27 de março de 2006

Entre a Escolha e o Desejo

No último texto, dei o exemplo, talvez não completamente entendido, da menina estuprada:

"Algum filho da mãe estuprou uma menina quando ela era novinha e ela cresceu uma ninfomaníaca, tentando achar explicação pro trauma no sexo desenfreado."
Na verdade, o estupro, sim, é conseqüencia da escolha da menina.

A menina escolheu não ser abusada. Entretanto, o estuprador escolheu ignorar sua escolha, o que gerou um grande problema.
Se ela não tivesse feito esta escolha, não haveria nem classificação do que seria um estupro. Seria sexo consensual, sempre, já que não há a escolha do não.
Vale notar que o que possibilitou o problema foi a diferença de poder, força e desejo entre os participantes da situação.

Podemos ir além em nossa compreensão do mundo e questionar, talvez à moda kardecista:
"E o camarada que nasceu com deficiência? Ele não escolheu esse tipo de vida."

Creio que a resposta também reside no fato de que não se quer ser deficiente, quando se tem consciência de que existe deficiência em detrimento de uma possível eficiência.
E aí os geneticistas e médicos entram em cena, dizendo-nos que deficiências físicas são aspectos puramente genéticos, mutações aleatóreas, prováveis, que acabaram por se tornar reais; ou doenças degenerativas.
E eu concordo, desde que o acaso que possibilitou tal realidade tenha sido criado por Deus e que os acontecimentos reais não reflitam conseqüências de pecados pregressos (de "vidas passadas") e não sejam a punição por eles.

Aliás, seria algo muito estranho que o próprio acaso tenha criado o acaso. Creio que o acaso não aconteceu por acaso.
Se recorrermos a Beniot Mandelbrot e à sua teoria da geometria fractal, veremos que existe no caos (aquele caos do efeito borboleta), um não caos. As irregularidades apresentam-se regularmente. Mas existe o caos, o aleatório. E existe a harmonia, o planejado. E a desarmonia. A vida, a morte. O desejo de viver.

Voltando às deficiências, o próprio fato de a pessoa enxergar que tem seus problemas físicos e ver suas diferenças com o que seria "saudável" faz com que ela pense que alguma coisa exterior fez que ela vivesse daquele jeito, pois ela não fez esta escolha. E é possível (eu diria "certo") que ela escolheria e/ ou desejaria não ser deficiente.
Em miúdos, a escolha de um deficiente geralmente é não ser deficiente, o que calha com o seu desejo, todavia, o "acaso escolheu" que fosse assim. Uma determinação natural e, se isso não for uma blasfêmia ou algo totalmente impróprio de se dizer, talvez até, uma escolha divina. Creio que a doença é fruto da escolha pelo pecado, desde que o homem é homem, ficando vítima da pena alguém sem a oportunidade de dizer que não queria ficar manco, coxo, cego...
Aí vemos a diferença e a interface entre desejo e escolha.
Ao acaso, que foi criado, não por acaso, aconteceu algo que não se desejaria que ocorresse. E, embora se pudesse escolher uma "normalidade" (por falta de palavra melhor vai essa mesmo), ou o conformismo com o presente e as circunstâncias, o desejo é pela transformação, pelo irreal, pelo milagre. Mas talvez isso, de novo, calhe com a escolha. Ou não.

Bem, Deus escolheu fazer que algumas coisas acontecessem ao acaso. Sim, Deus tem escolhas. Aliás, se alguém for calvinista o suficiente pra dizer que só Ele tem escolhas, não estaria longe. Particularmente, não é algo que eu diria; prefiro pensar que só Ele tem as melhores escolhas.
Isso, porque pecamos, somos falhos e só o Senhor é Deus, acima, muito acima, de tudo e de todos, poderoso para fazer qualquer coisa, insondável, maravilhosamente eterno, infinito, inquestionável.
E nosso pecado é fruto do desejo, geralmente, da carne.
E num ato de libertação, ou pensamos que seja isto, realizamos os nossos desejos. Bons ou maus. No caso irrefletido, e pecaminoso, nossos maus desejos.

