24 de dezembro de 2010

José

E agora, com o menino?

Tem mesmo mistérios de Javé sobre a terra. Nunca pensei que fosse ver um anjo... A princípio, parecia mesmo algo terrível. Mas até agora a dúvida me cerca: será mesmo o menino... Pelo que o anjo disse no sonho, sim. E é um pouco estranho, pois parece que, em vez de meu filho, está para nascer meu pai!

Tem sido tudo tão confuso... Primeiro, Maria ficou grávida. Que foi aquilo?! Ainda bem que não segui meu primeiro impulso. Quase chego a desmanchar a coisa toda. Lembrei de como Davi roubou a mulher de Urias. E eu, burro, pensando que a Galiléia estaria livre desse tipo de pecado! Seria Maria como Bate-Seba?

Talvez nem devesse pensar nessas coisas, pois esses eventos certamente não são coisa normal, que a gente vê todo dia. Quando pensaria nisso na carpintaria, entre ripas e tábuas?

Depois, me veio o sonho, como nunca antes algo tão leve e forte me tivesse pegado: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela se gerou é do Espírito Santo.”

Acreditaria no sonho e voltaria atrás com o plano?

Confesso que me feriu o orgulho dos homens. Recebi minha mulher, mas não a conheci até agora. Deus, como tem sido difícil. Eu cri.

Mesmo assim, os olhares ficaram cada vez mais rudes na minha direção. Deveria era ter dado um soco naquele tio de Maria, pelo comentário.

Se fui tolo, não sei. Agora, de novo, aqui, sem achar lugar. Acho que vamos ter que dormir com os animais.

Meu Deus, que hora pra eu ter de vir a Belém! Contam a gente pra pagar mais impostos. Maria com esse barrigão, acho que vai nascer... Vai nascer... Ai, meu Deus, é agora! Agora... E agora?

– Força, Maria! Isso, força! Nasceu, nasceu! É o menino! Seu nome é Jesus, meu filho! O primogênito. Vou arrumar aqui a manjedoura. Ôôô! Ôôô! O resto dos animais já se deitou. Pode colocar aqui, Maria... isso, assim.

Nossa, que noite maravilhosa!

Vem chegando gente. Mas quem seria a essa hora aqui? Uns pastores, andam agitados. O anjo também lhes falou. Mais gente. Parecem importantes, gente destacada. O anjo, a estrela, os reis. Esse menino é mais que eu poderia ter.

Há algo maravilhoso aqui, pois a virgem deu à luz um filho, os magos vieram guiados pela estrela e os anjos anunciam aos homens a paz. Não há o que temer.

É mesmo a glória do mundo todo, aqui, entre nós. Chegou o filho de Davi. Meu filho. O filho de Deus.

Natal de 2010

21 de dezembro de 2010

Heróis

Ultimamente, uma das coisas que mais me aproximou da internet, de ficar grudado acompanhando, foi o largo vazamento de documentos secretos do wikiLeaks.

Outra notícia, que vale a pena registrar, é a manifestação do Dom Manuel Edmilson da Cruz, que recusou honraria do Senado Federal, por causa do alto auto-aumento de 61%.

Vamos falar do primeiro caso, internacional, pra depois falar da fofoca tupiniquim.

Estou pronto a dizer que a questão toda merece um filme e, quando for feito, estarei nas fileiras do cinema.

Se fosse eu a escrever a sinopse do filme, começaria escrevendo o seguinte:

“Um único homem consegue deixar a maior potência do mundo irritada, como se fosse uma criança mimada, acostumada a fazer artes na casa dos outros (mas só quando ninguém está vendo) e contar umas mentirinhas brancas da diplomacia: desde a transferência clandestina dos presos de Guantanamo para o Brasil até chamar o presidente russo de Robin. Antes as coisas virassem só conversa fiada... os EUA do pós-guerra fria e da interminável guerra ao terror empreendem uma caçada magnífica ao homem que se entregou por conta de seus valores. Esse homem é o agente Assange, Julian Assange.”

Ou alguma coisa do gênero.

