30 de março de 2010

Esquerda-direita, volver!

O texto abaixo é uma crítica ao texto "Por que não sou de esquerda" de Norma Braga, publicado na revista Ultimato, na seção "Deixe que Elas Mesmas Falem". Para acessá-lo, vá em http://normabraga.blogspot.com/2010/03/por-que-nao-sou-de-esquerda.html


Esquerda-direita, volver!

Se há uma virtude que vale a pena perseguir é a seguinte: a de escrever bem.

Norma Braga, que nunca conheci, detém esta virtude. Fala das coisas do cristianismo de forma pujante, vigorosa, com vontade mesmo de lhe conferir seu lugar real (ou, pelo menos, ideal) no mundo: no centro dos debates.

Contudo, no que me parece um visível arroubo de contrariedade em relação à cena política nacional atual, esta mesma autora lança-se a comentários que, ao meu ver de leigo, mas de pessoa interessada, são também amadores e mal colocados no que se refere ao que ela chama de “esquerda”. Portanto, eu diria que nada é mais justo do que, em meio ao amadorismo, eu também me lançar à crítica.

O primeiro ponto a se tratar é o da origem da palavra "esquerda" e suas designações que tenham referência, não a direções físicas, anatômicas ou cardeais, mas de claro viés político. Mas antes, é claro, deve-se tentar explicar o porquê da esquerda como a “sinistra”.

Ao que parece, na Inglaterra, desde o século XIII, surgiu a ideia de esquerda como “oposta à direita”, e até como “fraco, tolo”, sentido este que veio na esteira das transformações das palavras do Germânico antigo, do Holandês medieval, do Frísio, do Letão antigo e de toda sorte de outras variantes das antigas línguas do coração da Europa. Interessante notar que, naqueles tempos, diferentemente do que Norma nos faz pensar, “left” podia significar “limp” (mole), “dangle” (frouxo). Meu chute é que isso tudo tenha a ver com a inegável inabilidade de muitos destros em utilizar seus membros esquerdos.

Por outro lado, a “esquerda” encontrou o grego e o latim em posição distinta daquela esposada acima: do grego “aristeros”, retira-se, grosseiramente aqui, o significado “o que é melhor”; do latim, “sinister”, oposto a “dexter”, acabava por ser palavra utilizada como “contrário, desfavorável”, ao mesmo tempo que foi extrapolada para o italiano guardando o mesmo significado que é a nossa esquerda: esquerda.

Essa longa introdução pra dizer o seguinte: o sentido político só surge com “la gauche” da Revolução Francesa, em 1791, na Assembleia Nacional. Para entender a simplicidade e mesmo a beleza da origem, ajuda-nos Michel Vovelle:

“A destruição do Antigo Regime institucional e social era o prenúncio do importante texto da Declaração dos Direitos do Homem que apareceria algumas semanas mais tarde.

Foi a primeira etapa de um gigantesco trabalho de transformação e de renovação da França que essa Assembléia irá realizar.

Antes de relembrá-lo, vamos pôr as coisas em seu devido lugar. Trazida de Versalhes no dia 6 de outubro de 1789 por um cortejo de mulheres, a família real encontra-se agora em Paris, no Palácio das Tulherias. A Assembléia Nacional reúne-se próximo dali e começa a ter suas primeiras experiências políticas: ainda não se fala em partidos, mas os grupos já entram em confronto: à direita ficam os contra-revolucionários e aristocratas, ou “negros”; no centro ficam os patriotas constitucionalistas, onde oradores como Mirabeau e Barnave se valorizam; e, à esquerda, alguns democratas, como Robespierre, se destacam.” (Vovelle, M. A Revolução Francesa explicada à minha neta. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 2005)

Se só a mim, não sei, mas fica clara a posição geográfica do grupo democrata. Não só isso: a própria manifestação política que determinaria as bases de uma nova França e que daria à revolução um sentido, contava com, pelo menos, três grupos, de diferentes ideologias. Vovelle parece sugerir (à sua neta) que não é apenas recomendável, mas saudável, que haja pluralidade de engajamento político. Assim, tão orgânica quanto a direita, tão “braço” ou “mão” quanto a direita, é a esquerda. E, mesmo ali, há uma posição de centro. Todos no mesmo jogo político, com participações antagônicas e (por que não?) complementares, justamente por serem opostas.

