10 de janeiro de 2009

Dentro do tempo


Penso em uma espécie de vento selvagem e arrebatador.
Um vento que, numa paisagem plana de céu e terra, de azul e vermelho e umas poucas plantas aqui e ali, ruge, descendo com muita força do alto.
Desce com uma força incontrolável e arrasta toda a poeira do chão, fazendo uma tempestade de areia que arranca árvores, tira a água de rios e faz os animais correrem em fuga por abrigo.
Penso num respirar profundo em meio e dentro da tempestade, em pleno movimento; inspiração e expiração que jorram o ar pelas narinas da ventania, como um resfolegar de galope, como um berro surdo, um latejar do corpo e do calor do vento.
E, de repente, pouco a pouco, os redemoinhos vão se aquietando, o vento fica mais calmo, a tempestade vira uma brisinha leve que flui por uma cidadezinha.
A brisa toca as paredes da cidade, faz-lhe carinho e entra pela janela, onde encontra o rosto de uma jovenzinha pequena e lhe balança os cabelos e lhe passa por todo o corpo, numa sensação que ela nunca havia experimentado de ternura.
Ao mesmo tempo em que o vento lhe rodeava, formavam-se nuvens espessas no céu. Trevas o cobriram e uma chuva forte caiu sobre o lugar.
E, naquela hora, a mocinha, virgem e bonita, estava só e coberta em escuridão.
Ali, chorando em sentimentos de inquietação e alegria, ela se lembrou das palavras do anjo: "Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus."*
A partir daquele momento esteve Ele irremediavelmente sujeito ao tempo.

*Lucas 1:35

7 comentários:

O Reina disse...

Lindo, André! Senti cada brisa! Vi cada coisa bonita!
Deve ter sido bem assim, deve ter sido.

Priscila disse...

É lindo que essa menininha corajosa tenha sido escolhida para cuidar do Filho de Deus. Que momento especial para o mundo todo!
Meu texto preferido do blog! Delicado e bonito!

Bianca disse...

EXCELENTE!

Me arrepiei!

Palavras bem escolhidas e imagens grandiosas em minha mente!

Parabéns, rapaz!

beijão!

Miguel Del Castillo disse...

Me lembrei que no Apocalipse tá escrito que a voz de Deus é como muitas águas. Poderiam ser ventos arrasadores.
Mas chega até nós tão doce... como um riacho. Ou então uma brisa. O filtro de Deus.
Voz que promete e encontra.

Leve, esse texto...

Ricardo disse...

valeu pelo comentário!

Gil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gil disse...

Rapaz, esse texto valeu o dia! Me causou uma saudade daqueles dias, como se lá tivesse vivido... Obrigado, excelente amigo, pelo afago!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.