23 de abril de 2007

Ensaio sobre a Peste

Albert Camus conta, em A Peste, que na cidade de Oran, que, "confessemos, era feia", houve a temida peste, em idos dos anos 40. Com primor, ele relata a condição humana do confinamento involuntário, necessário para não se espalhar um mal devastador, consumidor, matador, algo que descaracteriza o homem por suas virtudes, que o força a se suprimir, enfim, que coloca em sursis o mundo social do amor.
Para estabelecer suas conclusões, Camus vai fundo nas emoções da separação, no possível e ilícito, no jugo da responsabilidade de alguns para manter um fio lógico na existência de todos, na morte, no sofrimento que não poupa crianças, na loucura da realidade, na suposta ausência de Deus.
Num apelo mais veemente, José Saramago cega homens e mulheres lusitanos a fim de mostrar o patético da fragilidade humana, de nossa sociedade, de nossa falta de visão mesmo quando enxergamos com olhos cheios de saúde. Em seu Ensaio sobre a Cegueira Saramago elabora as vistas de um mundo que se precipita para a perdição, um mundo que contraiu a peste da cegueira física e que tem implicações sociais, filosóficas, espirituais.
A peste não apenas mata. Mata e cega.
O olho cego transmite a cegueira para a visão de toda a sociedade e a mata. Isto é tão bíblico quanto dizer que por meio de um homem veio o pecado e importava que a salvação viesse por meio de um homem também.
A peste de nossos tempos é a peste de todos os tempos, transfigurada em margens didáticas para que entendamos o nosso fim.
A aids, a neurose, o furto, a morte, a corrupção, o Capital, enfim, toda a desgraça humana é um travesti do pecado.
Quando exploramos pormenorizadamente quão miserável o homem pode se tornar, olhamos para o que ele crê e vemos quão desgraçadas são suas crenças. Se estas crenças não exprimem sua condição real, todas as fatalidades parecerão grandes acidentes, mutilações incontroláveis, sangramentos abertos nas veias do nosso Leviatã, estado e sociedade, mas não só isso, algo que vai irremediavelmente em direção ao fim da própria existência; o extermínio de toda a beleza.

Frente a isto, que resta?
Aqui vemos a força da fé em Cristo.
A única coisa que nos pode salvar, que pode limpar a terra, é o sangue derramado para lavar os corpos de toda peste, para curar o mundo, dar visão da verdade.
A sociedade clama por redenção. Como a corça geme, berra, chora por águas, assim a alma do homem suspira convulsiva pela salvação, por águas vivas.
Não há, fora de Cristo, nenhuma possibilidade de salvação humana.
Há a peste.
Há nEle também o remédio perfeito.

3 comentários:

Gil disse...

Fico esperando os outros comentarem pra eu não chamar atenção... Mas sabe que lendo seu texto de novo, e lembrando do Ensaio sobre a cegueira, descobri de onde vem minha onda pessimista. Mas vc me ajudou a lembrar que Saramago só dá as más notícias. Obrigado, meu querido amigo, por me lembrar que há boas notícias... Jesus, o Salvador!
Quando eu crescer quero perceber e escrever igual a vc.
Beijos 2 mil!

Dri Dantas disse...

Anda meio atrasada nas minhas leituras blogueanas...ah o tempo! Cada época, cada pensador, pode dar qualquer nome ao pecado e ainda nos chamar de simplista por assim nomearmos nossas mazelas. "Mas não há nada novo debaixo do céu" e olha que Salomão já era velho quando disse isso! É incrível como esse negócio de blog é um meio de contemplar leituras especiais de amigos queridos...

Anônimo disse...

peço desculpa, mas o que é que estas duas obras têm a ver com "a fé em cristo"??? pelo menos sei que a intenção dos seus autores não era a de propagar a "palavra do senhor"...

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.