26 de outubro de 2009

Uma crônica da Elogiomânia


Há uma frase atribuída a Einstein que diz: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”. Em se tratando de Clive Staples Lewis, falamos então de um homem da mais alta importância, de um verdadeiro mestre da imaginação.
Quem quiser percorrer as páginas de sua autobiografia espiritual, Surpreendido pela Alegria, constatará que sua própria visão de mundo era perpassada pela imaginação de muitos outros mundos, países e povos, vivos pelo coração e com os contornos que a mente lhes poderia conferir.
Como todo bom escritor, Lewis começa como um excelente leitor de clássicos imortais e, em sua obra magna, As Crônicas de Nárnia, faz uso de toda a erudição que tinha, da maneira mais gostosa e leve possível, convidando o leitor a aventuras em reinos distantes, em mares bravios, ao encontro com bestas, feras e dragões, e, acima de tudo com o rei dos mundos, o Leão, o Leão de Verdade.
Entretanto, não se sente qualquer afetação em Lewis. São mãos honestas que escrevem. Honestas, e de um poder, por que não, mágico, que vem de fora. Ele escreve do encontro maravilhoso com o divino como um fã das boas histórias, contadas, não por manuais de religião, mas por um tio ou um amigo muito legal da família, que acho que todos nós gostaríamos de ter quando éramos mais novos.
Aliás, Nárnia faz que eu me sinta perigosamente mais menino, louco para poder também participar das aventuras, montar em corujas, fugir de gigantes, lutar contra feiticeiras, e, acima de tudo, lutar ao lado de Aslam, no auge de seus selvagens ímpetos.
Além disso, não se pode deixar de aproveitar o privilégio de ler as cenas de batalha vindas da pena de alguém que lutou na Primeira Guerra Mundial e que, na Segunda Guerra estimulou pelo rádio os ingleses a refletirem sobre suas vidas de forma a enxergar que o verdadeiro inimigo, acima de qualquer alemão, estava a ser vencido dentro de cada um de nós: o orgulho.
É em Cristianismo Puro e Simples, que C.S. Lewis, como um homem formado e formador de tradição em duas das melhores universidades do mundo fala como um igual, uma pessoa absolutamente comum, com um punhado de bons exemplos sobre a fé cristã. Parece um amador falando, mas com um conhecimento de um perito.
Escrever mais aqui sobre Nárnia talvez fosse de péssimo gosto, pois o filme já vai começar daqui a pouco. Quem sabe este não seja um primeiro convite às outras crônicas?
Deixaria aqui marcadas as palavras de elogio a um santo da igreja bendita de Jesus, o irlandês que teve as parábolas adequadas para o século XX. Um homem que viu beleza e simplicidade por trás da complexidade da fé e soube transmitir verdades incalculáveis até mesmo para a menor idade.
Se há algo que se pode falar sobre a história da fé, é que ela é incrível e, se apanharmos nossas bíblias, veremos que muitas vezes (muitas mesmo) a teologia mais adequada é contar histórias. Desde a formação do mundo, e chegando até Jesus, temos histórias que importam e histórias que pedem para ser contadas e recontadas, até que entendamos de onde partem e para onde querem nos levar.
C.S. Lewis as expõe em alto e bom som nas Crônicas de Nárnia. Basta uma mente aberta e um coração disposto para descobrir que a vida, de fato, é bem mais impressionante do que parece, com um céu aberto para além das estrelas, na presença do personagem mais fantástico e real que sempre existiu. Nossa ida para lá, estas novas terras, estes novos céus, deve ser de uma aventura emocionante, que nos vale o preço de nossa própria caminhada, de nossa jornada em meio aos perigos da vida, da distância, da descrença, da falta de amor, e da morte.
Mas por fim (Ah! Como os bons romances têm que ter um final maravilhoso!), quando a entrega é verdadeira, a aventura é sem fim.
Nas palavras finais de C.S. Lewis em Cristianismo Puro e Simples:
“Quão monótona é a semelhança que iguala todos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a diferença dos santos!
Mas o eu precisa ser entregue de verdade. Você tem, por assim dizer, de lançá-lo fora “às cegas”. Cristo de fato lhe dará uma personalidade nova, mas não é por causa disso que você deve buscá-lo. Enquanto estiver preocupado com sua personalidade, você não estará caminhando na direção dele de modo algum. O primeiro passo consiste em procurar esquecer completamente de si mesmo. Seu novo eu, seu eu verdadeiro (que é de Cristo e também é seu, e é seu justamente porque é dele) não surgirá enquanto você estiver procurando. Só surgirá quando o objeto de sua procura for ele. Acaso isso parece estranho? Saiba que o mesmo princípio vigora em assuntos muito mais terrenos. Mesmo na vida social, você jamais causará boa impressão a outras pessoas enquanto não parar de pensar na impressão que está causando. Mesmo na literatura e na arte, ninguém que se preocupe especificamente com a originalidade poderá jamais ser original; ao passo que, se você tentar falar a verdade (sem ligar a mínima a quantas vezes a mesma verdade já foi declarada no passado), nove vezes em dez será original sem percebê-lo. Esse princípio rege a vida inteira, do começo ao fim. Entregue-se, pois assim encontrará a si mesmo. Perca sua vida para salvá-la. Submeta-se à m0rte, à morte cotidiana de suas ambições e dos seus maiores desejos e, no fim, à morte do seu corpo inteiro: submeta-se a ela com todas as fibras do seu ser, e você encontrará a vida eterna. Não guarde nada para si. Nada que você não deu chegará a ser verdadeiramente seu. Nada que não tiver morrido chegará a ser ressuscitado dos mortos. Se você buscar a si mesmo, no fim só encontrará o ódio, a solidão, o desespero, a fúria, a ruína e a podridão. Se buscar a Cristo, o encontrará; e, junto com ele, encontrará todas as coisas.”
1

Palavras imortais, atemporais, da magia mais profunda.

1- LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
-Texto escrito e lido por ocasião de um encontro da Igreja Batista do Caminho, em que assistimos ao filme O Leão a Feiticeira e o Guarda-roupa.

12 de agosto de 2009

Nada tão simples

Não se faz um dia, acendendo uma vela
E não se monta uma noite com uma lua de papel.
Muito menos há filho sem ter sido gerado,
Ou vida só por haver.

Não, não há nada que não tenha um quê de intrigante
Nada é tão simples,
Talvez somente um beijo de mãe.

Não se faz um castelo com apenas um tijolo,
Nem se convida o inverno pra entrar,
À porta de gente que tem frio e fome.
Não se dá o braço ao leão,
Ou o pescoço à corda.

