13 de maio de 2007

Mama mia!

Morei em Friburgo na maior parte da minha infância. Friburgo deveria ser conhecida como a Suíça Brasileira, mas imagino que tenha sido mais parecida com a Europa em outros tempos.
Este epíteto é graças à colonização e ao clima serranos, que conferem ao lugar chuvas e tempo nublado no verão.
Quando eu era mais novo, éramos sócios de um clube bem legal na cidade. Eu também era bem mais gordinho e envergonhado.
Os dias de sol com calor eram meio raros. Ainda são, mas o mundo anda tão mudado com esse negócio de aquecimento global, que não me arrisco sair falando por aí do clima.

Minha mãe olhou pela janela, viu o sol, viu os filhos dentro do apartamento, olhou pro relógio, viu que dava pra gente ir pra piscina.
Mandou que os três colocassem suas roupas de banho e enfiou todo mundo no carro, prontos para ir ao clube.
Nem tão prontos assim, já que no caminho ela estava dizendo que iria parar, porque tinha que comprar uma bóia pro meu irmão mais novo.
Eu, desde que me reconheço como ser vivo, sou uma pessoa meio desligada e lenta. Duro é admiti-lo. Pairo, por vezes, no infinito, embasbacado por alguma coisa boba que não desperta nenhum sentimento em ninguém.
Provavelmente, estava eu neste tipo de pensamento quando saí de casa e minha mãe "pediu" que eu colocasse logo a sunga pra sairmos.
Eu coloquei a sunga, conforme mandado, e só. Estava só de sunga.
Friburgo é uma cidade serrana, fria por natureza. Raramente, as pessoas andam sem camisa.

Mamãe parou o carro e pediu que eu descesse para comprar uma bóia pra meu irmão, que devia ter uns 3 anos na época. Relutei. Sim, relutei em descer do carro, pois estava só de sunga. Tinha vergonha. É claro que tinha vergonha: gordinho, de sunga, a rua lotada de gente e eu ainda teria que comprar algo numa loja, chamar a atenção pra mim.
Não adiantou reclamar.
"Desce, André, vai logo, senão o sol vai embora!"
Desci do carro, fui à loja, sem nem estar de chinelos.
Perguntei pra moça, com as mãos tentando tapar a barriga, se ela tinhe uma bóia "de braço", quanto era?, ah!, não tinha, ufa!, vou logo falar pra mamãe e chega desse mico.

Volto pra onde estava o carro e ele não está lá.
Essa foi, eu acho, a primeira vez na minha vida que eu tive aquela sensação inefável de se ver nu diante do mundo.
Na verdade, uma sunga azul me separava da completude do sentimento.
Minha mãe tinha saído dali e eu havia imaginado que ela tinha dado a volta com o carro, já que a rua estava cheia. Meu Deus, a rua está cheia de gente! Eu aqui, pelado!
Esperei um pouco, ouvi uns risinhos, comentários dos passantes e não vi o carro da minha mãe.
Pensei: vou pra casa. Esta não foi das melhores idéias que já tive.

O caminho inteiro eu ouvi coisas que "o só referir é vergonha".
Vinha eu de sunga, braços tentando tapar alguma coisa, em vão, e o povo atirando comentários dos mais variados tons.
Cheguei em casa. Ninguém.
Não é possível!
Fiquei um tempo ainda ouvindo gracinhas dos vizinhos que passavam pela portaria do prédio, onde eu buscava refúgio.
Depois de um tempo chegou minha mãe.
Veio me dando bronca ainda por cima: "André, por que você não esperou lá? Eu fui dar a volta no carro!"
"Mas demorou muito, mãe."
Entramos em casa e não lembro se fui à piscina naquele dia.

Queria com este texto prestar uma homenagem bem humorada à mulher mais fantástica com quem vivi nestes últimos anos, minha mãe.
Uma mulher que me fez, me criou, me amou desde sempre e a quem eu tudo devo, com a mais devota gratidão.
Todos os dias com ela são a maravilha de ser um filho amado e bem cuidado.

2 comentários:

Dri Dantas disse...

Eu lembro dessa história!!! Morri de ri de novo lembrando da sua cara quando a Niê pedia pra vc fazer a cara do menino com vergonha!!! Mas 3 anos já comprando bóia sozinho? Conta a verdade vai! Era um pouquinho mais velho, não? Muito boa a homenagem...

Gil disse...

Ah, então essa parada de andar de sunga por aí começou na infância... Grande abraço, meu amigo. Que bom é conhecer suas histórias a cada dia.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.