11 de maio de 2009

Crime e Castigo

Algumas vezes nos deparamos com clássicos.
É uma oportunidade maravilhosa, estejam eles no tempo em que estiverem. Eu tive até hoje o prazer de alguns e posso dizer que seu sabor é um tanto inconfundível. Mesmo que indigesto... Mas quem falou em digestão?
Não é diferente com o famoso romance de Dostoiévski, Crime e Castigo, cuja digestão é um tanto difícil, mas é delicioso demais!
Dono de uma pena muito produtiva, viva e criativa, Dostoiévski apresenta, no mundo da Rússia czarista, personagens de uma verossimilhança muito grande, vivendo seus dramas e criando as respostas para a vida, tecendo justificativas e materializando o mal, o bem, o humano.
Raskólnikov é o nome do personagem central , responsável pelo crime e o sofredor do castigo que se desenrolam nas mais de quinhentas páginas do livro, cuja marca maior são os diálogos que deixam transparecer a persona por trás dos nomes.
A leitura nos traz à cidade de Petersburgo, principal capital russa da segunda metade do século XIX, onde o ex-estudante Raskólnikov mora e passa grande aperto financeiro além de estar em estado de desequilíbrio emocional. Extremamente irritadiço, muitas vezes delirante, Raskólnikov traça uma maneira de se livrar de seu problema financeiro, um jeito de alavancar sua carreira, tramando, esquematizando e raciocinando um crime que, por sua teoria, seria plenamente justificável, pois suas consequências só poderiam surtir efeitos positivos. Especialmente para ele. Deixaria sua irmã e sua mãe de fora de sua vida financeira, de suas preocupações, e longe de possíveis tratados por conveniência, casamento arranjado, ou a qualquer sistema. Mas nunca o real é como o que se planeja... Nem na realidade objetiva, nem na nossa mente.
Dostoiévski, então, trata do estado psicológico de um criminoso frio, mas que ao mesmo tempo perde a paz com sua consiência, foge de si, se coloca à mostra com decisiva frieza à polícia, enfim, alguém perturbado profundamente no espírito.
Ninguém poderia julgá-lo, afinal, há uma classe de homens que, simplesmente, não precisa dar justificativas à sociedade por suas ações, como, por exemplo, Napoleão. A história, tomando emprestada a expressão de Fidel, os justifica. Estes homens são superiores e têm a permissão do crime. Em outras palavras, o crime deixa de sê-lo para eles.
Raskólnikov, certa altura do romance é perguntado se ele mesmo não seria alguém que se considerava assim, um homem desta categoria de homens superiores, categoria que ele mesmo descreve como superior e elogiável.
Durante romance, Raskólnikov é um humano exemplar: extremanente confuso, perdido, inconsequente (ou carente da análise completa de suas ações), caridoso, generoso, desapegado ao vil metal, mas comprometido com ideais que pudessem lhe trazer a dignidade, ainda que por situação torpe, indigna... Ródion Romanovitch Raskólnikov é o paradoxo humano.
O que Dostoiévski faz em seu tenso romance, com uma qualidade de mestre, e, diria, até com certa humildade na maneira de escrever, é dar um jeito na vida de seu personagem, de lhe incluir os elementos fundamentais à vida do homem de todos os tempos: consciência, amizade, amor e redenção.
Há cenas simplesmente fantásticas no livro. Por exemplo, um dos sonhos que Raskolnikov tem sobre um cavalinho que é espancado; um outro sonho sobre seu crime, numa reinterpretação existencial do próprio personagem; a cena do crime, a cena em que Sonia lê o evangelho... muita coisa boa, muita coisa muito forte, de grande pungência.
A versão que li foi uma edição da Editora 34, de tradução diretamente do russo, feita por Paulo Bezerra e com gravuras de Evandro Carlos Jardim. As notas de rodapé são formidáveis e de um perito em Dostoiévski. Situam muito bem o romance em seu contexto russo e no contexto da vida do autor. Um trabalho de crítica textual bem elaborado, pra dizer o mínimo.
Uma leitura obrigatória para amantes de Literatura com letra maiúscula.

2 comentários:

Anônimo disse...

É VHS... Conseguiu vender o peixe. Vou procurar a criança.
aBRx!
Renan E.

Dri D disse...

Esse livro é fantástico. Não consigo esquecer da sensação estranha q senti no momento em que lia na narração do crime cada vez que algo me remete a esse livro. Muito legal suas resenhas, gostei tb do Mundo de Sofia (por sinal, outro livro que me marcou quando li)... é de utilidade pública. Continue compartilhando... excelente!!!!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.