27 de março de 2006

Entre a Escolha e o Desejo

No último texto, dei o exemplo, talvez não completamente entendido, da menina estuprada:

"Algum filho da mãe estuprou uma menina quando ela era novinha e ela cresceu uma ninfomaníaca, tentando achar explicação pro trauma no sexo desenfreado."
Na verdade, o estupro, sim, é conseqüencia da escolha da menina.

A menina escolheu não ser abusada. Entretanto, o estuprador escolheu ignorar sua escolha, o que gerou um grande problema.
Se ela não tivesse feito esta escolha, não haveria nem classificação do que seria um estupro. Seria sexo consensual, sempre, já que não há a escolha do não.
Vale notar que o que possibilitou o problema foi a diferença de poder, força e desejo entre os participantes da situação.

Podemos ir além em nossa compreensão do mundo e questionar, talvez à moda kardecista:
"E o camarada que nasceu com deficiência? Ele não escolheu esse tipo de vida."

Creio que a resposta também reside no fato de que não se quer ser deficiente, quando se tem consciência de que existe deficiência em detrimento de uma possível eficiência.
E aí os geneticistas e médicos entram em cena, dizendo-nos que deficiências físicas são aspectos puramente genéticos, mutações aleatóreas, prováveis, que acabaram por se tornar reais; ou doenças degenerativas.
E eu concordo, desde que o acaso que possibilitou tal realidade tenha sido criado por Deus e que os acontecimentos reais não reflitam conseqüências de pecados pregressos (de "vidas passadas") e não sejam a punição por eles.

Aliás, seria algo muito estranho que o próprio acaso tenha criado o acaso. Creio que o acaso não aconteceu por acaso.
Se recorrermos a Beniot Mandelbrot e à sua teoria da geometria fractal, veremos que existe no caos (aquele caos do efeito borboleta), um não caos. As irregularidades apresentam-se regularmente. Mas existe o caos, o aleatório. E existe a harmonia, o planejado. E a desarmonia. A vida, a morte. O desejo de viver.

Voltando às deficiências, o próprio fato de a pessoa enxergar que tem seus problemas físicos e ver suas diferenças com o que seria "saudável" faz com que ela pense que alguma coisa exterior fez que ela vivesse daquele jeito, pois ela não fez esta escolha. E é possível (eu diria "certo") que ela escolheria e/ ou desejaria não ser deficiente.
Em miúdos, a escolha de um deficiente geralmente é não ser deficiente, o que calha com o seu desejo, todavia, o "acaso escolheu" que fosse assim. Uma determinação natural e, se isso não for uma blasfêmia ou algo totalmente impróprio de se dizer, talvez até, uma escolha divina. Creio que a doença é fruto da escolha pelo pecado, desde que o homem é homem, ficando vítima da pena alguém sem a oportunidade de dizer que não queria ficar manco, coxo, cego...
Aí vemos a diferença e a interface entre desejo e escolha.
Ao acaso, que foi criado, não por acaso, aconteceu algo que não se desejaria que ocorresse. E, embora se pudesse escolher uma "normalidade" (por falta de palavra melhor vai essa mesmo), ou o conformismo com o presente e as circunstâncias, o desejo é pela transformação, pelo irreal, pelo milagre. Mas talvez isso, de novo, calhe com a escolha. Ou não.

Bem, Deus escolheu fazer que algumas coisas acontecessem ao acaso. Sim, Deus tem escolhas. Aliás, se alguém for calvinista o suficiente pra dizer que só Ele tem escolhas, não estaria longe. Particularmente, não é algo que eu diria; prefiro pensar que só Ele tem as melhores escolhas.
Isso, porque pecamos, somos falhos e só o Senhor é Deus, acima, muito acima, de tudo e de todos, poderoso para fazer qualquer coisa, insondável, maravilhosamente eterno, infinito, inquestionável.
E nosso pecado é fruto do desejo, geralmente, da carne.
E num ato de libertação, ou pensamos que seja isto, realizamos os nossos desejos. Bons ou maus. No caso irrefletido, e pecaminoso, nossos maus desejos.

