22 de março de 2006

Viver não é preciso... escolher é. Ah, se é!

Já ouviu falar em Gödel, Kurt Gödel?
Bem, ele é diferente de Bond, James Bond, porque (eu acho) ele não "dormiu" com todas as mulheres mais bonitas enquanto salvava o mundo. Mesmo assim, ele foi um cara importante.
O que ele deixou sobre lógica matemática é de suma importância para nós que lidamos com as máquinas.
Em suma, ele tem um teorema que nos prescreve a escolha.
Grosso modo, sabemos que as máquinas "pensam" diferente de nós. Elas não são permissivas em seus algorítmos. Tão somente "rodam" o que foi programado e não pensam de verdade. Não analisam, não têm julgamento in dubio pro reu (a não ser que esta seja uma condição já estabelecida), não há espaço para o espontâneo e nem há escolha.
Bem, comecemos por demonstrar o que quero dizer.

Eu te pergunto: "Você pode dizer não?"
As possibilidades são:
(a) Você diz sim. Com isso, acaba me provando que pode dizer não. Esta é uma resposta logicamente aceitável.
(b) Você diz não. Com isso, você me diz que não pode dizer não, mas você disse "não", logo, não há validade para a sua resposta. Assim, só (a) tem validade.

Agora vamos passar para um exemplo melhor: "Você pode não dizer não?"
As novas possibilidades são:
1) Você diz sim. Com isso você me disse que consegue não dizer não. Logo, você não vai negar nunca. Você é uma pessoa verdadeira, gente boa, e eu posso te emprestar meu dinheiro e depois te extorquir, que está tudo bem.
2) Você diz não. Bem, já antevemos que, logicamente, esta não é uma opção.

Pulamos o nível de dificuldade e vamos ao melhor caso, que vai especificar o que Gödel quis dizer: "Você pode não dizer sim?"
i) Você diz sim. Não existe lógica no que você acabou de dizer, pois exatamente o que queremos saber é se você pode não dizer o que disse, "sim".
ii) Você diz não. Então, não dizer sim é algo que você não poderia fazer. Mas "não dizer sim" equivale a dizer "não". Bem, então você não poderia dizer "não". Em outras palavras, se você não pode deixar de dizer sim, então por que está respondendo "não"?
Assim, nenhuma das duas, nem (i) e nem (ii), é uma opção à pergunta.
Dê um tempinho, reflita e veja se não está começando a ficar maluco.

Bem, agora que sua cabeça desfez o nó que ela deu (o que deve ser perfeitamente normal, eu acho), continue a ler o texto.

Este é um exemplo esfarrapado, que eu desenvolvi, que, provavelmente, alguém mais inteligente já fez no passado, porque ele é meio óbvio.
Entretanto, o que é interessante é que uma máquina não consegue responder a este tipo de pergunta. Ela dá pau. Fica rodando sem parar, queima, pifa, estraga e pode não funcionar mais.
E nós? Nós conseguimos responder a este tipo de pergunta?
Bem, nem tudo é respondido com sim e não. Afinal, sempre podemos bater nos outros, apelando para o nosso lado mais animal. "Pode parar com a palhaçada! Já estou tonto!" Ou sempre podemos responder uma pergunta com uma outra pergunta "E você, pode?".
Nós sabemos que a pergunta "Você pode não dizer sim?" foi feita com uma lógica estabelecida, mas também sabemos que, fora desta lógica, a pergunta pode ser respondida com a falta de uma resposta. Vemos que há algum problema que não vai ser sanado se continuarmos respondendo "sim" e "não" indefinidamente. Paramos e refletimos que existe uma realidade que cerca esta pergunta, que lhe é adjacente e fora dela e que devem existir, portanto, outras coisas, além da pergunta, como eu, você, as frases, as palavras, as maneiras de perguntar, etc...
Isto, meus amigos, é ser superior às máquinas. Isto é ser humano.

