24 de março de 2009

Sócrates - O Poder do Não Saber


Andreas Drosdek, com o título acima, faz uma abordagem da gestão empresarial (ou mesmo uma gestão pessoal) a partir do que nos foi legado como ensinos de Sócrates.

É um livro fininho, publicado pela Vozes (primeira casa publicadora do Brasil) e endossado por um filósofo, Márcio Sergio Cortella, que prefacia do livro a partir da provocação inspiradora de que, como escreveu Anatole France, "os sonhos dos filósofos têm, em todos os tempos, animado homens de ação que puseram mãos à obra para realizá-los".
Quem melhor para começar uma série do que Sócrates?
Começando por explorar sua técnica tão simples e, ao mesmo tempo, tão precisa e completamente aplicável em qualquer situação de pesquisa (qualquer mesmo), a arte de perguntar, o autor coloca Sócrates como um inquiridor do saber, da forma mais sincera possível. O personagem do livro é visto sob as lentes mais informais de alguém que, em vez de perscrutar criticamente qualquer palavra, faz uma leitura em busca da sabedoria, sapiência do homem.
Sócrates, a partir da percepção da fragilidade, ou melhor, da insuficiência de seu próprio saber no que diz respeito às questões sérias e profundas da vida, resolve admitir que não sabe nada. No seu inventário de saberes sólidos, Sócrates constata que seu ponto de partida é o clássico dizer "só sei que nada sei".
Há, naturalmente, quem vá observar que as posturas de Sócrates tenham sido irônicas, quase na totalidade, mas difícil coisa é realmente dizer isto, frente à maioria da apresentação feita por Drosdek.
De posse da informação vinda do Oráculo de Delfos de que ele seria o homem mais sábio de toda Atenas, Sócrates, inconformado, por saber que não sabe, resolve pesquisar entre os homens que julga superiores em relação a ele: políticos, poetas, artesãos, soldados.
Pergunta sobre o que é a beleza, o bem, a coragem, e outras perguntas diante das quais seus interlocutores não conseguem dar respostas seguras. Pelo menos não tão diferentes das que poderia ouvir em outros meios, talvez com menos instrução.
O autor faz questão de frisar que em determinadas situações na vida empresarial (e diria que, se o livro fosse mais auto-ajuda - mesmo sob o peso de ser pejorativamente taxado de ruim de antemão, ou mesmo diretamente uma releitura de Sócrates, sem envolver tanto a gestão, seria melhor) é necessário saber administrar o não-saber.
Ser realista em dizer que não sabe não dói e poupa dores financeiras.
Um aspecto interessante da vida de Sócrates que o autor aborda é o fato de que Sócrates tinha certa indiferença sobre questões relacionadas ao Universo. Ele passou ao largo por estas coisas e, em seu "projeto filosófico", se dedicou a questões éticas, ou à busca do bem, pois cria que quem sabe o que é bom faz o bem.
A partir desta premissa, o pensamento de Sócrates é dividido em 3 "reviravoltas" (termo utilizado pelo autor): 1. o reconhecimento do não-saber; 2. o ser humano como centro; 3. o bem enquanto objetivo.
Com esta tripartida análise, o autor seleciona os melhores momentos do jogo filosófico de Sócrates e insere seus ensinamentos em sua vida, como parte da validade da análise (por exemplo, ele fala que, embora Sócrates questionasse homens experientes em batalha sobre o que seria a coragem, ele mesmo havia combatido).
Enfim, uma leitura rápida, interessante e que causa reflexão que vale a pena.
Diria que o livro peca muito pois deixa de fora as referências bibliográficas. Mas vale.