Toda a história dos vazamentos do wikiLeaks me faz questionar pelo menos duas coisas:

1. o grau compromisso da grande mídia, que ora fica quieta e ora esperneia por liberdade de imprensa, mas que em muito pouco compra brigas como a que um ilustre desconhecido comprou;

2. a falta de méritos da Suécia em dar o Prêmio Nobel da Paz e isso ser um privilégio da Noruega;

O primeiro ponto é óbvio demais para exigir detalhamentos. Aí estão a Globo, a Veja, o Estadão, o Washington Post, The Economist, Le Monde, El País, Der Spiegel e toda a miríade de grandes jornais e revistas que enfrentam o mundo com suas verdades tão patentes que têm a coragem de, vejam só, publicá-las. Isso me remete a uma pergunta velha, vinda da boca de um político antigo: “Que é a verdade?” Deve ser o que publicam no Estadão...

O segundo ponto merece algumas considerações.

Assange, o homem da hora, caçado pela Interpol, deveria ser entregue à Suécia, extraditado por conta de crimes sexuais “muito graves”, de acordo com o juiz que estava com o seu caso. O homem se entrega voluntariamente e fica preso uns dias para depois ser solto. Interessante é que os crimes sexuais vieram bem a calhar, não sendo estupro, não senhor.

Leio aqui na Veja, portal da verdade:

“Em agosto, duas suecas foram juntas à polícia denunciá-lo (Assange) por crimes sexuais. Anna Ardin, uma militante feminista de 31 anos, hospedou Assange em seu flat de Estocolmo durante uma semana. Em uma das transas, ele não obedeceu quando ela pediu que parasse depois de o preservativo se rasgar. Dias antes, Assange e a fotógrafa Sofia Wilen, de 27 anos, haviam mantido relações sexuais. Sofia disse que eles começaram a fazer sexo no apartamento dela, mas, quando Assange se recusou a colocar um preservativo e ela tentou parar, foi coagida por ele a continuar. O hacker australiano defendeu-se dizendo que as parceiras estão mentindo.”(Veja, edição 2195, ano 43, nº 50, de 15 de dezembro de 2010)

Não vou entrar no mérito da sexualidade alheia, mas me parece que a questão realmente é outra, no que diz respeito ao julgamento da volúpia do homem.

Querem castrar Assange por outros motivos, motivos de liberdade, de poder, de não ser dado a um único homem o poder de fazer uma potência se abaixar para recolher seu lixo.

Mas, intrigante é o seguinte: a Noruega concedeu, neste mesmo ano de 2010, o Prêmio Nobel da Paz a um chinês, Liu Xiaobo, que está preso, imaginem vocês, por pedir mais liberdade em seu país. Um homem que, por fazer uma carreira de não-violência, acabou em cana em um país altamente opressor às liberdades individuais, valor aparentemente cultivado em todos os cantos do mundo. Diz a Folha de São Paulo on line:


O presidente do comitê do Nobel, o norueguês Thorbjoern Jagland disse que "a China tem se tornado uma grande potência em termos econômicos e políticos, e é normal que grandes potências estejam sob críticas". Jagland disse que Liu é um símbolo da luta pelos direitos humanos na China.

O premiê norueguês, Jens Stoltenberg, afirmou não ver motivo para a China punir a Noruega como país pelo prêmio. "Eu acho que seria negativo para a reputação da China no mundo se eles decidissem fazer isso." (Folha.com, 08.10.2010)


Ano passado, se não me falha a curta memória, quem ganhou o Prêmio foi o presidente norte-americano Barack Obama “por seus esforços para reduzir os estoques de armas nucleares e por seu trabalho pela paz mundial”. Deve ser isso mesmo que o irmão Obama anda fazendo.

Mas o wikiLeaks, por outro lado, divulgou que existe um número considerável de bombas nucleares de propriedade dos EUA na Europa. Coisa boba também, são mísseis de curto alcance, de 500, 600 km no máximo, espalhados na Bélgica, Holanda, Alemanha e Turquia.

O problema é que, mesmo que haja qualquer tipo de acordo capitaneado pelos EUA de retirar esses mísseis (START, Restarte, etc.) fica a pergunta: quem é que vai tirar os primeiros na Europa central sem retirar da velha Turquia?