A leitura mais crua que seja da formação da Assembleia Nacional francesa, ao lado do movimento de Independência dos EUA, faz saltar aos olhos que as nossas bases políticas, tomadas de empréstimo em algumas coisas, têm em sua raiz uma esquerda bastante coerente, oposta às arbitrariedades e privilégios do Antigo Regime. Democratas bem diferentes do DEM e de outros partidos organizados de direita de hoje. Antes de um governo, ou mesmo das definições de sua linha de atuação e direção, a discussão foi feita, ou pelo menos pretendida, nos moldes da pluralidade, da participação.

Mas não devemos ficar emperrados no final do tal “século das luzes.” Tanta água correu desde lá, que é impossível olhar a esquerda como monolítica. Andando pelo século XIX, é o trabalho de Marx e de Engels que alertará para o fantasma que assombra a Europa, um fantasma vermelho, bem mais desagradável que o “bom velhinho”. Falemos sobre isso apenas muito brevemente, pois o leitor já está farto de saber dos movimentos operários na Inglaterra e de todo o ‘furdunço’ comunista e socialista, que fez pipocar dezenas de movimentos revolucionários. Certamente não serei eu quem lhe instruirá.

Mas tomemos Marx, que morreu exatos cem anos antes de meu nascimento, e veremos que seu manifesto fez trazer a esperança de um mundo, quem sabe, mais justo, uma vez sumido o mal da religião, do Estado como invenção burguesa, da mais valia, etc. e todos os outros jargões do comunismo panfletário e incendiário dos professores do Ensino Médio, ou dos militantes de diretórios acadêmicos de humanas. Mas fica a pergunta: isso é a esquerda? Sim, por certo.

Mas cabe uma outra pergunta: isso é a esquerda? A resposta, tão sonora quanto a de cima é que não, não é!

Não há monólito na esquerda. Aliás, cabe dizer que nem mesmo nos exemplos da Norma Braga. A esquerda de Chávez não é a esquerda de Lula e nem é a esquerda que FHC professou por quase toda uma vida.

Vale dizer, a título de exemplo, que a República Popular da China rompeu com a União Soviética, símbolo maior do socialismo real e continuou comunista.

Assim, acho que fica claro que não existe uma (numeral) esquerda, tanto quanto não existe uma (também numeral) direita. Existem várias, pra todo gosto.

E é aqui que o caldo fica grosso. O que é que se quer dizer com “Em primeiro lugar, por que um seguidor de Jesus aderiria a um arremedo de plano da redenção?”

Se isso quiser dizer que o cristão substitui a verdade de Cristo por uma outra coisa, o evangelho por “um outro evangelho”, eu concordo plenamente que um seguidor de Jesus nunca deveria encetar tal empresa. Mas, vistos os diálogos políticos como são, os planos de ação como estão, e as ideologias norteadoras como de fato são, será que não se pode pensar um cristianismo autêntico que passe longe dos mecanismos sufocantes do livre mercado, que ampare o pobre, que tente combater a fome e lute por justiça social, nas raias da igualdade, ou algo bem parecido, pelo menos no melhor dos sentidos sociais?

Dizer que socialismo, como corrente ideológica, é “arremedo de cristianismo” e até, indo além, que um Mao Tse Tung é anticristo, embora eu tenha minhas reservas naturais a estes excessos, não me parece disparatado, sendo eu cristão, (re)nascido do Espírito, tentando discernir coisas do espírito.

Mas, no plano duro da política real, num discurso que, se não é, parece que claramente contrapõe esquerda e direita, me dizer que é impossível uma luta política coerente que leve Cristo a sério e utilize ferramentas adequadas, ou mesmo visões de mundo distantes do que parecem ser os ditos do “deus mercado”, isso é demais. É muita miopia.

