16 de março de 2006

Caretice?

Chego em casa lá pelas 7 e alguma coisa da noite, abro o portão, a cachorra foge e eu vou correndo apanha-la uns 250 metros de onde estávamos. Depois de uns 5 minutos de "Nina! Niiina! Niiiiiinaaaaaa!!!", a cachorra acaba cedendo, eu agarro o bicho pelo pêlo e finalmente consigo fazê-lo(a) integrar novamente a fauna do quintal. Vou até à porta. Bato. Bato de novo. Ninguém em casa. Putz...
"Bem, acho que dá pra pegar um cimena. Quarta-feira é mais barato, mais ainda com a carteirinha." Nem me passa pela cabeça ir ao culto de oração.
Felizmente eu estava de carro e volto pra rua. Paro ali pelo centro e como dois pastéis (quanto tempo não fazia isso!) no Pastel Mania, antiga lanchonete de Friburgo que desde que eu era moleque me encantava com o letreiro vermelhão. Peço um "Indiano" (frango com molho curry) e um "Misto" (queijo e presunto) e ganho dois copinhos bem pequenininhos de mate pra lavar a refeição. Gostoso.
Atravesso a praça, vou ao Friburgo Shopping, que não está nos seus melhores dias, encontro minha prima na porta, digo pra ela ter juízo e subo ao terceiro piso.
Chego ao cinema. Lá tem 3 salas da rede Severiano Ribeiro. Vejo que filmes estão passando.
"A Pantera cor-de-rosa", um outro lá e um tal de "O Segredo de Broke Back Mountain", ou algo parecido.
Agora são 8 em ponto, eu já vi a Pantera e o próximo é "O Segredo...".
"Me vê uma meia pra esse aí, faz favor."
A moça do caixa me pede pra ver a carteirinha, eu dou um sorriso, quase flerte, agradeço, vou comprar um Bibs de amendoim. Nem lembrava mais desse doce. Dirijo-me à sala de exibição, um cara me pede a carteirinha novamente. Eu mostro e dou uma risadinha, querendo fazer graça da situação "Tudo certo aí? Ih! Vence em março, né? Tenho que ver isso. Hehe." O lanterninha faz cara feia, fez que nunca me viu, rasga o ticket e sai de perto. Não entendi.
Finalmente, entro no cinema, sento-me, hesito, penso melhor, mas acabo cedendo e abro logo o chocolate antes de o filme começar.
Entram algumas pessoas. Um cara meio afetado senta na minha frente com mais duas pessoas. Fala alto e diz alguma coisa sobre a "bicharada no cinema". Fingi que não ouvi.
De repente, entra uma primeira leva da fauna a que ele se referia.
Uns dois passam por mim e um deles senta do meu lado. Não gosto.
Entra a segunda leva, quase que trazendo plumas. Um outro cara senta do meu outro lado. Ele sorri para mim. Gosto menos ainda.
Naquele momento, olho em volta, sou um território insular: cercado de bichas por todos os lados. Não gosto nada disso!
Há confusão no ambiente, gente querendo passar por mim, gritaria de homens fazendo voz fina e rindo, causando escândalo só por esporte: "Dá licença! Cácácácácá!". Apagam a luz.
Peço licença que nem homem pro cara do meu lado que sorriu. Ele gostou da voz, mas não gostou do pedido. "Não, não! Pode ficar! Fica aí!".
"Não." Digo sério. "Aqui, fica no meu lugar que eu vou pra outro. Obrigado."
Saio e sento-me uns bancos atrás. "Ufa!!!"
Depois de um trailer, começa o filme.
Dois caras do meio de uma roça lá no Wyoming precisam de emprego, viram pastores de ovelha, poucas palavras, os caras são dois broncos. Um dorme do lado de fora, depois de ficar bêbado, e o outro dorme na barraca. O da barraca chama o outro pra entrar. Dormem. Um tenta estuprar o outro e o outro põe o um de quatro. Uma cena horrível.
Começo a entender porque o lanterninha olhou de cara feia pra mim.
Saio do cinema com uns 20 minutos (se tanto) de filme e uma promessa: "Você NUNCA MAIS vai ao cinema sem ler antes a sinopse do filme, ouviu?!!"

