21 de dezembro de 2007

14 de novembro de 2007

O Corpo de Cristo

Pertenço à comunidade da igreja há, aproximadamete, 3 anos. Sou uma criança analfabeta na fé, a julgar pela idade.
Estes têm sido bons tempos.
Diria que têm sido os melhores da minha vida e, sem dúvida, os mais difíceis.
Tenho aprendido a concordar com gente diferente, a ouvir inúmeros resmungos, a produzir os meus próprios, e sempre me surpreendo que este foi o grupo de pessoas que Jesus Cristo escolheu para ser o seu representante na terra depois de sua ascenção.
A minha experiência é protestante, de confissão batista, trazida pelos moldes das missões norte-americanas. Portanto, falarei de minha própria experiência, sem dogmatizá-la a ponto de percebê-la como a regra (ou mesmo como a excessão) da fé cristã. Vale aqui dizer, para este ou para qualquer outro texto meu que for encontrado por aí, que minha teologia é toda confessional (se é que posso chamar o que penso de "teologia").
Além dos meus desacertos de vida, minha conversão foi influenciada por componentes específicos da igreja e minha caminhada é muito auxiliada e pautada por ela, através de família e amigos.
E é interessante ver que Deus se tenha revelado a mim através de pessoas.
Eu nunca ouvi vozes do além, nunca vi anjos, nunca levitei, nunca vi uma aparição sobrenatural que não deixasse espaço para dúvidas sobre a autenticidade de um milagre e nunca deixei de me ferir quando estive em risco (pelo menos não que eu me lembre). Creio que tudo isso pode acontecer, mas comigo, a revelação do Divino é feita na base da educação morosa. Deve ser por eu ser um tanto lento pra aprender as coisas.
Ouvi falar de Jesus em minha casa e fui ensinado do amor de Deus, através de meus pais, ao longo de anos.
Era um assunto que tinha sua relevância dentro de casa, mas que poderia ser descartado individualmente, como o foi, posteriormente.
Não havia muita tática de evangelhismo, ou mesmo uma sistemática de ensino sobre os patriarcas, a história de Israel, seus reis e profetas, Salmos, etc.
Vinha tudo meio embolado, e com umas "estórias" fantásticas de um peixe que engoliu um cara e de outro que sonhava e penteava leão sem ser mordido. Aliás, muita gente sonhava muito.
Jesus também aparecia nas histórias e sempre falavam que ele morria. Aí o ar era mais solene.
Mas ele ressuscitava depois. E havia alegria nisso.
Lembro que eu não era muito fã de Escola Bíblica Dominical, porque o próprio nome já era pra lá de chato.
Aprendíamos então as nossas historinhas em casa, no quarto dos meus pais, com papai lendo a Bíblia e explicando. Era o "Culto Doméstico". Eu sempre achava os nomes estranhos demais e as atividades nem eram tão legais.
Mas era coisa que unia a família em torno de Deus.
Talvez ouvir que um peixe engoliu e vomitou um homem em 3 dias não seja realmente o que mais crie em uma criança o germén da fé na graça. Mas nos reunirmos para ouvir estórias como esta, sentados e deitados na cama dos pais, sem dúvidas me fez saber da importância daqueles momentos, quando papai lia a Bíblia e a gente cantava e orava. Estávamos ali numa atmosfera de amor familiar.
Mas o tempo passou, eu cresci, supus saber da vida, me meti em dezenas de frias.
Voltei a precisar de Deus. Tinha essa noção, pelo menos.
Nas idas e vindas de fé, quem me trouxe pra perto do Deus perfeito foram pessoas tão próximas de mim, que eu conhecia muitas de suas imperfeições.
Meu pai puxou uma conversa comigo a respeito de meu comportamento, de minhas posturas...
Foi através de palavras duras que refleti sobre minha existência e me entreguei a Cristo.
Mas estas palavras transbordavam amor. Eram constrangedoras...
Mas quando me converti eu já estava grandinho e, por melhor que fossem as estórias, por si só, dificilmente elas seduziriam um jovem de 21 anos, maior de idade, vacinado e solto no mundo.
Eu queria ver gente de perto que pensasse e que vivesse uma fé autêntica em Jesus.
Fui então pra um acampamento de igreja, constrangido pelo meu avô, vendo-me como o pior pecador de todos e na expectativa de ter que encarar um bando de santos crentes evangélicos, que ficariam cantando por 3 dias inteiros.
Eu estava cansado da igreja, mas estava apaixonado pela Bíblia. Portanto, valia o esforço ir ao acampamento.
Pra minha surpresa, foram mesmo 3 dias cantando direto. Mas foi ótimo!
Fiz grandes amigos daquele tempo, que ficam até hoje.
Comecei a crescer ali, vendo gente de verdade, pecadora que nem eu, vivendo a vida eterna no presente, como eu começava a viver.
Tinha em quem me apoiar. Tenho em quem me apoiar.
Dali, a minha vida tomou novos rumos sociais, novas rodas, onde se falava de compromisso com Deus e coisas tão distantes outrora.
Depois vieram outros amigos, de outros grupos, mas do mesmo velho grupo: a igreja de Cristo.
A igreja tem a virtude incrível de agrupar, ajuntar e fazer crescer de um jeito saudável. Faz diferentes interesses convergirem no propósito de agradar a Deus. Promove o crescimento humano integral.
Seus maiores críticos vêm dela mesma, e sempre devem ser bem recebidos.
Sua tolerância é, às vezes, irritante.
É a única instituição do mundo todo que começou desacreditada demais pra dar certo, mas que tem resistido bravamente nas mentes e corações justificados, dos pecadores confessos dos últimos 2000 anos.
Isto, graças ao seu fundador, o cabeça do corpo.
A Cristo sejam glória, domínio e honra, eternamente.