Não, não há nada que não tenha um quê de intrigante
Nada é tão simples,
Talvez somente um beijo de mãe.


- Canção do baú (dos idos de 2000 e qualquer coisa), em homenagem ao Jacaman.

24 de junho de 2009


Arte é definida como “a capacidade humana de criação e sua utilização com vistas a algum resultado, obtido por diferentes meios” (Aurélio).
Olhando pra Bíblia, vemos a manifestação de diferentes gêneros literários e uma verdadeira profusão de poesia que vai do piedoso ao erótico, como nos Salmos e em Cantares. Há no texto santo as expressões de um povo e sua cultura, com suas peculiaridades, e elas querem dizer do Deus criador, do seu Deus, que, ao mesmo tempo, é o único Deus, criador, criativo, artístico.
Assim sendo, se cremos num Deus criador e se a arte é possível, deve ser também possível enxergar que a arte é algo que nos relaciona ao divino nas criações humanas. Que é uma graça para que também, em liberdade, seja o homem um artista, um pequeno criador, em harmonia com o plano divino. Naturalmente, não poderemos nunca colocar o homem em pé de igualdade com o seu Criador divino, mas o esforço artístico deve ser contemplado como parte da vida humana em que a possibilidade de criar lhe é inerente, mas quem o dota de tal capacidade é o ser transcendente.
Daí, de observar e experimentar a natureza, suas cores, seus odores, sua música, sua textura indelével, o homem cria, recria e anda, não em marcha, mas em dança existencial expressando o divino e o diabólico que há nele.
O grande desafio ao cristão, a partir desta perspectiva, é expressar naturalmente o divino que nele habita, seja onde, como e do jeito que for.
- Texto escrito e lido por ocasião da Mesa Teológica de 20 de junho de 2009. Origado, Bianca e Silvestre!

14 de maio de 2009

Doce suspiro

Ah, a vida!
Talvez a melhor maneira de fazer a vida correr seja deixando que ela vá, ligando-se às correntes mais primárias de sua origem. No Deus que coloca o universo pra expandir. Impressionante como Deus, mesmo permitindo o acaso, projetou um acaso criativo, nunca alheio à Sua harmonia, mas ao mesmo tempo livre, complexo, intocável, solto, permissivo; enfim, paradoxal.
É fantástico ver-se desenvolver, ver-se andar na matéria, fazer energia (no sentido mais físico da palavra) fluir do corpo, movimentar, remodelar, entrar na matéria e entender a mágica da existência pura, bruta, organizada subjetivamente no concreto!
Ao mesmo tempo a vida pede um olhar metafísico, pra fora, ou por entre a matéria, na expectativa mesma da reconciliação universal da simples existência do todo, do inseparável.
A encarnação de Deus é pra mim o grande mistério, maravilhoso, que fuzila qualquer esperança de olhar pra uma outra espiritualidade que não esteja calcada no possível, na relação, na liberdade de ida e volta, na possibilidade infinita do amor autêntico.
Imagino que a criação seja o ato mais grandioso de qualquer ser. Pensando num Deus criador, olhar em volta, ver homens e mulheres, árvores e a confusão de beleza de pôr-de-sóis, dos infinitos matizes que nunca deixam de espantar; pensando neste ser, é impossível não pensá-lo como alguém que lança cordas diárias para recolher nossas
Quem duvidaria que se conte a história de que este Deus, no anseio por ver a beleza sair de Suas mãos para um universo do que é partilhado, do que pode ser reinterpretado livremente, por ciência, filosofia e, sobretudo, arte, enfim, que Ele tenha soprado numa porção da matéria, num punhado de barro e tenha feito o barro, a partir dali, em si, ter vida.
Vida interpretativa, criativa, imitadora do Pai, como quem aprende como as coisas devem ser feitas.
Ah! Doce suspiro por uma vida eterna junto do Criador da criação.

12 de maio de 2009

Saltando

Um dia eu pensei em ter um grande amor. Essas coisas de amor são difíceis...
As pessoas são alvo dos mais diferentes acidentes de vida. Perdem os parentes, os amigos, as paixões; perdem os rumos e vêem as coisas virarem pelo avesso. Emoções, afeto e ternura são passadas pelas mãos das desilusões, transformam-se em desventuras, depressão, doença, e, por fim, nos prostram.
Detonam o grito da existência dolorosa, do calor insuportável, do frio do mundo, do escuro da alma.O desencontro da tristeza é a coisa mais terrível que pode assolar uma pessoa normal. Há a reincidência, o questionamento, a interminável pergunta: por quê? por quê? por quê? por quê, ó Deus!?!?
Por que o meu sofrimento interminável pelas questões da vida que eu não controlo?!
Por que um coração sofre? Por que ele padece e vai às raias do desespero e quase sucumbe?
Eu não sei.
Mas sei que do confronto do nosso coração com o mundo, em colocá-lo diante de nós e de ouvi-lo; de colocá-lo diante de Deus, a gente vai mudando, ganhando perspectiva, olhando pra frente.
O tempo passa, as dores vão virando queixas, as queixas viram procura, a procura vira escolha, a escolha é um salto.
Um salto de amor a gente tem que dar.
Nossa situação existencial, já disseram, é cheia de saltos: a gente salta pra Deus, pra verdade, pro amor.Graças a Deus, na minha vida, eu encontrei e encontro hoje os pousos certos dos meus pulos.
Um Deus que segura, a verdade que existe e chama e o amor dos meus queridos, da minha querida.É uma alegria pular nos braços dos que nos amam. É uma alegria muito grande pular nos braços de alguém a quem você ama e que te ama de volta.
É uma alegria pular nos braços da Priscila.
O salto é necessário, é preciso, é bom, é coisa de Deus, é o imperativo da vida nas suas composições mais profundas, mais elementares.Obrigado, Senhor, pela vida humana. Tenho mesmo que agradecer pelas pessoas que me seguram. E agradecer-lhes, todas. Em especial, agradecer a quem me agarrou pelo coração e me dá ânimo para a caminhada a quatro pernas do futuro.

