11 de fevereiro de 2009

Da certeza

Eu não tenho mais certeza de muita coisa. Não tenho certeza nem deste texto aqui.

Não creio que esta afirmação seja de muito alarde ou de muita novidade (a não ser que o leitor já cedo tenha medo de ser arrastado a ler linhas inseguras), mas eu realmente não tenho tanta certeza das coisas mais. Talvez fosse melhor dizer que eu já tive mais certeza. Tenho receio de que esta afirmação traga consigo outras informações parasitárias de quem, além de perder gradativamente as certezas, perde a fé ou as convicções mais assentadas... não é bem isso. Mas eu diria que perdi muitas certezas. Muita coisa pode ser e muita coisa que me parecia, certamente não é.

Antigamente, achava que a razão denunciaria inequivocamente os erros e limitações dos sentidos, das impressões, da parcialidade, mas hoje não estou mais tão certo disso. Não sei se isso (este questionamento acerca de certezas) foi algo que se gerou dentro de mim, ou se veio de fora, mas sei que é algo que se instalou aqui, na minha cabeça... ou no peito.

Hoje, a cada momento que passa, mais há uma espécie de dúvida recorrente de como é o mundo, de como são realmente as coisas que vejo, como são as relações entre as pessoas, o que elas vêem como importante, quais são seus valores e quais são os caminhos de vida mais corretos, quais são as confissões de fé corretas, quais são as validades de nossas experiências, e até que ponto podemos transferi-las para a vida dos outros, quais são as idéias de importância pra humanidade, para a arte, para a filosofia, para a religião, para a política, para a tecnologia e para a ciência... enfim, o que é que é verdade e o que é que não apenas funciona, mas também é certo, seguro, firme, acima de qualquer suspeita negativa.

Acho que o motivo desta confissão um tanto aberta é o fato de ver que gente que tem muita certeza de tudo é, em geral, tirana ou traidora de suas próprias certezas e estou convencido, naturalmente com alguma margem de dúvida, de que as maiores monstruosidades foram feitas por gente que estava em um destes dois grupos de pessoas.

Um tirano, um ditador, ou mesmo uma pessoa extremamente comprometida com aquilo que lhe legaram por certo ou por um determinado modo de pensar que julga inequívoco, é alguém duro, difícil de mudar suas perspectivas pela argumentação coerente, pela lógica, ou mesmo, e este é o caso mais complicado, pela evidência. Muita “ciência” é feita nessas bases. De um tempo pra cá tenho me esforçado por acompanhar os “diálogos” entre criacionistas e evolucionistas e vejo que dificilmente os homens que estão vestidos de muita certeza se desnudam dela. Ela parece um vício, estimula a concorrência, a oposição, a rivalidade e mesmo a violência mais embrionária.

Não que discutir não seja bom... muito pelo contrário! Especialmente na questão Criação vs. Evolução, eu acho que a ciência é muito enriquecida pela discussão, pelos pontos de vista diferentes, pelo confronto de idéias, pela exposição de evidências, enfim, o que é científico em essência. A discussão faz que as pessoas não se dêem o direito de permanecerem paradas e as impulsiona a procurarem soluções para os problemas que vão surgindo, ainda que permaneçam inalteradas em suas visões de mundo. Mas quando andamos pelas sendas das convicções pessoais que motivam determinada postura (especialmente quando esta é estimulada, negativamente, por uma outra visão oposta), parece que orgulhos das origens mais infantis surgem e faz-se vencedor, ao menos supostamente, quem tem o melhor brinquedo intelectual ou a melhor ferramenta natural (neste inventário, poderíamos incluir desde diplomas até uma boa oratória). Não são propriamente convicções, ao que me parece, mas, antes, uma certeza corrosiva que rejeita pontos danificantes de seus pensamentos aparentemente originais. Bem, esta é uma forma triste de arrogância, eu diria.

Enfim, as certezas levam do conforto ao confronto. Mas acho que nestas duas coisas encontramos muitas delícias e, por isso, algumas pessoas parecem não sobreviver a não ser quando agarradas a estas certezas.

O outro lado da moeda é o dos vira-casaca, dos traidores, dos bajuladores, demagogos e oportunistas. Ouvi certa vez que nada é pior que um político ex-comunista. Ele vai querer vender até a mãe e esfolar o bolso alheio até o último ceitil. Exemplos não faltam... Só olhar o presente governo e ver quem é oposição e quem é situação e analisar seus passados de lutas estudantis, de admiração bolchevique, e de idealismo mais puro que se tornou nada mais que, se tanto, uma leve crise de consciência advogada pela memória. Isto, repito, se tanto, pois acho muito comum ouvir que “eram outros tempos, outras mentalidades... eu era jovem”.

