14 de maio de 2009

Doce suspiro

Ah, a vida!
Talvez a melhor maneira de fazer a vida correr seja deixando que ela vá, ligando-se às correntes mais primárias de sua origem. No Deus que coloca o universo pra expandir. Impressionante como Deus, mesmo permitindo o acaso, projetou um acaso criativo, nunca alheio à Sua harmonia, mas ao mesmo tempo livre, complexo, intocável, solto, permissivo; enfim, paradoxal.
É fantástico ver-se desenvolver, ver-se andar na matéria, fazer energia (no sentido mais físico da palavra) fluir do corpo, movimentar, remodelar, entrar na matéria e entender a mágica da existência pura, bruta, organizada subjetivamente no concreto!
Ao mesmo tempo a vida pede um olhar metafísico, pra fora, ou por entre a matéria, na expectativa mesma da reconciliação universal da simples existência do todo, do inseparável.
A encarnação de Deus é pra mim o grande mistério, maravilhoso, que fuzila qualquer esperança de olhar pra uma outra espiritualidade que não esteja calcada no possível, na relação, na liberdade de ida e volta, na possibilidade infinita do amor autêntico.
Imagino que a criação seja o ato mais grandioso de qualquer ser. Pensando num Deus criador, olhar em volta, ver homens e mulheres, árvores e a confusão de beleza de pôr-de-sóis, dos infinitos matizes que nunca deixam de espantar; pensando neste ser, é impossível não pensá-lo como alguém que lança cordas diárias para recolher nossas
Quem duvidaria que se conte a história de que este Deus, no anseio por ver a beleza sair de Suas mãos para um universo do que é partilhado, do que pode ser reinterpretado livremente, por ciência, filosofia e, sobretudo, arte, enfim, que Ele tenha soprado numa porção da matéria, num punhado de barro e tenha feito o barro, a partir dali, em si, ter vida.
Vida interpretativa, criativa, imitadora do Pai, como quem aprende como as coisas devem ser feitas.
Ah! Doce suspiro por uma vida eterna junto do Criador da criação.

12 de maio de 2009

Saltando

Um dia eu pensei em ter um grande amor. Essas coisas de amor são difíceis...
As pessoas são alvo dos mais diferentes acidentes de vida. Perdem os parentes, os amigos, as paixões; perdem os rumos e vêem as coisas virarem pelo avesso. Emoções, afeto e ternura são passadas pelas mãos das desilusões, transformam-se em desventuras, depressão, doença, e, por fim, nos prostram.
Detonam o grito da existência dolorosa, do calor insuportável, do frio do mundo, do escuro da alma.O desencontro da tristeza é a coisa mais terrível que pode assolar uma pessoa normal. Há a reincidência, o questionamento, a interminável pergunta: por quê? por quê? por quê? por quê, ó Deus!?!?
Por que o meu sofrimento interminável pelas questões da vida que eu não controlo?!
Por que um coração sofre? Por que ele padece e vai às raias do desespero e quase sucumbe?
Eu não sei.
Mas sei que do confronto do nosso coração com o mundo, em colocá-lo diante de nós e de ouvi-lo; de colocá-lo diante de Deus, a gente vai mudando, ganhando perspectiva, olhando pra frente.
O tempo passa, as dores vão virando queixas, as queixas viram procura, a procura vira escolha, a escolha é um salto.
Um salto de amor a gente tem que dar.
Nossa situação existencial, já disseram, é cheia de saltos: a gente salta pra Deus, pra verdade, pro amor.Graças a Deus, na minha vida, eu encontrei e encontro hoje os pousos certos dos meus pulos.
Um Deus que segura, a verdade que existe e chama e o amor dos meus queridos, da minha querida.É uma alegria pular nos braços dos que nos amam. É uma alegria muito grande pular nos braços de alguém a quem você ama e que te ama de volta.
É uma alegria pular nos braços da Priscila.
O salto é necessário, é preciso, é bom, é coisa de Deus, é o imperativo da vida nas suas composições mais profundas, mais elementares.Obrigado, Senhor, pela vida humana. Tenho mesmo que agradecer pelas pessoas que me seguram. E agradecer-lhes, todas. Em especial, agradecer a quem me agarrou pelo coração e me dá ânimo para a caminhada a quatro pernas do futuro.