Mas nossos desejos passam por nossas escolhas. Nós escolhemos ou não realizar nossos desejos, avaliando ou não, as conseqüências, prevendo, reagindo.
Geralmente, quando agimos por impulso, ou simplesmente pelo desejo, não fazemos as melhores escolhas. Mesmo que saciemos nossos desejos. E isto vemos na conseqüência da escolha.
O desejo é inconseqüente. É a vontade, às vezes infundada, a mania do paladar das grávidas, a sanha, o material.
Por exemplo, sexo é uma forma de prazer. Mas não está imbutido nele nenhum aspecto filosófico ou religioso. Não no ato. Talvez na forma de expressão de amor, ou na satisfação de fantasias, alguém queira atribuir significado, mas no fato em si, in loco, não há nenhuma expressão. Ele não imprime que necessariamente haja amor e nem fantasia, nem felicidade, eternidade, responsabilidade, etc...
O sexo não adverte contra possíveis mazelas: doenças venéreas, gravidez indesejada, má (ou boa, dependendo da novela da Globo que estiver passando pode ser boa) conduta social, entre outros aspectos.
Isso quem faz é a cabeça. É a escolha: "Espero ou não? Transo com todo mundo ou caso virgem? Roubo o bombom? Vou agora?"

Ok. Agora eu peço que você repare no "agora" da frase acima, pois o desejo é algo que demanda uma escolha no espaço-tempo. Quase uma necessidade. Quase... mas não é.

Se quiser ver por outro ângulo, nossos desejos demandam escolhas. E os desejos são temporais. As escolhas são mais firmes e atemporais, podem ser pra vida toda, definem nossa conduta moral, mas podem ser mudadas pelas circunstâncias. Podemos querer trilhar o eterno e, no momento seguinte, desistir.
Dizia Lacan que o homem deseja. Mas o homem também escolhe diante de seus desejos. Firma-se ou não diante do que crê, do que valoriza, do que estabelece, do que ama.
Amor é uma escolha, paixão é um desejo.
A paixão é a libido dos sentimentos. O amor é o sexo apaixonado dos sentimenos.
E, com isso, sem entrar em discussões etimológicas, nem todos os desejos são concupiscentes e profanos. Em si, são como forças ao dispor das escolhas. Havemos de escolher entre o uso ou desuso desta força.
Desejamos abraçar, beijar, agarrar, ganhar dinheiro, louvar, desprezar, prezar... enfim, o homem deseja.
O maior barato da nossa existência ocorre quando nossos desejos estão em sintonia com as escolhas que fazemos. Daí resultam os bons sentimentos e mais do que isso.
Gostaria de pensar que o desejo é a matéria, a energia e o tempo, enquanto a escolha é a engenharia que monta a estrutura.
Mas as escolhas podem ser terrivelmente más.

Nesse Brasil de Lulinha, nem tão paz e amor, que esconde o jogo, de Palocci envolvido com as "primas" e saindo fora que nem diabo com medo da cruz, de exército subindo o morro, de João Paulo Cunha absolvido, de CPI dos Bingos, dos Correios, do Mensalão, do mensalinho do Severino, do Dudinha Mendonça, tadinho, do Delúbio, tadinho, do Dirceu, coitadinhozinho dele, dessa roubalheira que mais parece um jogo de tabuleiro em que as regras mudam ao sabor das conveniências, do MST queimando reservas reflorestadas da Aracruz, do jeitin', da total desvalorização do trabalho, da educação e do meio ambiente, da polícia que ganha muito mal, do BBB, do CV, do PT, do PSDB, do PQP, do tititi, do homem e da mulher brasileiros... nesse Brasil, fica difícil ver que haja as escolhas corretas.
"E qual é a escolha correta?"
São tantas...
Mas, para o caso nacional, peço a atenção à Palavra do Deus vivo, no clamor de Salomão em II Crônicas 6, v. 40:
"Agora, pois, ó meu Deus, estejam os teus olhos abertos, e os teus ouvidos atentos à oração deste lugar."
A resposta veio em seguida num dos textos mais belos já escritos por mãos de homens imperfeitos no mesmo livro, cap. 7, v. 14 e 15:

"E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra.
Agora estarão abertos os meus olhos e atentos os meus ouvidos à oração deste lugar."