27 de outubro de 2007

Para Priscila

Uma apresentação formal, com balançar de mãos e um certo jeito impenetrável de personalidade, num vestidinho lindo, dia de sol, numa pequena morena assentada escrevendo.
Um janeiro de tentativas de conversa, de me acotovelar por entre uns e outros numa expectativa meio vã de conquista. Ao mesmo tempo, tudo colorido, festivo, divino: a partilha da verdade, num mar de idéias, com mergulhos musicais. A própria busca pela profundidade, num ambiente de amor cristão.
Frases atrapalhadas, mas bem intencionadas, sobre a qualidade de filmes, sobre homem e mulher e os vestidos cada vez mais belos. A expectativa é minorada. Bicho bobo é o homem apaixonado... Mas passa. Ou não?
Um intervalo bem grande, cheio de coisas. Boas e ruins. Coisas "da vida"...
Coincidências milagrosas, um congresso, "Um grande abismo", uma disputa velada, da qual eu não sabia (mas sabia) e participava.
Investidas ousadas. O tempo, há de haver tempo, uma espera. "Por favor, alguém que espere, Senhor", o eco de orações passadas.
Mais frases atrapalhadas, boas risadas, boa companhia, bons lugares; tudo bom!
Carvão pros sonhos...
Mas o tempo, "timing é tudo", ela disse.
A hora, a música, o meu jeitão das frases despejadas.
Finalmente, mãos dadas.
Um beijo, o infinito presente, passado e futuro.
Uma alegria muito grande, querida.
Muito obrigado por tudo, meu Deus.

7 de outubro de 2007

Uma experiência (em Engenharia Química)


Na minha infância e adolescência, eu acho que, diferentemente de amigos meus que já tinham seus futuros e sonhos praticamente traçados, eu não tinha nem idéia do que queria ser. Aliás, muito pouco mudou, mas estou às portas da formatura de um curso que tenho muita alegria de ter feito parte da minha vida: Engenharia Química.



O curso é puxado. É que nem café forte tomado às talagadas: dá dor de cabeça e te deixa esperto. Na UFF são 68 cadeiras a serem feitas em 10 semestres. Números muito pouco amáveis em suas relações algébricas, quando levados em conta no tempo da vida cotidiana e em suas dificuldades, que vão crescendo conforme o curso avança.



Nos períodos básicos (1º ao 4º), o aluno se encontra com as idéias clássicas da física, da matemática e da química, que se encontram, se esbarram, se complementam e pretendem formar um arcabouço teórico que crie terrenos propícios pra fazer nascer o que se plantará mais adiante. Aprende-se (por "aprende-se", realmente quero dizer que o estudante tem que sentar e se entender - e apanhar - com a matéria, ou não consegue se desenvolver ao longo do curso) cálculo diferencial e integral, álgebra linear, vestígios de programação, física clássica newtoniana, introduções de eletromagnetismo, termodinâmica, e vai-se muito aos laboratórios e aulas de química geral e analítica.


Talvez eu não fale só por mim, mas eu acho que o sujeito não faz nem idéia de onde ele está se metendo. Não há vislumbre ainda do que é Engenharia Química. Ela é uma linha distante ainda a ser cruzada.

Recebidas estas informações, que poderiam ser vistas como ferramentas muito incipientes, mas, mesmo assim, rebuscadas e sem as quais não se vai a muito lugar, o estudante passa por um segundo ciclo, onde ele estuda objetos mais próximos da realidade do engenheiro.

Pensemos nisso tudo como um processo.


Na etapa anterior, ele recebeu os ajustes de pressão que tiraram um menino do ensino médio e o levaram a condições operacionais mais severas, havendo sido bombeado (ou comprimido, dependendo da flexibilidade da mente) com força à realidade da formação intelectual que ele escolheu. Passou pelos funis das derivadas, filtros das integrais e destilações de seus componentes múltiplos de perseverança que o deixam mais apto a entrar no ambiente reacional da Escola de Engenharia.


Nesta etapa (do 5º ao 8º período), o nível fica mais pesado, com matérias como Termodinâmica, Transferência de Calor e de Massa, Mecânica dos Fluidos, Química Orgânica, Reatores e mais o que ele tiver deixado pra trás no básico (maldito sistema de créditos!).


O aluno tem que reagir bem em provas que duram de 4 a 5 horas ininterruptas de cálculos sem fim, usando tudo o que deveria ter aprendido (agora ele viu que realmente deveria ter apanhado ainda mais das equações diferenciais no básico) e mais o que ele conseguir inventar de artimanhas, em calculadoras das mais potentes em que puder colocar suas mãos.


De repente, fica-se íntimo de nomes como Newton (aliás, o que foi que ele não fez, hein?), Fourier, Fick, Darcy, Stokes, Raoult, Kelvin, Faraday, Arrhenius, Reynolds, Prandlt, Schmidt, Sherwood, Enskog, Nusselt, etc. e se vê um sem fim de relações estranhas e exponenciais que alguns destes caras tiveram uns com os outros, sem nem saber que seriam vistos assim, tão íntimos, apesar até das diferenças de idades e de tempos de vida. Estes poucos, pra não mencionar os autores dos livros didáticos (Bird, Incropera, Kern - onde é que se acha o livro desse cara? - Faust, Stephanopoulos, e uma menção honrosa e muito amável ao Perry e aos nossos tupiniquins Massarani e Cremasco), são os nomes clássicos de gente que fez andar boa parte do conhecimento prático da sociedade.

Feita a etapa de reação, passa-se ao refino e purificação do aluno, que tem ainda pela frente, nos últimos períodos que lhe restam, uma visão holística da indústria em que ele vai se inserir como profissional. Vêm aqui as cadeiras referentes a processos e projetos (e mesmo Projetos de Processos) na Indústria Química, que incluem uma percepção nova na utilização do ferramental adiquirido até esta altura da vida acadêmica. Em tese, era pra ser aqui também o lugar dos estágios, mas a vida no terceiro mundo é um pouco difícil e dinheiro se faz necessário pra viver, e o aluno acaba arranjando um estágio (que quase sempre paga mal pra um quase engenheiro, mas relativamente bem pra alguém que saiu do segundo grau) muito antes de estar aqui, onde tirar xerox e imprimir papéis, mais do que ocupações centrais da carreira, ou aprendizado efetivo dela, são o foco do trabalho.

A partir destes acertos finais do produto obtido, que passa pelos rodopios de ciclones, pelas trocas de calor de esquentar e esfriar a cabeça nos inícios e fins de períodos, em que há flash e alguma cavitação no coração na hora de receber notas, vemos aqui um quase-profissional com tudo por se aprender ainda, mas com algumas noções básicas.


Por aqui, vê-se se há viabilidade econômica e técnica em algum projeto; podem-se criar novos estilos e paradigmas de processos químicos; tem-se a responsabilidade de lidar com o meio ambiente adequada e eticamente, havendo de ser feita uma escolha clara, criteriosa e bem dosada entre técnica e negócios.


Ao fim disso tudo, espera-se algo ainda inacabado, mas pronto pra começar a aprender mais e, quem sabe, resolver algum problema como diversão natural de seu ofício: um engenheiro químico formado.

