo saudável. Benjamin Franklin, um dos que gosto, depois de fazer uma lista de virtudes que o levariam à perfeição moral, caso praticadas constantemente, havia deixado de fora a humildade deliberadamente. Por indicação de terceiros, notando que sua lista estaria evidentemente incompleta, ele incluiu como uma 13ª virtude (fora de um cânon de 12, portanto), a humildade "restante". Diz ele:

"Na Realidade, não há, das nossas paixões naturais, uma mais difícil de se subjugar do que o orgulho. [...] Você verá que isso ocorre talvez nesta História. Pois mesmo que eu concebesse que o superei por completo, eu acabaria orgulhoso de minha humildade." (Franklin, B. Autobiography. Library of America - tradução nossa)

Como cristão, não há para onde correr, senão para a Palavra de vida:

“Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11; v. 25 a v. 30).

O texto acima pode ser interpretado a partir do seguinte contexto (em especial para os que tiverem alguma preguiça de pegar a Bíblia - como seria o meu caso):

Após escolher seus Apóstolos (Mt. 10; v. 1 a 4), Jesus deu uma série de instruções, recomendações e ensinamentos a seus discípulos a respeito das ovelhas perdidas da casa de Israel (v. 5), para que pregassem a proximidade do Reino de Deus e, com isso, curassem enfermos, expulsassem demônios, ressuscitassem mortos, purificassem leprosos. O poder destas ações vinha da graça e da fluidez da graça de Deus: “de graça recebestes, de graça dai” (v. 8). Mais a frente no cap. 10, Jesus admoesta que os discípulos sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas (v. 16). No fim do cap. 10, Jesus ensina que quem recebe seus discípulos verdadeiros, por Ele enviados, a Ele recebe e terá as recompensas da fé nEle.

Havendo dito estas coisas, parte de onde estava para ensinar e pregar nas cidades dos seus 12 discípulos. Corazim, Betsaida e Cafarnaum fazem parte dos lugares por onde passa o Cristo. Nesse meio tempo, João indaga, por meio de seus próprios discípulos, se Jesus é o Cristo e, da parte de Jesus, além da confirmação prática - "os cegos veem, os coxos andam, os mortos são ressuscitados e aos pobres está sendo pregado o evangelho" - há o testemunho sobre o "Elias", a voz do que clama no deserto. A partir daí, Jesus passou a "increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres", utilizando textos de Isaías sobre a soberba destas e apontando para o juízo vindouro.

Em especial, podemos pegar o pedaço em que ele diz: "se em Tiro e Sidom se tivessem operados os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido" (v. 21). É, essencialmente, uma questão de preconceito em relação ao que se via, pelas mãos de quem se operavam os milagres, e de um orgulho que direcionou a um coração duro.

Vamos agora tentar olhar para o texto.
As frases estão no imperativo, mas são gentis e há uma ordem, uma sequência:

1º Ir a Cristo (os cansados e sobrecarregados). 2º Com o alívio do cansaço e da sobrecarga, toma-se, metaforicamente, um novo jugo. 3º Aprender de Cristo.

O fardo pesado pode ser visto como o fardo de buscar conhecer a Deus e de com ele se relacionar pelos caminhos errados. Como, pela trilha mais difícil, tentar escalar o Everest, ou tentar atravessar o Atlântico a nado. Não há fardo tão pesado quanto buscar o summun bonum por nossos próprios meios, de buscar a verdade ardentemente e não encontrá-la. Jesus instrui com sua própria presença: passar da forma à realidade, da letra ao espírito, das tradições à voz presente de Deus.

Poderíamos entender algo como “Não somente aprenda com meus exemplos, mas obtenha o seu ensinamento de mim; me tome como seu Mestre na religião.” A lição a ser aprendida aqui é não só em relação à humildade, mas acerca da verdade sobre Deus e retidão.

A conexão entre o espírito de humildade e o conhecimento de Deus acaba, portanto, sendo um tanto conclusiva: o orgulhoso não pode conhecer a Deus. As coisas estão ocultas aos sábios, mas não aos pequeninos, aos simples (v. 25).

Um segundo ponto a ser ressaltado é o de que ser humilde com nossos iguais é participar da vida.