Mas isso tudo é detalhe.


A questão absoluta que se coloca é: como é que pode, prender assim uma pessoa por divulgar informações verdadeiras e que não ferem a honra das pessoas (não xingou ninguém, nem usou palavras indecorosas), informações de interesse publicíssimo?

E mais, como é que a Suécia, que é aparentada à Noruega e dá outros prêmios incríveis pelas realizações humanas, pede que Assange seja extraditado para lá?

Achei irônico e muito legal que a Rússia tenha feito uma moção para darem o Prêmio Nobel da Paz a Assange.

Bem, pisando o nosso chão, Dom Manuel Edmilson da Cruz falou bonito como nunca vi.

Em seu sermão, recusou receber uma comenda do Senado, por achar que aquela casa não era digna da comenda que outorgava. Dignidade, se tem preço, certamente não pode comprada nem com um aumento de 61% de salário de picaretas.

Disse o querido bispo:

“A comenda hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Câmara. Não representa. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la. Ela é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, à cidadã contribuinte para o bem de todos, com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”, afirmou o bispo.

Ele destacou que o aumento dado aos parlamentares deveria ter como base o reajuste que será concedido ao salário mínimo, de cerca de 6%. “O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isso não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os direitos humanos do nosso povo”.(G1, 21.12.2010)

Seria bom se todo mundo reconhecesse um herói quando visse um. Só neste texto, tem uns 3: Assange, Dom Manuel, e Xiaobo.

Há uma mesma característica em todos três: eles não usam armas.

Sorry, Mr. President...

18 de dezembro de 2010

O Evangelho dos Autômatos V - A convergência

De fato, se há uma palavra que vale a pena percutir na relação entre os cristãos é a seguinte: casa.

Certamente não é pelo fato de morarem todos juntos, pois não moramos; ou mesmo por todos terem um mesmo histórico familiar, pois não temos; mas, pelo amor, nos tornamos irmãos. Dificilmente encontraremos uma palavra melhor para um tratamento adequado entre os cristãos. “Colega” é uma palavra profissional, “amigo”, às vezes, muito afetiva e talvez apenas os presidiários convertidos possam se chamar “comparsas” entre si sem que isso soe completamente estranho.

Casa é a palavra adequada, pois nela encontramos irmãos. Nela temos irmãos. Nela, amoroso ou dolorido como for, somos irmãos. E que casa seria essa?

Penso na casa cheia de gente que levamos conosco por todo lado e, se afrontados, não deixamos de falar que por mais que nossos parentes sejam gente problemática, são nossos parentes e, se cabe a alguém falar mal deles, primeiro seremos nós que falaremos. Ao intruso fofoqueiro não cabe nem uma migalha de oportunidade para maldizer os nossos. Ao menos assim seria uma irmandade que se protege mutuamente.

Creio na igreja como a casa que carregamos no peito e nas costas, cada um dos irmãos.

Nosso pai é um só e é o nosso pai. O Pai nosso, de todos os cristãos dessa terra.

É desta forma que eu gostaria de iniciar o comentário acerca do último ponto do calvinismo, “a perseverança dos santos”, encerrando, ao menos por ora, minhas considerações sobre o assunto. Talvez não seja muito um encerramento, mas um interlúdio muito grande, sem expectativa da volta dos atores ao palco.

Deus é o nosso pai celeste. “Nosso” como em “tão meu quanto seu”. E o que se fala dEle é também coisa nossa, a ser debatida entre nós, com respeito e reverência, como os tipos de presentes e nominações que queremos dar àquele que tudo merece. Assim entendo debates acalorados que querem chegar às conclusões que arranhem ao menos em parte as revelações sobre o amor de Deus.

Na irmandade da igreja, eu não concordo com muitos de meus irmãos sobre uma infinidade de assuntos. Mas nem por isso deixam de ser meus irmãos e, mais ainda, nem por isso devem ser diminuídos como irmãos. Mesmo nas brincadeiras em casa um chama o outro de feio e burro, mas dificilmente isso seria coisa para se aprovar.

