27 de julho de 2007

Identidade


Acho algo extremamente interessante que o homem se reúna em torno do próprio homem para viver (ou simplesmente para sobreviver).
Li em Rubem Alves, num livro de ensaios muito bem escrito (aliás, tenho de terminá-lo, pois ele nem é meu) que a própria sociedade é uma técnica que os seres humanos inventaram para poder sobreviver.
Sempre que penso nesta idéia, as imagens que me vêm à mente são de corpos se atraindo uns aos outros para um mesmo lugar central, com aqueles balõezinhos de falas (e aquelas nuvens de pensamento) de histórias em quadrinhos por cima de cada cabeça.
E aí uma reunião começa, sem um destino muito bem estabelecido, nunca terminando a discussão.

Alguém fala "E agora?"
"Pra lá", aponta um outro e logo vamos fazer livros, prédios, lojas, produtos, tecnologia, dinheiro, música, gostos diferentes, brigas, reconciliações e tudo o mais de nossa experiência cotidiana.
É um barato esse negócio de ser humano.
Nós somos os seres que criam o debate do Direito, da Lei e da Justiça, ainda que nem tenhamos o direito de debater com o universo ou com a natureza. Temos o sentido divino, embora tenhamos nossas necessidades diárias.
Defendemos e atacamos, ocupamos um lugar na existência que é de central destaque, ao mesmo tempo em que somos uma poeirinha num planetinha pequeno num canto da galáxia.
Somos a imagem de Deus e, mesmo assim, somos desajeitadamente os animais que mais demoram a chegar na maturidade.
Aliás, com toda a nossa discussão sobre a Justiça, matamos um Deus inocente numa cruz, através do sistema de Direito mais avançado da época.
Na verdade, algumas das ações que temos, como um grupo de gente junta, parece que mais estão regidas pela tradição do que pela lógica.
Por exemplo, alguns tipos de trabalho são de muito maior valor que outros, mas não tem o valor que deveriam.
Tomemos como exemplo o lavrador.
Em geral, não se confia muito crédito (ou mesmo dinheiro, quando pensamos que, no grupo das pessoas que tem os balõezinhos de fala - essas caricaturas ambulantes que somos -, o dinheiro é o que representa uma espécie de consenso daquilo que deve ser dado às outras pessoas dos balõezinhos por coisas que têm valor intrínseco, ou coisa muito próxima disso) a um lavrador, ou a alguém que traga da terra a comida.
Marx dizia que o homem não é aquilo que ele pensa que é, mas sim aquilo que ele faz, como ser que participa de sua comunidade. Ele ainda diz que o homem não é o indivíduo, mas a sociedade. Deixo pra Marx, Engels, Weber e Durkheim as palavras sobre o social e o capital. Sou leigo nisso.
Mas mesmo assim, sou a sociedade, sou o homem. Eu e você somos o homem.
Não é belo?
E qual é o lugar do homem dentro da organização humana?
Por vezes eu me perco, tentando achar meu lugar nessa sociedade.
Desconfio que não vou encontrar muito lugar aqui. Parece que já está tudo lotado.
Ironicamente, o homem, com sua técnica de sobrevivência, não consegue assegurar a sobrevivência a todos.
Exclui o próprio homem. Exclui o nosso amigo lavrador, exclui o Direito, exclui até Deus.
O que mais tenho tentado é que o meu sistema interior, o eu que só eu sou (e é aqui, por ser eu mesmo um indivíduo e não uma sociedade inteira, mas por ser parte dela e ter opiniões que são importantes para ela, por mais louco que isso pareça - e é aqui que eu discordo de Marx), esse eu que só tem como ser eu mesmo, esse aí, que eu estou tentando definir, esse vai sempre acreditar no Jesus Cristo que não sou eu.

Em suma (o parágrafo anterior ficou muito confuso com tantos "eu"), que o meu eu sempre esteja com Deus.
Como diria Soren Kierkegaard: "agora, com a ajuda de Deus, eu serei eu mesmo."

2 comentários:

Bianca disse...

Texto apreciado! Parabéns.

Este foi um texto visual, adorei as imagens que "vi" enquanto o lia. haha... [bonequinhos e balõezinhos, acelerados e com aquelas vozes agudas de ratinhos...]

um texto descontraidamente sério. (ou seriamente descontraído? xiii! isso mudaria a semântica, permaneço com a definição anterior.)

beijos!!!

Bianca disse...

Peraêêê!!!
Há discordância!!!

"Eu e você somos o homem."

Como assim, rapaz?!
sou homem nada...
hahahaha

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.