23 de setembro de 2007

Da esperança

Eu queria dizer sobre esperança.
Não que eu entenda dela, ou mesmo que não a tenha depositado em coisas vãs.
Mas queria dizer, de dentro de mim, da esperença como sentimento e como espera. Espera, como quem aguarda bom desfecho.
Eu creio que ela é um resultado, se a virmos como expectativa da salvação das condições a que fomos submetidos no passado, ou como simples sonho de poesia vindoura num respirar profundo de anseios calados, do que mais se sente falta no coração humano: harmonia, paz, verdade, pureza e amor.
Destas coisas, confesso, entendo muitíssimo pouco, mas são sempre assuntos muitíssimo mais bem-vindos, como palavras, ou mesmo como realidade a existir e a limpar os vestígios de desespero da minha alma.
A esperança, creio como um pateta, vem de olhar a vida presente de pequenas ou grandes ruínas, de fracassos pessoais, das pequenas tragédias que, unidas, nos fazem uma sociedade toda carente e um sem rumo. "Ovelhas sem pastor".
A esperança, sutilmente, não nos dá garantia, mas é ela própria segura e sólida, plantada em terrenos férteis, pronta para crescer, dar frutos e ser colhida, no dia apropriado.
É ela um emblema cristão, do dia da vinda do Senhor, dos céus, do amor mais profundo e perfeito, que não tem nada a que se comparar em dias de fome, guerra e dissabores.
E, como quem espera, espero.


17 de agosto de 2007

Menina Bonita do Laço de Fita



Eu tenho uma irmã.
Seu nome é Débora, que quer dizer abelha.
Nunca ouvi dos meus pais sobre alguma vocação familiar em apicultura, mas o nome da menina acabou sendo este.
Na Bíblia encontraremos terreno mais propício para a escolha deste nome, no livro dos Juízes de Israel.Ali fala de uma mulher chamada Débora, mulher de Lapidote (certa vez começamos a chamar um namorado dela com este nome horrível). Era uma mulher de presença marcante, eu diria, fazendo uma leitura resumida da passagem que conta sobre ela.
Mas eu não conheci a abelha da Bíblia.
A que conheço é a minha irmã.
Esta, certamente, é de uma presença marcante.

Lembro que certa vez ela me derrubou da cama, numa guerra de travesseiros.
Ela era magrinha, osso puro, mas era muito invocada. Eu era bem gordinho, meio lento, mas bem maior do que ela.
Estávamos brincando de alguma coisa em cima da cama dos meus pais, quando eu olhei pro travesseiro e passei a mão de leve na fronha. Com um movimento rápido: "POF!", virei uma travisseirada certeira na magrela!
Ela não se fez de rogada e com uma voz fininha disse: "Ah, é?"
Apanhou o outro travesseiro e começamos o combate.
De vez em quando um dava uma cambaleada pra um lado, o outro não conseguia se equilibrar direito em cima da cama, mas a euforia era geral.
Era uma briga legítima e nem machucaria ninguém, já que era com travesseiro. Eu estava feliz com aquilo, porque ia dar uma coça nela e ela nem ia poder reclamar de dor, já que o instrumento de tortura seria macio daquele jeito. Eu, finalmente, havia arranjado o jeito de bater na minha irmã, sem poder ser chamado de covarde.

De repente, como um relâmpago (eu tenho que dizer que foi "como um relâmpago", senão minha credibilidade vai pro espaço), numa cena que eu diria só ter assistido no cinema quando vi "Matrix"; Débora dá um golpe certeiro na minha cara e eu me espatifo no chão.
Lá estava eu, agora um Golias derrubado, olhando para uma menina que seria um Davi muito assustado, em cima da cama.
Débora arregalou os olhos, meio descrente de seu feito e sem saber que reação esperar de mim, ou dela mesma.
Eu lembro de ter reclamado algo do tipo: "Você não sabe brincar, Débora!", com uma voz resmungona.
E ela chorou. Eu acho que também chorei. Eu sou mesmo um chorão!
Depois nós rimos daquilo.
Mas de uma coisa eu tenho certeza: eu nunca mais brinquei de guera de travesseiros com minha irmã.

Esta é uma homenagem de aniversário a alguém que me é muito querida. Uma inestimável companheira, que sempre teve sensibilidade no trato com o irmão e bom humor pra encarar minhas esquisitices. Alguém a quem muito amo e tenho aprendido a admirar durante esses 23 anos.

10 de agosto de 2007

Oração

"Eu quero ser um cristão de verdade."

Eu já repeti esta frase mais de uma vez em minhas orações.
Eu, como sou crente, acredito que Deus me ouve em boa parte do que digo (há algumas coisas que eu acho que Ele ouve só porque é onipresente e generoso, pois certamente não deveria ouvir, com seus ouvidos santos, minhas palavras tão sujas). Acho que Ele me ouve inclusive nesta pequena oração.
Mas eu mesmo nem entendo muito bem o que esta frase enuncia, pra ser bem honesto.
Por vezes eu quero ver o cristão como alguém que recorre ao apelo de Cristo: "sede, pois, perfeitos como é perfeito o vosso pai celestial."
Eu não sou perfeito. Nem de longe... ou melhor, de perto sou menos perfeito ainda, como é fácil constatar.
E eu, às vezes, me pego na tentativa de ser o melhor que posso ser, ou mais do que isso. Posso afirmar que tem gente que se sai bem mais natural do que eu neste papel.

Por outro lado, quando paro pra ver o bando de gente desestruturada que compõe a igreja de Cristo, mais ainda me animo em ser cristão e me acho plenamente aceitável, pois, afinal, é o mesmo Cristo que afirma que não lança fora aqueles que vêm até ele. Mais ainda, ele diz que não veio para os sãos, mas sim para os doentes.
Se eu fizer algum esforço para pensar em uma pessoa desajustada, a primeira que me vem a mente sou eu mesmo. Vivo cheio daquelas coisas que sempre estão por ser feitas, mas que nunca consigo terminar como queria, ou de coisas mal resolvidas comigo, com os outros, etc...
E sou normal (data venia este espasmo de auto-estima). Sou que nem os outros tantos que são todos desajustados.
Assim, vejo que o bacana (pra usar uma palavra desajustada) de ser cristão é ser alcançado pela graça de Jesus, mais do que os padrões de santidade perfeita, que ninguém vai atingir, mas que sempre se deve tentar perseguir.