Mas falava eu do calvinismo, de seu último ponto, em que eu, mui honestamente, não vejo saída. Não há porque deixar de concordar com meus irmãos calvinistas no que diz respeito à qualidade temporal da salvação.

Eu, como bom batista (ok, pode ser que eu não seja “bom”, mas fiquemos com batista), creio na salvação eterna. Isso ninguém tira da minha cabeça que seja um fato, mais do que uma especulação. Na verdade, nem é tanto da cabeça. Para mim, embora algum empoeirado teólogo vá questionar, não é tanto uma questão de teologia quanto de experiência.

Chamem-me de místico, mas não há mistério mais impressionante do que a pessoa saber que não vai morrer, ainda que morra. É uma daquelas situações em que faltam palavras para descrever com a clareza necessária o que de fato representa um novo nascimento ou uma vida eterna. Nada do que temos em mãos consegue satisfazer plenamente o que é a realidade inédita do cristão. Dizer que passou da vida para morte é uma descrição rouca, pois nem mesmo os nervos, as artérias e os sentidos dão conta da nova realidade chocante que é a vida de Deus nos enchendo os pulmões.

Assim, da forma como vejo as coisas, uno-me aos meus irmãos calvinistas para gritar que existe uma vida nova, um novo vinho, uma água viva que espanta a sede de forma completa.

Embora discordemos do acesso a essa vida, numa coisa concordamos: é coisa da qual não se caminha para longe.

Digo isso convicto de que existem verdadeiros mistérios nas Escrituras que podem me contradizer, caso vistos de outro ângulo. Mas esses mistérios me inquietam menos, não me convencem tanto quanto a força e a ternura do amor divino, prisma pelo qual leio o sagrado.

Pode-se pensar que há contradição entre o que afirmei em textos anteriores, mas não diria que este seria o caso. Há um velho princípio que pode muito bem se aplicar à realidade da salvação: quem nunca a teve nunca a poderia perder. Esboço, como complemento, que aquele que ainda vê e não quer a salvação, este dificilmente vai “perder” alguma coisa, pois a salvação lhe é estranha. Seu querer, que julgo ser exclusivamente seu, ou melhor, a dose mínima de discernimento que faz do homem mais que uma doninha ou um macaco em um momento consciente está direcionado para fora de Deus. É a pessoa que, míope, não quer óculos, pois pensa enxergar melhor sem eles; faminta, quer primeiro trabalhar para ganhar o pão, ante à oferta genuína de caridade.

Há um outro lado da história, que toca o cristão “morno”, sem dúvida. Um fogo consumidor, um noivo ciumento e um único Senhor absoluto estão todos, triunicamente, dispostos a zelar pela Vida dada, seja ela vivida com ou sem responsabilidade. Por mais que quiséssemos, a vida, agora insuflada com um novo sopro, não é nossa, por mais que nossas escolhas sejam.

Justamente pelo fato de a vida não ser nossa, nossas escolhas são mais nossas, pois podem assumir a leveza maravilhosa dos sonhos pelos encontros afetivos que virão ou, em diâmetro oposto, a gravidade das penosas teimosias infantis dos desejos por besteiras passageiras.

Assim, estamos em ponto de convergência, eu e meus irmãos calvinistas, seja lá no que mais crerem, quando dizemos com o coração que a salvação é eterna e que nada poderá nos separar do amor de Deus, nem outra criatura, nem poderes, nem altura, largura ou profundidade, nas palavras apostólicas.

Poderíamos aqui alugar o leitor com palavras pesadas e enfadonhas sobre sistemas, arranjos e lógicas da teologia, mas acho que não é preciso mais do que o alarmante bom senso: se qualquer coisa dependesse de um grande pecador como eu para a manutenção da salvação em vez de depender dos atributos de Cristo, eu nunca seria salvo.

Mas, como eu disse antes, não há razão que vença a experiência, pois é esta última que dá subsídios para que se formule a primeira. A vida que pulsa no cristão é nova, mais poética e real; não por ele mesmo, mas pelo Deus que nele habita.

