15 de novembro de 2008

Hora de Crítica


O Dicionário Etimologógico Online, de Língua Inglesa (Online Etymology Dictionary), indica que a palavra "crise" (crisis, em Inglês) vem da palavra grega krisis, como utilizada na medicina por Hipócrates, para se referir ao "ponto de mudança numa doença", ou para se referir a "julgamento", como objeto de Literatura. A esta palavra, crise, seu entendimento como "julgamento" vem da palavra grega krinein, que o mesmo dicionário define como "separar, decidir, julgar".
Valeria a pena imaginar a cena de um médico em Atenas que, surpreendido por uma melhora na saúde de seu paciente, sai pela rua e grita a plenos pulmões: "Krisis!"
Embora não tão convincente como o sonoro "Eureka!" de Arquimedes, nosso médico exprimiria algo saudável e, talvez, definisse assim um conceito diferente para a palavra do que o que nos ficou legado.
Aparentemente, o ponto de mudança em uma doença passou a ser mais freqüente no aspecto negativo que no positivo. Bem, as pessoas continuam morrendo nos hospitais até hoje e acho que este seja um bom indício de que o sentido de crise na medicina tenha se perpetuado numa mudança que, em vez de um pico positivo de saúde, seja mais evidenciada nos picos negativos, de modo às vezes irreversível. Às vezes...
Mas tem outra palavra interessante que está relacionada à crise, desde que ela existe, que é a palavra "crítica".
"Crítica" também é uma palavra de origem grega e vem de kritikos, que quer dizer de alguém "apto a fazer um julgamento", que é uma derivação de krinein.
Finalmente, no Português, o adjetivo "crítico" (como em "ponto crítico") tem uma origem direta da palavra "crise" e, conforme conseguiram montar (ou tomar emprestado de outras línguas) o conceito de "crítica" também emerge da "crise".
Com isso, minimamente, o que se deve propor em um período de crise é a crítica. É o que naturalmente surge dela.
Portanto, embora eu fale como leigo completo em economia, acho que posso fazer o convite à exploração da atual crise financeira que está afetando o nosso mundo neo-liberal, como uma reação gerada na própria natureza da crise.
Se é possível crer na imprensa mundial, vamos ao que parece ser razoável:
Desde 2001, o mundo do capital foi abalado mais do que pelo "susto" do terrorismo, pois as baixas no capital com o 11 de setembro foram sofridas graças aos bolsos dos cidadãos do império do consumo, que deixaram de comprar tanto, pois muitas empresas ficaram instáveis e a economia ficou fragilizada. Com isso, bancos tiveram a política de oferecer juros mais baixos para qualquer um que quisesse empréstimo, para movimentar a economia. Mesmo para quem não tinha bons históricos com pagamentos. E os prazos de pagamento foram afrouxados.
Achava-se que este cenário de programa do Silvio Santos "quem quer dinheiro?" fosse a solução para reaquecer a economia, pois toda a economia norte-americana (e quase de todo o mundo) está baseada no consumo e especulação. Se as pessoas não consomem, não se gera riqueza.
Com os empréstimos, as pessoas foram se empolgando em melhorar de vida.
Compraram casas e outros bens mais caros, financiados a suaves prestações a serem pagas quando houver dinheiro.
Como as pessoas começaram a comprar casas, a oferta por elas aumentou. Logo, em 2006, o preço dos imóveis caiu. Imóveis caros e luxuosos eram conseguidos por gente que não poderia bancá-los. Naturalmente o setor de imóveis não conseguiu se manter e precisou de uma estratégia: refinanciou os imóveis, elevando seus preços.
Ao mesmo tempo, os juros subiram, pois de algum jeito alguém tem que pagar a conta, mesmo que em parcelas suaves.
Com o aumento dos juros, aumentou também a inadimplência.
E o mercado de imóveis começou a ruir. E junto dele vem o efeito dominó de quebradeira.
O grande problema, pra mim, é o seguinte: não se mistura ilusão com realidade, a não ser que seja em arte e religião.
Ninguém constrói pontes com palitinhos de dente, a não ser para pequenas escalas e para intervenções artísticas. A gente precisa de concreto, cálculos de engenharia, um projeto viável, seguir normas de segurança, etc.
O mercado imobiliário é de especial delicadeza, pois as pessoas ainda moram em casas e elas são parte fundamental da vida em sociedades saudáveis. Se você pedir pra uma criança, mesmo uma que more em um apartamento ou em uma oca, desenhar uma casinha, ela vai te fazer um desenho com os telhadinhos. Peça a ela para desenhar uma ação do mercado imobiliário e espere o resultado...
Mas as ações não são nem boas, nem más, em si mesmas. Só a supervalorização delas é que é ruim.