11 de maio de 2009

Crime e Castigo

Algumas vezes nos deparamos com clássicos.
É uma oportunidade maravilhosa, estejam eles no tempo em que estiverem. Eu tive até hoje o prazer de alguns e posso dizer que seu sabor é um tanto inconfundível. Mesmo que indigesto... Mas quem falou em digestão?
Não é diferente com o famoso romance de Dostoiévski, Crime e Castigo, cuja digestão é um tanto difícil, mas é delicioso demais!
Dono de uma pena muito produtiva, viva e criativa, Dostoiévski apresenta, no mundo da Rússia czarista, personagens de uma verossimilhança muito grande, vivendo seus dramas e criando as respostas para a vida, tecendo justificativas e materializando o mal, o bem, o humano.
Raskólnikov é o nome do personagem central , responsável pelo crime e o sofredor do castigo que se desenrolam nas mais de quinhentas páginas do livro, cuja marca maior são os diálogos que deixam transparecer a persona por trás dos nomes.
A leitura nos traz à cidade de Petersburgo, principal capital russa da segunda metade do século XIX, onde o ex-estudante Raskólnikov mora e passa grande aperto financeiro além de estar em estado de desequilíbrio emocional. Extremamente irritadiço, muitas vezes delirante, Raskólnikov traça uma maneira de se livrar de seu problema financeiro, um jeito de alavancar sua carreira, tramando, esquematizando e raciocinando um crime que, por sua teoria, seria plenamente justificável, pois suas consequências só poderiam surtir efeitos positivos. Especialmente para ele. Deixaria sua irmã e sua mãe de fora de sua vida financeira, de suas preocupações, e longe de possíveis tratados por conveniência, casamento arranjado, ou a qualquer sistema. Mas nunca o real é como o que se planeja... Nem na realidade objetiva, nem na nossa mente.
Dostoiévski, então, trata do estado psicológico de um criminoso frio, mas que ao mesmo tempo perde a paz com sua consiência, foge de si, se coloca à mostra com decisiva frieza à polícia, enfim, alguém perturbado profundamente no espírito.
Ninguém poderia julgá-lo, afinal, há uma classe de homens que, simplesmente, não precisa dar justificativas à sociedade por suas ações, como, por exemplo, Napoleão. A história, tomando emprestada a expressão de Fidel, os justifica. Estes homens são superiores e têm a permissão do crime. Em outras palavras, o crime deixa de sê-lo para eles.
Raskólnikov, certa altura do romance é perguntado se ele mesmo não seria alguém que se considerava assim, um homem desta categoria de homens superiores, categoria que ele mesmo descreve como superior e elogiável.
Durante romance, Raskólnikov é um humano exemplar: extremanente confuso, perdido, inconsequente (ou carente da análise completa de suas ações), caridoso, generoso, desapegado ao vil metal, mas comprometido com ideais que pudessem lhe trazer a dignidade, ainda que por situação torpe, indigna... Ródion Romanovitch Raskólnikov é o paradoxo humano.
O que Dostoiévski faz em seu tenso romance, com uma qualidade de mestre, e, diria, até com certa humildade na maneira de escrever, é dar um jeito na vida de seu personagem, de lhe incluir os elementos fundamentais à vida do homem de todos os tempos: consciência, amizade, amor e redenção.
Há cenas simplesmente fantásticas no livro. Por exemplo, um dos sonhos que Raskolnikov tem sobre um cavalinho que é espancado; um outro sonho sobre seu crime, numa reinterpretação existencial do próprio personagem; a cena do crime, a cena em que Sonia lê o evangelho... muita coisa boa, muita coisa muito forte, de grande pungência.
A versão que li foi uma edição da Editora 34, de tradução diretamente do russo, feita por Paulo Bezerra e com gravuras de Evandro Carlos Jardim. As notas de rodapé são formidáveis e de um perito em Dostoiévski. Situam muito bem o romance em seu contexto russo e no contexto da vida do autor. Um trabalho de crítica textual bem elaborado, pra dizer o mínimo.
Uma leitura obrigatória para amantes de Literatura com letra maiúscula.

8 de maio de 2009

A Busca


Não existe caminho fácil para a verdade.
Foi o escritor alemão Schiller quem escreveu que “no abismo, mora a verdade.” E acho que ele tinha razão na sua assertiva. Existe um precipício diante do conhecimento do homem que lhe mostra o quanto ele deve descer, para encontrar o que há de precioso.
Edgar Morin escreve que “a busca da verdade está doravante ligada à investigação sobre a possibilidade da verdade.” A verdade como a possibilidade dela mesma e talvez atingível. Mas se há possibilidade, é que algo é possível.
O cenário proposto então pode ser colocado da seguinte forma: céu azul, andando por aí pela vida e Schiller aponta pro fundo da terra, com segurança, numa rachadura colossal que se abre e Morin diz que é possível encontrar a verdade lá. Resta apenas pular.
Aqui está o risco, a dúvida, a dificuldade em medir os desafios, a necessidade de respostas, a interrupção por algo que realmente importa.
Somente o homem que pula encontra alguma coisa. Ou talvez não encontre nada. Nas nossas buscas, os dois são possíveis. Mas quem quer encontrá-la pula. Pula de cabeça e peito aberto, ou pelo romantismo, ou pela falta de noção do perigo. E cai até o fundo, sabe-se lá como, ainda meio vivo, meio morto, meio sonho, meio ilusão, meio real, meio consciente.
Pra mim, é impossível deixar de imaginar que uma cena muito interessante se passe, uma vez lá em baixo.
O homem tenta recobrar a sobriedade, descobre-se solto no escuro, relembra que sua empreitada inicial era a busca da verdade e sai à caça. Nossos primeiros passos são os mais primitivos: farejamos a verdade, por seu inconfundível rastro de odor suave. Mas não nos enganemos: estamos tratando do mais selvagem dos seres.
Quem saberia dizer o que nos espera por fim? Aliás, no fim de quê? Quem foi que disse que existe alguma verdade? Quem foi que disse que ela poderia ser encontrada? Na verdade, quem foi que teve a ideia de sair do papel e pular? E esse escuro, que ninguém disse que seria assim, aqui em baixo?
Mas, de repente, tomamos uma lufada de ar quente no rosto, como se narinas poderosas estivessem abertas e soprando o ar por elas, bem na nossa cara! Pela pressão do ar, ninguém diria que estamos tratando de algo menor que um búfalo, ou um rinoceronte. Quem era mesmo o caçador?
Corremos pela nossa vida, mas, logo nos primeiros passos, descobrimos que ninguém vem atrás. E será que haveria alguém mesmo ali, anteriormente? Será que aquilo era mesmo ar? Seria de se esperar que encontrássemos alguma coisa ali?
Nesta hora, tomamos uma rasteira, mas não vemos o que houve. Só sabemos que caímos no chão, no meio de nossas perguntas. Existe alguma coisa estranha... Existe alguém por ali...
Os olhos estão no escuro, não enxergam. Mas cheiramos, tateamos, e quase podemos sentir o gosto de que estivemos diante da verdade, quando ouvimos então uma voz, que faz clarear o ambiente. É uma voz que vem de longe, iluminando a caverna do abismo. Ela é doce e diz “eu te amo”.
Em alguns poucos segundos, a voz se apaga, mas a impressão daquilo é inquietante. “Agora eu sei”, diz o homem. “Eu estive aqui e ouvi.”
O homem escala o abismo, que agora não parece tão longe quanto achava que era quando se lançou, e volta pra casa, conta a sua história e pensam em metê-lo num hospício. Mas ele está lúcido demais quando diz isso e acabam por abafar o caso.
Já li sobre gente que tinha se embrenhado neste mesmo abismo e que pagou com a vida a questão, por diversão das massas, no Coliseu.
Ilusão, dizem, ilusão e delírio.
E o que não é ilusão?
A possibilidade abre o caminho, em vez de fechá-lo. O pulo é a jornada mais curta e gostosa. Lá em baixo vira lá em cima, e é impossível ter orgulhos em um lugar tão mágico.
É-se mais homem frente à verdade. É-se mais feliz em sua busca.

