27 de janeiro de 2009

O movimento do tempo


Os livros de Física, mesmo os piores, ensinam que a velocidade é igual ao espaço percorrido por um objeto (carro, partícula, ou mesmo homem ou mulher-objeto) dividido pelo tempo em que ele faz o percurso. Em notação simplificada, isso fica: velocidade=espaço/tempo.
Na verdade, como ninguém vê o tempo, o que percebemos são os movimentos em nosso redor, ou seja, percebemos que o espaço à nossa volta é modificado pelos objetos que andam, voam, correm. Para ver isso na nossa equaçãozinha é bem fácil. Basta uma manipulação algébrica que você aprendeu no primeiro grau: tempo=espaço/velocidade.
A partir desta noção de vida, que nos parece mais coerente no cotidiano, ninguém toca o tempo, ninguém o muda, ninguém o detém. Ele seria quase um dono de si mesmo.
A relatividade trouxe uma possibilidade nova dentro do jogo: se você se mover rápido o suficiente, vai perceber o tempo diferentemente dos que não se movem tão rápido. Jogando fora o formalismo: se você correr mais rápido, vai aproveitar mais o tempo que os que ficarem parados.
Mesmo assim, o cotidiano, completamente anti-científico, ou completamente natural, como queira, traz, nos jornais, a má nova dos óbitos dos homens. Mesmo dos velozes.Todo mundo morre. Ninguém é rápido o suficiente. Ninguém é santo o suficiente.
O tempo tem uma direção.
Se quisermos ousar, eu diria que o tempo tem um movimento.
Nós experimentamos o tempo com uma direção, individualmente. Se você puder notar alguma pessoa que esteja perto de você, vai ver que ela também não está inerte ao tempo. Ela tem que conviver com o tempo, assim como todos nós. Portanto, o tempo tem uma direção coletiva.
Mas não acho que seja só isso.
É como se nós estivéssemos numa viagem por um grande rio dentro de um barco, descendo rio abaixo. Nós podemos nos mover com independência em cima do barco, mas extremamente limitada, pelas fronteiras do barco. Nadar, embora possa parecer heróico, ainda não é uma boa opção, pois o barco está com o motor a toda velocidade. Ficaríamos para trás.
E o próprio rio tem sua velocidade. É um grande rio, O grande Rio.
Eu imagino nossa relação uns com os outros e com Deus dentro do tempo: estamos no barco da humanidade, que se move e em cima do qual nos movemos, e vamos navegando na direção do encontro irremediável com o mar da existência.

Não há como nadar contra a correnteza.

10 de janeiro de 2009

Dentro do tempo


Penso em uma espécie de vento selvagem e arrebatador.
Um vento que, numa paisagem plana de céu e terra, de azul e vermelho e umas poucas plantas aqui e ali, ruge, descendo com muita força do alto.
Desce com uma força incontrolável e arrasta toda a poeira do chão, fazendo uma tempestade de areia que arranca árvores, tira a água de rios e faz os animais correrem em fuga por abrigo.
Penso num respirar profundo em meio e dentro da tempestade, em pleno movimento; inspiração e expiração que jorram o ar pelas narinas da ventania, como um resfolegar de galope, como um berro surdo, um latejar do corpo e do calor do vento.
E, de repente, pouco a pouco, os redemoinhos vão se aquietando, o vento fica mais calmo, a tempestade vira uma brisinha leve que flui por uma cidadezinha.
A brisa toca as paredes da cidade, faz-lhe carinho e entra pela janela, onde encontra o rosto de uma jovenzinha pequena e lhe balança os cabelos e lhe passa por todo o corpo, numa sensação que ela nunca havia experimentado de ternura.
Ao mesmo tempo em que o vento lhe rodeava, formavam-se nuvens espessas no céu. Trevas o cobriram e uma chuva forte caiu sobre o lugar.
E, naquela hora, a mocinha, virgem e bonita, estava só e coberta em escuridão.
Ali, chorando em sentimentos de inquietação e alegria, ela se lembrou das palavras do anjo: "Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus."*
A partir daquele momento esteve Ele irremediavelmente sujeito ao tempo.

*Lucas 1:35

7 de janeiro de 2009

Tempo e tempos


O tempo é uma entidade, ou uma grandeza, para não causar estranheza anti-científica, muito interessante.
Não é de se admirar que, na mitologia grega, Cronos, deus do tempo, comesse seus filhos.
Esta é uma das estórias mais ricas de sabedoria que eu já ouvi.
Cronos é filho do céu (Urano) e da terra (Gê ou Gaia) e castra seu pai, usurpando-lhe o poder como deus soberano no Olimpo.
Entretanto, uma profecia dizia que ele seria derrotado por um de seus filhos. Por isso, Cronos come seus filhos assim que eles nascem, mas sua mulher e irmã, Réia (uma titã associada à fertilidade) consegue esconder de sua fome o caçula, Zeus, que, por fim, realiza a profecia, força seu pai a vomitar seus irmãos deuses e torna-se o maior dos deuses do Olimpo.
Ok, vamos deixar a Teogonia um pouco de lado...
O tempo, classicamente, é um inimigo: castra o pai, come os filhos e é mandado embora.
O interessante da estória é que ela apresenta certa vulnerabilidade, inexistente na realidade, do tempo: ele pode ser forçado, pode ser vencido, pode ser derrotado.
Zeus consegue vencê-lo depois que cresce e torna-se adulto. Ele encara o pai, enfrenta-o.
Entretanto, digamos que há aqui uma igualdade de condições, pois ambos são seres da mesma categoria: deuses inexistentes. Nenhum deles vai reclamar da estória, ou se sentir mais lesado que o outro.
Cavando um metro mais abaixo, convidaria a examinarmos o que diz o Pregador a respeito do tempo:
"O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou.
Vi mais debaixo do sol que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniqüidade." (Eclesiastes 3 vs. 15 e 16, Almeida Corrigida e Revisada Fiel).
O "nosso" tempo, realmente, está infectado pela impiedade e pela injustiça e estas coisas só fazem voltar a acontecer, desde sempre, desde que há homem.
Mas Deus se fez um igual a nós e lutou contra o nosso tempo, contra o nosso século, contra o sistema que parece opressivo e mortal.
Cresceu e viu coisas crescerem. Viu seu corpo se desenvolver, seus raciocínios progredirem e viu seus irmãos também crescerem. Inseriu-se no tempo, na irreversibilidade que conhecemos e na pequenez que somos.
E foi atropelado também pelo que nossa natureza conhece bem e luta com todas as forças, como a indicação maior do tempo: a morte.
Há um Deus no céu, que desceu à terra, lutou como homem e forçará o tempo a entregar seus filhos na hora certa.
Há um Deus no céu, que gerou o próprio tempo e o tem em si, o tempo e tempos, tempos eternos, novos e de novos ares.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.