Diria que a pessoa que se deixou mudar de uma certeza, não por perdê-las, mas por rejeitá-la em relação a uma outra, é semelhante a um homem que aprendeu a nadar e quer treinar suas técnicas no deserto. Mas, em geral, infelizmente, tais homens encontram sua linha de ação em lugares muito mais produtivos que desertos e fazem uso deles como se a vida lhes devesse alguma coisa por terem se submetido ao martírio do abandono de suas idéias originais, ou pelo entusiasmo de sua nova técnica de vivência. Na verdade, estes homens são movidos por suas paixões mais lancinantes de orgulho e, sejam quais forem os fundos teóricos que amparem sua prática corrente, quando há a mudança, os paradigmas são apenas maquiados e o objetivo último, a satisfação do ego, está assegurado em sua ideologia suprema. Penso na pessoa que se coloca diante do mundo com olhos muito vivos, para dele extrair o melhor para si, de um jeito egoísta e dissimulado.

Certamente (permito-me a este tentador paradoxo), não estou falando de gente que é indecisa, fraca de idéias, que aceita um monte de conselhos, mesmo os ruins, ou gente que fica um tanto receosa de dar uma opinião por conta de sua insegurança. E nem das pessoas que se colocaram nas diferentes posições da vida e, seja por experiência, seja por convicção, seja por fé, afirmam algumas coisas com categoria de maior peso, como um ancião que aconselha a comunidade, uma mãe que ensina os filhos pequenos a atravessarem a rua com muita cautela ou como um amigo que zela pelo bem do outro. Estas pessoas externam convicções talvez mais sedimentadas ao longo do doloroso processo da formação dos valores humanos do que em seus próprios palpites. Ou o fazem por amor ao próximo, ou por medo do erro e suas conseqüências nas vidas dos outros.

Mas disso, eu também não tenho certeza. Também não sei dizer se o melhor é aprender com os erros dos outros em vez dos nossos, mas desconfio que seja. Pelo menos acredito que o melhor seja aprender alguma coisa em qualquer uma das duas situações. Creio que sim. Desconfio, acredito, creio...

No fim, o que nos resta é crer.

A sugestão me parece uma boa alternativa à certeza, assim como a fé me parece ser um caminho libertador para pesar argumentos e simplesmente crer e se segurar na validade de suas convicções, quando o objeto da fé é real e maior que o que crê, sem pensar que, por outros errarem é possível dizer “eu bem que avisei...”

Crer me parece ser indispensável ao homem, mesmo ao homem que se diga “de razão”, “científico”. O homem de “razão”, que insulta o ouvinte com este tipo de expressão, pois deliberadamente o chama de burro, convencido ainda por cima de que o ouvinte é, de fato, burro o suficiente para não entender a ofensa, em geral, é alguém que tem uma certeza incontestável de que sua visão de mundo, que ele chama de racional, contempla as únicas possibilidades de verdade. Diria que, vencidos os principais mitos da humanidade, ninguém mais duvida da razão, e dizer que acredita-se nela, é dizer que o céu é azul, ou que a água é vital à vida. Ninguém deve admirar ninguém por isso, pois já faz pelo menos uns cinco mil anos que as pessoas usam da razão para suas atividades. Mesmo na concepção de seus mitos, alguém teve que inventar muito bem suas explicações, não? Bem, como disse no início, não tenho certeza, e nem me proponho aqui a firmá-la nestas linhas. Portanto, que os homens e mulheres “de razão” fiquem à vontade para criticar.

Diria (e diria que já comecei um outro parágrafo com esta palavra) que assim como estamos sobre duas pernas, ou pelo menos os homens de passos saudáveis, assim também devemos andar com fé e pesquisa, ambas movimentando nossos passos, corpos e mentes, frente ao mundo maravilhoso que se estende a nós. Diria que a postura mais doente que alguém poderia adotar na vida seria andar de muletas de certezas, ou ser carregado numa cadeira de rodas por outras pessoas, intelectualmente.

Os verdadeiros professores ou educadores (e, se você quiser, pode trocar a palavra para doutrinadores, intelectuais, ou outra com a qual você fique mais à vontade, como pais, mães, irmãos), são os que nos ensinam a andar com nossas pernas, mesmo nas condições mais severas, sugerindo graciosamente e de um jeito verdadeiro. E é isto o que devemos fazer com os outros. De vez em quando um empurrãozinho é necessário, mas nem sempre.

Eu arriscaria dizer que quem perde em certeza, ganha em fé. A maneira de andar o denuncia e é impossível não perceber.

4 comentários:

Liege Lopes disse...

"Eu arriscaria dizer que quem perde em certeza, ganha em fé. A maneira de andar o denuncia e é impossível não perceber."

Ótima conclusão. Eu oro pra ser reconhecida como esse tipo de pessoa, embora tenha certeza (ai que pecado!) que ainda estou muito longe disso. Quem sabe um dia eu não me supere e me liberte?

Miguel Del Castillo disse...

"No fim, o que nos resta é crer."

Crer parece ser o estágio mais avançado dessa ausência de certezas.

Belo texto, rapaz, como eu havia dito...

Gil disse...

Texto interessantíssimo, meu amigo!
Com certeza...

blogmoderador disse...

esse eu já tinha lido rs... ultimamente tenho colocado muitos questionamentos nessa certeza, mas mesmo assim creio... e concordo com a crítica ao cientificismo... bah!

abraço!

robson welington

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.