Parece-me que Norma, com dedos mui delicados, uma mente bastante brilhante e num compromisso, imagino, realmente sincero de consagrar o cristianismo como visão de mundo suficiente para o cristão, escreve de modo a dar a ideia de um monólito duro e intransponível que seja “a” esquerda e, por isso, não quer ser dela. Bem, essa esquerda aí eu também não quero: a que é avessa ao cristianismo, matou milhares nos Estados Socialistas, em nome de um vazio. Fico juntinho da Norma Braga e, creio eu, de todos os cristãos autênticos que entenderam, receberam e creram no evangelho.

Mas, diante de uma esquerda multifacetada, plural e, bem... anárquica, socialista, comunista, socialista cristã, cristã socialista, sócio-democrata (por incrível que pareça, pelo menos no nome, isso é muito de esquerda), eu me sinto à vontade, pois não faz o menor sentido essa designação como um corpo doutrinário homogêneo, atualmente, no Brasil. O Lula de hoje é de esquerda? Fala sério... Todo mundo é neoliberal: esquerda, direita... Talvez, melhor nos sirvam os termos "oposição" e "situação", pois estes não revelam as mutantes ideologias.

Peguemos um trecho do texto que vale a pena ser lido de perto, com lupa: “De várias maneiras, o governo atual, honrando suas influências teóricas e suas alianças internacionais, busca cada vez mais controle sobre a sociedade.” Como é isso? Isso é piada... Que alianças internacionais de esquerda o Brasil está trazendo para si de maneira a controlar a nossa sociedade? Isso é uma política do Itamaraty, que faz questão de ser pragmático em suas relações e tão pouco ideológico quanto possível? Ou é coisa de mídia? Nosso maior parceiro comercial são os EUA, desde sempre. Temos tão boas relações com a Europa que, recentemente, o chanceler da Alemanha se disse arrependido por não ter dado a importância devida ao Brasil, assim como viera trabalhando a França. Os EUA nos ferram no negócio do algodão e a gente espera pra tomar as medidas legais da OMC. We’re gentlemen, ma’am. Enfim, diria, como protesto final, que a agenda do Lula é quase a mesma do FHC, só que um era mais elitista e o outro mais povão. Diferença ideológica, que honra influência teórica, com Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do Bank of Boston, como Presidente do Banco Central (que em 2002 se candidatou pelo PSDB a deputado federal e ganhou)?

Enfim, de que esquerda estamos falando? De uma esquerda imaginária, mítica, que é a primeira a ser apontada como radical, pobre e burra; ou de outras muitas esquerdas reais, históricas, incoerentes no todo, sem objetivos idênticos e de difícil apontamento?

Se o artigo fosse “Por que não sou de algumas esquerdas”, eu, honestamente, permaneceria calado, mas como não foi o caso, achei difícil me segurar.

Por fim, pra não dizer que não falei das flores, a Bíblia nos fala do cristianismo primitivo, ou, como gostam os historiadores do Novo Testamento, do “seguimento de Jesus”, como uma comunidade nascente muito plural. Não vou entrar no mérito das milhares de alegações sobre as dezenas de “Jesus históricos” que supostamente teriam pisado a terra palestina. Mas, o povo que efetivamente seguia a Cristo era a gente pobre, rejeitada, o que os irmãos Stegemann chamam de "estrato rural inferior" em seu livro História Social do Protocristianismo. E é em Atos que a celebre maneira de se ajuntar foi firmada: “tinham tudo em comum”. Isso, é certo, está a léguas, léguas não, anos-luz do que viria a ser teorizado como comunismo. Mas, ao mesmo tempo, mostra que, independentemente de governos, Estados, posses, posturas econômicas, o ensinamento do nosso Senhor deve nos fazer andar em humildade suficiente para reconhecer nosso próximo como igual e a compartilhar com ele do que temos. Essa é a boa e velha esquerda de sempre. Essa é a revolução que se espera do cristianismo. Ainda, nas dimensões em que vivemos, não aconteceu, por culpa nossa.