24 de julho de 2010

O Evangelho dos Autômatos IV - O determinismo brevemente explorado

O universo é um lugar raro. Um lugar do tempo, do espaço, das partículas, da energia, da vida. Dificilmente encontraremos um outro universo, ainda mais um para chamarmos de nosso. Nosso universo.


Nosso universo parece que teve um início. Todo mundo concorda, inclusive cristãos e cientistas ateus, num formidável plano nivelador da fé no que não se sabe. Contudo, os primeiros crêem por causa da revelação e os segundos, por outro tipo de conclusão. Mas ainda não é hora de tratarmos dos últimos.


No balaio do cristianismo, o bom procurador encontra tesouros formidáveis sobre impressões o divino, da relação com o Criador, de Sua realidade em meio aos homens, constrangedoramente presente, ainda que invisível. E, diante dessa presença, podemos tomar o caminho de sua interpretação como uma presença livre, em vez de sufocante. Isso é o que defendo, ou tenho tentado defender em meus textos.


Pois bem, tratemos daquilo que podemos ver. Se não ver, medir.

Einstein, mesmo no topo de sua genialidade em conceber a estrutura gravitacional do universo, considerou a maior das correntes do pensamento físico, a mecânica quântica, como algo irreal, por percebê-la perturbadora, no Princípio da Incerteza, de Heisenberg.


Esse princípio postula que uma determinada partícula elementar (como um elétron) não pode ter duas de suas mais básicas informações medidas ao mesmo tempo. Ou sabemos a velocidade (através de seu momento) ou a posição em que a partícula está. Não conseguimos nunca saber os dois com precisão absoluta ao mesmo tempo. Esse princípio é um dos alicerces da mecânica quântica, do qual se extrai a interpretação física de que, uma vez que não sabemos onde uma partícula está e com que velocidade se move, o que podemos prever é somente a probabilidade de ela estar em determinada região do espaço, em determinado tempo (ou em determinada região do espaço-tempo).


Ao se defrontar com o Princípio da Incerteza, Einstein gracejou numa discussão, dizendo que isso seria simplesmente asneira, perguntando a Niels Bohr se “Deus jogaria dados”. Sua indagação seria sobre a possibilidade de que Deus fizesse apostas com a realidade, como num cassino (evidenciada pelo verbo alemão würfen). A resposta de Bohr foi de que “desde os tempos antigos os filósofos aconselham cautela ao lançar atributos cotidianos sobre Deus”.


A mecânica quântica, entretanto, permanece como parte das melhores explicações sobre o movimento do que há de mais fundamental na matéria, e o princípio da incerteza não escapa de ser uma interpretação coerente e válida, fisicamente, da realidade.


Realidade real, que fique claro: da minha vida, da sua, do universo, e de todo o apanhado minúsculo do que ocorre nas teias de relações entre quaisquer componentes do que conhecemos (até hoje) como matéria.


Eu me faço a pergunta necessária, talvez simples ou óbvia demais: como entender uma bagunça probabilística casual em sintonia com a harmonia impressionante que encontramos nos eventos importantes da vida? Ou na geração da própria vida? A probabilidade de que um evento assim complexo ocorra (ainda mais de forma abundante, ramificada, incontável e sinérgica) me espanta. É o milagre. A matéria nos aponta que mesmo a menor das partículas anda aleatoriamente pelo espaço, choca-se aleatoriamente e, mesmo assim, temos vida inteligente, consciente e todo o apanhado de circunstâncias adicionais que a mantêm subsiste graciosamente. Acho que ninguém esperaria tamanha sintonia a partir da bagunça quântica, invisivelmente orquestrada.


Fato é que a aleatoriedade existe, mas, paradoxalmente, algum determinismo também, pois não somos apenas um punhado de matéria orgânica rodopiando.


Bem, pelo menos tento não nos ver assim, flutuando como frutos do mero acaso. O acaso, por acaso, acabaria eventualmente deixando de ser acaso. Portanto, acredito em um acaso “programado” e controlado dentro de circunstâncias planejadas.