Assim, tudo o que posso apontar de minha pequena oração se resume nestes três pontos:
O sentimento que a gera é de impotência diante da empreitada de ser cristão, mas ao mesmo tempo basta que eu me reconheça o impotente que de fato sou.
Seu resultado é, inevitavelmente, o crescimento espiritual, por qualquer dos caminhos possíveis (dor ou aprimoramento moral).
Pra que a oração tenha coerência (não só sintaticamente), devemos colocar nela um vocativo e pedir a orientação de Deus para a conduta desta difícil tarefa:
"Deus, eu quero ser um cristão de verdade."

4 de agosto de 2007

Infinito presente



Pelo que já ouvi, ainda que pouco, um dos grandes homens do Brasil que via a "verdade guardada nos paradoxos", especialmente na história e na composição social brasileiras, foi o nordestino Gilberto Freyre.
Embora não tenha sua eminência ou intelecto, também vejo grande beleza nos paradoxos que compõem nosso universo.
Vivemos num lugar que é composto basicamente por energia e matéria que se relacionam no espaço-tempo.
Entretanto, embora possamos encontrar
muita facilidade na identificação destes poucos elementos através das palavras que os apontam, o que constitui o universo não é tão simples e os esforços para totalizar o conhecimento deste universo estão longe de acabar, pra dizer o mínimo.
Mesmo assim, nossa experiência de conhecimento é uma jornada cheia de curvas e rodopios, boa parte das vezes prazerosa. E a maior parte do que conhecemos é graças à nossa visão.

Existe um mundo visível dentro do mundo invisível.
Talvez, enunciando assim, esta afirmação seja um pouco escandalosa ou esotérica. Tentemos de novo:
Existem coisas visíveis e existem também coisas invisíveis. Acho que disto ninguém duvida, já que a tela do computador é um representante do primeiro grupo e o ar que separa o leitor da tela não é visível. Ainda bem, pois se o ar fosse visível, talvez não enxergássemos mais nada.
Dedicando um pouco mais de atenção à sua tela de computador e alguns momentos em homenagem bem merecida ao inventor da TV, Philo Farnsworth, perceberemos que, embora a tela esteja parada, é a luz que vem dela que chega até o seu olho e é identificada pelo seu cérebro como uma imagem, que é entendida como alguma coisa por você. Assim, a luz entra na sua cabeça.
Na verdade, nós temos muito mais contato com o mesmo tipo de energia que a luz, que é composta por ondas eletromagnéticas, mas do jeito grosseiro como descrevi acima, somente as ondas que têm um comprimento dentro do espectro do visível é que entram na nossa cabeça, como informação visível do que nos cerca.
Isto me leva a constatar a nossa limitação diante do universo. Não vemos quase nada. Nossos olhos só percebem parte do que nos cerca. Somos bem ceguetas, embora isto me baste para escrever neste blog.

Mesmo assim, há um aspecto que eu acho fantástico na luz.
"A luz não precisa de um meio material para se propagar", quem nunca ouviu esta afirmativa?
Entretanto, é só através da luz que podemos enxergar a matéria. Ela "bate" em algum lugar e este lugar reflete parte desta luz, que fica passeando até encontrar o olho de um observador. E o observador pode até ser desatento, que mesmo assim vai perceber o objeto (nem que o cérebro faça o trabalho de dizer para as suas células: "Tudo bem, você nem precisa prestar atenção ao que está se passando, mas há um objeto logo ali, ouviu?").
Logo, é a luz que realmente é visível. O resto não. O resto é invisível. Voltando a sua tela de computador, nesta altura do texto, acho que as palavras foram se ajeitando de um modo que não há mais tanta certeza em dizer que a tela é visível, uma vez que apenas a luz que dela vem é que é visível.
Neste raciocínio, todas as outras coisas não são vistas, mas sim a luz que vem delas e que estava nelas ou em outro lugar e foi parar ali e foi refletida.
E como a luz é bem rápida, imagine o quanto de informação você recebe só de ficar olhando pra um objeto, numa sala bem iluminada? Quantos zilhões de fótons passam por suas retinas por segundo?
O que torna as coisas mais interessantes ainda (ainda que este texto não consiga torná-las tão interessantes assim) é que, embora o objeto esteja bem paradinho (imagine um livro em cima de uma mesa numa sala com iluminação), a luz que chega nele e posteriormente chega até o seu olho (agora já te transformei em observador, por favor não fique chateado, faz parte da vida) está viajando a 299 792 458 m/s.

Assim, há constante movimento de inúmeras ondas-partículas, na velocidade mais rápida do universo, para informar que um objeto está parado.

Isto acontece a cada segundo, a cada centésimo de segundo, a cada milisegundo, a cada microsegundo, a cada picosegundo...
Enfim, se reduzirmos a nossa escala de tempo a um tempo infinitesimalmente pequeno e junto disso também chegarmos a dimensões minúsculas, como se desacelerássemos um filme em câmera lenta ao mesmo tempo em que chegamos a câmera com toda a velocidade para dentro de um espaço sufocantemente pequeno ao ponto de chegarmos a partes pequeniníssemas do microcosmo, bem pequenininhas mesmo...
Com este paradoxo cinematográfico, conseguiríamos ver os fótons dançando uma valsa, quem sabe, e sendo somente eles tudo o que há de visível no nosso mundo.
Todo o resto são coisas que não se vêem, mas que tem cara de coisas muito visíveis.

E é interessante que o mundo não seja preto e branco, não esteja parado e que haja vida nele.
Dificilmente eu conseguiria supor que o acaso fizesse isto tudo, toda a mágica de existir.
E tudo isso, grosso modo, vem dos citados elementos: matéria, energia e relação entre estas duas no espaço-tempo. As nossas definições não acompanham todo o emaranhado que enunciam. Mas ao mesmo tempo simplificam o entendimento e nos fazem olhar o infinito com algum poder investigativo.

Por isso, não me surpreendo que Deus tenha dito no começo das eras: "Haja luz!"
O que me surpreende é que ainda haja luz imerecida em nossas trevas.

27 de julho de 2007

Identidade


Acho algo extremamente interessante que o homem se reúna em torno do próprio homem para viver (ou simplesmente para sobreviver).
Li em Rubem Alves, num livro de ensaios muito bem escrito (aliás, tenho de terminá-lo, pois ele nem é meu) que a própria sociedade é uma técnica que os seres humanos inventaram para poder sobreviver.
Sempre que penso nesta idéia, as imagens que me vêm à mente são de corpos se atraindo uns aos outros para um mesmo lugar central, com aqueles balõezinhos de falas (e aquelas nuvens de pensamento) de histórias em quadrinhos por cima de cada cabeça.
E aí uma reunião começa, sem um destino muito bem estabelecido, nunca terminando a discussão.