O que acho realmente interessante é que Deus permite ao homem fazer escolhas. Deus não precisaria disso. Afinal Ele é Deus. O único ser auto-suficiente.
Isso, eu imagino, decorre da vontade dEle de travar relacionamento com a humanidade. Relacionamentos além das circunstâncias, mas, mesmo assim, na possibilidade do desejo e da escolha mútua. A convergência perfeita.
E um passo à frente, entre a escolha e o desejo, teremos a liberdade.


22 de março de 2006

Viver não é preciso... escolher é. Ah, se é!

Já ouviu falar em Gödel, Kurt Gödel?
Bem, ele é diferente de Bond, James Bond, porque (eu acho) ele não "dormiu" com todas as mulheres mais bonitas enquanto salvava o mundo. Mesmo assim, ele foi um cara importante.
O que ele deixou sobre lógica matemática é de suma importância para nós que lidamos com as máquinas.
Em suma, ele tem um teorema que nos prescreve a escolha.
Grosso modo, sabemos que as máquinas "pensam" diferente de nós. Elas não são permissivas em seus algorítmos. Tão somente "rodam" o que foi programado e não pensam de verdade. Não analisam, não têm julgamento in dubio pro reu (a não ser que esta seja uma condição já estabelecida), não há espaço para o espontâneo e nem há escolha.
Bem, comecemos por demonstrar o que quero dizer.

Eu te pergunto: "Você pode dizer não?"
As possibilidades são:
(a) Você diz sim. Com isso, acaba me provando que pode dizer não. Esta é uma resposta logicamente aceitável.
(b) Você diz não. Com isso, você me diz que não pode dizer não, mas você disse "não", logo, não há validade para a sua resposta. Assim, só (a) tem validade.

Agora vamos passar para um exemplo melhor: "Você pode não dizer não?"
As novas possibilidades são:
1) Você diz sim. Com isso você me disse que consegue não dizer não. Logo, você não vai negar nunca. Você é uma pessoa verdadeira, gente boa, e eu posso te emprestar meu dinheiro e depois te extorquir, que está tudo bem.
2) Você diz não. Bem, já antevemos que, logicamente, esta não é uma opção.

Pulamos o nível de dificuldade e vamos ao melhor caso, que vai especificar o que Gödel quis dizer: "Você pode não dizer sim?"
i) Você diz sim. Não existe lógica no que você acabou de dizer, pois exatamente o que queremos saber é se você pode não dizer o que disse, "sim".
ii) Você diz não. Então, não dizer sim é algo que você não poderia fazer. Mas "não dizer sim" equivale a dizer "não". Bem, então você não poderia dizer "não". Em outras palavras, se você não pode deixar de dizer sim, então por que está respondendo "não"?
Assim, nenhuma das duas, nem (i) e nem (ii), é uma opção à pergunta.
Dê um tempinho, reflita e veja se não está começando a ficar maluco.

Bem, agora que sua cabeça desfez o nó que ela deu (o que deve ser perfeitamente normal, eu acho), continue a ler o texto.

Este é um exemplo esfarrapado, que eu desenvolvi, que, provavelmente, alguém mais inteligente já fez no passado, porque ele é meio óbvio.
Entretanto, o que é interessante é que uma máquina não consegue responder a este tipo de pergunta. Ela dá pau. Fica rodando sem parar, queima, pifa, estraga e pode não funcionar mais.
E nós? Nós conseguimos responder a este tipo de pergunta?
Bem, nem tudo é respondido com sim e não. Afinal, sempre podemos bater nos outros, apelando para o nosso lado mais animal. "Pode parar com a palhaçada! Já estou tonto!" Ou sempre podemos responder uma pergunta com uma outra pergunta "E você, pode?".
Nós sabemos que a pergunta "Você pode não dizer sim?" foi feita com uma lógica estabelecida, mas também sabemos que, fora desta lógica, a pergunta pode ser respondida com a falta de uma resposta. Vemos que há algum problema que não vai ser sanado se continuarmos respondendo "sim" e "não" indefinidamente. Paramos e refletimos que existe uma realidade que cerca esta pergunta, que lhe é adjacente e fora dela e que devem existir, portanto, outras coisas, além da pergunta, como eu, você, as frases, as palavras, as maneiras de perguntar, etc...
Isto, meus amigos, é ser superior às máquinas. Isto é ser humano.

