22 de agosto de 2006

Iminência

Um dos momentos mais interessantes de nossas vidas é o da expectativa.
Ele é iminente. Diria também, mais por força do trocadilho atravessado na garganta do que por convicção, que é eminente.
Mesmo porque, é a hora em que ainda não houve nada e tudo o que resta são possibilidades.
A expectativa nos encurrala no canto do destino e diz, com suavidade e não sem certa dose de sadismo, desembrulhando uma caixa de surpresas: "Vejamos o que temos aqui..." Desfaz o laço, abre então o pacote e...
Paramos por aqui, pois, justamente, o tema é a expectativa.

Entretanto, ela é eminentemente desprezível.
Nossas frustrações vêm quase todas daí, da supervalorização do "antes".
Já fiz tanto isso que... deixa pra lá. Deixa rolar.
Melhor nos agarrarmos à esperança paulina. Esperença, de esperar, como quem entra num trem e espera chegar a outro lugar, mais bonito, mais vivo; contudo, nunca duvidando que por onde já passou valeu a pena ter se exposto, na iminência de certezas, mesmo que tais certezas compusessem apenas o grosso tecido da existência.
Talvez andemos na esperança da garantia, a toque de vara, como reféns do tempo.

17 de agosto de 2006

Viagem

Lembro que uma vez o professor de Geografia perguntou:

"Quem sabe dizer por que as estradas são feitas em muitas curvas nas serras? Ou melhor, por que as estradas são sinuosas e não são retas quando existe uma serra? Por exemplo, pra ir de Friburgo ao Rio, a serra é toda cheia de curvas. Por que ela não é reta?"

Um momento de silêncio natural, reservado às considerações dos alunos.
De repente, penso alto: "É por causa dos ouvidos."
Obviamente a cara do professor foi de certo espanto.
Nem esperei:
"Elas são cheias de curvas, porque, se fossem retas, não conseguiríamos frear e
chegaríamos lá em baixo muito rápido. A pressão nos ouvidos seria muito grande e eles estourariam!"

Mais um momento de silêncio.
Até hoje não sei se minha resposta foi mais ensurdecedora que as supostas estradas retas.
O professor, talvez morrendo de rir por dentro, diz em tom de estímulo acadêmico: "Não era bem isso que eu esperava ouvir, mas é uma resposta."

Tempos de diletantismo, menininhas, poesia e falta de juízo total.

Humana Tragédia

Uma pergunta que sempre me fez questionar a existência de Deus, e mesmo de sua bondade, é: "como é o inferno?"
A resposta, é óbvio, nenhum homem que esteja vivo deve saber.
Dante Alighieri, que foi lá, na sua imaginação, na Divina Comédia, disse de sua entrada: "Abandone toda esperança ao entrar aqui."
Estas não são palavras de muito conforto ou mesmo de boas vindas.
A Bíblia conta de sofrimento eterno, de castigo eterno, fogo que não se apaga, bicho que não morre e outras figuras, que pretendo explorar mais adiante...
Na minha mente, parece que existe alguma coisa oposta à vida eterna, que não parece ser tão aconchegante, pelo menos existencialmente e filosoficamente. Mas o que seria isso?
E o que seria o inferno? Algum tipo de manifestação justa de um Deus de amor? A ira de um fogo consumidor? É mesmo cabível que um Deus que é o próprio amor perpetue a desgraça de uma multidão? É justo o contrário; que uma multidão de rebeldes ao Criador vivam eternamente em oposição ao mesmo Criador?
Escrevo isto, pois nunca ouvi uma explicação razoável de um batista sobre o assunto, mas só considerações simplistas do tipo que recendem a um legalismo profundo e mesmo a alguma satisfação sádica com o sofrimento alheio.

Eu nasci no dia 14/03/1983.
O que importa é que eu nasci. Você também.
Nós dois existimos e, ao que me parece, fomos alfabetizados na Língua Portuguesa.
Na nossa língua materna, inferno vem da palavra latina infernu, que quer dizer "situado em baixo (da terra). Em várias religiões o inferno foi localizado em baixo da superfície terrestre" (Nascentes, Antenor; Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Rio, 1955).
Ao que parece, a palavra tem um forte relacionamento com "inferior". Seria um lugar inferior, geograficamente (e não só isso), à terra.
Talvez outras pessoas tenham visto o magma emergir e, como é quente, tenham feito alguma correlação térmica com a condenação espiritual.