26 de abril de 2009

Luta de Fé

Não é fácil conviver com a diferença. Eu digo pela minha própria experiência.
É uma situação delicada amar uma pessoa e, ao mesmo tempo, no fundo, sentir uma espécie de incompatibilidade de ideias e de caminhos de vida. Dentro e fora dos nossos muros eclesiásticos, isso sempre foi difícil, nas diversas relações humanas: amizade, namoro, trabalho, etc. Ninguém vibra quando outro chega e diz que não gostou disso ou daquilo que fizemos ou pensamos, mesmo que os resultados de nossas ações sejam meros sentimentos sem muita importância prática.
Não seria isso uma espécie de oferecer a outra face? Honestamente, é muito difícil dar a outra parte do rosto, ou das nossas convicções, pra baterem. Ninguém quer.
Uma situação em que cedemos mais um lado a alguém, implica que já demos o primeiro lado. A pessoa já bateu e não vai parar ali. O evangelho, em afirmação de Jesus, em Mateus 5:39, diz o seguinte: “Eu porém vos digo que não resistais ao mal; mas se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.”
Difícil... dar a cara pra baterem, depois de já ter tomado uma surra?
Para nós, como grupo, igreja, dar a outra face é colocar a fé no campo de discussões e ver baterem nela à exaustão. Quando termina a discussão, faz parte oferecer outra parte pra que também seja exposta. Não só dá pena, mas até um pouco de medo. “E se ela morrer?”
Por que tamanha loucura?
Eu diria que o cristão pode se dar a este luxo, pois, embora ajudem, não são doutrinas, nem dogmas, nem a História, nem milagres, nem mesmo argumentos que sustentam a nossa fé, mas o próprio Deus. Esta é a nossa aposta, nosso grande investimento e nossa firme esperança. O Deus eterno, Ele sim, e não algo que se diga sobre Ele, é quem tem o maior interesse por nossa fé e a sustenta com amor, fazendo da nossa fé ponte para que, mesmo no aparente descrédito, o amor convença quem bate, antes de qualquer outra coisa. Este é o mistério da beleza da fé: apoiar-se no próprio Deus, em relação de amor.

24 de março de 2009

Sócrates - O Poder do Não Saber


Andreas Drosdek, com o título acima, faz uma abordagem da gestão empresarial (ou mesmo uma gestão pessoal) a partir do que nos foi legado como ensinos de Sócrates.

É um livro fininho, publicado pela Vozes (primeira casa publicadora do Brasil) e endossado por um filósofo, Márcio Sergio Cortella, que prefacia do livro a partir da provocação inspiradora de que, como escreveu Anatole France, "os sonhos dos filósofos têm, em todos os tempos, animado homens de ação que puseram mãos à obra para realizá-los".
Quem melhor para começar uma série do que Sócrates?
Começando por explorar sua técnica tão simples e, ao mesmo tempo, tão precisa e completamente aplicável em qualquer situação de pesquisa (qualquer mesmo), a arte de perguntar, o autor coloca Sócrates como um inquiridor do saber, da forma mais sincera possível. O personagem do livro é visto sob as lentes mais informais de alguém que, em vez de perscrutar criticamente qualquer palavra, faz uma leitura em busca da sabedoria, sapiência do homem.
Sócrates, a partir da percepção da fragilidade, ou melhor, da insuficiência de seu próprio saber no que diz respeito às questões sérias e profundas da vida, resolve admitir que não sabe nada. No seu inventário de saberes sólidos, Sócrates constata que seu ponto de partida é o clássico dizer "só sei que nada sei".
Há, naturalmente, quem vá observar que as posturas de Sócrates tenham sido irônicas, quase na totalidade, mas difícil coisa é realmente dizer isto, frente à maioria da apresentação feita por Drosdek.
De posse da informação vinda do Oráculo de Delfos de que ele seria o homem mais sábio de toda Atenas, Sócrates, inconformado, por saber que não sabe, resolve pesquisar entre os homens que julga superiores em relação a ele: políticos, poetas, artesãos, soldados.
Pergunta sobre o que é a beleza, o bem, a coragem, e outras perguntas diante das quais seus interlocutores não conseguem dar respostas seguras. Pelo menos não tão diferentes das que poderia ouvir em outros meios, talvez com menos instrução.
O autor faz questão de frisar que em determinadas situações na vida empresarial (e diria que, se o livro fosse mais auto-ajuda - mesmo sob o peso de ser pejorativamente taxado de ruim de antemão, ou mesmo diretamente uma releitura de Sócrates, sem envolver tanto a gestão, seria melhor) é necessário saber administrar o não-saber.
Ser realista em dizer que não sabe não dói e poupa dores financeiras.
Um aspecto interessante da vida de Sócrates que o autor aborda é o fato de que Sócrates tinha certa indiferença sobre questões relacionadas ao Universo. Ele passou ao largo por estas coisas e, em seu "projeto filosófico", se dedicou a questões éticas, ou à busca do bem, pois cria que quem sabe o que é bom faz o bem.
A partir desta premissa, o pensamento de Sócrates é dividido em 3 "reviravoltas" (termo utilizado pelo autor): 1. o reconhecimento do não-saber; 2. o ser humano como centro; 3. o bem enquanto objetivo.
Com esta tripartida análise, o autor seleciona os melhores momentos do jogo filosófico de Sócrates e insere seus ensinamentos em sua vida, como parte da validade da análise (por exemplo, ele fala que, embora Sócrates questionasse homens experientes em batalha sobre o que seria a coragem, ele mesmo havia combatido).
Enfim, uma leitura rápida, interessante e que causa reflexão que vale a pena.
Diria que o livro peca muito pois deixa de fora as referências bibliográficas. Mas vale.