O teorema de Gödel é mais ou menos por aí. É bem mais detalhado, mas permite ver que nem tudo paira sob o controle tirano da matemática (e ainda que fosse, eu não atribuiria tirania a esta ciência tão perfeita e bela).
Pode ser o bug mais maravilhoso do mundo das idéias.
"Tá. Mas e daí?"
E daí que, de um jeito incrível, nós somos, existimos, e ponto. Jean Paul Sartre já escreveu sobre esta dimensão da liberdade humana, de sermos, de existirmos de um jeito não-óbvio, real e até óbvio. O homem existe, está aí, é material, não pediu a sua opinião. Você não pediu a sua opinião para existir. Mas existe.
Só que Sartre, nosso bom francês comuna, que não via a essência, mas existência, talvez tivesse que limpar melhor os óculos, ou ir à Inglaterra para bater uns papos com C. S. Lewis, pois este nos mostra a realidade de um jeito mais real um pouco. Nem a realidade poderia ser tão real se não tivesse sido criada. Certamente, em meio à realidade, estamos como quem paira sobre as fundações já estabelecidas por alguém, antes de nós. Chegamos e, ei, peraí, já é hora de ir vivendo. "ir. ir indo." como diria o poeta do presente.
Às vezes isso nos aperta numa cronologia predirecionada em que não temos muita escolha do tempo, e, às vezes, nem do espaço em que interagimos e vivemos. Não escolhemos o nosso espaço-tempo, mas escolhemos o que fazemos com ele.
"E daí, de novo?"
A vida que temos de ir empurrando para o futuro é reflexo das ecolhas que fazemos e que são feitas por outros, ainda que empurremos com a barriga o que recebemos e o que fazemos.
As escolhas, nossas ou dos outros, são o remodelar da existência. São a procura da essência.
Tudo, em última análise, é uma questão de escolha.
Homossexualismo, alcoolismo, tabagismo, maconhismo, "motelismo" (termo bizarro que quis dizer das pessoas que freqüentam os motéis - não fui eu que inventei, juro), pioneirismo, lirismo, comunismo, masturbismo, abismo, hipismo, patrimonialismo, daltonismo, saturnismo, cafajestismo, modernismo, dadaísmo, cubismo, maometismo, islamismo, bombismo, zoroastrismo, cristianismo... tudo, em última análise, é uma questão de escolha.
E creio que as escolhas se dividam em classes desiguais: as dos homens e as de Deus.
E ainda que tudo pareça ocorrer ao acaso, o próprio acaso é uma escolha divina.

Bem, existem escolhas mais difíceis do que as outras, é verdade.
Algum filho da mãe estuprou uma menina quando ela era novinha e ela cresceu uma ninfomaníaca, tentando achar explicação pro trauma no sexo desenfreado. É complicado. Mas cabe a ela escolher um caminho diferente do que lhe destinaram por escolhas mal feitas dos outros. Cabe a ela escolher a cura.
João não sabia, mas, depois de dar cerveja pro filhinho, enquanto este nem tinha idade pra bradar "liberdade de escolha", seu menino, em alguns anos, estaria jogado na rua.
André não sabia que... deixa pra lá, que eu já fiz muita besteira.
Mas a mudança está ao alcance de todos. DE TODOS.
Como dizem os pastores: "Abra a sua Bíblia comigo" em 1 Timóteo 2, versículos 3 e 4:


"Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador,
o qual deseja que TODOS OS HOMENS sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade."

Aparentemente, Deus fez a escolha dEle.
Depois disso, meninos e meninas, tudo o que eu posso dizer é "Uhuuul!!! Aí, galera, cabe todo mundo na montanha russa! Foi o dono do parque que deixou."