Quando não se tem o que dizer

Há exatos 7 dias faleceu um amigo meu, pai de um grande amigo meu.
É muito difícil saber o que dizer em horas de luto.
Eu sempre me lembro do verso bíblico que diz que "melhor é ir à casa onde há luto que ir à casa onde há festa, pois naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração" (Eclesiastes 7:2).
Andar por entre as covas, ver o sol bater nas cruzes velhas e desgastadas, certamente não é um passeio agradável.
Pior é enxergar a dor dos que ficam, no calado sofrer, no esperar dos dias da resignação, que tarda a vir.
A morte é o que aponta uma experiência dolorosa na caminhada humana. Quando a enfrentamos, parece que algumas coisas que nossa sociedade valoriza são miudezas sem importância: luxo, dinheiro, matéria.
Parece que quem gasta a vida com estas miudezas é quem não experimentou o vácuo que isso oferece quando se vai ver a vida de cara, ou a morte de cara.
Dizer que a pessoa também só se divertiu na vida é algo estranho. Não soa muito bem.
Em geral, o que faz muito sentido em dias de funeral é dizer que a pessoa foi boa, que teve fé, que tinha postura digna diante dos problemas, seus e dos outros; que ajudou amigos e gente que nem bem conhecia, que teve seus sonhos e concretizou alguns, cuidou da esposa, dos filhos e os amou.
No fundo, o que importa mesmo, por mais piegas que soe, é a medida de quanto a pessoa amou.
Se amou muito, pouco, ou nada. Se amou as pessoas ou as coisas.
Acaba sendo a morte um direcionador e um agente seletivo dos valores da vida. Ela integra uma espécie de indicador de como a vida deve ser vivida. Dá mais sentido a ela, responde duramente quando ela não é vivida de um jeito bom. Chora-se por um bandido ou por um drogado de jeito diferente do que se chora por pai e mãe. Mas, mesmo dando algum sentido à nossa existência temporal, a morte parece um intruso no nosso universo, pois derruba nossos projetos, interrompe as vidas, mostra nosso tamanho: pequeno, muito pequeno.
Por isso, entender o Cristo e sua missão é de fundamental importância. Ele venceu a morte. Ele, definitivamente, é maior.
Pela fé, é possível mesmo descredibilizar esta coisa horrenda e irreversível. Existe algo além. E, se não existir, pelo menos pode-se crer. Lá, no campo onde a fé atua, a morte não tem efeito. Nem que seja num âmbito onírico da fé, lá ela digladia com o Cristo e morre. A morte morta não tem perigo.
A morte, afinal, foi mostrada como uma intrusa, uma penetra na nossa vida.
Penetra das piores, diga-se, pois acaba com a festa.
Vem Paulo e a coloca ali no canto, no acender de uma luz espiritual, a desafiá-la: "onde está, ó morte, o teu aguilhão?"(I Coríntios 15:55).
Mesmo isso não a impede de ter o domínio sobre desenvolvimento e evolução (questionável, entretanto).
O escândalo do evangelho é justamente em dizer que a morte não passa de um domínio temporal, pois, diz o evangelho que quem crê no Cristo, ainda que morra, viverá.
Eu gosto tanto disso (e permito-me dizer que não deve ser mero gosto pessoal, mas uma convicção assentada demais pra me permitir a negá-la) que deposito a melhor parte das minhas energias em me convencer de que, mesmo que as coisas passem, há algo que não passará. Sei lá o quê: se espírito, se alma, se mesmo o corpo, ou se tudo junto integralmente, acho que, no momento, isso não importa muito... Importa dizer, com todas as letras que, se há um Deus no céu (e eu creio que há), se o Cristo é o Seu Cristo (e eu creio que é), o homem que crê vai além. Não pelo sistema vicioso que acabei de escrever (grosso modo: "eu creio e creio que quem crê vai, logo eu vou").
Mas pelas afirmações escritas com o sangue de profetas, do Senhor Jesus e dos santos, através da História, que denunciam a formação, não de valores temporais, submetidos à crítica do tempo e passíveis de serem jogados ao lixo (o que até pode ser), mas de verdades que, mesmo na sujeição dos tempos de maior crítica, de um jeito misterioso permaneceu, ainda que em termos de sugestão.
E é o que faço aqui, mesmo nas linhas mais "quentes": sugiro.
Sugiro a vida depois da vida, do jeito simples que já sugeriram, mas também na vida, enquanto se vive, do mesmo jeito simples que também já sugeriram.
Bem, quem souber de alguma coisa sobre a vida ou sobre a morte, que desembuche logo, por favor, pois eu garanto que, se houver coisa melhor, mais verdadeira, mais forte, mais real e duradora que a proposta do evangelho, eu estou dentro. Se não é assim, bem, aí é questão de fé e vamos encarar as coisas cada um com sua lente.