Alguém fala "E agora?"
"Pra lá", aponta um outro e logo vamos fazer livros, prédios, lojas, produtos, tecnologia, dinheiro, música, gostos diferentes, brigas, reconciliações e tudo o mais de nossa experiência cotidiana.
É um barato esse negócio de ser humano.
Nós somos os seres que criam o debate do Direito, da Lei e da Justiça, ainda que nem tenhamos o direito de debater com o universo ou com a natureza. Temos o sentido divino, embora tenhamos nossas necessidades diárias.
Defendemos e atacamos, ocupamos um lugar na existência que é de central destaque, ao mesmo tempo em que somos uma poeirinha num planetinha pequeno num canto da galáxia.
Somos a imagem de Deus e, mesmo assim, somos desajeitadamente os animais que mais demoram a chegar na maturidade.
Aliás, com toda a nossa discussão sobre a Justiça, matamos um Deus inocente numa cruz, através do sistema de Direito mais avançado da época.
Na verdade, algumas das ações que temos, como um grupo de gente junta, parece que mais estão regidas pela tradição do que pela lógica.
Por exemplo, alguns tipos de trabalho são de muito maior valor que outros, mas não tem o valor que deveriam.
Tomemos como exemplo o lavrador.
Em geral, não se confia muito crédito (ou mesmo dinheiro, quando pensamos que, no grupo das pessoas que tem os balõezinhos de fala - essas caricaturas ambulantes que somos -, o dinheiro é o que representa uma espécie de consenso daquilo que deve ser dado às outras pessoas dos balõezinhos por coisas que têm valor intrínseco, ou coisa muito próxima disso) a um lavrador, ou a alguém que traga da terra a comida.
Marx dizia que o homem não é aquilo que ele pensa que é, mas sim aquilo que ele faz, como ser que participa de sua comunidade. Ele ainda diz que o homem não é o indivíduo, mas a sociedade. Deixo pra Marx, Engels, Weber e Durkheim as palavras sobre o social e o capital. Sou leigo nisso.
Mas mesmo assim, sou a sociedade, sou o homem. Eu e você somos o homem.
Não é belo?
E qual é o lugar do homem dentro da organização humana?
Por vezes eu me perco, tentando achar meu lugar nessa sociedade.
Desconfio que não vou encontrar muito lugar aqui. Parece que já está tudo lotado.
Ironicamente, o homem, com sua técnica de sobrevivência, não consegue assegurar a sobrevivência a todos.
Exclui o próprio homem. Exclui o nosso amigo lavrador, exclui o Direito, exclui até Deus.
O que mais tenho tentado é que o meu sistema interior, o eu que só eu sou (e é aqui, por ser eu mesmo um indivíduo e não uma sociedade inteira, mas por ser parte dela e ter opiniões que são importantes para ela, por mais louco que isso pareça - e é aqui que eu discordo de Marx), esse eu que só tem como ser eu mesmo, esse aí, que eu estou tentando definir, esse vai sempre acreditar no Jesus Cristo que não sou eu.

Em suma (o parágrafo anterior ficou muito confuso com tantos "eu"), que o meu eu sempre esteja com Deus.
Como diria Soren Kierkegaard: "agora, com a ajuda de Deus, eu serei eu mesmo."

11 de junho de 2007

A real luz

Comecemos do princípio.
Amar é verbo. Verbo transitivo direto da primeira conjugação, que indica ação. “Quem ama, ama alguém ou alguma coisa,” já disseram todas as professoras de Português do primeiro grau.
Desde o mais remoto viver, o homem tropeça nesta temática, embolando pernas, cabelos, mentes e corações numa trajetória milenar, na busca pela essência do inefável. E sempre, em coro, os maiores poetas encontraram o sentido de nossa existência nisto que é o frágil perfume da vida, o amor.
Honestamente, por mais linguagem que queiramos usar, desde o falar dos anjos ou dos homens, ou mesmo coisa de sinos que retinem, de bronze que soa, ou de qualquer outra figura cabível, pouco sabemos do amor.
Talvez, porque o amor não esteja no domínio do saber, mas do viver. Transcende, portanto, a sabedoria. Diria até que beira a loucura e, ainda assim, mostra o único fio lógico, acima do acaso, de nossa existência.
Tem a ver com vida, com seres vivos, com gente, com homens e mulheres que existem num mundo imperfeito.
Entretanto, é gozado ver como associamos ao amor os nossos ideais de perfeição. É o próprio “vínculo da perfeição.”
O nosso mundo de fome, guerra, corrupção, traição, doença, morte e cegueira, subitamente, passa a ser enxergado por um prisma de satisfação, paz, justiça, fidelidade, saúde e vida, como se fosse possível um paraíso por vir, na esperança... esperança, não, mas certeza de que virá aquilo que é perfeito, para nos resgatar de nossos próprios erros, desacertos e pecados. E aí, finalmente, nos mostrará a vida.
Vida. O amor, desculpem-me pela insistência, está intimamente relacionado a viver.
E viver, o que é?
Viver, na sociedade atual, tornou-se algo mais ou menos parecido com pagar contas, estudar para provas, trabalhar por algum dinheiro, fazer sexo, pegar ônibus, sair à noite, acordar de manhã.
Realmente me pergunto se isso é viver.
Atropelados pelo tempo, esmolando suas migalhas, pairamos suspensos, em vidas muito ocupadas. Se este não é o seu caso, veja-se como raridade.
Não há muito tempo pra viver. Falavam tanto em carpe diem...
E onde está o amor nesta história?
Na verdade, ele, hoje, anda meio sumido do mundo.
O Senhor disse que o amor esfriaria de muitos. Creio que não precisamos de aulas de Termodinâmica pra entender o que Jesus queria dizer com “esfriar”.
Nós, homens e mulheres, estamos manchando o mundo com uma tinta grossa de apatia.
Especialmente nós, homens e mulheres cristãos da pós-modernidade, temos freqüentemente deixado pra trás a vida, na busca por ideais nem tão vivos.
Estamos, por vezes, muito dispostos a entregar nossos corpos para serem queimados por ideais, por convicções de fé, por força de caráter e pela promoção de nosso grupo religioso em meios onde somos mal vistos, para defender uma identidade eclesiástica que possui a própria verdade inquestionável.
Ora, tudo isto é bastante louvável e não há nada de errado em ser firme. Muito pelo contrário, precisamos de pessoas que estejam comprometidas com aquilo que crêem. Precisamos de gente ética no mundo.
Contudo, vem Paulo nos dizer que os esforços são todos vãos se não estiver atrelado o amor a eles. Se não tivermos amor, nada seremos.
Aliás, ele ousa em dizer que mesmo a fé é menor que o amor.
Portanto, nossa fé deve se basear no amor, e não o amor se basear na nossa fé.
É Cristo quem ainda mostra força mais radical no amor: devemos amar acima de qualquer questão.
Os discursos de liberdade, de amor e paz que foram atribuídos aos hippies das décadas de 60 e 70 por conta da Guerra-Fria, devem na verdade ser atribuídos ao homem que morreu na cruz por amar.
“Amai os vossos inimigos”.
Este é um padrão ético muito acima do meu. Provavelmente, do seu também.