Mas eu falava de mim. Eu nasci em Campos dos Goytacases, terra de antigos guerreiros canibais. O parto foi normal (minha mãe é uma corajosa), no hospital Beneficência Portuguesa, saudável, provavelmente muito rosado e cheio de fome. Fome de comida, fome de vida.
Creio que você também tem essa fome.

O homem tem fome de vida.
Acho que não é necessário que se prove isto. Nós queremos viver, talvez por instinto. Alguém poderia dizer que é uma característica evolutiva... Eu acho que está mais perto, na verdade, do divino.
Freud escreveu o seguinte: "É, sem dúvida, impossível imaginar a nossa própria morte; e toda vez que tentamos fazê-lo podemos constatar que atuamos, na verdade como espectadores presentes. Por conseguinte, ninguém acredita na própria morte ou, para dizer a mesma coisa em outras palavras, no inconsciente todos nós estamos convencidos de nossa própria imortalidade."
Em outro ponto, no mesmo texto, ele continua: "Em relação à pessoa que efetivamente morreu, adotamos uma atitude especial - algo parecido com a admiração por alguém que realizou uma tarefa bastante difícil... A atitude convencional em relação à morte é dada pelo nosso completo colapso quando ela atinge alguém a quem amamos" (O pensamento vivo de Freud, Martin Claret, 1985).

Mas a morte nos persegue como um fantasma, com direito à caricatura de uma caveira encapuzada com uma foice na mão. E ela leva embora as pessoas.
Eu não sei no que você crê. Mas, independentemente disso, existe uma grande chance de você morrer de verdade, mesmo que você só consiga visualizar a situação como um espectador.
E o que acontece depois? Pra onde vão os não salvos, já que os salvos vão pro céu? E o que é o céu? E o "não céu"?

A Bíblia diz muitas coisas sobre a morte e o pós-morte. As citações seriam várias.
Em especial, minhas passagens favoritas estão no livro de Apocalipse, pois nem a psicodelia mais ativa dos anos 70 conseguiu chegar perto da linguagem figurada usada por João, especialmente envolvente por uma espécie indomável de poesia que não pode ser totalmente destrinchada, profunda em dizer da expectativa do lugar mais-que-perfeito, que supera nossa imaginação; a Cidade de Deus, como diria Agostinho.
E é ali, no último livro onde encontramos no capítulo 21, versículo 8: "Mas, quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos adúlteros, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte."

Resumidamente, quando lemos o Apocalipse, é possível, em consonância com toda a Bíblia, ver que existe um "itinerário" humano para as pessoas que rejeitam a Cristo como Filho de Deus; uma tragédia em poucos atos:

Nasce, vive, peca, é condenado, morre, ressuscita, e vai para a segunda morte.

Depois de brevemente falar sobre a segunda morte, a Bíblia se detém na vida eterna, fala da Cidade Santa e não menciona mais nada.
É interessante notar que no capítulo 20 de Apocalipse a morte e o hades (grosso modo traduzido como "inferno" para nós de língua latina) foram lançados no lago de fogo, que é a segunda morte (vs. 14).

Mas esta segunda morte é o quê?
Em Isaías, capítulo 66, depois de apontar que o pecado é a prática geral em Israel (e no mundo), e ainda assim estimular o arrependimento, lemos que aqueles que "não ouviram a fama do Senhor e nem ouviram a sua glória", estes anunciarão entre as nações a Sua glória.
Estes mesmos, que se ocuparam em pregar a glória do Senhor por toda a Terra, virão adorar diante do Senhor "e sairão, e verão os cadáveres dos homens que transgrediram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne."

Creio que chegamos aqui, sem eu dizer nenhuma heresia. Está tudo na sua Bíblia, pode checar. Espero continuar o texto do mesmo modo.
Isaías, reservou ao último versículo de seu livro uma linguagem de guerra. Ou melhor, uma descrição de "vencedores versus perdedores" de uma batalha, da qual todos os homens participam.
De um lado o povo de Deus e do outro, o resto do mundo. Obediência contra rebeldia. Bem contra mal.
Eu creio que nossa geração verá coisas que só imaginadas em tempos da Inquisição, em nome de supostos valores "humanos" politicamente corretos. Mas esse não é o meu ponto aqui.