O teorema de Gödel é mais ou menos por aí. É bem mais detalhado, mas permite ver que nem tudo paira sob o controle tirano da matemática (e ainda que fosse, eu não atribuiria tirania a esta ciência tão perfeita e bela).
Pode ser o bug mais maravilhoso do mundo das idéias.
"Tá. Mas e daí?"
E daí que, de um jeito incrível, nós somos, existimos, e ponto. Jean Paul Sartre já escreveu sobre esta dimensão da liberdade humana, de sermos, de existirmos de um jeito não-óbvio, real e até óbvio. O homem existe, está aí, é material, não pediu a sua opinião. Você não pediu a sua opinião para existir. Mas existe.
Só que Sartre, nosso bom francês comuna, que não via a essência, mas existência, talvez tivesse que limpar melhor os óculos, ou ir à Inglaterra para bater uns papos com C. S. Lewis, pois este nos mostra a realidade de um jeito mais real um pouco. Nem a realidade poderia ser tão real se não tivesse sido criada. Certamente, em meio à realidade, estamos como quem paira sobre as fundações já estabelecidas por alguém, antes de nós. Chegamos e, ei, peraí, já é hora de ir vivendo. "ir. ir indo." como diria o poeta do presente.
Às vezes isso nos aperta numa cronologia predirecionada em que não temos muita escolha do tempo, e, às vezes, nem do espaço em que interagimos e vivemos. Não escolhemos o nosso espaço-tempo, mas escolhemos o que fazemos com ele.
"E daí, de novo?"
A vida que temos de ir empurrando para o futuro é reflexo das ecolhas que fazemos e que são feitas por outros, ainda que empurremos com a barriga o que recebemos e o que fazemos.
As escolhas, nossas ou dos outros, são o remodelar da existência. São a procura da essência.
Tudo, em última análise, é uma questão de escolha.
Homossexualismo, alcoolismo, tabagismo, maconhismo, "motelismo" (termo bizarro que quis dizer das pessoas que freqüentam os motéis - não fui eu que inventei, juro), pioneirismo, lirismo, comunismo, masturbismo, abismo, hipismo, patrimonialismo, daltonismo, saturnismo, cafajestismo, modernismo, dadaísmo, cubismo, maometismo, islamismo, bombismo, zoroastrismo, cristianismo... tudo, em última análise, é uma questão de escolha.
E creio que as escolhas se dividam em classes desiguais: as dos homens e as de Deus.
E ainda que tudo pareça ocorrer ao acaso, o próprio acaso é uma escolha divina.

Bem, existem escolhas mais difíceis do que as outras, é verdade.
Algum filho da mãe estuprou uma menina quando ela era novinha e ela cresceu uma ninfomaníaca, tentando achar explicação pro trauma no sexo desenfreado. É complicado. Mas cabe a ela escolher um caminho diferente do que lhe destinaram por escolhas mal feitas dos outros. Cabe a ela escolher a cura.
João não sabia, mas, depois de dar cerveja pro filhinho, enquanto este nem tinha idade pra bradar "liberdade de escolha", seu menino, em alguns anos, estaria jogado na rua.
André não sabia que... deixa pra lá, que eu já fiz muita besteira.
Mas a mudança está ao alcance de todos. DE TODOS.
Como dizem os pastores: "Abra a sua Bíblia comigo" em 1 Timóteo 2, versículos 3 e 4:


"Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador,
o qual deseja que TODOS OS HOMENS sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade."

Aparentemente, Deus fez a escolha dEle.
Depois disso, meninos e meninas, tudo o que eu posso dizer é "Uhuuul!!! Aí, galera, cabe todo mundo na montanha russa! Foi o dono do parque que deixou."

Gilles Deleuze, desejoso filósofo, amigo de Michel Foucault, também historiador como o amigo, escreveu que a cronologia não é o mais importante na História.
Leia de novo a frase acima.
Sim, ele disse que os acontecimentos são, na verdade, eventos conectados, sem uma disposição arranjada pelo tempo. Antes, o barato da experiência humana está nas culminâncias atemporais. Você fez algo hoje que teve o ápice há uns dois mil anos, quando Hipócrates ainda falava de humores.
Talvez (essa é uma idéia minha), por exemplo, Leônidas e os 300 de Esparta tivessem a glória de sua história contada na Bíblia pela vitória de Gideão e seus também 300. E assim o "melhor, combateremos à sombra" não seria ofuscado pela morte, mas seria perpetrado pela vitória. Ou vice-versa. Quem pode não dizer que sim?