Ouvimos que amor é comportamento. Há que se concordar.
É preciso uma coerência de atitude para que as palavras “eu te amo” sejam de verdade.
Não diz muita coisa quem fala de tudo, mas vive pouco o que fala.
Que tipo de comportamento é esperado dos que amam?
Duvido muito que devamos pensar somente em ações românticas, em flores, ou conversas animadas entre amigos.
O amor, por suas coerência e constância, habita territórios de dor e prazer, ao mesmo tempo, e em tempos diferentes.
Assim, não seria difícil prever a conquista de novos territórios pelo amor. Um alcance supremo em todas as regiões.
Qual é o caminho para este alcance?
O primeiro passo é ser alcançado.
O segundo passo da jornada é exercitar o dom supremo recebido entre os que foram alcançados, numa atmosfera sincera de amor.
Aí, poderemos pular como bezerros diante de um sol de justiça que nos convida a resplandecer Sua luz em meio a trevas.
A real luz é o amor. Um amor que ilumina o caminho, que dá vista, que aponta o futuro, que traz o homem à reflexão de um mundo de beleza além de si mesmo, em harmonia com o Criador e com o próximo.
E, se posso, repito os versos que já disse:

Se o amor é músculo, trabalhemos.
Se mandamento, obedeçamos.
Se paixão, cedamos.
Se é só amor, amemos.

13 de maio de 2007

Mama mia!

Morei em Friburgo na maior parte da minha infância. Friburgo deveria ser conhecida como a Suíça Brasileira, mas imagino que tenha sido mais parecida com a Europa em outros tempos.
Este epíteto é graças à colonização e ao clima serranos, que conferem ao lugar chuvas e tempo nublado no verão.
Quando eu era mais novo, éramos sócios de um clube bem legal na cidade. Eu também era bem mais gordinho e envergonhado.
Os dias de sol com calor eram meio raros. Ainda são, mas o mundo anda tão mudado com esse negócio de aquecimento global, que não me arrisco sair falando por aí do clima.

Minha mãe olhou pela janela, viu o sol, viu os filhos dentro do apartamento, olhou pro relógio, viu que dava pra gente ir pra piscina.
Mandou que os três colocassem suas roupas de banho e enfiou todo mundo no carro, prontos para ir ao clube.
Nem tão prontos assim, já que no caminho ela estava dizendo que iria parar, porque tinha que comprar uma bóia pro meu irmão mais novo.
Eu, desde que me reconheço como ser vivo, sou uma pessoa meio desligada e lenta. Duro é admiti-lo. Pairo, por vezes, no infinito, embasbacado por alguma coisa boba que não desperta nenhum sentimento em ninguém.
Provavelmente, estava eu neste tipo de pensamento quando saí de casa e minha mãe "pediu" que eu colocasse logo a sunga pra sairmos.
Eu coloquei a sunga, conforme mandado, e só. Estava só de sunga.
Friburgo é uma cidade serrana, fria por natureza. Raramente, as pessoas andam sem camisa.

Mamãe parou o carro e pediu que eu descesse para comprar uma bóia pra meu irmão, que devia ter uns 3 anos na época. Relutei. Sim, relutei em descer do carro, pois estava só de sunga. Tinha vergonha. É claro que tinha vergonha: gordinho, de sunga, a rua lotada de gente e eu ainda teria que comprar algo numa loja, chamar a atenção pra mim.
Não adiantou reclamar.
"Desce, André, vai logo, senão o sol vai embora!"
Desci do carro, fui à loja, sem nem estar de chinelos.
Perguntei pra moça, com as mãos tentando tapar a barriga, se ela tinhe uma bóia "de braço", quanto era?, ah!, não tinha, ufa!, vou logo falar pra mamãe e chega desse mico.

Volto pra onde estava o carro e ele não está lá.
Essa foi, eu acho, a primeira vez na minha vida que eu tive aquela sensação inefável de se ver nu diante do mundo.
Na verdade, uma sunga azul me separava da completude do sentimento.
Minha mãe tinha saído dali e eu havia imaginado que ela tinha dado a volta com o carro, já que a rua estava cheia. Meu Deus, a rua está cheia de gente! Eu aqui, pelado!
Esperei um pouco, ouvi uns risinhos, comentários dos passantes e não vi o carro da minha mãe.
Pensei: vou pra casa. Esta não foi das melhores idéias que já tive.

O caminho inteiro eu ouvi coisas que "o só referir é vergonha".
Vinha eu de sunga, braços tentando tapar alguma coisa, em vão, e o povo atirando comentários dos mais variados tons.
Cheguei em casa. Ninguém.
Não é possível!
Fiquei um tempo ainda ouvindo gracinhas dos vizinhos que passavam pela portaria do prédio, onde eu buscava refúgio.
Depois de um tempo chegou minha mãe.
Veio me dando bronca ainda por cima: "André, por que você não esperou lá? Eu fui dar a volta no carro!"
"Mas demorou muito, mãe."
Entramos em casa e não lembro se fui à piscina naquele dia.

Queria com este texto prestar uma homenagem bem humorada à mulher mais fantástica com quem vivi nestes últimos anos, minha mãe.
Uma mulher que me fez, me criou, me amou desde sempre e a quem eu tudo devo, com a mais devota gratidão.
Todos os dias com ela são a maravilha de ser um filho amado e bem cuidado.

