5 de julho de 2008

O Fóssil de Deus

Tem coisas na ciência e na vida para as quais não se tem resposta pronta, ou fácil.

Algumas delas são perguntas sobre parte do conteúdo da Bíblia, sobre as matanças feitas em nome de Deus, sobre a dificuldade que se cria com a leitura literal das Escrituras, sobre criacionismo, etc.

Enfim, tem coisa que ninguém vai conseguir responder com a clareza científica necessária, pois a vida apresenta coisas de competências diferentes, de campos distintos, que ultrapassam a ciência e a religião.

Ambas são fracas e, quando dão as mãos, andam melhor um pouco. Mas quando se separam, fazem experimentos catastróficos, infringem seus próprios princípios de busca pela verdade e colocam motivos de ambição política e social acima de seus valores. Poderíamos citar os experimentos médicos conduzidos em humanos à época da Segunda Guerra Mundial e a Inquisição, como dois exemplos fáceis de sua debilidade, quando na busca cega por serem fins em si mesmas.

Um exemplo clássico da dificuldade nas respostas prontas e rápidas é a rivalidade entre fundamentalistas extremistas religiosos que parecem querer enfiar Deus goela a baixo do mundo acadêmico, quando afirmam a teoria da terra jovem; e evolucionistas, tão religiosos quanto os primeiros, que, em geral, querem expulsar Deus pra fora do universo.

Pelo que a gente acompanha, a maioria dos dados disponíveis atualmente no que diz respeito à história natural parece ser mais favorável a um raciocínio evolucionista, especialmente graças às questões que são elucidadas a partir da investigação do código genético humano e suas relações com códigos genéticos de animais que estão relacionados ao homem de alguma maneira morfológica, como nossos amigos chimpanzés. Além disso, fala-se sempre da relação de semelhança entre os códigos genéticos das espécies, como fonte do compromisso de haver a necessidade do tal ancestral comum entre homens e macacos. Fala-se com maestria de mutações genéticas, de como é possível que tenhamos um número de cromossomos diferente de outros animais, mas, mesmo assim, venhamos do mesmo ancestral comum, de como estes genes foram se modificando e se encaixando dentro do nosso DNA. A evolução tem seu lugar como teoria mais aceitável, mais cabível e que tem em si um desenvolvimento histórico, filosófico concentrado mais na razão e no que é palpável pela investigação dos dados que se tem à mão, do que pela fé no que não se vê. Enfim, a argumentação evolucionista é, sem dúvida, bastante coerente, bem embasada e inteligente, especialmente dentro de uma perspectiva humanista, que sustente o homem como um deus evoluído.

O maior trunfo na mão da evolução é a aparente necessidade de relação entre semelhança genética e origem comum para esta semelhança genética. Entretanto, não me parece razoavelmente matemático que somente o fato de que algo se pareça com outro deva ser uma condição inequívoca da origem deste algo. Um lago se parece com um mar, mas não quer dizer que tenha vindo dele. Um avião se parece com um carro e presta-se ao mesmo fim que este, transporte; mas se olharmos a história dos 2, veremos uma quase concomitância em seus desenvolvimentos, no final do século 19, início do século 20, não havendo uma etapa estabelecida: primeiro vamos aprender a fazer as coisas rodarem na terra e depois vamos nos projetar aos céus. Isto, sem mencionar bicicletas e tantas outras coisas que se parecem a princípio, guardam um mesmo código de uso e funcional, mas que coexistem, sem haverem se transformado umas nas outras.
Outra coisa que sempre achei muito fácil para os evolucionistas é jogar as coisas em cima de bilhões de anos. Mas creio que há quase um correspondente na variante religiosa, que é apresentado quando as pessoas não sabem de alguma coisa e jogam pra cima de Deus responsabilidades humanas.

Entretanto, creio que nem todos os dados que estão à mão estão disponíveis da mesma forma.

Por exemplo, existem registros fósseis verdadeiros (o que deve ser frisado, uma vez que todos os "lados" da disputa já fraudaram evidências) encontrados no Texas, que levam a acreditar que o homem talvez tenha vivido ao mesmo tempo em que alguns dinossauros, no Cretáceo, graças a pegadas humanas deixadas nos mesmos estratos que pegadas notadamente de dinossauros. Isto seria um contrasenso completo entre evolução e realidade, pois exigiria que tais répteis tivessem vivido pouco tempo atrás, em vez de milhões de milhões de anos. Caso estudos mais detalhados sejam levados a cabo, pode-se dizer que a evolução perde o seu rumo, pois suas estruturas estão baseadas numa linha de tempo precisa, em que algumas espécies devem ter um papel especial em cada período de tempo específico, pra que as previsões feitas se encaixem. Há também gravuras rupestres encontradas diferentes partes do globo com desenhos do que hoje vemos nitidamente como dinossauros.
Entretanto, este tipo de informação não parece ser muito do agrado da comunidade científica de modo geral, pois traz discordância com o paradigma já estabelecido da evolução.
Na minha humilde opinião, ninguém tem o argumento definitivo, no que diz respeito à ciência.

