4 de janeiro de 2010

Um engenheiro químico em desabafo

Eu devo confessar: não estou muito satisfeito com minha profissão.
Digo isso numa postura que, ainda que incômoda em relação a tudo mais, dá folga em me situar com propriedade na assertiva que fiz acima, pois estou desempregado há um ano e meio. E não sou o único, de muitos colegas.
Aparentemente a minha situação é a seguinte: ano passado me formei por meio de um intercâmbio vivido na Alemanha, voltei logo no estouro da crise econômica (setembro/outubro) para casa e me enfiei em todos os programas de trainee possíveis das grandes empresas, de quaisquer nacionalidades que fossem.
Embora em algumas eu tenha conseguido chegar até o fim do processo de seleção me acotovelando com outros 15.000 candidatos e chegando a uma seleta mesa de 12 ou 15, não voltei com os louros. Nunca entendi exatamente qual é o critério e em que medida a avaliação psicossocial das dinâmicas, painéis e business isbraobous é séria, mas acho que pouco posso jogar culpa em qualquer lado da competição por uma vaga, quando há entre de 10.000 e 20.000 pessoas disputando-a.
Desiludido com esta dinâmica do grupo das grandes corporações privadas e percebendo que o salário de mercado é homogêneo para quaisquer empresas - estatais ou particulares -, direcionei meus olhares com atenção ao sempre chamativo eldorado dos concursos públicos.
O primeiro concurso que fiz foi o da Petrobras, (des)organizado pelo CESPE, que conseguiu a incrível marca de 18 questões anuladas em uma mesma prova (!). Fui aprovado, assim como outros 800 candidatos, mas num esquema meio loteria. Naturalmente não quero tirar o mérito e o brilho dos primeiros colocados, que merecem seu destaque, mas foi um troço muito mal feito.
Mas vida de concurseiro é assim mesmo... O motto é: não se faz concurso pra passar, mas até passar.
Com isso em mente, fui fazer uma prova em Campinas, para engenheiro químico da INFRAERO, coisa de vai-e-volta no mesmo dia, na garra. Acabei passando em 2º lugar.
Bem, se você pensou aí em me dar os parabéns, pode parar, pois o concurso, no fim das contas foi anulado. E mais: foi anulado somente para o cargo de engenheiro químico. Por quê?
Um velho problema político que ronda nossa classe profissional desde muito antes de eu nascer: o duplo registro em órgãos de classe (CRQ e CREA), gerado pela confusão da sobreposição das Leis Federais 2.800 e 5.194, de 1956 e 1966, respectivamente. Por uma questão delicada e enfadonha (com a qual não pretendo espantar meus 2 ou 3 leitores), o Conselho Federal de Química conseguiu uma sentença para mandado de segurança coletivo, alegando lesão a direito líquido e certo para "toda uma classe de profissionais".
Quem ficou mesmo certamente sem a liquidez do direito fomos todos os aprovados no certame (essas palavras vão entrando no nosso vocabulário de maneira muito natural) para cadastro de reserva, que pagaria o mesmo que uma multinacional, em torno de R$3.200,00.
Aliás, este é um ponto interessante.
No funcionalismo público brasileiro, ou você é do judiciário, ou vai penar pra encontrar um bom concurso.
Digo isso, pois pipocam concursos públicos pra tudo que é órgão ligado ao judiciário, com salários que nunca ficam abaixo de R$14.000,00 iniciais. Pelo menos eu não vi.
A coisa chega a ser tão incrível que o concurso que é um dos mais badalados atualmente para as áreas técnicas, o da Petrobras, é visto com um interesse muito secundário em provas para os advogados brasileiros. Já para os engenheiros químicos, esse é o mais concorrido, conseguindo compor uma relação candidato/vaga >140, fácil, fácil. Para, no máximo, umas 55 vagas, diga-se, e para um salário pouco maior que R$4.000,00.
Aqui gostaria de deixar claro que, apesar da velha rixa entre advogados e engenheiros, coloco minhas armas no chão por um momento, reconhecendo que a atividade dos operadores do direito é de fundamental importância na formação de um Estado justo, equilibrado, operante e eficiente.
Entretanto, com o judiciário que temos em mãos, salvas exceções como, por exemplo, o eminente ministro do STF, Dr. Joaquim Barbosa (doutor com doutorado, coisa rara), estamos todos muito mal, de facto.
Mas, mesmo assim, se você abrir qualquer informativo de concursos, vai ver que, por exemplo, hoje, foram abertas 143 vagas para a DPU, com salário inicial de R$14.500,00.
Esse tipo de coisa simplesmente inexiste na minha carreira. Não tem. O último concurso que fiz foi para cadastro de reserva e o penúltimo foi para 1 vaga, com 1 cadastro de reserva. Nesse, eu passei, em 4º lugar, mas esse tipo de situação é quase desmoralizante.
Mas, você me pergunta, por que eu estou reclamando tanto?
Se até o momento ainda não respondi com satisfação, os motivos são muitos.
O primeiro é que se há uma coisa de que os engenheiros químicos entendem é estudar. Estuda-se muito no curso de graduação. A não ser que se queira ficar 10 anos na faculdade.
Não há caminho fácil.
Nunca colei na faculdade. Isso me garantiu notas baixas. Mas mesmo quem colou também palmilhou um duro caminho.
Então, a primeira questão, eu a colocaria como um assunto de esforço não recompensado.
A segunda, uma desigualdade de classes, não sociais, mas trabalhistas, na esfera da formação superior, em que o trabalho não é também valorizado. Problema de valorização do profissional.
Em terceiro lugar, eu diria que a escassez deveria ser notada, uma vez que engenheiros em geral são vitais para a economia. São quem começa a produzir os meios de independência econômica de um país. O café não nos salvou e nunca nos salvaria... Pra ser mais claro, a exportação de bens primários, carro chefe de nossas exportações desde a colônia, pode, no máximo, nos levar a reboque de economias maiores. Esta seria, a meu ver, uma questão delicada, de deficiência de interpretação sócio-econômica, com raízes plantadas em um histórico de políticas de curto prazo. Só mais ultimamente isso tem sido mudado, com o Lula, ao menos efetivamente.
Com isso, em termos comparativos, o peso econômico dos salários do judiciário, em termos produtivos (o que o judiciário produz não tem valor econonômico - a rigor não deveria), é indefensável, diante dos salários de mercado dos setores produtivos. A lógica do capitalismo parece ainda operar colonialmente, chicoteando seus súditos.
Quero dizer com isso que é gerado um desbalanceamento na formação de bacharéis e engenheiros, a despeito das questões de vocação, de "chamado". Pois falamos de profissão e não de sacerdócio.
Um sintoma desse desbalanceamento é ver gente boa lá no Instituto de Química da UFF com um livrinho de Direito Constitucional na mão. Não era um aluno, mas um professor.
Ou se repensa a estrutura do judiciário, pra citar, de novo o Dr. Joaquim Barbosa, no Globo de ontem, ou se pensam as estruturas brasileiras que nos podem impulsionar a uma real independência (limitada, é certo, por força do mundo globalizado). Acho que pensar nesta segunda via é mais recompensador e inteligente. Enfim, aumento de salários e oportunidades.
Do jeito que as coisas andam, está difícil ser engenheiro químico por estas bandas.