Mas desde o início, falávamos de calvinismo. É chegada a hora de abordar a eleição incondicional, como vela central a guiar um navio estrangeiro pelos mares do cristianismo primitivo. O capitão Agostinho, gênio e santo, merece nossas honras por ter levado a nau por tanto tempo e, ainda hoje, fazer adeptos de sua concepção de mundo.


A eleição, pelo prisma de Agostinho, parece ser de um determinismo suave, um determinismo que vence pelo amor que constrange. A graça é irresistível por sua própria qualidade de graça: uma vez que a graça de Deus se mostre ao homem, ele não vai querer ficar fora da graça, vai querê-la como a própria vida, como a única salvação, e ela não vai deixar, de forma alguma, de lhe ser eficaz. Além disso, a eleição tem que ser de Deus para o homem, de forma prescritiva, incondicional, pois o estado de miséria em que me encontrava era demais para que qualquer escolha minha fosse válida, ou pudesse ser levada em conta. O mais vil dos homens não pode escolher a beleza ou a santidade do Senhor. Por ser quem eu era, eu nunca poderia ter visto o que vejo hoje.


Assim, quero dizer, desse jeito, eu creio com todas as palavras. Eu sou um miserável e a salvação do Senhor me alcançou e eu só fiz recebê-la, mesmo na minha imundície.


O raciocínio de Agostinho vai andando de forma fabulosa e encontra verdadeiras fórmulas gostosas de se apreciar: como poderei ser salvo se nunca o desejei? Ou melhor, como desejarei a quem nunca conheci e como conhecerei a quem nunca desejei? Estas perguntas mexem com a gente, mas estão num panorama muito mais retórico do que lógico, para encontrarem sua validade.


Agostinho era mestre em contrapor e completar suas frases com antíteses e pensamentos circulares, poeticamente belíssimos e meio proverbiais, do tipo que não se vê a saída e sempre parece haver uma construção de projeção à frente (o exemplo de que mais gosto é “creio para entender e entendo para crer”).


Não sou, nem de longe, o melhor conhecedor de suas obras, mas mesmo Agostinho escreveu muito e, algumas vezes, de forma uma tanto resvalada em contradições patentes, de forma que um sistema agostiniano é impossível, pelo fato de ele tratar de diversos problemas filosóficos de forma interessante, mas dando a cor do argumento certo, na hora certa. Por exemplo, Agostinho, ao rebater o problema do mal, tece a idéia de que o mal é a ausência de Deus, como a sombra, a ausência de luz. Deste tipo de raciocínio seria impossível deduzir que Deus tenha decretado todas as coisas, pois, como seus decretos têm o peso de Sua presença efetiva, seria impossível que a ausência fosse decretada por Ele. Ou seja, se Seu decreto lá está, há um mandado seu, que inviabiliza a ausência.


Assim, o problema da salvação, no embate de posições teológicas é problema de sistema: como fica a negativa da salvação? Seria um tanto ilusório pensar que só existem arminianismo e calvinismo como sistemas possíveis. Melhor é enxergar um deles e se ater às conclusões necessárias. Este tem sido meu esforço ao longo destes textos: uma crítica ao calvinismo como sistema e uma apologia às correntes que reconhecem a liberdade humana, ainda que falha.


Nos mesmos mares da existência, Calvino ousou, de forma piedosa e, ao mesmo tempo, teocrático-ditatorial, dar resposta sócio-teológica ao problema. Mas pesar a mão só sobre Calvino talvez fosse maldade, haja vista a prática reformada, de um modo geral, com seus contornos do monergismo para a resposta sistemática da questão soteriológica, que não pode ser atribuída exclusivamente a Calvino, nem puramente à sua obra, mas a um apanhado de gente, de convenções, sínodos, confissões, etc.


Mas, no grosso, o projeto calvinista é claro em ter ido bem além da proposta agostiniana, dando resposta ao que pairava em silêncio: e a rejeição? Deus rejeita o resto de gente que Ele não escolhe?


Lutero foi diplomático em calar nessa resposta. Sua preocupação estava mais em dar um esfrega na ICAR, por conta de sua mega-autoridade papal, decidindo arbitrariamente quem ia e quem não ia para o céu, como se o mesmo fosse invenção e propriedade humanas, cujo direito exclusivo estava sob a tutela pontifícia.