11 de maio de 2009

Crime e Castigo

Algumas vezes nos deparamos com clássicos.
É uma oportunidade maravilhosa, estejam eles no tempo em que estiverem. Eu tive até hoje o prazer de alguns e posso dizer que seu sabor é um tanto inconfundível. Mesmo que indigesto... Mas quem falou em digestão?
Não é diferente com o famoso romance de Dostoiévski, Crime e Castigo, cuja digestão é um tanto difícil, mas é delicioso demais!
Dono de uma pena muito produtiva, viva e criativa, Dostoiévski apresenta, no mundo da Rússia czarista, personagens de uma verossimilhança muito grande, vivendo seus dramas e criando as respostas para a vida, tecendo justificativas e materializando o mal, o bem, o humano.
Raskólnikov é o nome do personagem central , responsável pelo crime e o sofredor do castigo que se desenrolam nas mais de quinhentas páginas do livro, cuja marca maior são os diálogos que deixam transparecer a persona por trás dos nomes.
A leitura nos traz à cidade de Petersburgo, principal capital russa da segunda metade do século XIX, onde o ex-estudante Raskólnikov mora e passa grande aperto financeiro além de estar em estado de desequilíbrio emocional. Extremamente irritadiço, muitas vezes delirante, Raskólnikov traça uma maneira de se livrar de seu problema financeiro, um jeito de alavancar sua carreira, tramando, esquematizando e raciocinando um crime que, por sua teoria, seria plenamente justificável, pois suas consequências só poderiam surtir efeitos positivos. Especialmente para ele. Deixaria sua irmã e sua mãe de fora de sua vida financeira, de suas preocupações, e longe de possíveis tratados por conveniência, casamento arranjado, ou a qualquer sistema. Mas nunca o real é como o que se planeja... Nem na realidade objetiva, nem na nossa mente.
Dostoiévski, então, trata do estado psicológico de um criminoso frio, mas que ao mesmo tempo perde a paz com sua consiência, foge de si, se coloca à mostra com decisiva frieza à polícia, enfim, alguém perturbado profundamente no espírito.
Ninguém poderia julgá-lo, afinal, há uma classe de homens que, simplesmente, não precisa dar justificativas à sociedade por suas ações, como, por exemplo, Napoleão. A história, tomando emprestada a expressão de Fidel, os justifica. Estes homens são superiores e têm a permissão do crime. Em outras palavras, o crime deixa de sê-lo para eles.
Raskólnikov, certa altura do romance é perguntado se ele mesmo não seria alguém que se considerava assim, um homem desta categoria de homens superiores, categoria que ele mesmo descreve como superior e elogiável.
Durante romance, Raskólnikov é um humano exemplar: extremanente confuso, perdido, inconsequente (ou carente da análise completa de suas ações), caridoso, generoso, desapegado ao vil metal, mas comprometido com ideais que pudessem lhe trazer a dignidade, ainda que por situação torpe, indigna... Ródion Romanovitch Raskólnikov é o paradoxo humano.
O que Dostoiévski faz em seu tenso romance, com uma qualidade de mestre, e, diria, até com certa humildade na maneira de escrever, é dar um jeito na vida de seu personagem, de lhe incluir os elementos fundamentais à vida do homem de todos os tempos: consciência, amizade, amor e redenção.
Há cenas simplesmente fantásticas no livro. Por exemplo, um dos sonhos que Raskolnikov tem sobre um cavalinho que é espancado; um outro sonho sobre seu crime, numa reinterpretação existencial do próprio personagem; a cena do crime, a cena em que Sonia lê o evangelho... muita coisa boa, muita coisa muito forte, de grande pungência.
A versão que li foi uma edição da Editora 34, de tradução diretamente do russo, feita por Paulo Bezerra e com gravuras de Evandro Carlos Jardim. As notas de rodapé são formidáveis e de um perito em Dostoiévski. Situam muito bem o romance em seu contexto russo e no contexto da vida do autor. Um trabalho de crítica textual bem elaborado, pra dizer o mínimo.
Uma leitura obrigatória para amantes de Literatura com letra maiúscula.