Qualquer babeufismo, marxismo ou bakuninismo é pífio perto do cristianismo que se espera dos cristãos de Jesus, pois temos teoria, capacidade de mobilização voluntária, a própria chancela da verdade, e, não bastasse isso, o próprio Deus como líder supremo do único movimento que, antes de mudar conjunturas, passa pela mudança do coração. Entretanto, todas as vezes que o cristianismo falou com voz política, falou muito grosso, pela boca de reis, do clero e de governos que, muitas vezes, esmagaram os mais pobres. Até bem pouco tempo, a direita americana (bem cristã) estava lá invadindo o Iraque por razões avessas ao cristianismo, mas com uma desculpa informal de legitimidade santa. Da mesma forma, alguma possível esquizofrênica “esquerda única cristã” faria as mesmas ou piores atrocidades, com a mesma legitimidade, caso estivesse no poder. Ou seja, não há lado bom, quando se mistura Estado e ideologia religiosa oficial. Por isso, também tenho minhas dúvidas sobre a esquerda, mas ela dá um banho na direita.

Seria de se esperar uma esquerda cristã por vezes querendo reconduzir os caminhos do Espírito e uma direita sempre omissa, quando o Espírito sopra.

De verdade, resta mesmo, para uma conduta cristã real, uma vida de joelhos, em oração e meditação na Palavra de Deus, deixando que ela fale de um movimento que supere os lados, que supere as disputas.

13 comentários:

Francisco Razzo disse...

Prezado

E o René Girard? Lembra dele no texto da Norma?

Respeitosamente
Francisco

André von Held Soares disse...

Francisco,
Acho que você se refere ao primeiro parágrafo, especialmente ao trecho:
"Este é o “mecanismo do bode expiatório”, segundo René Girard: fazer com que alguém encarne o mal e eliminá-lo, gerando sacrifícios sem fim (enquanto a Bíblia enfatiza: o sacrifício de Jesus é eterno)."

O que que tem?
O René Girard fala isso a respeito da matança nos Estados Socialistas?
Ou você se refere a uma transposição de sentido para o texto dela?
Isso é, de fato, elegante e bem pensado!
Pena ser um detalhe no que texto e no que ela quer dizer como um todo. Não me serve de "fundamento filosófico" para esta discussão, pois o ponto central não é a lógica de expiação. O primeiro parágrafo dela é realmente ótimo! E não discordo dele em nada.
O negócio é lá pelo terceiro parágrafo.
Deduzir todo o resto que ela disse a partir daí é que, pra dizer o mínimo, não é lógico. Ou é, desde que se façam necessárias distorções. Dizer que esquerda=gente que mata para expiação de seus próprios pecados, nem passou pela minha cabeça, pois seria mais grave ainda esse tipo de olhar, simplista demais pra alguém que escreve tão bem.
Na verdade, pode-se dizer o mesmo de "direita" e de "igreja", fazendo o recorte histórico certo (Inquisição, etc).
Caso surja alguma outra sugestão de chave de leitura para o texto dela, ou mesmo um outro texto seu sobre o assunto, estamos abertos.

Aliás, passei no blog lá da Norma Braga e tenho que perguntar: de onde você tirou que sou picareta? Hehe... Pega leve aí, que você nem me conhece, cara. Seja, de fato, respeitoso. Somos irmãos em Cristo, não?
Não estou em rivalidade política ativa (no sentido de militância)com você, nem com a Norma, ou qualquer grupo político que vocês representem e não estaria, pois detesto esse tipo de coisa. Acho que seria terrível, ruim mesmo, descambar para antipatias.
Devemos superar mesmo isso e, sejamos o que formos em assuntos periféricos, caminhar mirando o nosso alvo comum, que é Cristo.
Nosso ponto de convergência deve ser maior que o de divergência, não concorda?

Norma disse...