Quando não se tem o que dizer

Há exatos 7 dias faleceu um amigo meu, pai de um grande amigo meu.
É muito difícil saber o que dizer em horas de luto.
Eu sempre me lembro do verso bíblico que diz que "melhor é ir à casa onde há luto que ir à casa onde há festa, pois naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração" (Eclesiastes 7:2).
Andar por entre as covas, ver o sol bater nas cruzes velhas e desgastadas, certamente não é um passeio agradável.
Pior é enxergar a dor dos que ficam, no calado sofrer, no esperar dos dias da resignação, que tarda a vir.
A morte é o que aponta uma experiência dolorosa na caminhada humana. Quando a enfrentamos, parece que algumas coisas que nossa sociedade valoriza são miudezas sem importância: luxo, dinheiro, matéria.
Parece que quem gasta a vida com estas miudezas é quem não experimentou o vácuo que isso oferece quando se vai ver a vida de cara, ou a morte de cara.
Dizer que a pessoa também só se divertiu na vida é algo estranho. Não soa muito bem.
Em geral, o que faz muito sentido em dias de funeral é dizer que a pessoa foi boa, que teve fé, que tinha postura digna diante dos problemas, seus e dos outros; que ajudou amigos e gente que nem bem conhecia, que teve seus sonhos e concretizou alguns, cuidou da esposa, dos filhos e os amou.
No fundo, o que importa mesmo, por mais piegas que soe, é a medida de quanto a pessoa amou.
Se amou muito, pouco, ou nada. Se amou as pessoas ou as coisas.
Acaba sendo a morte um direcionador e um agente seletivo dos valores da vida. Ela integra uma espécie de indicador de como a vida deve ser vivida. Dá mais sentido a ela, responde duramente quando ela não é vivida de um jeito bom. Chora-se por um bandido ou por um drogado de jeito diferente do que se chora por pai e mãe. Mas, mesmo dando algum sentido à nossa existência temporal, a morte parece um intruso no nosso universo, pois derruba nossos projetos, interrompe as vidas, mostra nosso tamanho: pequeno, muito pequeno.
Por isso, entender o Cristo e sua missão é de fundamental importância. Ele venceu a morte. Ele, definitivamente, é maior.
Pela fé, é possível mesmo descredibilizar esta coisa horrenda e irreversível. Existe algo além. E, se não existir, pelo menos pode-se crer. Lá, no campo onde a fé atua, a morte não tem efeito. Nem que seja num âmbito onírico da fé, lá ela digladia com o Cristo e morre. A morte morta não tem perigo.
A morte, afinal, foi mostrada como uma intrusa, uma penetra na nossa vida.
Penetra das piores, diga-se, pois acaba com a festa.
Vem Paulo e a coloca ali no canto, no acender de uma luz espiritual, a desafiá-la: "onde está, ó morte, o teu aguilhão?"(I Coríntios 15:55).
Mesmo isso não a impede de ter o domínio sobre desenvolvimento e evolução (questionável, entretanto).
O escândalo do evangelho é justamente em dizer que a morte não passa de um domínio temporal, pois, diz o evangelho que quem crê no Cristo, ainda que morra, viverá.
Eu gosto tanto disso (e permito-me dizer que não deve ser mero gosto pessoal, mas uma convicção assentada demais pra me permitir a negá-la) que deposito a melhor parte das minhas energias em me convencer de que, mesmo que as coisas passem, há algo que não passará. Sei lá o quê: se espírito, se alma, se mesmo o corpo, ou se tudo junto integralmente, acho que, no momento, isso não importa muito... Importa dizer, com todas as letras que, se há um Deus no céu (e eu creio que há), se o Cristo é o Seu Cristo (e eu creio que é), o homem que crê vai além. Não pelo sistema vicioso que acabei de escrever (grosso modo: "eu creio e creio que quem crê vai, logo eu vou").
Mas pelas afirmações escritas com o sangue de profetas, do Senhor Jesus e dos santos, através da História, que denunciam a formação, não de valores temporais, submetidos à crítica do tempo e passíveis de serem jogados ao lixo (o que até pode ser), mas de verdades que, mesmo na sujeição dos tempos de maior crítica, de um jeito misterioso permaneceu, ainda que em termos de sugestão.
E é o que faço aqui, mesmo nas linhas mais "quentes": sugiro.
Sugiro a vida depois da vida, do jeito simples que já sugeriram, mas também na vida, enquanto se vive, do mesmo jeito simples que também já sugeriram.
Bem, quem souber de alguma coisa sobre a vida ou sobre a morte, que desembuche logo, por favor, pois eu garanto que, se houver coisa melhor, mais verdadeira, mais forte, mais real e duradora que a proposta do evangelho, eu estou dentro. Se não é assim, bem, aí é questão de fé e vamos encarar as coisas cada um com sua lente.