O evangelho de Mateus narra que no famoso sermão do monte, Jesus disse o seguinte: "
Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem"(Mateus, cap. 5, vs. 44).
Eu creio que Jesus Cristo é Deus. Não é um deus, é O Deus. O que é, o que era e o que há de vir; o Senhor do Universo, o autor da vida, o salvador, o que me remiu de meus pecados, e eu o confesso como Senhor e Mestre de minha vida.
Se Jesus disse que devemos amar aos nossos inimigos, como conceber que, por causa de sua Justiça, condene ele as pessoas a um sofrimento eterno, inextingüível?

Entretanto, o inferno é real, pois é o Senhor quem diz em Marcos, cap 9, vs. 43 e 44:
"E se a tua mão te fizer tropeçar, corta-a; melhor é entrares na vida aleijado, do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga; onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga."

Esta imagem se repete nos versículos 46 e 48. E talvez você já tenha lido algo parecido com isto neste texto aqui.
Jesus, acreditam alguns, estaria citando o final do texto de Isaías a que me referi acima.
Bem, Isaías, por mais que queiramos inserí-lo em nossa perspectiva cristã, falava de acordo com a revelação de Deus de um modo que seus compatriotas judeus contemporâneos entendessem.
Então, num esforço literário, obviamente iluminado pelo Espírito Santo de Deus, ele falava de uma batalha com muitos mortos.

As grandes guerras da antiguidade eram extremamente sangrentas. Nenhuma novidade até aí, mesmo porque as grandes guerras da atualidade parecem que não são menos violentas que as de outrora.
Os corpos dos guerreiros mortos em combate não eram imediatamente sepultados, podendo demorar alguns dias até seu enterro. Neste período, seria de se esperar que houvesse bichos nos corpos, vermes. Se os corpos fossem muitos, haveria muitíssimos bichos.
Numa batalha de proporções gigantescas, incluindo toda a Terra, os bichos seriam tantos e proliferariam tanto pela oferta de comida excedente que, aparentemente, não morreriam. Seriam praticamente uma espécie que há em abundância e que parece não morrer nunca.

Outra coisa dita em ambos os textos, e que os conecta, é o fogo. O fogo não se apaga.
Após as batalhas, seria natural que, na ausência de coletores de corpos dos guerreiros derrotados para o seu sepultamento, os corpos fossem incinerados para evitar os tais bichos, os odores provenientes e mesmo a presença de corpos espalhados pelos arredores das cidades.
Para um número muito grande de corpos, seria necessário um fogo duradouro, um fogo que não fosse apagado.

Em outras palavras, o que os textos de Isaías e Marcos falam é que haverá grandes baixas entre os homens. Muitos vão morrer derrotados pelo pecado, por não se arrependerem, e não vão ter seus corpos sepultados de modo digno, mas seus corpos apodrecerão comidos de bichos, e serão finalmente queimados até que seus vestígios sumam da face da terra.

E só.
Eu só consigo ver até aí.
Dizer que há algum sofrimento a mais do que isso, pra mim, é demais. É cruel, é mau, porque, certamente, não é bom.
E Deus é bom.

Na verdade, toda a questão de céu e inferno, pra mim, se resume no seguinte: céu é estar com Jesus, enquanto a ausência dEle é o inferno.
Céu é conhecer plenamente o Senhor, entender a vida pelo mesmo prisma através do qual sou conhecido, a ausência de limites para o amor, vida eterna e boa, porque Deus será tudo em todos. Vida viva.
Tirando isso, não sobra nada, até mesmo porque só há sombra, graças à existência da luz.
Se só haverá a luz e viveremos no meio dela, onde estarão as trevas?

Creio que se o homem morre e não aceita a Cristo como o seu único salvador, como o seu Deus; ela deve escolher um caminho por onde andar até a morte. Depois ressucita em um lugar devastado que irá se consumir num lago de fogo. Finalmente, num ato trágico, deixa de existir, junto com o inferno, num lago de fogo suficientemente largo para que não mais haja vestígios de sua existência. O fim.

Entretanto, o homem não foi feito para isso. Nas palavras de Freud, ninguém consegue conceber sua própria morte como algo que pode ocorrer de fato. Esta é a real tragédia, pois o homem, como imagem e semelhança de Deus, foi feito para ser eterno. Desistir desta essência e ser reduzido à inexistência é a "tarefa difícil", ao meu ver. A mais difícil. Dói a mente pensar nisto.
Como diria Bandeira: "Avida inteira que poderia ter sido e que não foi!"
Eis aí a tragédia humana: a falta do divino.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.