André,

Você perguntou: "O René Girard fala isso a respeito da matança nos Estados Socialistas?"

Se você fosse leitor do meu blog, saberia que sim. O espaço em que escrevemos nas revistas é limitado e eu tentei condensar o máximo de informações em um mínimo de caracteres. NADA em meu texto é solto ou aleatório. Como sempre, a associação entre Girard e pensamento conservador parece estranha à primeira vista (para variar, ele foi sequestrado por esquerdistas aqui no Brasil, como o famigerado Boff), mas o bode expiatório é algo também usado para explicar nãoo só as matanças totalitaristas, inclusive comunistas, no melhor estilo Hannah Arendt (aliás, esses dois autores dialogam perfeitamente bem), mas para criticar o pensamento politicamente correto. Ahá! Por essa você não esperava, hein?

Mas vou ser má e fazer suspense: vou deixar para citar Girard lá no meu blog. Quem sabe assim você se torna meu leitor. :-P

Abraços!

André von Held Soares disse...

Querida Norma,
Fico feliz que você tenha vindo aqui e lido meu texto! Isso é ótimo para a atmosfera de debate!
Minha pergunta sobre o Girard foi meio inocente mesmo: nunca li um livro dessa pessoa, mas só uns trechos soltos. Parece ser bom.
Só achei que transbordar isso para o plano político requer, no mínimo, rigor. Desculpe-me, mexo com equações e, talvez apegado a elas, para mim os mecanismos lógicos de dedução têm de ser muito formais, para validade. Transbordar reflexões específicas para outro campo de significações requer, portanto, minúcia que, como você bem coloca, não é para textos pequenos.
Mas não precisa me dar textos grandes também, pois já estou com uma agenda específica de leituras.
Só achei que seu texto, justamente por estas considerações peca em:
1. faz uma consideração preto e branco de um cenário necessariamente hipercomplexo;
2. desconsidera as origens dos movimentos de esquerda;
3. tira conclusões precipitadas a partir de uma visão muito particular de mundo, na verdade de uma opinião, ampliando para um universo muito mais amplo que o da opinião (ser de direita é uma coisa, mas seu texto dá a entender que a esquerda é uma coisa só);
4. por entender que a esquerda é uma coisa só e, neste caso, nem dá pra discordar que seja ruim (socialismo comparado ao nazismo), um cristão não pode esposar uma opinião de esquerda, afinal é contrária ao que cremos.
Acho que o problema fundamental é encarar "esquerda" como uma coisa só, algo monolítico e solto na história com uma mesma 'cara', como eu disse nos meus textos.
E a esquerda à extrema direita de Hitler? Dietrich Bonhoeffer foi o quê? Seu cristianismo não pode ser aceitável? Um homem que lia a Bíblia de joelhos e deixou uma teologia riquíssima.
Karl Barth, um de meus preferidos, tido como o maior teólogo do século XX, que se recusou a servir ao Reich e teve de ir morar na Suíça. Que dizer dele? Não pense que não houve teólogos, pastores e clérigos de diretia, que apoiaram o regime hitlerista. Os houve, sim, senhora! Direitona. Há quem questione que o facismo italiano não foi de direita, mas, em relação nazismo, poucas são as dúvidas de um pensamento muito forte de direita. Em especial por suas alianças com o DNVP, antigo partido de Otto von Bismarck, mais conservador, impossível.
Se a situação na Europa é duvidosa, que dizer de um Frei Beto diante de um regime militar nacional-desenvolvimentista? Veja que não estou falando de gente "polêmica" para a teologia como Rubem Alves ou Leonardo Boff, não... Aqueles e Frei Beto são os que escrevem com uma coerência, perdoe-me o trocadilho infame, 'católica'. Não é teologia liberal.
Barth é, para mim, o produto de 2 mil anos coerentes de labuta teológica que sabe argumentar diante do liberalismo social e teológico.
São esquerdas várias, direitas várias...
Vou apenas dizer, para terminar, que é um prazer que você esteja aqui! Volte sempre.