Gilles Deleuze, desejoso filósofo, amigo de Michel Foucault, também historiador como o amigo, escreveu que a cronologia não é o mais importante na História.
Leia de novo a frase acima.
Sim, ele disse que os acontecimentos são, na verdade, eventos conectados, sem uma disposição arranjada pelo tempo. Antes, o barato da experiência humana está nas culminâncias atemporais. Você fez algo hoje que teve o ápice há uns dois mil anos, quando Hipócrates ainda falava de humores.
Talvez (essa é uma idéia minha), por exemplo, Leônidas e os 300 de Esparta tivessem a glória de sua história contada na Bíblia pela vitória de Gideão e seus também 300. E assim o "melhor, combateremos à sombra" não seria ofuscado pela morte, mas seria perpetrado pela vitória. Ou vice-versa. Quem pode não dizer que sim?

Eu entendo que o sacrifício de Cristo, há 2000 anos, tem peso hoje. Nas nossas vidas. Este é o ápice.
A salvação das pessoas de hoje é o ápice de suas vidas, o epicentro de um sacrifício que é o hipocentro; mas este hipocentro, para toda a História mundial, é o centro de tudo. O centro da glória humana, por mais espartana que ela seja, é Jesus Cristo. Em outras palavras, a convergência da necessidade humana é Jesus Cristo.

Resta a escolha. Retribuir a escolha. Escolher. Escolha.
E agora eu te pergunto:
"Você pode dizer sim?"
As possibilidades são todas nossas.

Bem, essa é a diferença entre nós e as máquinas.
Como eu disse mais de uma vez: tudo, em última análise, é uma questão de escolha.





16 de março de 2006

Caretice?

Chego em casa lá pelas 7 e alguma coisa da noite, abro o portão, a cachorra foge e eu vou correndo apanha-la uns 250 metros de onde estávamos. Depois de uns 5 minutos de "Nina! Niiina! Niiiiiinaaaaaa!!!", a cachorra acaba cedendo, eu agarro o bicho pelo pêlo e finalmente consigo fazê-lo(a) integrar novamente a fauna do quintal. Vou até à porta. Bato. Bato de novo. Ninguém em casa. Putz...
"Bem, acho que dá pra pegar um cimena. Quarta-feira é mais barato, mais ainda com a carteirinha." Nem me passa pela cabeça ir ao culto de oração.
Felizmente eu estava de carro e volto pra rua. Paro ali pelo centro e como dois pastéis (quanto tempo não fazia isso!) no Pastel Mania, antiga lanchonete de Friburgo que desde que eu era moleque me encantava com o letreiro vermelhão. Peço um "Indiano" (frango com molho curry) e um "Misto" (queijo e presunto) e ganho dois copinhos bem pequenininhos de mate pra lavar a refeição. Gostoso.
Atravesso a praça, vou ao Friburgo Shopping, que não está nos seus melhores dias, encontro minha prima na porta, digo pra ela ter juízo e subo ao terceiro piso.
Chego ao cinema. Lá tem 3 salas da rede Severiano Ribeiro. Vejo que filmes estão passando.
"A Pantera cor-de-rosa", um outro lá e um tal de "O Segredo de Broke Back Mountain", ou algo parecido.
Agora são 8 em ponto, eu já vi a Pantera e o próximo é "O Segredo...".
"Me vê uma meia pra esse aí, faz favor."
A moça do caixa me pede pra ver a carteirinha, eu dou um sorriso, quase flerte, agradeço, vou comprar um Bibs de amendoim. Nem lembrava mais desse doce. Dirijo-me à sala de exibição, um cara me pede a carteirinha novamente. Eu mostro e dou uma risadinha, querendo fazer graça da situação "Tudo certo aí? Ih! Vence em março, né? Tenho que ver isso. Hehe." O lanterninha faz cara feia, fez que nunca me viu, rasga o ticket e sai de perto. Não entendi.
Finalmente, entro no cinema, sento-me, hesito, penso melhor, mas acabo cedendo e abro logo o chocolate antes de o filme começar.
Entram algumas pessoas. Um cara meio afetado senta na minha frente com mais duas pessoas. Fala alto e diz alguma coisa sobre a "bicharada no cinema". Fingi que não ouvi.
De repente, entra uma primeira leva da fauna a que ele se referia.
Uns dois passam por mim e um deles senta do meu lado. Não gosto.
Entra a segunda leva, quase que trazendo plumas. Um outro cara senta do meu outro lado. Ele sorri para mim. Gosto menos ainda.
Naquele momento, olho em volta, sou um território insular: cercado de bichas por todos os lados. Não gosto nada disso!
Há confusão no ambiente, gente querendo passar por mim, gritaria de homens fazendo voz fina e rindo, causando escândalo só por esporte: "Dá licença! Cácácácácá!". Apagam a luz.
Peço licença que nem homem pro cara do meu lado que sorriu. Ele gostou da voz, mas não gostou do pedido. "Não, não! Pode ficar! Fica aí!".
"Não." Digo sério. "Aqui, fica no meu lugar que eu vou pra outro. Obrigado."
Saio e sento-me uns bancos atrás. "Ufa!!!"
Depois de um trailer, começa o filme.
Dois caras do meio de uma roça lá no Wyoming precisam de emprego, viram pastores de ovelha, poucas palavras, os caras são dois broncos. Um dorme do lado de fora, depois de ficar bêbado, e o outro dorme na barraca. O da barraca chama o outro pra entrar. Dormem. Um tenta estuprar o outro e o outro põe o um de quatro. Uma cena horrível.
Começo a entender porque o lanterninha olhou de cara feia pra mim.
Saio do cinema com uns 20 minutos (se tanto) de filme e uma promessa: "Você NUNCA MAIS vai ao cinema sem ler antes a sinopse do filme, ouviu?!!"