23 de abril de 2007

Ensaio sobre a Peste

Albert Camus conta, em A Peste, que na cidade de Oran, que, "confessemos, era feia", houve a temida peste, em idos dos anos 40. Com primor, ele relata a condição humana do confinamento involuntário, necessário para não se espalhar um mal devastador, consumidor, matador, algo que descaracteriza o homem por suas virtudes, que o força a se suprimir, enfim, que coloca em sursis o mundo social do amor.
Para estabelecer suas conclusões, Camus vai fundo nas emoções da separação, no possível e ilícito, no jugo da responsabilidade de alguns para manter um fio lógico na existência de todos, na morte, no sofrimento que não poupa crianças, na loucura da realidade, na suposta ausência de Deus.
Num apelo mais veemente, José Saramago cega homens e mulheres lusitanos a fim de mostrar o patético da fragilidade humana, de nossa sociedade, de nossa falta de visão mesmo quando enxergamos com olhos cheios de saúde. Em seu Ensaio sobre a Cegueira Saramago elabora as vistas de um mundo que se precipita para a perdição, um mundo que contraiu a peste da cegueira física e que tem implicações sociais, filosóficas, espirituais.
A peste não apenas mata. Mata e cega.
O olho cego transmite a cegueira para a visão de toda a sociedade e a mata. Isto é tão bíblico quanto dizer que por meio de um homem veio o pecado e importava que a salvação viesse por meio de um homem também.
A peste de nossos tempos é a peste de todos os tempos, transfigurada em margens didáticas para que entendamos o nosso fim.
A aids, a neurose, o furto, a morte, a corrupção, o Capital, enfim, toda a desgraça humana é um travesti do pecado.
Quando exploramos pormenorizadamente quão miserável o homem pode se tornar, olhamos para o que ele crê e vemos quão desgraçadas são suas crenças. Se estas crenças não exprimem sua condição real, todas as fatalidades parecerão grandes acidentes, mutilações incontroláveis, sangramentos abertos nas veias do nosso Leviatã, estado e sociedade, mas não só isso, algo que vai irremediavelmente em direção ao fim da própria existência; o extermínio de toda a beleza.

Frente a isto, que resta?
Aqui vemos a força da fé em Cristo.
A única coisa que nos pode salvar, que pode limpar a terra, é o sangue derramado para lavar os corpos de toda peste, para curar o mundo, dar visão da verdade.
A sociedade clama por redenção. Como a corça geme, berra, chora por águas, assim a alma do homem suspira convulsiva pela salvação, por águas vivas.
Não há, fora de Cristo, nenhuma possibilidade de salvação humana.
Há a peste.
Há nEle também o remédio perfeito.

29 de março de 2007

Confissão

O Brasil é um país atropelado pelo sistema capitalista, onde todos nós estamos entregues (nenhum comunista xiita escapa dessa, nem adianta tentar, basta lembrar das muitas Coca-Cola´s bebidas e, se você não bebe este terrível líquido, pense na internet, no provedor, no Windows, na sua roupa, na tela do computador, enfim, no que você quiser) a ele e não fazemos muito para mudar qualquer situação. Porque achamos que não há muito como ou para quê mudar.
Na verdade, há sim. Nós é que somos levianos e preguiçosos. Preferimos pensar que nosso discurso é mais profundo e consistente do que a realidade global que nos cerca e, por isso mesmo, não devemos nos preocupar com as moléculas exteriores a nós que serão afetadas por nossas ações, somente com as moléculas de nossa barriga, ou de nosso bolso.
E nosso discurso muitas vezes não é tão consistente.
Dói dizer isso.
Arranjou-se um sistema de organização e, enquanto ele não nos fere tanto os valores e não nos mancha por completo a honra, permitimos que ele nos esmague as migalhas de percepção moral que nós temos que ainda nos vinculam aos problemas sociais que tanto nos preocupam e nos tiram o sono (aqui estou tentando ser irônico e sádico), como, por exemplo, o fato de ter um ser na portaria do seu e do meu prédio, ou bem perto destas duas, jogado no chão, com algumas pessoas de menor idade que lhe acercam, talvez na procura de aprendizado pra viver na rua ou talvez para fazer algum ato miccional, publicamente, que há de atingir, não só a honra, mas o rosto do pobre mendigo.
Você liga? Eu ligo? Quem liga pra alguma coisa?
Quem liga pro fato de que a água vai acabar, graças à poluição dos nossos recursos hídricos fluviais?
Quem realmente liga pra esses problemas? Eu não. E nem você. Vamos, confesse...
Somos todos uns covardes metidos a idealistas que, ora ou depois, conseguimos colocar nossas frases bem elaboradas em alguma conversa e, pelas palmas anunciadas em risos, gracejos e elogios, tecemos toda a complexa gama de assuntos que compõe os "assuntos de mesa" de que tanto gostamos.
A divindade, a internet, a organização do universo, o fogo, o homem, a mulher, sistemas abertos e fechados, musicoterapia, vinhos, oscilações de mercado, casos mal resolvidos da polícia, o Lula, o Lula, sempre o Lula, desde 1989, ou quando ele representava ainda perigo pro capital.
Voltamos ao capital.
Este é o mundo.
É... até que a Bíblia esteja errada, "o mundo jaz no maligno". Jazer é deitar, sinônimo para morrer, em bom e vivo português.
Jazeremos em berço, ainda que esplêndido, eternamente? "Ah, não... isso o hino fala da pátria. Não das pessoas."
E tem gente que acha que pode se salvar por seus próprios meios.
Maior confissão não há: com fé ou sem fé, o homem precisa de salvação de si mesmo.
Esta temática é velha, mas não sai da moda.
Faz 2000 anos que falam nisso e pouca gente dá a mínima.

1 de março de 2007

Pieguice

piegas: adj. e s. 2 gén. e 2 núm., pop., pessoa que se embaraça com pequenas coisas; niquenta; pessoa ridiculamente sensível;assustadiço; chorão.
Lembro-me que uma vez li esta mesma palavra que figura o título do presente texto em um jornal. Não lembro sobre o que era o artigo. Só recordo que dizia assim: ..."não sejamos piegas"...
Eu, com muito descaso do pai-dos-burros, não fui investigar nenhum significado imediatamente.
Mas gostei da palavra. E comecei a usá-la.
"Piegas" pra cá e pra lá.
É engraçado eu só ter me dado conta de que usava uma palavra, que eu não fazia a menor idéia do significado, muito tempo depois de começar a atirar o adjetivo por aí.
E ela tinha força. Aliás, eu não estaria muito distante do significado que eu atribuí a ela, se dissesse que o "meu piegas" era algo como convencido, certo, resoluto, parcial, forte no que se pensa.
E isto tudo foi tirado da expressão "não sejamos piegas".
Eram os tempos de escola. Acho que começo do segundo grau, época em que eu andava enfiado em camisas xadrez e com uma bôina que eu roubara do meu avô. E ele me roubara a boina de volta. E eu estava "piegas" em ser eu mesmo, fosse o que eu fosse.

