15 de dezembro de 2006

Hollywood à grega


É de Hipócrates, nosso pai da medicina, que vem a primeira idéia (bem, se é a primeira mesmo, eu obviamente não sei, mas é o que consta) de sistematizar o ser humano em termos de seu comportamento e relacionar este comportamento aos fluidos, ou melhor, aos "humores", que há, supostamente, dentro de nós.
Vá lá que os humores ficaram como legado histórico, mais do que científico, ainda que haja depressão (odeio essa palavra) causada por fatores bioquímicos, por falta de neuro-transmissores, problemas no "regime de escoamento" das dopaminas, e outras minas jeitosas que deixam o cérebro alegre. E já iria alguém dizer de fluidos. Esotéricos tentariam "maus fluidos". Eu paro por aqui, pois estou tentando reativar meu blog.
Bem, Hipócrates disse haver 4 tipos de gente, com seus respectivos humores: fleumáticos, sangüíneos, coléricos e melancólicos.
Eu sempre achei o Stan Lee genial, especialmente depois de ele dizer que ele não sabia uma vírgula sobre ciência e mesmo assim escrevia ficção científica.
Já viu o filme "O Quarteto Fantástico", ou leu os gibis da estória deste grupo?
Bem, você deve ter notado um camarada inteligente sem muito contato com seus sentimentos, uma moça meio triste e insegura, com falta de o intelectual acima referido não assumir uma postura mais sólida acerca de seu relacionamento, um pedregulho feio e enfezado e, por fim, o fogo personificado num playboy inconseqüente.
Cada um ali representa, do jeito mais extrapolado possível, uma das quatro categorias "humorísticas" hipocráticas.
A saber, a moça triste tem os traços mais melancólicos, o que se reflete, inclusive (se "refletir" for neste caso uma palavra apropriada), em seu poder de ficar invisível frente às suas vergonhas, aos medos e diante do perigo.
O menino do fogo é explosivo, mas não tem muito combustível; é impulsivo, imaturo, jovem demais pra ver alguma seriedade nas conseqüências da vida, encanta no início; mas se gaba demais e "nem é isso tudo", como por fim constatamos de um sangüíneo.
O doutor é o nosso fleumático do quadrinho. Elástico, cabeça, meio insensível (não por mal, mas simplesmente por ser assim), move-se com a facilidade da água. A borracha é um isolante térmico e elétrico; talvez fosse assim só pra evitar o mau tempo, quem sabe? Previsões erram sempre e o melhor mesmo é ser de borracha o tempo todo.
Por fim, o durão seria, na verdade, minha representação de todo bom troglodita que há neste mundo. Uma rocha animada que luta contra suas incompreensões com violência, sem medo, em atitudes românticas, precipitadas e nada sutis.

Nisso tudo, vemos o homem, em suas várias faces. Todas reais. Todas humanas.
E vale aqui a antiga citação latina homo non proprie humanus sed superumanus est (grosseiramente traduzido como "o homem não é propriamente humano, mas super-humano").
Somos super-humanos, não super-homens, como gostaria Nietzsche.
Virtudes, defeitos, erros, acertos, bons e maus.
E sempre seremos. Não adianta nem pensar em Clark Kent, o Superman de plantão (data venia ao trocadilho filosófico). Estamos mais próximos de algo como o Hulk.

Por fim, não só no filme, vemos que a luta do quarteto humano é contra o Destino, que pode ser extremamente mau (e, se o Destino for romeno, é melhor ficar de olho, já que no filme parece que o cara nunca tinha sido humano, nem nos tempos de carne e osso, graças às taxações pejorativas idiotizantes do alienado ideário norte-americano da Guerra Fria ).
E o que é o Destino, senão um amontoado de colheitas de Escolhas passadas, crescidas no rico solo do Imprevisível?
O homem, no fim, luta contra si mesmo, contra seu comportamento leviano, contra dúvidas, medos, paixões, vícios...
No final, o homem, eu e você lutamos contra e a favor do humano.

Bom é saber que maior que isso tudo, sempre constante, sem oscilações de humor, sem luta contra o humano, mas pelo humano é o divino: supra-humano.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.