11 de março de 2009

O Mundo de Sofia


Em algum momento da minha vida eu caí na besteira de querer fazer um curso que envolvesse ciências exatas, quando havia uma predisposição muito natural em mim para trilhar o caminho das humanas, especialmente filosofia, ou coisa do gênero.
E sempre houve um livro que, quando citado, despertava ainda mais a minha curiosidade sobre a filosofia, pois me diziam que ele era simplesmente genial: "O Mundo de Sofia".
Como este é o primeiro texto de uma série que pretendo intitular "resenhas", como marcador, se o leitor que vem aqui, sabe-se lá porque, não quer contato com minhas impressões do livro, por favor, não se incomode com as linhas aqui e fique à vontade para mexer por aí, onde lhe melhor aprouver.
Se você acompanha agora esta nova linha, gostaria de fazer o convite a que entremos num mundo feito nem tanto de matéria, mas de idéias, consciência, questionamentos e uma busca incansável pelas perguntas fundamentais que sempre afligiram e impulsionaram o homem a um entendimento mais profundo do universo e de si mesmo, ainda que nunca acabado.
É disto que trata "O Mundo de Sofia", de um jeito belíssimo, didático e romanceado.
Ao receber as cartas de um professor anônimo de filosofia, Sofia embarca nos questionamentos dos filósofos pré-socráticos e ruma para a descoberta de inúmeros pensamentos e correntes que se delinearam desde os tempos clássicos até descobrir, junto de Alberto Knox, seu professor, os segredos de sua existência (e agora eles devem estar por perto).
O livro, além de muito instrutivo não deixa nada a desejar em se tratando de romance, uma vez que o autor, Jostein Gaarder, faz questão de elaborar uma trama à altura da história da filosofia, com personagens que têm lá, ainda que muito subjetivos e esparsos, seus dilemas. Como literatura juvenil, não tem melhor para indicar.
Algo que me chama a atenção é o fato de que, embora o livro necessariamente tenha de lidar com a religião, com Deus, com o cristianismo e mesmo fale de Jesus, o livro não é de modo algum tendencioso e não se arroga de premissas particulares para fazer afirmações de cunho espiritual ou mesmo o oposto a isso. É um livro imparcial como poucos e apresenta de forma muito clara os pensamentos desencadeados na História, de grandes homens e seus olhares do universo, da sociedade, de Deus, da religião, do homem, da razão e da própria História.
O modo como os capítulos estão distribuídos, a exemplificação abundante e a maneira como o autor recapitula os conceitos previamente adquiridos, subjetivamente, nos capítulos subseqüentes são formidáveis e, sem dúvida, um estímulo ao leitor em direção à intimidade com a filosofia.
Outra coisa que o autor faz com primor é colocar elementos de identificação que se desenrolam ao longo do romance e que são percebidos como conceitos filosóficos no momento apropriado.
Por exemplo, na cabana do major há um quadro de Bjerkely, coisas velhas, coisas corriqueiras, um estranho espelho, enfim vários elementos que acabam se identificando como o inconsciente do major. Bom é só perceber isso quando ele fala de Freud. Outro exemplo é o absurdo da festa, no existencialismo.
O melhor de todos, a meu ver, é quando se está falando de Berkeley e, de repente, Hilde entra em cena. O livro dentro do livro. Seria tudo uma percepção da consciência? Uma vida vinda dela, autônoma e independente
?
As transições são tão gostosas, que vale a pena fechar o livro e saborear as idéias, acompanhando os raciocínios de grandes nomes como Kant, Hume, Locke, Hegel, Kierkegaard, Marx, etc. como se fôssemos coautores das idéias, ou, no mínimo, apreciadores dos pontos de vista.
A impressão que tenho é que quem lê o livro tem a vontade de ser menos pedante e de testar os conhecimentos de um jeito meio lúdico com quem também partilha do interesse pelo conhecimento e por questões interessantes. Enfim, quem lê não tem vontade de parar por aí.
Outro aspecto bem pensado para o livro é a inclusão de um índice remissivo. Isto lhe confere o status de livro-texto para a História da Filosofia (com maiúsculas, pois agora falamos de Academia), muito embora a historinha de uma (duas) menina(s) de 15 anos deixe margem para que o livro seja um tratado bem humorado sobre o assunto, mais que uma infalível obra.
Eu, como nunca tinha lido nenhum livro de história da filosofia, fico extremamente feliz com "O Mundo de Sofia", pois me vi voltando de vez em quando à adolescência e, ao mesmo tempo, me divertindo e revendo o que eu já tinha lido sobre os filósofos, na expectativa de me perguntar "será que aquilo que eu tinha ouvido sobre 'fulano' era verdade
?",em vez de afirmar "isto aqui vai me acrescentar pouco".
Enfim, o livro é excelente em todas as suas 500 e poucas páginas e tem um final...
Bem, tem que ler pra saber o final, como qualquer bom romance.

11 de fevereiro de 2009

Da certeza

Eu não tenho mais certeza de muita coisa. Não tenho certeza nem deste texto aqui.

Não creio que esta afirmação seja de muito alarde ou de muita novidade (a não ser que o leitor já cedo tenha medo de ser arrastado a ler linhas inseguras), mas eu realmente não tenho tanta certeza das coisas mais. Talvez fosse melhor dizer que eu já tive mais certeza. Tenho receio de que esta afirmação traga consigo outras informações parasitárias de quem, além de perder gradativamente as certezas, perde a fé ou as convicções mais assentadas... não é bem isso. Mas eu diria que perdi muitas certezas. Muita coisa pode ser e muita coisa que me parecia, certamente não é.

Antigamente, achava que a razão denunciaria inequivocamente os erros e limitações dos sentidos, das impressões, da parcialidade, mas hoje não estou mais tão certo disso. Não sei se isso (este questionamento acerca de certezas) foi algo que se gerou dentro de mim, ou se veio de fora, mas sei que é algo que se instalou aqui, na minha cabeça... ou no peito.

Hoje, a cada momento que passa, mais há uma espécie de dúvida recorrente de como é o mundo, de como são realmente as coisas que vejo, como são as relações entre as pessoas, o que elas vêem como importante, quais são seus valores e quais são os caminhos de vida mais corretos, quais são as confissões de fé corretas, quais são as validades de nossas experiências, e até que ponto podemos transferi-las para a vida dos outros, quais são as idéias de importância pra humanidade, para a arte, para a filosofia, para a religião, para a política, para a tecnologia e para a ciência... enfim, o que é que é verdade e o que é que não apenas funciona, mas também é certo, seguro, firme, acima de qualquer suspeita negativa.

Acho que o motivo desta confissão um tanto aberta é o fato de ver que gente que tem muita certeza de tudo é, em geral, tirana ou traidora de suas próprias certezas e estou convencido, naturalmente com alguma margem de dúvida, de que as maiores monstruosidades foram feitas por gente que estava em um destes dois grupos de pessoas.

Um tirano, um ditador, ou mesmo uma pessoa extremamente comprometida com aquilo que lhe legaram por certo ou por um determinado modo de pensar que julga inequívoco, é alguém duro, difícil de mudar suas perspectivas pela argumentação coerente, pela lógica, ou mesmo, e este é o caso mais complicado, pela evidência. Muita “ciência” é feita nessas bases. De um tempo pra cá tenho me esforçado por acompanhar os “diálogos” entre criacionistas e evolucionistas e vejo que dificilmente os homens que estão vestidos de muita certeza se desnudam dela. Ela parece um vício, estimula a concorrência, a oposição, a rivalidade e mesmo a violência mais embrionária.

