24 de março de 2009

Quando não se tem o que dizer

Há exatos 7 dias faleceu um amigo meu, pai de um grande amigo meu.
É muito difícil saber o que dizer em horas de luto.
Eu sempre me lembro do verso bíblico que diz que "melhor é ir à casa onde há luto que ir à casa onde há festa, pois naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração" (Eclesiastes 7:2).
Andar por entre as covas, ver o sol bater nas cruzes velhas e desgastadas, certamente não é um passeio agradável.
Pior é enxergar a dor dos que ficam, no calado sofrer, no esperar dos dias da resignação, que tarda a vir.
A morte é o que aponta uma experiência dolorosa na caminhada humana. Quando a enfrentamos, parece que algumas coisas que nossa sociedade valoriza são miudezas sem importância: luxo, dinheiro, matéria.
Parece que quem gasta a vida com estas miudezas é quem não experimentou o vácuo que isso oferece quando se vai ver a vida de cara, ou a morte de cara.
Dizer que a pessoa também só se divertiu na vida é algo estranho. Não soa muito bem.
Em geral, o que faz muito sentido em dias de funeral é dizer que a pessoa foi boa, que teve fé, que tinha postura digna diante dos problemas, seus e dos outros; que ajudou amigos e gente que nem bem conhecia, que teve seus sonhos e concretizou alguns, cuidou da esposa, dos filhos e os amou.
No fundo, o que importa mesmo, por mais piegas que soe, é a medida de quanto a pessoa amou.
Se amou muito, pouco, ou nada. Se amou as pessoas ou as coisas.
Acaba sendo a morte um direcionador e um agente seletivo dos valores da vida. Ela integra uma espécie de indicador de como a vida deve ser vivida. Dá mais sentido a ela, responde duramente quando ela não é vivida de um jeito bom. Chora-se por um bandido ou por um drogado de jeito diferente do que se chora por pai e mãe. Mas, mesmo dando algum sentido à nossa existência temporal, a morte parece um intruso no nosso universo, pois derruba nossos projetos, interrompe as vidas, mostra nosso tamanho: pequeno, muito pequeno.
Por isso, entender o Cristo e sua missão é de fundamental importância. Ele venceu a morte. Ele, definitivamente, é maior.
Pela fé, é possível mesmo descredibilizar esta coisa horrenda e irreversível. Existe algo além. E, se não existir, pelo menos pode-se crer. Lá, no campo onde a fé atua, a morte não tem efeito. Nem que seja num âmbito onírico da fé, lá ela digladia com o Cristo e morre. A morte morta não tem perigo.
A morte, afinal, foi mostrada como uma intrusa, uma penetra na nossa vida.
Penetra das piores, diga-se, pois acaba com a festa.
Vem Paulo e a coloca ali no canto, no acender de uma luz espiritual, a desafiá-la: "onde está, ó morte, o teu aguilhão?"(I Coríntios 15:55).
Mesmo isso não a impede de ter o domínio sobre desenvolvimento e evolução (questionável, entretanto).
O escândalo do evangelho é justamente em dizer que a morte não passa de um domínio temporal, pois, diz o evangelho que quem crê no Cristo, ainda que morra, viverá.
Eu gosto tanto disso (e permito-me dizer que não deve ser mero gosto pessoal, mas uma convicção assentada demais pra me permitir a negá-la) que deposito a melhor parte das minhas energias em me convencer de que, mesmo que as coisas passem, há algo que não passará. Sei lá o quê: se espírito, se alma, se mesmo o corpo, ou se tudo junto integralmente, acho que, no momento, isso não importa muito... Importa dizer, com todas as letras que, se há um Deus no céu (e eu creio que há), se o Cristo é o Seu Cristo (e eu creio que é), o homem que crê vai além. Não pelo sistema vicioso que acabei de escrever (grosso modo: "eu creio e creio que quem crê vai, logo eu vou").
Mas pelas afirmações escritas com o sangue de profetas, do Senhor Jesus e dos santos, através da História, que denunciam a formação, não de valores temporais, submetidos à crítica do tempo e passíveis de serem jogados ao lixo (o que até pode ser), mas de verdades que, mesmo na sujeição dos tempos de maior crítica, de um jeito misterioso permaneceu, ainda que em termos de sugestão.
E é o que faço aqui, mesmo nas linhas mais "quentes": sugiro.
Sugiro a vida depois da vida, do jeito simples que já sugeriram, mas também na vida, enquanto se vive, do mesmo jeito simples que também já sugeriram.
Bem, quem souber de alguma coisa sobre a vida ou sobre a morte, que desembuche logo, por favor, pois eu garanto que, se houver coisa melhor, mais verdadeira, mais forte, mais real e duradora que a proposta do evangelho, eu estou dentro. Se não é assim, bem, aí é questão de fé e vamos encarar as coisas cada um com sua lente.

Um comentário:

Bianca disse...

Sim, André.
Muito boa a sua reflexão.

Tenho pensado bastante no sentido da vida e da morte ultimamente.
Tenho visto pessoas partindo: senhores de certa idade, ou os que são jovens demais.

A morte traz questionamentos ao nosso coração a respeito das coisas que realmente têm valor nesta vida. Tenho pensado muito também sobre a eternidade para a qual acredito que tenhamos sido criados.

É difícil encontrar palavras de conforto pros que ficam. Nosso amor e companhia silenciosa podem fazer a diferença.

beijos

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.