Francisco Razzo disse...

Prezado!

Todo o texto da Norma parte do Girard. Como assim "O que que tem?"

Apesar dela já ter explicado, toda discussão que ela apresenta parte justamente da ideia do mecanismo do bode-expiatório.

A primeira coisa que uma crítica sensata do texto dela precisava fazer, no mínino, era dialogar abertamente com a tese do Girad a partir do problema do mal.

E sobre a questão de esquerda, socialismo, neoliberal, capitalismo, tenho a impressão de que há uma confusão nos termos.

Mas de qualquer maneira, eu gostaria de retirar o termo "picareta" que usei lá no blog da Norma quando me referi a você. Foi um péssimo uso de ironia.

A propósito, não entendi seu trocadilho:

"Aqueles e Frei Beto são os que escrevem com uma coerência, perdoe-me o trocadilho infame, 'católica'. Não é teologia liberal."

Como assim escrevem com "coerência católica"?

Att
Francisco

André von Held Soares disse...

Francisco,
Como o espaço aqui é muito pequeno e a discussão é boa, estou publicando o que eu iria escrever aqui num novo texto.
Obrigado pelas considerações!
Um abraço,
André

Norma disse...

Oi, André,

Olha, não posso responder a tudo agora, mas vou apenas dar umas pinceladas.

É certo que a esquerda não é uma só, mas arrisco-me a dizer que na América Latina ela é vivida como uma só. No Brasil, não temos um leque aberto de fato. Aqui há ex-guerrilheiros no poder que portam bandeiras vermelhas e expressam sua filiação a Fidel, Chávez, terroristas etc. Há anos estamos imersos em uma educação que exalta o totalitarismo comunista (de Cuba, por exemplo, que está longe de ser "socialdemocracia"). Isso gera automaticamente pessoas simpáticas ao comunismo, cegas para as atrocidades desses regimes. Além disso, os que se dizem "socialdemocratas", com raras exceções, também apóiam Cuba. Os raros socialdemocratas no Brasil são chamados de... adivinhe? Direitistas! Como Demétrio Magnoli, por exemplo.

Some-se tudo a isso a um desconhecimento geral acerca do liberalismo econômico e da literatura conservadora, e você tem praticamente um país "blindado". Diante desse quadro, creio que posso generalizar sim.

Acredito que nossa conjuntura de Brasil Colônia de Portugal nos tornou psicologicamente dependentes do governo e nos formatou para acolher as ideias comunistas. O brasileiro acredita que o governo é como um Pai que deve cuidar do povo em todos os sentidos. Nisso, abrimos mão de nossa autonomia em troca de péssimos serviços públicos, impostos pesadíssimos, um jugo terrível sobre o empreendedorismo e um cerceamento ideológico inacreditável na educação. Querer algo diferente disso equivale a viver com um pária (quando se opta por um curso sem reconhecimento do MEC, por exemplo).

Quando a igreja começa a querer fazer parcerias com César para a implementação de um programa que substitui a justiça de Deus pela justiça socialista, é hora de denunciar e gritar. Governo socialista não pode ser confundido com Reino de Deus, a menos que se resolva adorar o Estado. Quem promove essa associação está levando o povo à idolatria (conscientemente ou não) e isso é inaceitável.

Toda essa celeuma em torno do meu artigo só demonstra meu ponto: em um país "blindado" como o nosso, fica parecendo que eu falo uma língua alienígena. No entanto, há muito material disponível por aí. Você pode consultar meu blog e ver que ali há muitas respostas para as objeções levantadas, além dos livros que volta e meia indico. Falta informação pura e simples aos que têm criticado meu artigo.

Abraços!

André von Held Soares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André von Held Soares disse...