8 de maio de 2009

A Busca


Não existe caminho fácil para a verdade.
Foi o escritor alemão Schiller quem escreveu que “no abismo, mora a verdade.” E acho que ele tinha razão na sua assertiva. Existe um precipício diante do conhecimento do homem que lhe mostra o quanto ele deve descer, para encontrar o que há de precioso.
Edgar Morin escreve que “a busca da verdade está doravante ligada à investigação sobre a possibilidade da verdade.” A verdade como a possibilidade dela mesma e talvez atingível. Mas se há possibilidade, é que algo é possível.
O cenário proposto então pode ser colocado da seguinte forma: céu azul, andando por aí pela vida e Schiller aponta pro fundo da terra, com segurança, numa rachadura colossal que se abre e Morin diz que é possível encontrar a verdade lá. Resta apenas pular.
Aqui está o risco, a dúvida, a dificuldade em medir os desafios, a necessidade de respostas, a interrupção por algo que realmente importa.
Somente o homem que pula encontra alguma coisa. Ou talvez não encontre nada. Nas nossas buscas, os dois são possíveis. Mas quem quer encontrá-la pula. Pula de cabeça e peito aberto, ou pelo romantismo, ou pela falta de noção do perigo. E cai até o fundo, sabe-se lá como, ainda meio vivo, meio morto, meio sonho, meio ilusão, meio real, meio consciente.
Pra mim, é impossível deixar de imaginar que uma cena muito interessante se passe, uma vez lá em baixo.
O homem tenta recobrar a sobriedade, descobre-se solto no escuro, relembra que sua empreitada inicial era a busca da verdade e sai à caça. Nossos primeiros passos são os mais primitivos: farejamos a verdade, por seu inconfundível rastro de odor suave. Mas não nos enganemos: estamos tratando do mais selvagem dos seres.
Quem saberia dizer o que nos espera por fim? Aliás, no fim de quê? Quem foi que disse que existe alguma verdade? Quem foi que disse que ela poderia ser encontrada? Na verdade, quem foi que teve a ideia de sair do papel e pular? E esse escuro, que ninguém disse que seria assim, aqui em baixo?
Mas, de repente, tomamos uma lufada de ar quente no rosto, como se narinas poderosas estivessem abertas e soprando o ar por elas, bem na nossa cara! Pela pressão do ar, ninguém diria que estamos tratando de algo menor que um búfalo, ou um rinoceronte. Quem era mesmo o caçador?
Corremos pela nossa vida, mas, logo nos primeiros passos, descobrimos que ninguém vem atrás. E será que haveria alguém mesmo ali, anteriormente? Será que aquilo era mesmo ar? Seria de se esperar que encontrássemos alguma coisa ali?
Nesta hora, tomamos uma rasteira, mas não vemos o que houve. Só sabemos que caímos no chão, no meio de nossas perguntas. Existe alguma coisa estranha... Existe alguém por ali...
Os olhos estão no escuro, não enxergam. Mas cheiramos, tateamos, e quase podemos sentir o gosto de que estivemos diante da verdade, quando ouvimos então uma voz, que faz clarear o ambiente. É uma voz que vem de longe, iluminando a caverna do abismo. Ela é doce e diz “eu te amo”.
Em alguns poucos segundos, a voz se apaga, mas a impressão daquilo é inquietante. “Agora eu sei”, diz o homem. “Eu estive aqui e ouvi.”
O homem escala o abismo, que agora não parece tão longe quanto achava que era quando se lançou, e volta pra casa, conta a sua história e pensam em metê-lo num hospício. Mas ele está lúcido demais quando diz isso e acabam por abafar o caso.
Já li sobre gente que tinha se embrenhado neste mesmo abismo e que pagou com a vida a questão, por diversão das massas, no Coliseu.
Ilusão, dizem, ilusão e delírio.
E o que não é ilusão?
A possibilidade abre o caminho, em vez de fechá-lo. O pulo é a jornada mais curta e gostosa. Lá em baixo vira lá em cima, e é impossível ter orgulhos em um lugar tão mágico.
É-se mais homem frente à verdade. É-se mais feliz em sua busca.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.