Fiquei impressionado com as palavras do filósofo Schopenhauer, aquele que dizem ter sido o primeiro homem no ocidente a se professar ateu e que criou a corrente filosófica do pessimismo, que tanto influenciou Nietzsche:

“Minha vida é heróica e não pode ser avaliada pelo metro do filisteu, pelo cúbito do merceeiro, muito menos pela medida do homem comum, que não possui outra existência senão a do indivíduo limitada a um curto espaço de tempo.[...] A existência destes homens transcorre de maneira sempre igual. Já a minha vida, ao contrário, é intelectual, e seu desenvolvimento regular e atividade constante têm de produzir frutos nos poucos anos de pleno poder espiritual e de sua livre utilização, e, assim, por séculos enriquecer a humanidade.”

“Missionários da verdade a ser transmitida ao gênero humano, como eu, após terem se reconhecido como tais, pouco terão em comum com as pessoas, exceto por sua missão, assim como os missionários na China que não se confraternizam com os chineses.”

“Como para mim as pessoas com quem vivo nada podem ser, meu maior prazer na vida são os pensamentos monumentais deixados por seres semelhantes a mim, que, como eu, uma vez vaguearam por entre a gente do mundo.” (Schopenhauer, A. A arte de se conhecer a si mesmo. São Paulo: Martins Fontes, 2009)

Nossa fonte, contudo, são os ensinamentos e a vida de Jesus que, ainda bem, correm na direção oposta destes ditos.

Nada na conduta de Jesus nos aponta que seja legítimo preterir outras pessoas, em relação a nós mesmo, com base em preconceitos, ou orgulho.

Ele lava os pés dos discípulos, anda e come com pecadores, abre conversa com uma mulher samaritana, toca doentes e leprosos, chora por um amigo querido e até beija seu próprio traidor. Sua jornada emocional e prática demonstram verdadeiros carinho, compaixão e uma consideração ímpar do próximo.

É necessário um comportamento de valorização do outro. A velha “regra de ouro”, quando apagada, gera os mais sombrios comportamentos e conceitos em relação ao nosso igual.

Seria interessante ver o que alguns disseram a respeito deste mesmo tema, embora, agora, declaradamante.
C. S. Lewis escreve:

“De acordo com os mestres cristãos, o vício fundamental, o mal supremo, é o orgulho. A devassidão, a ira, a cobiça, a embriaguez e tudo o mais não passam de ninharias comparadas com ele. É por causa do orgulho que o diabo se tornou o que é. O orgulho leva a todos os outros vícios; é o estado mental mais oposto a Deus que existe.” (Lewis, C.S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005)

O Deus do evangelho, para que fosse conhecido, não escolheu ser um ser etéreo, acima de tudo e todos, com poder infinito e com nula capacidade de oposição a si mesmo. Embora seja o Todo-poderoso, Deus preferiu encarnar, viver na Palestina como judeu, pertencer a um povo, viver em seu meio, lidar com ele diariamente, se envolver com as pessoas no nível mais básico das relações humanas.

Karl Barth escreve:

“A novidade verdadeira e decisiva vem a ser o novo ser humano que, conforme o testemunho bíblico, agiu naqueles feitos em meio às outras pessoas, como senhor, servo e fiador de todas elas, e neles anunciou a si mesmo e, com isso, a justiça e o juízo de Deus, e assim revelou a sua glória.” (Barth, K. Introdução à Teologia Envangélica. São Leopoldo: Sinodal, 1996)

Se o próprio Deus que em tudo nos é diferente e superior, que nem por analogias nem pelo raciocínio mais elaborado conseguimos entender sequer um parcela pequena de quem ele seja por completo, enfim, se o próprio Deus do universo quis voluntariamente se tornar um igual a nós, não nos restam desculpas para nos pensarmos fundamentalmente diferentes de nosso próximo, vizinho, irmão.

Concluo com isso que o caminho da humildade deve passar necessariamente pelo reconhecimento de que Deus deve ser posto no lugar de sua verdadeira ocupação em nossas vidas: em primeiro lugar, pois não há nada que consiga se mostrar de maior importância que Deus e seu reino.

O caminho da humildade deve passar necessariamente pelo reconhecimento do próximo como igual, pois o próprio Deus, em tudo diferente, se fez um igual.

O caminho da humildade parte e chega em Cristo e depositamos a confiança de que os fardos e lutas da nossa alma têm descanso nEle.

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Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.