Eu entendo que o sacrifício de Cristo, há 2000 anos, tem peso hoje. Nas nossas vidas. Este é o ápice.
A salvação das pessoas de hoje é o ápice de suas vidas, o epicentro de um sacrifício que é o hipocentro; mas este hipocentro, para toda a História mundial, é o centro de tudo. O centro da glória humana, por mais espartana que ela seja, é Jesus Cristo. Em outras palavras, a convergência da necessidade humana é Jesus Cristo.

Resta a escolha. Retribuir a escolha. Escolher. Escolha.
E agora eu te pergunto:
"Você pode dizer sim?"
As possibilidades são todas nossas.

Bem, essa é a diferença entre nós e as máquinas.
Como eu disse mais de uma vez: tudo, em última análise, é uma questão de escolha.





3 comentários:

Tamara disse...

Nossa!!!Tive q pegar um ar antes de escrever algo sobre esse seu texto... mais uma vez vc me deixou confusa(isso está se tornando comum, né?)
Bom vamos por partes...a real diferença(e a mais logica) entre as máquinas e o ser humano na minha opinião é o sentimento...E acredito q seja por isso q as vezes é tão dificil escolher entre o sim e o não...em alguns casos é mais facil fazer uma outra pergunta do q responder ao que foi questionado...
Sobre realidade:Depende do q é real para cada um...O q pode ser Real para vc , nem sempre é para mim....E se analisarmos com pensamentos de alguns Filosofos...Será q a realidade existe?O q é realidade???...Assim o nó fica ainda maior na cabeça...
Sobre escolhas....não sei se tudo é uma questão de escolhas como vc disse...Muitas vezes não temos escolhas em alguns casos...sei q isso é complexo e contraditorio...Vou pegar o seu proprio exemplo da meninha estuprada...Ela não escolheu ser violentada, como tb não escolheu ser uma ninfomaníaca...ela pode até conseguir escolher um caminho "melhor" para a cura mas...vamos ser sinceros...isso é complicado...aí voltamos ao assunto SENTIMENTO...Toda ação tem uma reação...Vc acredita q essa menina se não tiver um amparo religioso, familiar, social e médico ela vai poder escolher a melhor forma de cura???Curar de q, se ele foi violentada e ligou ao sexo a uma forma de libertação.?...A um tempo fez uma pesquisa sobre Pedofilia...E descobri coisas absurdas....uma delas era q a criança violentada hj pode ser o Pedofilo de amanhã, ou no caso de mulheres, aceitarem serem violentadas "sem problemas"...Isso não é uma questão de escolha...Isso é q cientificamente falando, elas ligam o sexo violento ao amor...È assustador mas é comprovado!Q escolhas são essas então???
Quanto ao Foucault...já li muitas coisas dele...e tem um livro q não me recordo o nome agora em q ele dizia q se entendermos a logica das coisas e como elas surgiram, vamos fazer escolhas mais apropriadas...acho q por isso ele dedicou boa parte da sua vida a pesquisar o surgimento da Loucura....Ser louco é uma escolha???Segundo Foucault pode ser...Pois ele parte do principio q a loucura foi "inventada" para ser uma forma de controle da sociedade...Mas será q o louco pode escolher isso?Dividir a sociedade em grupos é muito mais facil para a dominação segundo ele...E sobre Micro e Macro poder q Michael Foucalt tanto pesquisou...Será q estar nessas duas formas de poder são uma escolha....Eu particulamente não sei...Apesar de não aceitar muito bem, vivemos em um sistema q impõe essa duas formas de poder...Aí fica a pergunta:Será q as escolhas são sempre uma forma de aceitar ou não a dominação q Foucault fala?
Por fim concordo com vc, no ato de retribuir a escolha...mais as vezes as escolhas são mais dificeis do q podemos supor...

Jackie Götzen disse...

oie...bem, vim aki p/ agradecer pelo comentário!

Mas...sobre o lance de postar como anônimo...como faço? Pois a pouco que eu descobri como faz link!

Thiago disse...

"a cronologia não é o mais importante na História."

Posso dizer, como historiador, que esse é o "1+1" do estudo histórico. Cronologia são datas emoldurados numa linha de tempo, que não possuem função se não forem analisados seus contextos, idéias e forças sociais envolvidas. Isso é História!

Parabéns pelo blog, amigo! Deus continue te abençoando!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.