Mas o projeto calvinista, não. Deu resposta: Deus rejeita.

Deus elege e rejeita incondicionalmente. O homem não só não participa de nenhuma parte desse processo, como a própria idéia de parceria é uma fraude. Deus nunca poderia colocar ao homem uma escolha. Os rejeitados são rejeitados por Deus, filhos da ira, vasos de perdição, justamente feitos para o propósito de serem quebrados, não que isso decorra de alguma vontade destes rejeitados, mas por decorrer da vontade única, exclusiva e soberana de Deus.

Diante disso, a argumentação básica é: mas e a liberdade humana, onde fica? Ela só acontece na terra, passageiramente, de forma ilusória, não relacional? O projeto de Deus para o homem é esse mesmo: uns para um lado, outros para o outro, a priori, sem a possibilidade de relação entre Deus e o homem?


A resposta do calvinismo é, de novo, firme: sim, o homem nada escolhe, já foi tudo determinado, antes que houvesse chance de qualquer escolha.

Independe da escolha do homem ser salvo ou não. Ou melhor, Deus não só viu como preordenou todas as coisas da maneira como elas se desenrolam.


E aí, amigo, a vaca foi pro brejo...

Pois o problema fundamental do mal tem a resposta em Deus. Deus criou o mal, o determinou e o faz funcionar, de acordo com o seu querer.


Minha dificuldade é a seguinte: como é que a gente, agora, identifica o mal? Pela Bíblia, alguém diria.

Mas, se Deus predeterminou o mal e predeterminou a escritura dos critérios por meio dos quais o mal fosse detectado, e, além disso, ainda predeterminou que nós o realizássemos, de acordo com a sua vontade, como é que nós poderíamos ser julgados por isso? Simplesmente pela leitura de que foi feita uma coisa errada por nossas mãos, mas de acordo com a vontade irresistível de Deus? Qual é a diferença causal entre o bem e o mal?


Esse é um problema “material”: nossas mãos passam a ser as mãos de Deus, em forma de miniatura, de títere, marionete. Não creio que o Deus vivo seja o Master of Puppets, “pulling the strings”. Não creio que sejamos autômatos. E estou em boa companhia. C. S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples, escreveu o seguinte:



“Deus criou coisas dotadas de livre-arbítrio: criaturas que podem fazer tanto o bem quanto o mal. Alguns pensam que podem conceber uma criatura que, mesmo desfrutando da liberdade, não tivesse possibilidade de fazer o mal. Eu não consigo. Se uma coisa é livre para o bem, é livre para o mal. E o que tornou possível a existência do mal foi o livre-arbítrio. Por que, então, Deus o concedeu? Porque o livre-arbítrio, apesar de possibilitar a maldade, é também aquilo que torna possível o qualquer tipo de amor, bondade e alegria. Um mundo feito de autômatos – criaturas que funcionassem como máquinas – não valeria a pena ser criado. A felicidade que Deus quis para suas criaturas mais elevadas é a felicidade de estar, de forma livre e voluntária, unidas a ele e aos demais seres num êxtase de amor e deleite ao qual os maiores arroubos de paixão terrena entre um homem e uma mulher não se comparam. Por isso, essas criaturas têm de ser livres.” (no capítulo A Alternativa Estarrecedora)



O conceito de decreto divino, além de idealizado necessariamente por uma mentalidade engendrada nos mecanismos políticos, que raciocinam sobre Deus não como um Jesus de Nazaré amigo e presente, mas como o grande César do mundo; tal conceito exige dele seus decretos, na mesma forma de governar mesquinha de uma pessoa maldosa e não vê o absurdo que oferece. Nas palavras de Saramago: “será que as pessoas que matam em nome de Deus não percebem que fazem de Deus um assassino?” De forma semelhante, será que as pessoas, ao atribuírem a Deus a causa dos males desse mundo, não percebem que fazem dele a fonte do mal? Provavelmente, nosso velejador Agostinho não concordaria com isso.