Não sou do tipo machão. Não gosto da frase "Bicha tem que morrer".
Mas confesso abertamente que não gostei nem um pouco da situação.
Do filme então, nem se fala. Parecia ser bom, tinha uma fotografia linda, bons atores. Mas parecia induzir comportamentos ou opiniões.
Eu saí da sessão porque imaginei que, a julgar pelo número de homossexuais no lugar e pelo que já havia passado até ali, o filme abordaria o homossexualismo como algo plenamente natural e daria um enfoque de que aquilo deve ser mais do que tolerado: bem aceito, quase elogiável.
Não sou preconceituoso. Sou conceituoso.
Sou a favor de todo tipo de amor, mas não sou a favor de todo tipo de prazer.
Creio que possa haver amor entre pessoas do mesmo sexo, afinal, eu amo meu pai, meu avô, meus tios, meu irmão, meus amigos da igreja, meus amigos que moram comigo... enfim, eu tento amar um bocado de gente. E olha que é bastante difícil.
Mas a idéia de haver qualquer envolvimento sexual com outro homem, embora tenha gente que consiga "entender" isto, para mim é odiosa, abominável, lastimável, dolorosa. A palavra é essa, "dolorosa".
Achei muito bom ouvir um ex-gay dar um testemunho uma vez. Ele não escondeu que gostava de homem. Mas, de algum jeito, sabia que aquilo não era o que Deus queria para a sua vida. Havia se convertido, mas continuava dormindo com homens. Caía, levantava, caía, levantava. Aprendia a andar com Jesus.
Eu creio que Jesus pode mudar vidas, ainda que, para elas, tudo só pareça fazer sentido às avessas. Não da sociedade, mas de si mesmas e de sua natureza.
Aliás, isso é o que acontece com todos nós.
Todos nós, quando pecamos, estamos nos "avessando".
Só Jesus pode fazer que sejamos às avessas do pecado. Nada mais.

12 de março de 2006

A Jangada


Praia de Cumbuco, Fortaleza. Janeiro de 1989. Caminhando pela praia, um casal e seus dois filhos, o menino com 5 e a menina com 4 anos. A mulher traz na barriga o terceiro.

Jangadas chegando na praia. O homem fica agitado. Antevê o passeio no mar. Afasta-se. Vai até a jangada que chega. Conversa com o mestre. Combina o preço. Volta animado. – Vamos zarpar! A mulher se assusta. – Quê isso?! Ficou louco? E as crianças? E se essa jangada virar? Não vou de jeito nenhum! E as crianças, também não. Se quiser, pode ir sozinho, que você é doido mesmo... Olha o Bateau Mouche! --Quê isso, Celaine? Ta com medo de quê? Jangada é diferente de barco. É larga e chata. Tem estabilidade. Não vira de jeito nenhum. É uma impossibilidade física! Argumento definitivo. O marujo ao lado gostou;.É isso aí, doutor. No Nordeste todo turista é doutor. – Não vira mesmo. Impossibilidade física, moça..

