11 de março de 2009

O Mundo de Sofia


Em algum momento da minha vida eu caí na besteira de querer fazer um curso que envolvesse ciências exatas, quando havia uma predisposição muito natural em mim para trilhar o caminho das humanas, especialmente filosofia, ou coisa do gênero.
E sempre houve um livro que, quando citado, despertava ainda mais a minha curiosidade sobre a filosofia, pois me diziam que ele era simplesmente genial: "O Mundo de Sofia".
Como este é o primeiro texto de uma série que pretendo intitular "resenhas", como marcador, se o leitor que vem aqui, sabe-se lá porque, não quer contato com minhas impressões do livro, por favor, não se incomode com as linhas aqui e fique à vontade para mexer por aí, onde lhe melhor aprouver.
Se você acompanha agora esta nova linha, gostaria de fazer o convite a que entremos num mundo feito nem tanto de matéria, mas de idéias, consciência, questionamentos e uma busca incansável pelas perguntas fundamentais que sempre afligiram e impulsionaram o homem a um entendimento mais profundo do universo e de si mesmo, ainda que nunca acabado.
É disto que trata "O Mundo de Sofia", de um jeito belíssimo, didático e romanceado.
Ao receber as cartas de um professor anônimo de filosofia, Sofia embarca nos questionamentos dos filósofos pré-socráticos e ruma para a descoberta de inúmeros pensamentos e correntes que se delinearam desde os tempos clássicos até descobrir, junto de Alberto Knox, seu professor, os segredos de sua existência (e agora eles devem estar por perto).
O livro, além de muito instrutivo não deixa nada a desejar em se tratando de romance, uma vez que o autor, Jostein Gaarder, faz questão de elaborar uma trama à altura da história da filosofia, com personagens que têm lá, ainda que muito subjetivos e esparsos, seus dilemas. Como literatura juvenil, não tem melhor para indicar.
Algo que me chama a atenção é o fato de que, embora o livro necessariamente tenha de lidar com a religião, com Deus, com o cristianismo e mesmo fale de Jesus, o livro não é de modo algum tendencioso e não se arroga de premissas particulares para fazer afirmações de cunho espiritual ou mesmo o oposto a isso. É um livro imparcial como poucos e apresenta de forma muito clara os pensamentos desencadeados na História, de grandes homens e seus olhares do universo, da sociedade, de Deus, da religião, do homem, da razão e da própria História.
O modo como os capítulos estão distribuídos, a exemplificação abundante e a maneira como o autor recapitula os conceitos previamente adquiridos, subjetivamente, nos capítulos subseqüentes são formidáveis e, sem dúvida, um estímulo ao leitor em direção à intimidade com a filosofia.
Outra coisa que o autor faz com primor é colocar elementos de identificação que se desenrolam ao longo do romance e que são percebidos como conceitos filosóficos no momento apropriado.
Por exemplo, na cabana do major há um quadro de Bjerkely, coisas velhas, coisas corriqueiras, um estranho espelho, enfim vários elementos que acabam se identificando como o inconsciente do major. Bom é só perceber isso quando ele fala de Freud. Outro exemplo é o absurdo da festa, no existencialismo.
O melhor de todos, a meu ver, é quando se está falando de Berkeley e, de repente, Hilde entra em cena. O livro dentro do livro. Seria tudo uma percepção da consciência? Uma vida vinda dela, autônoma e independente
?
As transições são tão gostosas, que vale a pena fechar o livro e saborear as idéias, acompanhando os raciocínios de grandes nomes como Kant, Hume, Locke, Hegel, Kierkegaard, Marx, etc. como se fôssemos coautores das idéias, ou, no mínimo, apreciadores dos pontos de vista.
A impressão que tenho é que quem lê o livro tem a vontade de ser menos pedante e de testar os conhecimentos de um jeito meio lúdico com quem também partilha do interesse pelo conhecimento e por questões interessantes. Enfim, quem lê não tem vontade de parar por aí.
Outro aspecto bem pensado para o livro é a inclusão de um índice remissivo. Isto lhe confere o status de livro-texto para a História da Filosofia (com maiúsculas, pois agora falamos de Academia), muito embora a historinha de uma (duas) menina(s) de 15 anos deixe margem para que o livro seja um tratado bem humorado sobre o assunto, mais que uma infalível obra.
Eu, como nunca tinha lido nenhum livro de história da filosofia, fico extremamente feliz com "O Mundo de Sofia", pois me vi voltando de vez em quando à adolescência e, ao mesmo tempo, me divertindo e revendo o que eu já tinha lido sobre os filósofos, na expectativa de me perguntar "será que aquilo que eu tinha ouvido sobre 'fulano' era verdade
?",em vez de afirmar "isto aqui vai me acrescentar pouco".
Enfim, o livro é excelente em todas as suas 500 e poucas páginas e tem um final...
Bem, tem que ler pra saber o final, como qualquer bom romance.

Um comentário:

patrícia disse...

e você, só fazendo aumentar minha vontade de ler o tal do livro!

ler Filosofia é bilhete sem volta, né?

vou vir mais aqui, ler suas resenhas! (:

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.