Não que discutir não seja bom... muito pelo contrário! Especialmente na questão Criação vs. Evolução, eu acho que a ciência é muito enriquecida pela discussão, pelos pontos de vista diferentes, pelo confronto de idéias, pela exposição de evidências, enfim, o que é científico em essência. A discussão faz que as pessoas não se dêem o direito de permanecerem paradas e as impulsiona a procurarem soluções para os problemas que vão surgindo, ainda que permaneçam inalteradas em suas visões de mundo. Mas quando andamos pelas sendas das convicções pessoais que motivam determinada postura (especialmente quando esta é estimulada, negativamente, por uma outra visão oposta), parece que orgulhos das origens mais infantis surgem e faz-se vencedor, ao menos supostamente, quem tem o melhor brinquedo intelectual ou a melhor ferramenta natural (neste inventário, poderíamos incluir desde diplomas até uma boa oratória). Não são propriamente convicções, ao que me parece, mas, antes, uma certeza corrosiva que rejeita pontos danificantes de seus pensamentos aparentemente originais. Bem, esta é uma forma triste de arrogância, eu diria.

Enfim, as certezas levam do conforto ao confronto. Mas acho que nestas duas coisas encontramos muitas delícias e, por isso, algumas pessoas parecem não sobreviver a não ser quando agarradas a estas certezas.

O outro lado da moeda é o dos vira-casaca, dos traidores, dos bajuladores, demagogos e oportunistas. Ouvi certa vez que nada é pior que um político ex-comunista. Ele vai querer vender até a mãe e esfolar o bolso alheio até o último ceitil. Exemplos não faltam... Só olhar o presente governo e ver quem é oposição e quem é situação e analisar seus passados de lutas estudantis, de admiração bolchevique, e de idealismo mais puro que se tornou nada mais que, se tanto, uma leve crise de consciência advogada pela memória. Isto, repito, se tanto, pois acho muito comum ouvir que “eram outros tempos, outras mentalidades... eu era jovem”.

Diria que a pessoa que se deixou mudar de uma certeza, não por perdê-las, mas por rejeitá-la em relação a uma outra, é semelhante a um homem que aprendeu a nadar e quer treinar suas técnicas no deserto. Mas, em geral, infelizmente, tais homens encontram sua linha de ação em lugares muito mais produtivos que desertos e fazem uso deles como se a vida lhes devesse alguma coisa por terem se submetido ao martírio do abandono de suas idéias originais, ou pelo entusiasmo de sua nova técnica de vivência. Na verdade, estes homens são movidos por suas paixões mais lancinantes de orgulho e, sejam quais forem os fundos teóricos que amparem sua prática corrente, quando há a mudança, os paradigmas são apenas maquiados e o objetivo último, a satisfação do ego, está assegurado em sua ideologia suprema. Penso na pessoa que se coloca diante do mundo com olhos muito vivos, para dele extrair o melhor para si, de um jeito egoísta e dissimulado.

Certamente (permito-me a este tentador paradoxo), não estou falando de gente que é indecisa, fraca de idéias, que aceita um monte de conselhos, mesmo os ruins, ou gente que fica um tanto receosa de dar uma opinião por conta de sua insegurança. E nem das pessoas que se colocaram nas diferentes posições da vida e, seja por experiência, seja por convicção, seja por fé, afirmam algumas coisas com categoria de maior peso, como um ancião que aconselha a comunidade, uma mãe que ensina os filhos pequenos a atravessarem a rua com muita cautela ou como um amigo que zela pelo bem do outro. Estas pessoas externam convicções talvez mais sedimentadas ao longo do doloroso processo da formação dos valores humanos do que em seus próprios palpites. Ou o fazem por amor ao próximo, ou por medo do erro e suas conseqüências nas vidas dos outros.

Mas disso, eu também não tenho certeza. Também não sei dizer se o melhor é aprender com os erros dos outros em vez dos nossos, mas desconfio que seja. Pelo menos acredito que o melhor seja aprender alguma coisa em qualquer uma das duas situações. Creio que sim. Desconfio, acredito, creio...

No fim, o que nos resta é crer.

A sugestão me parece uma boa alternativa à certeza, assim como a fé me parece ser um caminho libertador para pesar argumentos e simplesmente crer e se segurar na validade de suas convicções, quando o objeto da fé é real e maior que o que crê, sem pensar que, por outros errarem é possível dizer “eu bem que avisei...”

Crer me parece ser indispensável ao homem, mesmo ao homem que se diga “de razão”, “científico”. O homem de “razão”, que insulta o ouvinte com este tipo de expressão, pois deliberadamente o chama de burro, convencido ainda por cima de que o ouvinte é, de fato, burro o suficiente para não entender a ofensa, em geral, é alguém que tem uma certeza incontestável de que sua visão de mundo, que ele chama de racional, contempla as únicas possibilidades de verdade. Diria que, vencidos os principais mitos da humanidade, ninguém mais duvida da razão, e dizer que acredita-se nela, é dizer que o céu é azul, ou que a água é vital à vida. Ninguém deve admirar ninguém por isso, pois já faz pelo menos uns cinco mil anos que as pessoas usam da razão para suas atividades. Mesmo na concepção de seus mitos, alguém teve que inventar muito bem suas explicações, não? Bem, como disse no início, não tenho certeza, e nem me proponho aqui a firmá-la nestas linhas. Portanto, que os homens e mulheres “de razão” fiquem à vontade para criticar.

Diria (e diria que já comecei um outro parágrafo com esta palavra) que assim como estamos sobre duas pernas, ou pelo menos os homens de passos saudáveis, assim também devemos andar com fé e pesquisa, ambas movimentando nossos passos, corpos e mentes, frente ao mundo maravilhoso que se estende a nós. Diria que a postura mais doente que alguém poderia adotar na vida seria andar de muletas de certezas, ou ser carregado numa cadeira de rodas por outras pessoas, intelectualmente.

Os verdadeiros professores ou educadores (e, se você quiser, pode trocar a palavra para doutrinadores, intelectuais, ou outra com a qual você fique mais à vontade, como pais, mães, irmãos), são os que nos ensinam a andar com nossas pernas, mesmo nas condições mais severas, sugerindo graciosamente e de um jeito verdadeiro. E é isto o que devemos fazer com os outros. De vez em quando um empurrãozinho é necessário, mas nem sempre.

Eu arriscaria dizer que quem perde em certeza, ganha em fé. A maneira de andar o denuncia e é impossível não perceber.