Jojô suspirou resignada.. Consente.Aceita.Sobe no barco. Perde o medo, se anima. Vibra. Lá vão os quatro, mais o Tito na barriga. Na arrebentação, as marolas parecem separar as varas que formam o fundo da embarcação. Mas estão bem unidas, por velhas cordas.

Logo surgem as ondas mais fortes, algumas enormes. Que varrem o convés, querendo levar-nos embora.As varas, sob o impacto dessas ondas mais violentas, se unem, ajuntando-se umas às outras. Estamos firmes, agarrando-nos à jangada. .

Curtimos bastante o passeio. Tomamos banho lá no fundo, brincamos de jangadeiro.

Logo, voltamos à praia. As marolas da arrebentação surgem, de novo. As varas da jangada pareciam novamente quase se separarem. As cordas as seguram..O mestre é bom. Sabe tudo.

Descemos na praia.. André e Débora pulam primeiro. Pedem pra ir de novo.O dinheiro ta curto. –Guarda na memória , filho. Ta nela até hoje.

De repente, a gritaria. O povo da praia gritava e apontava para o mar. A jangada que vinha atrás de nós virou! Espalhou gente p´ra todo lado. Jocelaine lembra: E a impossibilidade física?

Jangada vem do idioma de Malabar.

--”Lá vem papai de novo com esse negócio de etimologia. Que saco!” –“ Ebenezer e suas bobices!”

Jangada significa a união de dois barcos.

Há 25 anos, os dois barcos daqui de casa se juntaram. Renunciaram a caminhos próprios, sonhos individuais. Escolheram um passeio juntos. De lá p´rá cá, a jangada aumentou..Tem passado por marolas, os pequenos problemas que tendem a nos separar. O jornal jogado no sofá. O dever de casa que não foi feito.

As grandes ondas, os grandes problemas, têm sido muitos. E nos unem cada vez mais. Desemprego, morte de entes queridos. Doenças de todo tipo. Da mais superficial à mais profunda. Fomos do dermatologista ao psiquiatra. Da pereba à depressão.

Mas essas varas frágeis, imperfeitas, são unidas também por velhas e fortes cordas. Solidariedade, paciência, fé, esperança e amor. Confiamos no Mestre. O nosso Mestre. Este, sim, sabe tudo. Nossa jangada não vai virar. Impossibilidade..... metafísica.

O passeio só começou!...

- Texto escrito por meu pai, Ebenezer Jr., por ocasião das mesmas comemorações do texto abaixo. Achei o texto, pra variar, muito bom, com a cara do meu velho.

11 de março de 2006

As Bodas

25 anos equivalem a 300 meses, são iguais a 9131 dias e somam 219 mil horas e 144 minutos. Segundos a perder de vista.

Fosse em horas de vôo, este tempo asseguraria a perfeição nos céus. Mas aqui na terra, em um casamento feito por gente de carne e osso, e não de lataria e de motor, perfeição é ainda um conceito distante e por se conquistar.

Mas a matemática a que submetemos este tempo, em contato com a carne, é quase perfeita: multiplicamos magicamente. Juntamos uma pessoa que se entrega mais uma outra pessoa que aceita e obtemos uma família de cinco, ao fim. O mais interessante é que isso faz sentido. 1 casamento, 2 pessoas, 3 filhos e vamos aprender a contar com um pai e uma mãe.

De novo na conta do tempo, 25 anos é muito tempo. A maioria das guerras não agüenta tanto, a maior parte das espécies de animais não vive isso tudo, e, aliás, nem eu cheguei lá ainda. Destes 25, peguei carona nos últimos 23. Eu diria que foram os melhores, mas sou suspeito, eu não existia antes disso.

Mas a real questão de um casamento é: por quê?

