8 de maio de 2009

A Busca


Não existe caminho fácil para a verdade.
Foi o escritor alemão Schiller quem escreveu que “no abismo, mora a verdade.” E acho que ele tinha razão na sua assertiva. Existe um precipício diante do conhecimento do homem que lhe mostra o quanto ele deve descer, para encontrar o que há de precioso.
Edgar Morin escreve que “a busca da verdade está doravante ligada à investigação sobre a possibilidade da verdade.” A verdade como a possibilidade dela mesma e talvez atingível. Mas se há possibilidade, é que algo é possível.
O cenário proposto então pode ser colocado da seguinte forma: céu azul, andando por aí pela vida e Schiller aponta pro fundo da terra, com segurança, numa rachadura colossal que se abre e Morin diz que é possível encontrar a verdade lá. Resta apenas pular.
Aqui está o risco, a dúvida, a dificuldade em medir os desafios, a necessidade de respostas, a interrupção por algo que realmente importa.
Somente o homem que pula encontra alguma coisa. Ou talvez não encontre nada. Nas nossas buscas, os dois são possíveis. Mas quem quer encontrá-la pula. Pula de cabeça e peito aberto, ou pelo romantismo, ou pela falta de noção do perigo. E cai até o fundo, sabe-se lá como, ainda meio vivo, meio morto, meio sonho, meio ilusão, meio real, meio consciente.
Pra mim, é impossível deixar de imaginar que uma cena muito interessante se passe, uma vez lá em baixo.
O homem tenta recobrar a sobriedade, descobre-se solto no escuro, relembra que sua empreitada inicial era a busca da verdade e sai à caça. Nossos primeiros passos são os mais primitivos: farejamos a verdade, por seu inconfundível rastro de odor suave. Mas não nos enganemos: estamos tratando do mais selvagem dos seres.
Quem saberia dizer o que nos espera por fim? Aliás, no fim de quê? Quem foi que disse que existe alguma verdade? Quem foi que disse que ela poderia ser encontrada? Na verdade, quem foi que teve a ideia de sair do papel e pular? E esse escuro, que ninguém disse que seria assim, aqui em baixo?
Mas, de repente, tomamos uma lufada de ar quente no rosto, como se narinas poderosas estivessem abertas e soprando o ar por elas, bem na nossa cara! Pela pressão do ar, ninguém diria que estamos tratando de algo menor que um búfalo, ou um rinoceronte. Quem era mesmo o caçador?
Corremos pela nossa vida, mas, logo nos primeiros passos, descobrimos que ninguém vem atrás. E será que haveria alguém mesmo ali, anteriormente? Será que aquilo era mesmo ar? Seria de se esperar que encontrássemos alguma coisa ali?
Nesta hora, tomamos uma rasteira, mas não vemos o que houve. Só sabemos que caímos no chão, no meio de nossas perguntas. Existe alguma coisa estranha... Existe alguém por ali...
Os olhos estão no escuro, não enxergam. Mas cheiramos, tateamos, e quase podemos sentir o gosto de que estivemos diante da verdade, quando ouvimos então uma voz, que faz clarear o ambiente. É uma voz que vem de longe, iluminando a caverna do abismo. Ela é doce e diz “eu te amo”.
Em alguns poucos segundos, a voz se apaga, mas a impressão daquilo é inquietante. “Agora eu sei”, diz o homem. “Eu estive aqui e ouvi.”
O homem escala o abismo, que agora não parece tão longe quanto achava que era quando se lançou, e volta pra casa, conta a sua história e pensam em metê-lo num hospício. Mas ele está lúcido demais quando diz isso e acabam por abafar o caso.
Já li sobre gente que tinha se embrenhado neste mesmo abismo e que pagou com a vida a questão, por diversão das massas, no Coliseu.
Ilusão, dizem, ilusão e delírio.
E o que não é ilusão?
A possibilidade abre o caminho, em vez de fechá-lo. O pulo é a jornada mais curta e gostosa. Lá em baixo vira lá em cima, e é impossível ter orgulhos em um lugar tão mágico.
É-se mais homem frente à verdade. É-se mais feliz em sua busca.

3 comentários:

O Reina disse...

Desculpa, só posso dizer que me sinto honrado de ler você. Sério.

Miguel Del Castillo disse...

me lembrei do Aslam por causa das narinas e do ar quente.

lembrei do Moska:
"É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos"

"é impossível ter orgulhos em um lugar tão mágico." ainda mais com aquela doce voz...

Bianca disse...

Ei!
Eu também vi o Aslam!!!
Comentei até com o VHS.

Texto conhecido, e um dia, interferido, espero.

Muito bom, galego!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.