A começar por dizer que "os cientistas" pensam isso e "os religiosos" aquilo. Esta separação é tão fraca, pois parece não dar opção a nenhum dos dois grupos sobre suas preferências pessoais e individuais e os coloca em blocos de pessoas rotuladas e imutáveis nas suas concepções de mundo. Especialmente no que diz respeito aos religiosos, pois estes acabam gozando de uma reputação pejorativa e risível, tendo que ficar sempre de posse de uma perspectiva necessariamente inferior, se forem vistos como pessoas que não estão ao lado da ciência, mas que querem argumentar contra ela. Uma vez que a ciência detém os métodos de avaliação acurados para algumas medidas, que simplesmente não interessam à religião, é impossível que um religioso, assim descrito comumente, seja de alguma relevância na discussão.

Assim, me parece que quando entra em pauta o assunto "Religião e Ciência", as cartas do assunto já estão mais ou menos marcadas... Na verdade, em geral, um grupo não quer ouvir o outro, mas converter o adversário à sua visão de mundo e os debates passam a ser cabo-de-guerra. E ninguém ganha e a corda quase sempre se rompe.

Creio que não existe a dita ciência, como a entidade organizadora de tais polêmicas, mas existem sim tomadas claras de partido em relação a dados extraídos de investigações que se desenrolam por métodos científicos.

Como já disse Gilberto Freyre, a verdadeira ciência apenas sugere. A afirmação é coisa para a 'meia-ciência".

O que existem são métodos científicos, instrumentos de medidas e os dados.

O resto são as conclusões que brotam da capacidade imaginativa, das propostas iniciais que motivaram a pesquisa, das perspectivas particulares das pessoas que conduzem os experimentos e que projetam os dados, enfim, do potencial criativo humano.

Afinal, ciência é coisa humana e este é o elemento de maior interesse para ela e, como somos os maiores desenvolvedores dela, ela está cheia de coisas que nós mesmos não entendemos. Engana-se quem pensa que é um privilégio da religião seguir regras sem saber o porquê. Tome-se por exemplo a Termodinâmica, como um ramo tão usado da ciência e ali se verá que tem coisa que não se explica, mas se aceita com clareza, pois as coisas simplesmente são assim. Sem dizer do fato de que a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica não se encontram por completo, assim como micro e macroeconomia. Pra ser rasteiro, embora todos os nossos esforços científicos sejam exuberantes, eles não são lá o melhor que temos a oferecer diante das explicações de todo o universo. Pensar que descreveríamos o universo com um punhado de equações seria, não só triste, mas completamente impróprio. Seria sacrificar nossas emoções e lançar-se numa postura de arrogância incoerente com a própria ciência.
Além do mais seria impossível, uma vez que a entropia não está do lado desta empreitada.

Na verdade, as leis da natureza, na maneira como são enunciadas, cercam-nos de dogmas, dos quais não temos pra onde correr. Elas afirmam categoricamente algo que é assim, pois a experiência afirma assim. Contente-se com isso. E melhor, viva com isso, ou não viva.

Assim também é a religião: humana. Parafraseando Freyre, eu diria que a verdadeira religião apenas sugere. A afirmação categórica e inequívoca é coisa para a 'meia-religião'.
Na verdade, me parece que em disputas sobre quem tem a razão última acerca de assuntos inverificáveis do início da vida, tanto a má religião quanto a má ciência buscam o fóssil de Deus, quando se espremem tanto quanto o possível. E diria que as duas esperam que de fato o encontrem bem enterrado. Nenhuma delas quer ver por fim o triunfo da verdade, ou a exuberância da criação. Por se mostrarem como opostos, ambos os lados perdem a verdadeira beleza da descoberta de Deus e de Sua verdade.
Uma coisa é certa: nunca encontrarão um fóssil do meu Deus.

4 de julho de 2008

Como eu não tenho muito o que dizer...

Bem, como eu não tenho encontrado muito o que escrever de minha autoria mesmo, gostaria de apontar um excelente diálogo sobre 2 posturas completamente distintas no mundo acadêmico-religioso ocidental, com o melhor de 2 pensadores de uma força impressionante: Richard Dawkins e Alister McGrath.
A primeira parte pode ser ouvida no youtube em: http://www.youtube.com/watch?v=J4crCoBj2tA&feature=related.
São 7 partes impressionantes de um diálogo num nível intelectual e espiritual fantástico.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.