25 de março de 2010

A Nova "Cristandade"


"Sede uns malas descrentes e excessivamente críticos, especialmente com coisas relacionadas à mística da fé, sem amor nenhum pelo próximo, pois o Senhor vosso Deus parece mesmo ser só um conto de fadas." (possível lema da nova "cristandade", não, não é versículo bíblico).
Ninguém me disse as palavras acima, mas eu acho que, dentro em breve, isso pode acabar sendo um bom slogan (se você gosta de uma linguagem comercial) ou motto (se você prefere um tom clássico) para um tipo de comportamento estranho que se desenvolve hoje na sociedade e transborda naturalmente para o cristianismo.
Não posso, assim como acho que ninguém pode, precisar que tipo de movimento está por se vivenciar no meio dos cristãos de hoje, mas parece-me, muito honestamente, que o cristianismo está trazendo para si gente da melhor qualidade.
Digo isso em oposição ao que seria de se esperar: que o cristianismo, ou melhor, que Jesus Cristo, conforme nos dizem as sagradas letras, tem a intenção de trazer para si os pecadores; a gente comum, como eu e você, que peca, tem problemas, tem dificuldades na fé, mas que, carente por um conserto, se volta para o Deus de amor que criou o universo, cabalmente manifesto em Jesus.
Parece-me que todas as conquistas da Igreja são coisa de somenos para uma nova cristandade que rejeita os absolutos ("Igreja" entendida aqui como o mundo de gente que viveu, vive e, na pior das hipóteses, tenta viver de forma sincera os ensinamentos de Jesus).
Podemos começar com a Igreja Católica mesmo, que teve homens a quem honrar, parte de nossa história de vidas que miraram os céus como alento, esperança e fonte verdadeira do fluir do Espírito Santo de Deus.
Podemos continuar pelas igrejas que surgiram depois da Reforma, irmãs (queira ou não a Católica) em Cristo que, ao abalar as estruturas, dinamizaram a fé, guardando princípios intocáveis: a graça, a fé em Cristo, revelado pelas Escrituras e, em tudo, a glória dirigida ao Deus único e verdadeiro.
Enfim, quero dizer com isso que, embora este seja um recorte pequeníssimo de eventos, creio que uma amostragem maior mostrará o cristianismo feito de coisas que não estão na pauta do dia, ou melhor, na agenda do mundo moderno e, com isso, acaba por não integrar as agendas de gente boa demais para viver a vida de Cristo, tenham estas pessoas boas ou más posições sociais. É claro que não quero advogar que "tem que ser ruim para ser cristão", mas desconfio que a miríade de pessoas que andam com a razão hoje em dia daria inveja aos iluministas.
Há um ditadinho popular que diz "cada cabeça, uma sentença" que, transposto à cristandade pós-moderna de hoje, seria bem colocado como "cada cristão, um cristianismo".
Sem sombra de dúvida, os cristianismos do passado guardavam pontos de vista tão discrepantes que chegavam a ser irreconciliáveis. Tomemos os gnósticos, os arianos, os montanistas, os pelagianos, os católicos e outros grupos e veremos que há espaço de sobra para dissidência e opiniões diferentes. Por isso, há quem leia este texto e o descarte por completo.
Mas gostaria de pensar o cristianismo como a agradável figura do corpo, com muitos membros, de que Paulo fala. O escritor Philip Yancey tem ótimas ilustrações a este respeito e uma delas, se bem me lembro, é a igreja como o corpo de Deus: sua parte material, física e palpável. Somos seu cartão de visitas, seu intestino e sua boca.
Numa via de mão dupla, o que consumimos e expressamos acaba sendo a imagem social do Deus que ficou na terra e ainda está por aí. Para bem ou para mal.
E é aqui que vejo a complicação para nós, igreja de hoje: estamos falando asneiras sem sentido por conta de um dominante senso comum de relativismo moral e valorativo que contamina a humanidade. Cada um acredita em uma coisa a ponto de ser, por vezes, impossível distinguir um membro de uma igreja evangélica de um membro de uma igreja messiânica, por exemplo. Os discursos são parecidos e, no fim das contas, algumas coisas roubam a cena e pontos periféricos da fé (importantes, sem dúvida) acabam por se transformar em essencial: felicidade, prosperidade, paz interior, e, o que acho que é pior, cada um tem a sua verdade.
Isso não é a regra, mesmo nas igrejas mais "estranhas", mas parece que é algo que subjaz em nosso discurso cada vez mais abafado e rouco.
Dificilmente, hoje, vejo um crente, a não ser que esteja envolvido com um movimento de divulgação do evangelho, realmente confrontar verdades relativas com um discurso coerente e, perdoem-me o momento "penteca", cheio do poder do Espírito Santo e com convicção de que sua verdade é a verdade.
Não é uma entre muitas verdades espirituais, não é verdade porque o crente quer que seja verdade, não é uma verdade que vá fazê-lo ganhar dinheiro ou tentar dominar a política, mas é a verdade única da pessoa Jesus Cristo, que é o caminho para Deus e, pelo qual, quem está no caminho para Deus não vai ver tropeço e os que não estão neste caminho precisam ouvir dele com relativa urgência.
Vale lembrar que dos diferentes grupos de que falei (gnósticos, etc.) um sem fim, na verdade a maioria absoluta, acabou por se "desligar" espontaneamente do cristianismo, ou acabou extinta, fosse por força de combate a heresias de igrejas oficiais, ou por morte morrida.
Eu prefiro ficar com um evangelho velho, mas verdadeiro de verdade e de vida.

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Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.