7 comentários:

Liege Lopes disse...

Ainda bem que você é brasileiro e não desiste nunca... ou não.
A despeito de ser apenas um dia depois do outro, mas já que escolhemos o período pra renovar as esperanças, eu torço/oro pra que 2010 lhe reserve uma boa surpresa na área profissional.

Boa sorte amigo!

Rômulo Boechat disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Beethoven Lengruber disse...

Grande André!

Aproveito este tema, que nos é comum, para lhe mandar um abraço.

Feliz 2010!

O Reina disse...

Fiquei comovido...de verdade.

Luis Fernando Marques disse...

Atualmente está empregado?

André von Held Soares disse...

Oi, Luis!
Muito obrigado pelo sue comentário!
Há anos, você deve ter reparado, que não escrevo e fiquei muito surpreso por ter recebido um comentário no blog.
Respondendo sucintamente: sim, estou empregado, como professor de físico-química no IFRJ. Amo ser professor.
Antes de ser professor trabalhei como engenheiro químico no departamento de gestão ambiental da Casa da Moeda do Brasil e, em 2012, decidi virar professor com dedicação exclusiva.
Mas, relendo o texto, infelizmente, concordo e ainda tenho a mesma visão: engenharia química no Brasil é uma furada.
Bem, se quiser conversar mais sobre o assunto, estou à disposição.

Junior Tintino Soledade Dos Santos disse...

Olá, irei prestar vestibular para o curso de Engenharia Química, por ter muita afinidade com algumas matérias que envolvem o curso. Contudo, eu ando vendo muitos depoimentos de Engenheiros Químicos desempregados, e isso me desanima um pouco. Às vezes eu penso em mudar de curso, mas não sei se seria uma boa ideia. Já pensei em mudar para Economia ou Farmácia, pois acho o número de empregos disponíveis é maior. O que você acha sobre isso? Sinceramente, se não houvesse o curso de Engenharia Química e se você estivesse no meu lugar, qual curso você escolheria para prestar, visando ter mais estabilidade profissional no futuro? (Algumas pessoas me recomendam Engenharia Civil ou Economia. O que você acha?)

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.