8 de março de 2010

Da humildade - outras considerações

No último texto, empolgado pela tarefa de pregar sobre o assunto, escrevi algumas considerações sobre humildade.

Gostaria agora de rever algumas de suas lacunas.

Em primeiro lugar, devemos tratar da palavra o mais objetivamente possível.

Humildade vem do latim, de humilis, “humilde”, que é uma palavra que literalmente significa “no chão”, vinda de humus, “terra”. Não por acaso, a Língua Portuguesa preservou intacto o significado da palavra “húmus”.

Em fins do século XIV, o verbo humilhar passou a ser usado para indicar a ação de “se render humildemente” e a transposição de seu sentido ocorreu a partir do século XV, significando “rebaixar (alguém) em dignidade”.

De qualquer forma, fica claro que humildade e humilhação são palavras muito próximas, não só em sonoridade, como em suas origens.

Enquanto a primeira reserva-se à atitude intransferível originária de controle da vontade, da “vontade de poder” e do próprio orgulho, a segunda pode indicar um orgulho que tome o controle, faça os mandos e a outros humilhe. Ou, mais extremo, a humilhação pode fazer que o sujeito a si mesmo se humilhe, num ato que ultrapassa a própria humildade ou, numa visão mais amena, num ato que acaba por ser a expressão última e mais pungente da humildade, da auto-submissão.

Ao olhar para os evangelhos, a encarnação do divino traz Cristo para não só o nível humano, mas o humilha pelo simples fato de que um Deus todo-poder se auto-submeta à realidade terráquea.

Em outras palavras, o Deus que se torna homem não se tornou um deus acima dos homens, mas se tornou um deus que faz questão de vir da terra, do húmus, do chão, de origens humildes. De acordo com os irmãos Stegemann:



“Aplicando nosso modelo de estratificação social das sociedades antigas, fica claro que a esmagadora maioria dos membros do seguimento de Jesus é oriunda do estrato inferior rural. De acordo com nossa estratigrafia, apenas o cobrador de impostos Levi/Mateus deve ser incluído no séquito do estrato superior (retainers), embora evidentemente em um grupo inferior do mesmo. O que parece distingui-lo é uma notável falta de prestígio social. Também no entorno mecênico pode ter havido membros do estrato dos retainers. Membros do estrato superior, porém, não constavam do círculo dos seguidores, mas, no máximo, do círculo dos simpatizantes (José de Arimateia).[...] Ou, formulando a pergunta de outra maneira, a saber, com o auxílio dos conceitos gregos para “pobres”: Jesus e os seus discípulos e suas discípulas pertenciam aos pénetes ou aos ptochoí? A última alternativa é a mais provável, ao menos para o período da sua existência itinerante.

[...] O abandono dos vínculos socioeconômicos por parte de Jesus e seus seguidores significava, ao mesmo tempo a participação no destino dos mais pobres da sociedade judaica e, com isso, a dependência de auxílio. No entanto, o descenso econômico assumido aqui voluntariamente não representou uma significativa renúncia às posses, visto que Jesus e seus discípulos de qualquer modo já faziam parte dos sem-posse; ademais os limites entre os relativamente pobres (pénetes) e os absolutamente pobres (ptochoí) eram fluidos.” (Stegemann, E.W. Stegemann, W. História social do protocristianismo. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004)

E Jesus não permanece apenas como o Deus que do chão vem, é levantado e erguido às alturas ou ao combate messiânico, davídico, triunfal, esmagador, incontestável... O movimento anterior à Ascensão do Senhor é o movimento do madeiro, da maldição, da cruz, da humilhação absoluta.

O Deus do Cristianismo (permito-me referir-me a ele sempre em maiúsculas) é o Deus que, enquanto absoluto, se desabsolutiza e escolhe olhar seus diferentes nos olhos, como um igual e, circunstancialmente, até inferior pelos olhares e valores do mundo (dinheiro, fama e poder). “Pode alguma coisa boa vir de Nazaré?” é a pergunta que é respondida com mansidão pelo Senhor de todas as coisas.

Seu ensinamento é de que a virtude não repousa sobre nada que dEle não venha.

Seu olhar nos olhos permite, inclusive, que o olhado tenha a pretensão de O olhar de cima para baixo. A criatura parte de um olhar inofensivo e chega a um olhar arrogante. “Como um deus assim se atreve a querer ser meu Deus?”

Mas não nos enganemos: a vida que nos permite olhar assim para Deus é uma dádiva dEle e as decisões que tomamos não nos podem desculpar do Deus que é, embora humilde, Senhor dos Exércitos e acima de qualquer guerra. Diz a Bíblia que horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo.

O Deus vivo é o Deus humilde e creio que sua natureza seja sempre esta: boa, eternamente boa, constrangedoramente boa.

Horrenda coisa é permanecer orgulhoso diante de Deus, presunçoso de que suas promessas e sua vida sejam pouco para nós. Horrenda coisa é desprezar o Senhor Jesus de Nazaré, tomando sua humildade como humilhação gratuita e não mais que sua suposta obrigação.

Deus nos livre de ousarmos olhá-lo de cima para baixo. Preserve-nos Ele em seguir a gente humilde.

Um comentário:

Anônimo disse...

Just want to say what a great blog you got here!
I've been around for quite a lot of time, but finally decided to show my appreciation of your work!

Thumbs up, and keep it going!

Cheers
Christian, iwspo.net

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.