De vez em quando, a gente faz isso com a vida, na distorção do real, em atribuições de novos nomes a velhos costumes, que nunca mudam na gente, ou que já estão por uma eternidade aí, no ar, e a gente, na expectativa da transformação interna, faz de um objeto alheio instrumento de mudança do nosso mundo.
Só que tem coisas que não mudam, por mais que queiramos adequá-las às nossas disposições semióticas internas, ou sei lá o quê.
O amor não muda, por mais que eu seja um tolo. E raramente ele é piegas. Isto é coisa para a paixão.

Bem, quanto à palavra em questão, deparei-me com a necessidade de romper com minha relação platônica de uma paixão delirante e mutável (uma vez que havia diversos significados para uma mesma palavra, que iam desde "certo" a "parcial"), quando eu soltei que "deveríamos ser piegas!" para um amigo meu.
Ele, sinceramente, me disse: "O André usa umas palavras... Que que é isso de 'piegas'?"
Eu, na fuga, atalhei: "Cara, eu prefiro não falar, para não te deixar sem graça, mas tem lá no dicionário e a gente vai conversar quando você me voltar com o significado."
Ele não voltou até hoje. E com certeza, muito do que eu achava ser piegas não era e não é, alternando os sentidos.
Viva o dicionário!

16 de fevereiro de 2007

"Acho que os smurfs são Viagras."
- Débora Von Held Soares, minha irmã.

9 de fevereiro de 2007

Testemunho pessoal

Mais ou menos estas palavras foram as que eu falei em Recife nas apresentações da banda V do Avesso:

"Eu sempre busquei profundidade.
Eu nasci num lar cristão e cresci ouvindo diversas histórias da Bíblia e sempre tive noção de valores morais cristãos. Conforme crescia, escolhi meus próprios caminhos, com um misto de medo, encanto e desleixo em relação a Deus; mas com relativo sucesso nas minhas pequenas empreitadas. Eu tinha uma banda de rock que estava indo bem, um relacionamento amoroso com uma linda namorada, bons resultados acadêmicos e estabilidade em casa. Uma vida repleta de coisas boas, mas, eu diria, meio superficial.

É interessante ver como as circunstâncias da vida mudam.
Eu comecei meus estudos em Geologia. Mudei de curso e passei a fazer Engenharia Química. Ao mesmo tempo, minha namorada resolveu terminar o relacionamento e eu entrei em depressão. E junto desta desilusão, minhas notas despencaram.
Além disso, coisas alheias ao meu controle começaram a acontecer: meu avô morreu, um tio meu morreu e já havia morrido uma determinação minha em não usar drogas. Daí, vaguei um tempo pensando no sentido da vida e no terror da morte. Até que ouvi de meu pai que ele perdera toda a confiança em mim. E estas foram as palavras mais duras que ouvi em toda a minha vida.

Bem, era setembro de 2004, eu estava em casa, com toda a minha vida para consertar e eu nunca conseguiria fazer isso sozinho.
Foi então que eu fiz uma oração - a mais simples que fiz até hoje. Eu disse: "Deus, se o senhor existe mesmo, me salve!"
Eu reconheci que precisava de salvação e demorou muito tempo pra eu aceitar isso.
A partir dali, passei a ler a Bíblia com fé de que ela é a Palavra de Deus e de que Jesus Cristo é Deus.
E, incrivelmente, as "grandes questões da humanidade" todas têm, hoje, resposta: nós viemos de Deus, que nos fez com amor, para vivermos em amor com esse Deus maravilhoso, eternamente.
A confiança dos meus pais foi restaurada, tenho feito bons amigos e tenho cultivado virtudes e valores que realmente dão maior significado à minha vida.

E, se a vida é um oceano, não me afogo, mas mergulho, hoje, tranqüilo."

Se você chegou aqui neste post meio à deriva (pra não fugirmos à temática "aquática" do texto), primeiramente, muito prazer, meu nome é André von Held Soares e você já sabe um pouco da minha história. Em segundo lugar, eu gostaria de te desafiar a pensar que uma oração realmente mudou a minha vida do melhor modo possível e pode mudar a sua. Convide Cristo para viver contigo e eu te garanto que você não será decepcionado.

7 de fevereiro de 2007

Um olhar no infinito

"Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos?
Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna." (João 6; 67, 68)
Dói saber que, freqüentemente, ficamos agarrados a vidas superficiais, enjaulados em nós mesmos, sem muito pensar nas possibilidades, sem (estou muito tentado a citar C. S. Lewis) nos lançarmos ao infinito.

O "infinito absoluto", podemos tentar imaginar isso como algo além do próprio Universo, necessariamente contém o finito, seja isto qualquer outra coisa.
Nós somos qualquer outra coisa que não é infinita.
Entretanto, é tocante ver que o "infinito absoluto" resolve se instalar no finito, revogando qualquer lei que se pense irrevogável.
E alguém já disse, acertadamente, que o homem tem um buraco dentro de si. Basta-nos esticar este buraco para um tamanho e forma fora dos limites visíveis, que teremos noção da condição do homem sem Cristo.
Pedro tinha esta noção.
"Pra onde ir?" Como se afastar de quem é inafastável?
Entretanto, podemos lutar eternamente com Deus e insultá-lo, dando-lhe nomes que não o descrevem como Deus, mas, tão somente, como o "infinito absoluto", que preenche alguma lacuna de pensamentos lógicos existencialistas. Como se fosse uma verdade parcial. Algo que tem que existir, mas que não deveria incomodar.

Estive um mês longe de tudo o que poderia ser chamado de "casa". Cidade diferente, pessoas diferentes, numa espécie de alojamento, fazendo treinamento sobre um folheto que eu nunca tinha lido, ensaios, ensaios e ensaios, apresentações, testemunho, evangelhismo, pessoas encontrando Deus, choro, alegria, alegria, muita alegria.
Um mês para não ser esquecido nunca mais. Intenso.
Distância das minhas crises pessoais, dos conflitos por bobagens, dos desencontros com gente indecisa.
Um período de "busca por profundidade".
Um tempo de apreciar o infinito.
Um tempo de ver pessoas preenchendo seus buracos infinitos com a única coisa que genuinamente
os pode preencher. Pessoas que se viram não tendo mais para onde ir, recebendo as palavras de vida eterna.

O mundo, meus amigos, aguarda ansiosamente a revelação dos filhos de Deus, pra que vivamos de um jeito eterno.


Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.