Entretanto, comecei este texto escrevendo sobre física. Talvez fique clara a oposição entre decreto e lei.


Para o decreto, qualquer insinuação de acontecimento, caso tenha acontecido, é visto como um resultado causal da vontade e determinação de Deus.


Decretos não são leis, para as quais Deus daria um caráter geral de lei, com a limitação natural que elas têm, com as consequências normativas dos diferentes fenômenos (físicos, políticos, morais).


Se dizemos que Deus decreta todas as coisas, Ele, então, decreta desde o movimento dos meus dedos neste teclado, até sua leitura letra a letra de cada palavra neste pequeno texto e cada passagem de fótons para dentro da sua retina e todos os impulsos elétricos que ocorrem no seu cérebro, leitor.


Mas, se, por outro lado, falamos que há leis que Deus estabeleceu, sabemos que, todas as vezes em que você se sentar no computador e ele estiver funcionando direito, de acordo com suas leis internas, o fenômeno será semelhante, por seguir o mesmo padrão normativo (fótons são sempre recepcionados por retinas saudáveis, etc.) e a complexidade aumenta. Mas veja: se Deus estabeleceu leis, não há a mínima necessidade de seus “microdecretos”. O que ocorre é que Ele julga, de acordo com a lei que Ele mesmo estabeleceu, ou permite que, dadas as condicionantes básicas para que o fenômeno ocorra, as conseqüências surjam, naturalmente (ou sobrenaturalmente, de acordo com o Seu conselho de intervenção).


Contudo, se decreta todas as coisas, as leis se tornam uma impossibilidade incontornável, havendo sempre uma coincidência de fenômenos parecidos sempre que se manifestem situações similares. Ou seja, se uma bola cai uma vez, Deus determinou que ela caísse. Se ela cai na segunda vez, Deus determinou que ela caísse de novo, por pura coincidência, da Sua vontade. Muito embora a vida possa ser assim, não acho que seja. Pelo menos, não temos base empírica para afirmar isso em nenhum ramo do saber.


Por essas e outras, não creio que haja o caráter determinístico do universo e, portanto, rejeito o calvinismo, pois creio que Deus, mais do que decretos, estabeleceu leis, que são superiores em substância, em conteúdo.


A partir desse aspecto de lei física, o mesmo se desenrola para algumas questões morais, pois Deus é Deus que cria de acordo com Ele mesmo, em sintonia: como é que Deus decreta todas as coisas e o pecado não é decretado? Necessariamente, na visão supralapsariana, Deus é o autor do pecado, sem causa secundária. Isso para mim tem cheiro forte de podridão. Supralapsarianismo, para mim, embora alguns calvinistas certamente discordarão, é sinônimo necessário de calvinismo, pois é impossível sustentar que Deus decrete todas as coisas, ao mesmo tempo que há coisas que Ele não decretou. Honestamente, não consigo ver o calvinismo sem ver o determinismo forte ao extremo (quando muito suave ele é, simplesmente, inconsistente e é permeado pelo saudável "vírus" da liberdade).


Impressiona-me um pouco ver o avanço do Direito, da teoria Geral do Estado e de sua divisão de poderes, ao mesmo tempo em que conceitos agarrados ao que há de mais arcaico na compreensão de sistemas jurídicos sejam a fonte de um suposto sistema dentro do qual Deus legisla. Deus é o César, o Czar, o faraó do universo. Bem, pelo lado positivo, Ele pelo menos não é um reles presidente.


Creio que ele seja incomparavelmente maior do que qualquer tipo de poder engendrado em sistemas normativos humanos. Ainda mais algo tão arbitrário como um decreto. Isso diminui seu poder criativo de fazer um universo que se sustenta por Ele, por seu próprio fôlego.


O sopro de Deus, seu fiat, confere a realidade em que pairamos. O mais fantástico é que Ele não parou por aí, mas veio até nós e nos propõe relacionamento verdadeiro, no qual nunca poderíamos pensar, mas a que temos acesso perene, por Jesus Cristo.

Relacionamento de verdade, com liberdade de escolhas.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.