23 de abril de 2008

Esqueletos no armário

Há muito sonhava em vir estudar na Alemanha, nem tanto graças aos diversos aspectos interessantes da refinada técnica alemã, mas, na verdade, por conta de grandes nomes do pensamento ocidental de diferentes épocas como Leibnitz, Einstein, Heisenberg, Schrödinger, Goethe, Schiller, Schopenhauer, Nietzsche, Lutero...
Obviamente, a Europa tem suas seduções, especialmente ao intelecto.
Mas quando penso no mundo todo, é bastante interessante ver que cada cultura tenha seus atrativos e beleza, ao mesmo tempo em que tem seus defeitos quase "irreparáveis", sobre os quais é sempre difícil falar.
Desde o mais remoto pedaço do oriente até qualquer vila na América, pessoas vestem-se da constituição de sua cultura e história e, localmente, entendem bem quem são e o que pensam a partir de um prisma social, naturalmente aliado à intimidade de sua personalidade, no nível mais introspectivo e individual. Isso faz de um monte de pessoas, árvores e terra, um país.
Por exemplo, o Brasil, como escrevi no texto abaixo (talvez um pouco exaltado), tem lá suas mazelas, mas em compensação, tem a beleza do Rio de Janeiro, da Bahia, do Ceará, do Pantanal, da Amazônia... tem um povo inquestionavelmente hospitaleiro e trabalhador, mulheres belíssimas, questões raciais razoavelmente bem resolvidas, boa comida, ótima música, muitos recursos naturais e tudo mais que dá alegria em ser brasileiro.
Se quisermos os outros exemplos de paradoxos, mesmo em países desenvolvidos basta escolher, ou mesmo apontar qualquer lugar do mapa, pra encontrar suas vergonhas.
No mesmo contimente que o Brasil, temos os EUA, que são um país admirável em seu poderio econômico, educacional, e o que mais se puder pensar que envolva dinheiro, mas que tem questões internas mal resolvidas nas relações mais básicas com seus imigrantes, com as cores de pele diferentes. Sem mencionar o fato de que os americanos são ao mesmo tempo o sonho e o desafeto de metade do mundo; boa parte da população tem problemas alimentares, emocionais e sociais, havendo quase anualmente catástrofes em escolas e universidades com alguém que tem intenção de matar, sabe-se lá por que motivo, enquanto a vida de playboy americano, com direito a um Mustang e hip hop, é a concretização dos desejos mais libidinosos do mundo.
A Europa não fica isenta também: basta abrir o livro de história geral e ler sobre Hitler, Mussolini, Salazar, Franco...
A Alemanha, em especial, teve muito que aconteceu no século passado: "provocou" a Guerra Mundial I, foi reerguida com o nazismo, provocou a Guerra Mundial II, foi arrasada e destruída, dividida, foi o símbolo da Guerra Fria e por conta disso teve investimentos de todo lado para, por fim, ser reunificada. Uma montanha russa de emoções sócio-culturais.
E quero ver alguém conseguir arrancar dos alemães 2 ou 3 horas de assunto sobre o nazismo. Assunto bem delicado...
Entretanto, aqui está uma das culturas mais sofisticadas do globo, cheia de lógica, originalidade, razão e eficiência.
Os árabes tem uma belíssima história, com muita poesia, ciência e arte, mas carregam as armas da Jihad e são sempre regulados nos aeroportos, por culpa de pequenos grupos fundamentalistas suicidas. Ainda assim professam a fé sincera em quem crêem que seja o real e mais importante profeta de Alá. "Islam" quer dizer resignação, mas todo o resto do mundo é feito de infiéis.
Os chineses são multimilenares ao mesmo tempo em que são atuais, têm uma complexa língua de sinais exóticos e sofisticados, ao mesmo tempo em que maltratam e excluem meninas pequenas de sua sociedade simplesmente por terem o "defeito" de não serem meninos.
E por aí vai a vida social no planeta Terra, sem se encontrar perfeita em parte alguma do globo.
Pra mim, isso é evidência inescapável da insuficiência humana em gerir a própria vida em sociedade (não há outro tipo de vida pro homem, senão assim, já disseram), tanto dentro de culturas isoladas, como misturando tudo e colocando para girar em alta velocidade.
Parece-me que, quando tomamos o homem e o vemos tal qual ele é, com os desenvolvimentos distintos de cada cultura e comunidade, o ser humano, ou mesmo o fator humano carece sempre de um norte sobre-humano, de algo que lhe forneça a idéia de equilíbrio ou da possibilidade deste equilíbrio.
Parece-me ainda que esta questão do que se mostra e o que se esconde em cada cultura é algo que tem sua origem no individual e que, por amplificação, passa a ser social.
Se tomarmos algo como um homem "original", intocado pelas transgressões de uma cultura específica, ele será alguém que tem dificuldades em se mostrar por completo e suas falhas serão evidentes a um observador neutro.
As nossas neuroses coletivas, na verdade, são as muitas neuroses individuais juntas, postas pra viver lado a lado e se expressar como um único evento em escala social.
Quando deflagrado o evento nesta escala, as coisas tomam proporções gigantescas e, naturalmente, parecem pouco com aquilo que afligia inicialmente o nosso homem original, mesmo um "bon savage".
Se despirmos o homem completamente de sua indumentária social, ainda teremos algo que esconder de alguém, ou algo que subjetivamente é um estorvo estranhamente familiar, mas que nunca deveria habitar nossa vida normal.
A não ser que este alguém tire o estorvo fora, se envolva conosco, e nos aceite, ainda que temporariamente haja as imperfeições tão claras à vista.

4 comentários:

Bianca disse...

Cara, vc fala bem, hein?
Estuda o quê mesmo? [haha]

Continue dando notícias!

Beijos ao gringo aí!
Se cuide.

Liege Lopes disse...

Sempre muito bom ler seus textos.
Bjs!

Gardagami disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
orlicsf disse...

sim sim, muito bom, meu caro!
[o sim foi em concordância aos comentários acima!]
saudades!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.