Mas nossos desejos passam por nossas escolhas. Nós escolhemos ou não realizar nossos desejos, avaliando ou não, as conseqüências, prevendo, reagindo.
Geralmente, quando agimos por impulso, ou simplesmente pelo desejo, não fazemos as melhores escolhas. Mesmo que saciemos nossos desejos. E isto vemos na conseqüência da escolha.
O desejo é inconseqüente. É a vontade, às vezes infundada, a mania do paladar das grávidas, a sanha, o material.
Por exemplo, sexo é uma forma de prazer. Mas não está imbutido nele nenhum aspecto filosófico ou religioso. Não no ato. Talvez na forma de expressão de amor, ou na satisfação de fantasias, alguém queira atribuir significado, mas no fato em si, in loco, não há nenhuma expressão. Ele não imprime que necessariamente haja amor e nem fantasia, nem felicidade, eternidade, responsabilidade, etc...
O sexo não adverte contra possíveis mazelas: doenças venéreas, gravidez indesejada, má (ou boa, dependendo da novela da Globo que estiver passando pode ser boa) conduta social, entre outros aspectos.
Isso quem faz é a cabeça. É a escolha: "Espero ou não? Transo com todo mundo ou caso virgem? Roubo o bombom? Vou agora?"

Ok. Agora eu peço que você repare no "agora" da frase acima, pois o desejo é algo que demanda uma escolha no espaço-tempo. Quase uma necessidade. Quase... mas não é.

Se quiser ver por outro ângulo, nossos desejos demandam escolhas. E os desejos são temporais. As escolhas são mais firmes e atemporais, podem ser pra vida toda, definem nossa conduta moral, mas podem ser mudadas pelas circunstâncias. Podemos querer trilhar o eterno e, no momento seguinte, desistir.
Dizia Lacan que o homem deseja. Mas o homem também escolhe diante de seus desejos. Firma-se ou não diante do que crê, do que valoriza, do que estabelece, do que ama.
Amor é uma escolha, paixão é um desejo.
A paixão é a libido dos sentimentos. O amor é o sexo apaixonado dos sentimenos.
E, com isso, sem entrar em discussões etimológicas, nem todos os desejos são concupiscentes e profanos. Em si, são como forças ao dispor das escolhas. Havemos de escolher entre o uso ou desuso desta força.
Desejamos abraçar, beijar, agarrar, ganhar dinheiro, louvar, desprezar, prezar... enfim, o homem deseja.
O maior barato da nossa existência ocorre quando nossos desejos estão em sintonia com as escolhas que fazemos. Daí resultam os bons sentimentos e mais do que isso.
Gostaria de pensar que o desejo é a matéria, a energia e o tempo, enquanto a escolha é a engenharia que monta a estrutura.
Mas as escolhas podem ser terrivelmente más.

Nesse Brasil de Lulinha, nem tão paz e amor, que esconde o jogo, de Palocci envolvido com as "primas" e saindo fora que nem diabo com medo da cruz, de exército subindo o morro, de João Paulo Cunha absolvido, de CPI dos Bingos, dos Correios, do Mensalão, do mensalinho do Severino, do Dudinha Mendonça, tadinho, do Delúbio, tadinho, do Dirceu, coitadinhozinho dele, dessa roubalheira que mais parece um jogo de tabuleiro em que as regras mudam ao sabor das conveniências, do MST queimando reservas reflorestadas da Aracruz, do jeitin', da total desvalorização do trabalho, da educação e do meio ambiente, da polícia que ganha muito mal, do BBB, do CV, do PT, do PSDB, do PQP, do tititi, do homem e da mulher brasileiros... nesse Brasil, fica difícil ver que haja as escolhas corretas.
"E qual é a escolha correta?"
São tantas...
Mas, para o caso nacional, peço a atenção à Palavra do Deus vivo, no clamor de Salomão em II Crônicas 6, v. 40:
"Agora, pois, ó meu Deus, estejam os teus olhos abertos, e os teus ouvidos atentos à oração deste lugar."
A resposta veio em seguida num dos textos mais belos já escritos por mãos de homens imperfeitos no mesmo livro, cap. 7, v. 14 e 15:

"E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra.
Agora estarão abertos os meus olhos e atentos os meus ouvidos à oração deste lugar."

O que acho realmente interessante é que Deus permite ao homem fazer escolhas. Deus não precisaria disso. Afinal Ele é Deus. O único ser auto-suficiente.
Isso, eu imagino, decorre da vontade dEle de travar relacionamento com a humanidade. Relacionamentos além das circunstâncias, mas, mesmo assim, na possibilidade do desejo e da escolha mútua. A convergência perfeita.
E um passo à frente, entre a escolha e o desejo, teremos a liberdade.


Um comentário:

Jackie Götzen disse...

Aí...eu tenho problemas! Não entendi!
Saudades!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.