13 de maio de 2006

Constância

Coisa comum hoje é ouvir de alguém que acredita em "energia".
Quando eu estava no segundo grau, lembro-me que o professor de física disse que energia é a capacidade de realizar trabalho.
Ok, mas o que é trabalho?
Trabalho, segundo meu professor de Termodinâmica da faculdade é a energia em fluxo que atravessa as fronteiras entre um sistema e suas vizinhanças que não está relacionada à diferença de temperatura entre o mesmo sistema e suas vizinhanças. Ou talvez a força que se faz através de um dado percurso, para a mecânica. Grosso modo, trabalho é o fluxo de energia que não é calor.
E o calor? É o fluxo de energia que atravessa as fronteiras do sistema e que está necessariamente relacionado à diferença de temperatura entre o sistema e suas vizinhanças.

Bem, você já deve ter percebido que a palavra energia está repetida e é definida para definir coisas que a definem. Tem sérias relações de recorrência.
Enfim, ela vai se transformando em uma coisa e outra e acaba voltando nela mesma.
O primeiro Princípio da Termodinâmica diz sobre isso: a energia do Universo é constante.
Em outras palavras, energia não pode ser nem destruída e nem gerada.

Na verdade, nós temos este conceito bem esclarecido em nossas mentes, de forma intuitiva. A gente "acha" que é isso mesmo. "É, faz sentido."
E as grandes idéias são modos distintos de ver o mesmo.

Lavoisier tem a célebre frase que todos nós aprendemos desde o colégio: "Na natureza nada se cria, nada se perde: tudo se transforma."
Depois veio a Termodinâmica dizer com outra roupagem e Einstein não foi longe do lema com a equação mais famosa do mundo, E=mc². A diferença é que agora a massa é energia e a energia é massa e tudo bem com isso.
Acho bastante improvável que venha alguém que desmistifique esta idéia.

Mas não é só aí onde quero chegar.
Se essa energia é constante, ela tem que sempre ter existido, caso contrário, ela, em algum momento, teria sido gerada, o que é uma contradição da 1ª Lei da Termodinâmica. Logo, a energia do Universo não foi gerada. Não do nada.
Se ela não foi gerada do nada, então ela sempre existiu, de alguma forma.
Ora, algo que sempre existiu de alguma forma, transcende nossas perspectivas finitas e inconstantes.

A realidade desta constância é o que nos faz não sermos consumidos.
O aspecto termodinâmico é uma maneira de ver o poder de um Deus que é imutável "no qual vivemos, nos movemos e existimos" como dira Paulo em seu discurso no areópago de Atenas (Atos 17). O Deus que permeia todas as coisas, talvez o conceito de zero hindu, o Deus absoluto, não relativizável, "sem sombra de variação".

Mas isso, isoladamente, reduziria Deus às meras "energias" da vida. Não implica em fé, apenas em malabarismo teórico e capacidade de abstração física.
Não demanda fé ou amor pela tal energia. Talvez demande processos de transformação, mas não uma dependência e nem mesmo uma vaga noção de reverência a serem prestadas voluntariamente.
No século XIX, a "onda" era dizer-se ateu para ser intelectual. Hoje não é bem isso; admite-se que há algum ente, ou entes, que estão por aí e são divinos ou divinizados.
Um "maytrea", um espírito, algo que não te pede nada que possa causar uma modificação moral, mas um agente evolutivo, quase econômico e neoliberal. Um jeito de querer ver Deus "de banda", com o canto do olho.

A diferença da perspectiva cristã quando falamos de energia, criação e assuntos relacionados é que Deus se releva como o criador, que ele é bom, não evolui, ele não é "nós" e nós, definitivamente, não somos Ele. Ele, reduzidamente, pode ser a energia, mas é muito maior que ela, Ele a contém e não está contido nela, pela impossibilidade disto. E, assim, somos estimulados a ter uma relação com Ele por intermédio da fé, pois ela O agrada. E, eventualmente, quando a fé é genuína, ela se transforma em amor. E o amor se mostra na confiança, que se confunde com a fé. E temos outra relação de recorrência. Maior que a primeira.

2 comentários:

Bianca disse...

UAU!

Adorei esta idéia,
"A realidade desta constância é o que nos faz não sermos consumidos."

Parabéns.

Esses universitários crentes adoram pensar em associações durante as aulas...
hahah
Brincadeira...

beijos

Lael disse...

Perfeito.
Já tá ficando até chato só encontrar coisa boa por aqui.
Vê se escreve algo ruim pra variar um pouquinho.
Bjunda.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.