Olá, Norma!
Bom te ver por aqui de novo.
Acho que dizer que na América Latina a esquerda é vivida como uma só é complicadíssimo. Em especial, por termos movimentos revolucionários diferentes. Tome o México, por exemplo: uma Constituição que vem desde 1917 e é a mesma até hoje, gestada em ideologias anarcossindicalistas (odeio escrever tudo junto assim) e marxistas. Hoje vemos um México, não com problemas políticos graves por causa da esquerda, mas com um problema que também nos é mais urgente: tráfico de drogas e poder paralelo. Quero dizer, no campo internacional, ninguém é que nem o Evo Morales ou o Chavo. Que o Chávez é um tosco, não precisa nem dizer, por sorte da Venezuela o Brasil não isolou o regime e o traz para as negociações. Esta é uma marca da diplomacia brasileira, independentemente de ideologia política. Basta ver o Barão. Mas há ainda outros contrapontos a isso: Chile e Argentina, por exemplo. Os movimentos de esquerda na Argentina são de retórica, quando não envolvem panelaço. No Chile, a esquerda é admirada e parece também ser afinada com nossas vozes tupiniquins da social-democracia.

Imagino mesmo que você não pense só em dinheiro e nem que acumulá-lo em demasia seja bom.
Mas eu acho que o Estado, independentemente da Igreja, deve atentar para os mais pobres, sim. Deve tirar as crianças da rua para que não cheirem cola, deve ter planos básicos de habitação, de urbanização. Deve dar igualdade de oportunidades. As tais famigeradas "bolsas farelo" não fazem sentido pra mim, que moro em Icaraí, tenho vida boa, computador e blog pra encher a paciência dos outros. Mas pro sertão nordestino, onde essas bolsas são a única coisa que mantém a economia de uma cidadezinha e a gente viva, é complicado. Não é perfeito, e acho absurdo realmente as pessoas viverem de esmola, mas esmolar é um ato humano de desespero ou de vagabundagem. Estou inclinado a pensar que nem todo mundo é vagabundo.
Além disso, sou fruto da Universidade Pública (e de qualidade). Nosso ex-guia FHC quase fez tombar os valentes ex-colegas de classe, sucateando tudo. Não estamos nada prontos para engendrar um sistema livre como nos EUA, onde educação universitária é um absurdo de tão cara. Queiramos ou não, não estamos no desenvolvimento que queríamos e temos que lidar com isso, talvez, progressivamente atinjamos uma condição de livre comércio, Estado fraco, qualquer coisa...
Mas, por enquanto, fico com as palavras de Paul Valéry: "Se o Estado é forte, esmaga-nos. Se é fraco, perecemos."

Aliás, se eu tiver que apostar minhas fichas, aposto na volta de Cristo. Isso sim eu quero ver e disso quero muito participar!

De novo, muito obrigado pela sua participação aqui.
Um abraço,
André

blogmoderador disse...

Caro André,

Deixando minhas preferências políticas de fora, apenas gostaria de elogiar a salutar dissociação feita no seu post entre cristianismo e direita.

Abraço!

Robson Wellington

André von Held Soares disse...

Opa!
Muito obrigado, Robson.
Fique à vontade para falar sobre o assunto, se quiser.
Um abraço!

Anônimo disse...

Parabéns, excelente texto, André!

Só uma observação quanto ao seu comentário: "Mas pro sertão nordestino, onde essas bolsas são a única coisa que mantém a economia de uma cidadezinha e a gente viva, é complicado."

Generalizou tanto quanto Norma e a sua "a esquerda", não? rs.

Abraços de um admirador sertanejo.

André von Held Soares disse...

Meu amigo "sertanejo",
Muito obrigado pelo comentário e pela admiração, hehe!
Realmente, generalizei e peço até desculpa por isso, se for necessário.
Na verdade, eu tinha ouvido isso como fonte vinda de um missionário que estava no sertão (meus pais estavam na igreja, conheceram o missionário pregador, que lhes disse que havia uma cidade em que ele estava que tinha sua base econômica, ou parte dela, nas bolsas). É coisa pra cidadezinha bem pequena, coisa de vila. De fato, não fui verificar a informação e foi uma generalização.
Mas volte sempre, que muitas vezes a coisa é menos turva, hehe
Um abraço!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.