Podemos elaborar algumas respostas: não somos animais comuns, precisamos de alguém pra andar ao lado, pra dar risadas das nossas piadas, para ser cúmplice em uma gafe (aliás, são tantas), alguém que tope percorrer o Nordeste em um único dia, pode ser medo da solidão, a perpetuação da raça, ou uma conveniência social.

Creio que talvez estas sejam respostas razoáveis, mas não dissolvem dúvidas, não estabelecem verdades. Apenas nos dizem que precisamos de uma aventura e uma causa, mas não falam qual é a causa nem se a aventura vale a pena.

E qual é a causa? Ter filhos? Certamente, se meus pais soubessem o trabalho que eu lhes daria, não teriam nem pensado nisso. E acho que não falo por mim apenas, mas Débora e Tito podem confirmar.

Se não são os filhos, é o quê? Diversão? Sexo? Rock n´ Roll? Medicina? Odontologia? Ciência? Teologia? Igreja? Ter mais parentes para poder entrar em festas sem ser penetra? Acho que não é bem isso.

Mas casar deve ser divertido. Entretanto, penso que ninguém quer morar num parque de diversões ou dormir numa montanha russa. Mesmo assim, o oposto, a segurança excessiva, também não é lá o mais adequado. Qualquer noivo não gostaria que sua noiva usasse um cinto de castidade.

Assim, os excessos parecem ser os vilões e devemos descarta-los da resposta. Andar com temperança é o ideal para o homem. Mas também a temperança parece escapar de nossas mãos. Ainda que juntássemos o homem mais inteligente do mundo e a mulher mais prática, bonita, e que dê jeito em todas as coisas; ainda assim, provavelmente exageraríamos nos elogios.

Eu creio que há algo maior, mais sólido e menos escorregadio do que a temperança. E talvez tenhamos de apelar para o óbvio. Paulo fala de ágape como coisa perfeita. Ele não era casado, mas como boa parte das pessoas é louca o suficiente para deixar que suas cerimônias de casamento sejam realizadas por gente que fez voto de não se casar e se dispõe a não namorar, creio que o apóstolo pode ser ouvido sem problema.

Ele nos diz de amor, sem ser piegas, enjoativo ou tolo. Amor transcendental. É isso que junta e segura as pessoas. É Deus. É o próprio ágape.

Com meus pais eu aprendi que Jesus é esse Deus de amor e sem Ele nada vale muito a pena. Mas em algum momento, eu rasguei estas lições, pra me entregar completamente a elas mais tarde.

E se há algo que possa ser dito do casamento de Ebenezer Soares Ferreira Jr. e Jocelaine Barrozo von Held Soares, conhecidos como meus pais, é que Deus está aqui. “Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem.”

André von Held Soares, 10 de março de 2006.

- Texto feito por mim e lido ontem na festa de comemoração de 25 anos de casamento de meus pais.

9 de março de 2006

A Realidade


"Além de ser complicada, pela minha experiência, a realidade costuma ser inesperada. Ela não é clara, não é óbvia, raramente é do jeito que você esperava. Por exemplo, quando você entendeu que a Terra gira em torno do Sol da mesma forma que todos os demais planetas, você naturalmente esperou que todos os planetas tivessem sido feitos para se emparelhar - todos a distâncias iguais uns dos outros, ou, pelo menos, a distâncias que aumentam em uma mesma regularidade, ou que fossem do mesmo tamanho, ou, ao menos, que fossem ficando maiores ou menores à medida que você se distanciasse do Sol. Na verdade, você não pode encontrar explicação ou razão (que nós podemos ver) para os tamanhos e nem para as distâncias. Alguns planetas têm uma lua; outro, quatro; outro duas; alguns não têm nenhuma e um outro tem um anel.
A realidade costuma, de fato, ser algo que você jamais teria imaginado. Essa é uma das razões porque eu acredito no cristianismo. Trata-se de uma religião que você nunca teria conseguido inventar. Se ela só nos oferecesse o tipo de universo que sempre desejamos, eu teria a forte impressão de que a estaríamos inventando. Mas, na verdade, não se trata do tipo de coisa que alguém pudesse ter inventado. Ela tem aquela singularidade imprevisível que as coisas reais têm."

- C. S. Lewis
Extraído de Cristianismo Puro e Simples [Mere Christianity]

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.