27 de janeiro de 2009

O movimento do tempo


Os livros de Física, mesmo os piores, ensinam que a velocidade é igual ao espaço percorrido por um objeto (carro, partícula, ou mesmo homem ou mulher-objeto) dividido pelo tempo em que ele faz o percurso. Em notação simplificada, isso fica: velocidade=espaço/tempo.
Na verdade, como ninguém vê o tempo, o que percebemos são os movimentos em nosso redor, ou seja, percebemos que o espaço à nossa volta é modificado pelos objetos que andam, voam, correm. Para ver isso na nossa equaçãozinha é bem fácil. Basta uma manipulação algébrica que você aprendeu no primeiro grau: tempo=espaço/velocidade.
A partir desta noção de vida, que nos parece mais coerente no cotidiano, ninguém toca o tempo, ninguém o muda, ninguém o detém. Ele seria quase um dono de si mesmo.
A relatividade trouxe uma possibilidade nova dentro do jogo: se você se mover rápido o suficiente, vai perceber o tempo diferentemente dos que não se movem tão rápido. Jogando fora o formalismo: se você correr mais rápido, vai aproveitar mais o tempo que os que ficarem parados.
Mesmo assim, o cotidiano, completamente anti-científico, ou completamente natural, como queira, traz, nos jornais, a má nova dos óbitos dos homens. Mesmo dos velozes.Todo mundo morre. Ninguém é rápido o suficiente. Ninguém é santo o suficiente.
O tempo tem uma direção.
Se quisermos ousar, eu diria que o tempo tem um movimento.
Nós experimentamos o tempo com uma direção, individualmente. Se você puder notar alguma pessoa que esteja perto de você, vai ver que ela também não está inerte ao tempo. Ela tem que conviver com o tempo, assim como todos nós. Portanto, o tempo tem uma direção coletiva.
Mas não acho que seja só isso.
É como se nós estivéssemos numa viagem por um grande rio dentro de um barco, descendo rio abaixo. Nós podemos nos mover com independência em cima do barco, mas extremamente limitada, pelas fronteiras do barco. Nadar, embora possa parecer heróico, ainda não é uma boa opção, pois o barco está com o motor a toda velocidade. Ficaríamos para trás.
E o próprio rio tem sua velocidade. É um grande rio, O grande Rio.
Eu imagino nossa relação uns com os outros e com Deus dentro do tempo: estamos no barco da humanidade, que se move e em cima do qual nos movemos, e vamos navegando na direção do encontro irremediável com o mar da existência.

Não há como nadar contra a correnteza.

10 de janeiro de 2009

Dentro do tempo


Penso em uma espécie de vento selvagem e arrebatador.
Um vento que, numa paisagem plana de céu e terra, de azul e vermelho e umas poucas plantas aqui e ali, ruge, descendo com muita força do alto.
Desce com uma força incontrolável e arrasta toda a poeira do chão, fazendo uma tempestade de areia que arranca árvores, tira a água de rios e faz os animais correrem em fuga por abrigo.
Penso num respirar profundo em meio e dentro da tempestade, em pleno movimento; inspiração e expiração que jorram o ar pelas narinas da ventania, como um resfolegar de galope, como um berro surdo, um latejar do corpo e do calor do vento.
E, de repente, pouco a pouco, os redemoinhos vão se aquietando, o vento fica mais calmo, a tempestade vira uma brisinha leve que flui por uma cidadezinha.
A brisa toca as paredes da cidade, faz-lhe carinho e entra pela janela, onde encontra o rosto de uma jovenzinha pequena e lhe balança os cabelos e lhe passa por todo o corpo, numa sensação que ela nunca havia experimentado de ternura.
Ao mesmo tempo em que o vento lhe rodeava, formavam-se nuvens espessas no céu. Trevas o cobriram e uma chuva forte caiu sobre o lugar.
E, naquela hora, a mocinha, virgem e bonita, estava só e coberta em escuridão.
Ali, chorando em sentimentos de inquietação e alegria, ela se lembrou das palavras do anjo: "Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus."*
A partir daquele momento esteve Ele irremediavelmente sujeito ao tempo.

*Lucas 1:35

7 de janeiro de 2009

Tempo e tempos


O tempo é uma entidade, ou uma grandeza, para não causar estranheza anti-científica, muito interessante.
Não é de se admirar que, na mitologia grega, Cronos, deus do tempo, comesse seus filhos.
Esta é uma das estórias mais ricas de sabedoria que eu já ouvi.
Cronos é filho do céu (Urano) e da terra (Gê ou Gaia) e castra seu pai, usurpando-lhe o poder como deus soberano no Olimpo.
Entretanto, uma profecia dizia que ele seria derrotado por um de seus filhos. Por isso, Cronos come seus filhos assim que eles nascem, mas sua mulher e irmã, Réia (uma titã associada à fertilidade) consegue esconder de sua fome o caçula, Zeus, que, por fim, realiza a profecia, força seu pai a vomitar seus irmãos deuses e torna-se o maior dos deuses do Olimpo.
Ok, vamos deixar a Teogonia um pouco de lado...
O tempo, classicamente, é um inimigo: castra o pai, come os filhos e é mandado embora.
O interessante da estória é que ela apresenta certa vulnerabilidade, inexistente na realidade, do tempo: ele pode ser forçado, pode ser vencido, pode ser derrotado.
Zeus consegue vencê-lo depois que cresce e torna-se adulto. Ele encara o pai, enfrenta-o.
Entretanto, digamos que há aqui uma igualdade de condições, pois ambos são seres da mesma categoria: deuses inexistentes. Nenhum deles vai reclamar da estória, ou se sentir mais lesado que o outro.
Cavando um metro mais abaixo, convidaria a examinarmos o que diz o Pregador a respeito do tempo:
"O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou.
Vi mais debaixo do sol que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniqüidade." (Eclesiastes 3 vs. 15 e 16, Almeida Corrigida e Revisada Fiel).
O "nosso" tempo, realmente, está infectado pela impiedade e pela injustiça e estas coisas só fazem voltar a acontecer, desde sempre, desde que há homem.
Mas Deus se fez um igual a nós e lutou contra o nosso tempo, contra o nosso século, contra o sistema que parece opressivo e mortal.
Cresceu e viu coisas crescerem. Viu seu corpo se desenvolver, seus raciocínios progredirem e viu seus irmãos também crescerem. Inseriu-se no tempo, na irreversibilidade que conhecemos e na pequenez que somos.
E foi atropelado também pelo que nossa natureza conhece bem e luta com todas as forças, como a indicação maior do tempo: a morte.
Há um Deus no céu, que desceu à terra, lutou como homem e forçará o tempo a entregar seus filhos na hora certa.
Há um Deus no céu, que gerou o próprio tempo e o tem em si, o tempo e tempos, tempos eternos, novos e de novos ares.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.