Não sou do tipo machão. Não gosto da frase "Bicha tem que morrer".
Mas confesso abertamente que não gostei nem um pouco da situação.
Do filme então, nem se fala. Parecia ser bom, tinha uma fotografia linda, bons atores. Mas parecia induzir comportamentos ou opiniões.
Eu saí da sessão porque imaginei que, a julgar pelo número de homossexuais no lugar e pelo que já havia passado até ali, o filme abordaria o homossexualismo como algo plenamente natural e daria um enfoque de que aquilo deve ser mais do que tolerado: bem aceito, quase elogiável.
Não sou preconceituoso. Sou conceituoso.
Sou a favor de todo tipo de amor, mas não sou a favor de todo tipo de prazer.
Creio que possa haver amor entre pessoas do mesmo sexo, afinal, eu amo meu pai, meu avô, meus tios, meu irmão, meus amigos da igreja, meus amigos que moram comigo... enfim, eu tento amar um bocado de gente. E olha que é bastante difícil.
Mas a idéia de haver qualquer envolvimento sexual com outro homem, embora tenha gente que consiga "entender" isto, para mim é odiosa, abominável, lastimável, dolorosa. A palavra é essa, "dolorosa".
Achei muito bom ouvir um ex-gay dar um testemunho uma vez. Ele não escondeu que gostava de homem. Mas, de algum jeito, sabia que aquilo não era o que Deus queria para a sua vida. Havia se convertido, mas continuava dormindo com homens. Caía, levantava, caía, levantava. Aprendia a andar com Jesus.
Eu creio que Jesus pode mudar vidas, ainda que, para elas, tudo só pareça fazer sentido às avessas. Não da sociedade, mas de si mesmas e de sua natureza.
Aliás, isso é o que acontece com todos nós.
Todos nós, quando pecamos, estamos nos "avessando".
Só Jesus pode fazer que sejamos às avessas do pecado. Nada mais.

9 comentários:

Tamara disse...

Antes de escrever a minha opinião sobre esse texto fiz um momento de reflexão comigo mesma..com o q eu acredito, com o q desejo..Fiz um trabalho comunitário de visiabilidade de uma Ong Gay de Friburgo chamada ONG AMORES...E posso dizer q abraçei um pouco a causa deles...Sou a favor q as pessoas sejam felizes..do modo delas, porém acho q tudo é uma relação de respeito com o proxímo...Acho q dois homens ou duas mulheres podem sim se amar e ser felizes e ainda assim terem um eterno amor de Deus (pois essas pessoas estão cultivando o amor de alguma forma)...Tudo o q é diferente é um pouco estranho e acho isso tb normal...Acredito tb q deve ser muito chato e constrangedor ter q ouvir alguma piadinha no cinema na situação q o texto retrata..Porém acho q as pessoas marginalizadas, q sofrem qualquer tipo de preconceito, q sofrem muito com a violencia e a descriminação são as pessoas q mais precisam do nosso ombro amigo, das nossa orações..Elas podem estar meio perdidas, sem direção...
Como já dizia a Clarisse Lispector "Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento". E foi isso q eu fiz...Abraçei a causa deles q considero nobre "O Direito de Amar Quem VocÊ Quiser"...Hj entendo um pouco o lado deles e talvez alguns podem partir para essa divulgação do prazer de forma errada e muitas vezes assustadora...Acredito em muitas formas de prazer...Escrever isso tudo agora me da um prazer enorme, estar com quem a gente ama tb...Talvez a sociedade veja de forma "errada" essas pessoas e a mídia tem muita culpa nisso...Volto a dizer q existem infinitas formas de amar, de ser amado e de demostrar isso...e q o prazer muitas vezes pode ser só úm pequeno detalhe disso.

E.M. disse...

Gostei do termo "conceituoso". Costumo dizer que não tenho preconceito, mas sim pós-conceito, conceito formado. Também não curto o boiolismo hollywood, nem o globoiolismo das nossas novelas.

