11 de junho de 2007

A real luz

Comecemos do princípio.
Amar é verbo. Verbo transitivo direto da primeira conjugação, que indica ação. “Quem ama, ama alguém ou alguma coisa,” já disseram todas as professoras de Português do primeiro grau.
Desde o mais remoto viver, o homem tropeça nesta temática, embolando pernas, cabelos, mentes e corações numa trajetória milenar, na busca pela essência do inefável. E sempre, em coro, os maiores poetas encontraram o sentido de nossa existência nisto que é o frágil perfume da vida, o amor.
Honestamente, por mais linguagem que queiramos usar, desde o falar dos anjos ou dos homens, ou mesmo coisa de sinos que retinem, de bronze que soa, ou de qualquer outra figura cabível, pouco sabemos do amor.
Talvez, porque o amor não esteja no domínio do saber, mas do viver. Transcende, portanto, a sabedoria. Diria até que beira a loucura e, ainda assim, mostra o único fio lógico, acima do acaso, de nossa existência.
Tem a ver com vida, com seres vivos, com gente, com homens e mulheres que existem num mundo imperfeito.
Entretanto, é gozado ver como associamos ao amor os nossos ideais de perfeição. É o próprio “vínculo da perfeição.”
O nosso mundo de fome, guerra, corrupção, traição, doença, morte e cegueira, subitamente, passa a ser enxergado por um prisma de satisfação, paz, justiça, fidelidade, saúde e vida, como se fosse possível um paraíso por vir, na esperança... esperança, não, mas certeza de que virá aquilo que é perfeito, para nos resgatar de nossos próprios erros, desacertos e pecados. E aí, finalmente, nos mostrará a vida.
Vida. O amor, desculpem-me pela insistência, está intimamente relacionado a viver.
E viver, o que é?
Viver, na sociedade atual, tornou-se algo mais ou menos parecido com pagar contas, estudar para provas, trabalhar por algum dinheiro, fazer sexo, pegar ônibus, sair à noite, acordar de manhã.
Realmente me pergunto se isso é viver.
Atropelados pelo tempo, esmolando suas migalhas, pairamos suspensos, em vidas muito ocupadas. Se este não é o seu caso, veja-se como raridade.
Não há muito tempo pra viver. Falavam tanto em carpe diem...
E onde está o amor nesta história?
Na verdade, ele, hoje, anda meio sumido do mundo.
O Senhor disse que o amor esfriaria de muitos. Creio que não precisamos de aulas de Termodinâmica pra entender o que Jesus queria dizer com “esfriar”.
Nós, homens e mulheres, estamos manchando o mundo com uma tinta grossa de apatia.
Especialmente nós, homens e mulheres cristãos da pós-modernidade, temos freqüentemente deixado pra trás a vida, na busca por ideais nem tão vivos.
Estamos, por vezes, muito dispostos a entregar nossos corpos para serem queimados por ideais, por convicções de fé, por força de caráter e pela promoção de nosso grupo religioso em meios onde somos mal vistos, para defender uma identidade eclesiástica que possui a própria verdade inquestionável.
Ora, tudo isto é bastante louvável e não há nada de errado em ser firme. Muito pelo contrário, precisamos de pessoas que estejam comprometidas com aquilo que crêem. Precisamos de gente ética no mundo.
Contudo, vem Paulo nos dizer que os esforços são todos vãos se não estiver atrelado o amor a eles. Se não tivermos amor, nada seremos.
Aliás, ele ousa em dizer que mesmo a fé é menor que o amor.
Portanto, nossa fé deve se basear no amor, e não o amor se basear na nossa fé.
É Cristo quem ainda mostra força mais radical no amor: devemos amar acima de qualquer questão.
Os discursos de liberdade, de amor e paz que foram atribuídos aos hippies das décadas de 60 e 70 por conta da Guerra-Fria, devem na verdade ser atribuídos ao homem que morreu na cruz por amar.
“Amai os vossos inimigos”.
Este é um padrão ético muito acima do meu. Provavelmente, do seu também.

Ouvimos que amor é comportamento. Há que se concordar.
É preciso uma coerência de atitude para que as palavras “eu te amo” sejam de verdade.
Não diz muita coisa quem fala de tudo, mas vive pouco o que fala.
Que tipo de comportamento é esperado dos que amam?
Duvido muito que devamos pensar somente em ações românticas, em flores, ou conversas animadas entre amigos.
O amor, por suas coerência e constância, habita territórios de dor e prazer, ao mesmo tempo, e em tempos diferentes.
Assim, não seria difícil prever a conquista de novos territórios pelo amor. Um alcance supremo em todas as regiões.
Qual é o caminho para este alcance?
O primeiro passo é ser alcançado.
O segundo passo da jornada é exercitar o dom supremo recebido entre os que foram alcançados, numa atmosfera sincera de amor.
Aí, poderemos pular como bezerros diante de um sol de justiça que nos convida a resplandecer Sua luz em meio a trevas.
A real luz é o amor. Um amor que ilumina o caminho, que dá vista, que aponta o futuro, que traz o homem à reflexão de um mundo de beleza além de si mesmo, em harmonia com o Criador e com o próximo.
E, se posso, repito os versos que já disse:

Se o amor é músculo, trabalhemos.
Se mandamento, obedeçamos.
Se paixão, cedamos.
Se é só amor, amemos.

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Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.