Não é muito possível fazer que a especulação seja algo válido pra funcionar a economia real. Entretanto, esta parece ser a base da economia vigente: alguma parcela de produção e outra de especulação.
Pra mim, a especulação é algo nocivo no mundo do capital, pois ela gera instabilidade e faz que coisas que tenham um valor ou qualidade inferior se tornem superiores, e vice-versa, pelo apelo frenético de pessoas que se contorcem em bolsas de valores, se acotovelando e berrando atrás do dinheiro. Parece um "Show da Fé" ao dinheiro.
Embora cada um tenha o direito de fazer o que quiser da vida, devemos avaliar que algumas deciões pessoais afetam mais a sociedade que outras decisões.
Com a crise americana, o efeito imediato, numa sociedade de capital aberto, é uma tsunami de desemprego.
As imobiliárias e construtoras começam a afundar e demitem gente. As ações delas que circulavam no pregão caem, e assim por diante...
Mas isso não fica só nos arraiais norte-americanos: a pacata Islândia, que parecia ter um desenvolvimento sólido, com gente instruída (o povo que mais comprava livros na Europa), está passando um aperto complicadíssimo.
Além disso, a Alemanha e a Itália, 2 dos países mais desenvolvidos da Europa, estão enfrentando o que tecnicamente foi classificado de recessão, pelos pontos percentuais de suas bolsas. A Itália chegou a pedir para que as metas de emissão de carbono fossem afrouxadas, pois industriais criam que um dos contornos à crise seria produzir mais, aparentemente.

Por isso, creio que seja oportuno rever nossas perspectivas de economia e rever se ela pode ficar amparada por especulação.
Especulação é uma palavra que, fora dos meios econômicos, não é utilizada para definir nada seguro.
Voltando ao dicionário, desta vez em Língua Portuguesa mesmo:
especulação: s. f. ato de especular; estudo; investigação teórica, puramente racional; transação em que uma das partes abusa da boa-fé da outra; exploração, burla; compra em larga escala com o objetivo de as revender mais tarde com um lucro resultante da variação das cotações.
Acho que a definição deixa claro que é coisa pra gente esperta, que sabe vender o peixe. Mesmo que o peixe não tenha sido nem pescado ainda.
Por isso, não é de admirar que, das 5 empresas mais lucrativas no Brasil, 3 sejam bancos.
É hora de rever quem é que deve ter voz e que tipo de dinheiro, produtos e serviços nós queremos.
Até mesmo porque quem sofre somos nós e, além disso, já houve problema bem grande com estes mesmos conceitos em 1929.
Na verdade, a crise parece mostrar uma face da fragilidade humana, em aspecto macro.
Como o homem consegue maquear suas falhas, a ponto de não se lembrar delas, por conta de ver que as coisas, a despeito de suas falhas, funcionam, vendem e dão certo por um bom tempo.
Torço para que o controno da crise passe por uma mudança de postura em relação aos nossos valores econômicos fundamentais e que se dê na estrutura de ações conscientes em relação ao meio ambiente, ao pobre, à cooperação e a sentimentos de igualdade diante do outro.
Bem, sonhar não custa nada...

3 comentários:

Débora von Held disse...

Estou especulando seu texto...

liegelopes disse...

Se a Débora pode, eu também vou querer especular...

Marcelo Carahyba disse...

Interessante!

Cara, já viu esses documentários?

- História das Coisas
- The Corporation
- Fahrenheit 9/11
- Confissões de um Assassino Econômico
- Zeitgeist

Não? Então alugue, baixe da internet ou me fale q gravo pra vc. Ah, assista na ordem, preferencialmente.

Abraço!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.