Aliás, não topo com esse pessoal que se diz "moderno". Costuma-se dizer "o meu santo não bate com o dele", né? Pois é, digamos então que o meu Deus não bate com o capeta deles. E por aí vai...

Grande abraço,
Maganha

luiz felipe asp disse...

"Sou a favor de todo tipo de amor, mas não sou a favor de todo tipo de prazer."

Concordo com você. Homossexualismo é uma questão não de Amor, mas de "eros", de atração. Se fala como se fosse amor, mas eu amo meu pai sem desejá-lo, assim como amo meus amigos. Ninguém é proibido de amar ninguém, na verdade Deus quer que amemos a todos. A questão é que Deus não quer que nos entreguemos a todo tipo de desejos.

Tudo bem, não sei se é de nascença ou não, mas concordo que nenhum gay escolhe, do nada, desejar uma pessoa do mesmo sexo. E imagino que sentir amor, carinho E atração por uma pessoa do mesmo sexo deva ser algo inquietante. Ainda mais quando se é correspondido. Sobra a escolha: aceitar o desejo como uma parte de si a se entregar, ou aceitá-lo em si como aceitamos os nossos defeitos - como algo que faz parte de nós, está lá, mas é um desafio a superar.

Acredito que cabe a nós desenvolver com Deus o domínio próprio para superar nossos defeitos e não nos entregar aos impulsos que Ele revela ser abomináveis. E o desejo homossexual não é o único deles - não sejamos moralistas com os GLS e esqueçamos que todos temos alguns deles em nós. Se eles escolheram se aceitar como gays e se entregar a isso não é para nos ofender ou para atacar nosso Deus. Eles querem ser amados e estão confusos. E Deus quer que alguém os ame e os aceite momo são - nós.

abraços!

Alê disse...

Rapaiz... quanta melancolia! O letreiro vermelhão do pastel mania já não é mais o mesmo, né. O sujo, velho e delicioso lugar...rs

Estamos no mundo para ser luz. E não para esperar que sejam luz ao nosso redor... Conviver com o mundo feio e malvado de fora da igreja é isso... 'esvaziar do pre conceito', 'conviver', 'levar esperança'.

Boa reflexão pro c!
Até o final deste retiro.
(ops.... e parabéns atrasado)

beijão.

toujourslaracroft disse...

Vc estava em dia de extrema inspiração hein!
"Não sou preconceituoso. Sou conceituoso.(...) idéia de haver qualquer envolvimento sexual com outro homem (...)para mim é odiosa, abominável"
Isso é levar a sério nossa condição de co-herdeiros. Cristo ama a pessoa e não o pecado da pessoa. Mas me preocupou um pouco vc ter fugido do lugar...
"Todos nós, quando pecamos, estamos nos "avessando"".
Essa foium primor!
Vou roubra este termo, gostei muuuito.
A questão é enfrentar nossos avessamentos de forma tranquila e madura, pondo nome neles e pedindo perdão constantemente pra estarmos limpos diante da cruz.

Puxa, n sabia q tinha passado o seu niver...Entao, feliz ano recomeçado!
Bjao!

Anônimo disse...

enrustido!

Lael disse...

Cara, que pérola literária é essa...
Muito bom o texto. Muito bem escrito. Aliás, como todos os outros. Você tem O dom com as letras, cara.
Keep On!

Bjunda.

PS: Valeu pelas visitas lá no blog. Continue aparecendo.

Gil disse...

Alguns dias mais e vc será obrigado a tirar este texto do "ar". E ainda será processado por intolerância e discriminação, terá que pagar uma indenização ao Movimento Gay, provavelmente o da Bahia, e ainda vai correr o risco de pegar, se não me engano, de 2 a 6 anos de prisão. E não pense que terá acabado. Chegando lá, vai encontrar um outro movimento gay, um tanto qto caricatural, que... Vc sabe. E tudo isso pq vc ousou desrespeitar a censura da pós-modernidade, expressando seus conceitos pré-históricos, seus preconceitos, sua intolerância. Apenas mais alguns dias e vc terá perdido a liberdade de expressão... A menos que expresse a mentalidade vigente... Ah, cara, vc é tão jovem pra ir preso...

Osmar disse...

Muito bom!

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.