12 de março de 2006

A Jangada


Praia de Cumbuco, Fortaleza. Janeiro de 1989. Caminhando pela praia, um casal e seus dois filhos, o menino com 5 e a menina com 4 anos. A mulher traz na barriga o terceiro.

Jangadas chegando na praia. O homem fica agitado. Antevê o passeio no mar. Afasta-se. Vai até a jangada que chega. Conversa com o mestre. Combina o preço. Volta animado. – Vamos zarpar! A mulher se assusta. – Quê isso?! Ficou louco? E as crianças? E se essa jangada virar? Não vou de jeito nenhum! E as crianças, também não. Se quiser, pode ir sozinho, que você é doido mesmo... Olha o Bateau Mouche! --Quê isso, Celaine? Ta com medo de quê? Jangada é diferente de barco. É larga e chata. Tem estabilidade. Não vira de jeito nenhum. É uma impossibilidade física! Argumento definitivo. O marujo ao lado gostou;.É isso aí, doutor. No Nordeste todo turista é doutor. – Não vira mesmo. Impossibilidade física, moça..

Jojô suspirou resignada.. Consente.Aceita.Sobe no barco. Perde o medo, se anima. Vibra. Lá vão os quatro, mais o Tito na barriga. Na arrebentação, as marolas parecem separar as varas que formam o fundo da embarcação. Mas estão bem unidas, por velhas cordas.

Logo surgem as ondas mais fortes, algumas enormes. Que varrem o convés, querendo levar-nos embora.As varas, sob o impacto dessas ondas mais violentas, se unem, ajuntando-se umas às outras. Estamos firmes, agarrando-nos à jangada. .

Curtimos bastante o passeio. Tomamos banho lá no fundo, brincamos de jangadeiro.

Logo, voltamos à praia. As marolas da arrebentação surgem, de novo. As varas da jangada pareciam novamente quase se separarem. As cordas as seguram..O mestre é bom. Sabe tudo.

Descemos na praia.. André e Débora pulam primeiro. Pedem pra ir de novo.O dinheiro ta curto. –Guarda na memória , filho. Ta nela até hoje.

De repente, a gritaria. O povo da praia gritava e apontava para o mar. A jangada que vinha atrás de nós virou! Espalhou gente p´ra todo lado. Jocelaine lembra: E a impossibilidade física?

Jangada vem do idioma de Malabar.

--”Lá vem papai de novo com esse negócio de etimologia. Que saco!” –“ Ebenezer e suas bobices!”

Jangada significa a união de dois barcos.

Há 25 anos, os dois barcos daqui de casa se juntaram. Renunciaram a caminhos próprios, sonhos individuais. Escolheram um passeio juntos. De lá p´rá cá, a jangada aumentou..Tem passado por marolas, os pequenos problemas que tendem a nos separar. O jornal jogado no sofá. O dever de casa que não foi feito.

As grandes ondas, os grandes problemas, têm sido muitos. E nos unem cada vez mais. Desemprego, morte de entes queridos. Doenças de todo tipo. Da mais superficial à mais profunda. Fomos do dermatologista ao psiquiatra. Da pereba à depressão.

Mas essas varas frágeis, imperfeitas, são unidas também por velhas e fortes cordas. Solidariedade, paciência, fé, esperança e amor. Confiamos no Mestre. O nosso Mestre. Este, sim, sabe tudo. Nossa jangada não vai virar. Impossibilidade..... metafísica.

O passeio só começou!...

- Texto escrito por meu pai, Ebenezer Jr., por ocasião das mesmas comemorações do texto abaixo. Achei o texto, pra variar, muito bom, com a cara do meu velho.

4 comentários:

Filipe disse...

Mais um texto totalmente excelente!

Rapaz, liguei pra vc durante a noite, mas não conseguia falar cocê, então aqui vai os meus parabéns e que Deus continue abençoando-te ricamente!
Felicidades, primo!

toujourslaracroft disse...

Que texto doce!
(eu ia dizer fofo, mas olhei pra cima e me lembrei q o Luis ia arrasar com minha candura, mas o sentido 'e o mm!)
E uma bencao poder participar de uma historia assim tao rica.
Que Deus nos abencoe a todos com esta mm dadiva.

bianca disse...

O elogio é para o papai, o texto é muito bom! Envolvente! Simples! Completo e Profundo!
O pai do peixinho aí é um peixão!

Ainda vale um 'Parabéns' pelos 23 aninhos?
Deus te abençoe a cada novo dia, e que você faça cada dia valer!

Beijão

Tamara disse...

Texto bonito e reflexivo...Ler esse texto me leva a ter várias sensações e reflexões comigo mesma e com tudo ao meu redor...Relação de confiança, de companherismo, de certezas e incertezas...Na vida atravessamos muitas tempestades, algumas fazem com q entrem água na jangada, outras q somente fiquemos molhados e ainda tem situações q a jangada vira..e isso pode ser um recomeço importante para alguns...Ler esse texto hj me trouxe uma sensação de felicidade...uma sensação de que apesar de muitas vezes ficar molhada por causa das ondas da vida a minha jangada tb não virou.
André, gosto muito de ver toda essa mudança na sua vida!E se ainda puder, gostaria de te dar Parabéns pelo o seu aniversário q eu não sabia. Beijos

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.