11 de março de 2009

O Mundo de Sofia


Em algum momento da minha vida eu caí na besteira de querer fazer um curso que envolvesse ciências exatas, quando havia uma predisposição muito natural em mim para trilhar o caminho das humanas, especialmente filosofia, ou coisa do gênero.
E sempre houve um livro que, quando citado, despertava ainda mais a minha curiosidade sobre a filosofia, pois me diziam que ele era simplesmente genial: "O Mundo de Sofia".
Como este é o primeiro texto de uma série que pretendo intitular "resenhas", como marcador, se o leitor que vem aqui, sabe-se lá porque, não quer contato com minhas impressões do livro, por favor, não se incomode com as linhas aqui e fique à vontade para mexer por aí, onde lhe melhor aprouver.
Se você acompanha agora esta nova linha, gostaria de fazer o convite a que entremos num mundo feito nem tanto de matéria, mas de idéias, consciência, questionamentos e uma busca incansável pelas perguntas fundamentais que sempre afligiram e impulsionaram o homem a um entendimento mais profundo do universo e de si mesmo, ainda que nunca acabado.
É disto que trata "O Mundo de Sofia", de um jeito belíssimo, didático e romanceado.
Ao receber as cartas de um professor anônimo de filosofia, Sofia embarca nos questionamentos dos filósofos pré-socráticos e ruma para a descoberta de inúmeros pensamentos e correntes que se delinearam desde os tempos clássicos até descobrir, junto de Alberto Knox, seu professor, os segredos de sua existência (e agora eles devem estar por perto).
O livro, além de muito instrutivo não deixa nada a desejar em se tratando de romance, uma vez que o autor, Jostein Gaarder, faz questão de elaborar uma trama à altura da história da filosofia, com personagens que têm lá, ainda que muito subjetivos e esparsos, seus dilemas. Como literatura juvenil, não tem melhor para indicar.
Algo que me chama a atenção é o fato de que, embora o livro necessariamente tenha de lidar com a religião, com Deus, com o cristianismo e mesmo fale de Jesus, o livro não é de modo algum tendencioso e não se arroga de premissas particulares para fazer afirmações de cunho espiritual ou mesmo o oposto a isso. É um livro imparcial como poucos e apresenta de forma muito clara os pensamentos desencadeados na História, de grandes homens e seus olhares do universo, da sociedade, de Deus, da religião, do homem, da razão e da própria História.
O modo como os capítulos estão distribuídos, a exemplificação abundante e a maneira como o autor recapitula os conceitos previamente adquiridos, subjetivamente, nos capítulos subseqüentes são formidáveis e, sem dúvida, um estímulo ao leitor em direção à intimidade com a filosofia.
Outra coisa que o autor faz com primor é colocar elementos de identificação que se desenrolam ao longo do romance e que são percebidos como conceitos filosóficos no momento apropriado.
Por exemplo, na cabana do major há um quadro de Bjerkely, coisas velhas, coisas corriqueiras, um estranho espelho, enfim vários elementos que acabam se identificando como o inconsciente do major. Bom é só perceber isso quando ele fala de Freud. Outro exemplo é o absurdo da festa, no existencialismo.
O melhor de todos, a meu ver, é quando se está falando de Berkeley e, de repente, Hilde entra em cena. O livro dentro do livro. Seria tudo uma percepção da consciência? Uma vida vinda dela, autônoma e independente
?
As transições são tão gostosas, que vale a pena fechar o livro e saborear as idéias, acompanhando os raciocínios de grandes nomes como Kant, Hume, Locke, Hegel, Kierkegaard, Marx, etc. como se fôssemos coautores das idéias, ou, no mínimo, apreciadores dos pontos de vista.
A impressão que tenho é que quem lê o livro tem a vontade de ser menos pedante e de testar os conhecimentos de um jeito meio lúdico com quem também partilha do interesse pelo conhecimento e por questões interessantes. Enfim, quem lê não tem vontade de parar por aí.
Outro aspecto bem pensado para o livro é a inclusão de um índice remissivo. Isto lhe confere o status de livro-texto para a História da Filosofia (com maiúsculas, pois agora falamos de Academia), muito embora a historinha de uma (duas) menina(s) de 15 anos deixe margem para que o livro seja um tratado bem humorado sobre o assunto, mais que uma infalível obra.
Eu, como nunca tinha lido nenhum livro de história da filosofia, fico extremamente feliz com "O Mundo de Sofia", pois me vi voltando de vez em quando à adolescência e, ao mesmo tempo, me divertindo e revendo o que eu já tinha lido sobre os filósofos, na expectativa de me perguntar "será que aquilo que eu tinha ouvido sobre 'fulano' era verdade
?",em vez de afirmar "isto aqui vai me acrescentar pouco".
Enfim, o livro é excelente em todas as suas 500 e poucas páginas e tem um final...
Bem, tem que ler pra saber o final, como qualquer bom romance.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.