18 de janeiro de 2006

Separação

Nada deveria separar as pessoas, exceto a distância.

Pude observar que a vida não é coisa fácil, especialmente ao lado das pessoas.
Entretanto, as palavras de Paulinho da Viola ecoam firmes na Dança da Solidão:

"Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão, palavra cavada no coração
Resignado e mudo no compasso da desilusão"

Observando os casais mais velhos que eu, tenho meus receios de que boa parte deles não sirva de inspiração para novos amores.
As palavras que são lançadas das bocas aventureiras dos amantes, quando jovens, se não forem uma realidade inclinada à eternidade, viram coisa mais fugidia do que pó ao vento. São levadas na desesperança e podem ser tristemente descritas, como coisa profundamente amarga e de uma tristeza quase profissional, como digna de um Hemingway.

Eu tenho a convicção de que um relacionamento é formado não com o que se coloca nele, mas, mais basicamente, com o que se tira dele; a saber: orgulho, egoísmo, autoritarismo, arrogância... Enfim, um bom relacionamento deve ter como chave o verbo ceder.
Os dois lados de uma relação têm de alternar na ação de ceder, ou a coisa começa a fraquejar. Em outras palavras, é necessário ceder para não ceder.
Entretanto, não sei bem se é coisa só do Ego, ou se mexe com o Id e com o Superego; mas é fato que pouca gente cede tanto quanto deveria.

As pessoas preferem ficar mais longe umas das outras, com verdadeiras crostas de ressentimento entre elas; preferem ligar a televisão à procura de feixes de elétrons que transmitam maior esperança, e escolhem vagar nas ilusões projetadas nesta invenção que consegue mudar os valores de uma sociedade inteira (mais das vezes, por dinheiro), mas que não consegue fazer refletir que o que há de melhor e mais vivo não está acontecendo na tela, mas na vida real, fora dela.
A época é de prenúncios apocalípticos em que a iniqüidade aumenta e cresce como um bebê nutrido a Toddy, corroborando o alerta profético do Senhor Jesus, que disse que o amor esfriaria em quase todos (Mateus 24, v. 12).

Assim, deve haver uma unidade de pessoas com propósitos firmados em coisa maior do que as particularidades que as fazem ser repelidas, umas das outras. Pessoas que não esperem ficar unidas em solidão, mas em amor. Não um amor pueril, mas firme como uma Rocha.
Eugene Peterson, em seu "Corra com os Cavalos", fala que as pessoas demonstram força ao oferecerem uma amizade, mas que demonstram fraqueza ao aceitar uma. Creio que este é também o caso em que "quando estou fraco é que sou forte", como escreveu Paulo.
A força que conduz pessoas a deixarem de lado arrogância, orgulhos exacerbados, etc...

Pessoas que tenham por meta o amor, eu creio, não colocam coisas entre si. Um amor profundo, como eu me amo (ou como deveria me amar e, por conseguinte, amar o próximo), deixa óbvio que existe esperança para os relacionamentos. Com isso, essa dose cavalar de amor interpessoal, é possível eliminar barreiras e construir através do ceder, por mais estranho que isto possa parecer.

Nada deveria separar as pessoas, exceto a distância.

2 comentários:

Patropi disse...

Fala cumpadí!

Texto bem escrito, simples e objetivo. Parabéns.

Vamos ao conteúdo, pois tenho algumas divergências.

Não concordo que um bom relacionamento tenha haver com o verbo ceder. Querendo ou não, quando fazemos algo, esperamos outro algo "em troca". Toda ação tem uma reação. Quando um relacionamento tem por base o ceder, invariavelmente alguém vai achar que está cedendo mais, ou vai achar que não deve ceder em um ponto específico.

Em vez de concessões, prefiro a transparência. Comecei meu relacionamento com a Dja contando boa parte de minha história. Falei do divórcio, da minha filha, dos meus ideais. Uma coisa deixei claro desde o ínicio: eu diria a verdade, não importa o quanto isso pudesse doer. Não mentiria para agradar a ela ou a quem quer que seja. E sou assim com ela e com meus amigos.

Ela também não me esconde nada. Não finjo que não vejo os defeitos. Com certeza ela tem mais qualidades que defeitos, ao menos aos meus olhos apaixonados, e isso me basta.

Quando algo não me agrada eu reclamo. Reclamo na hora. Se eu guardar a reclamação por estar "cedendo", cedo ou tarde isso virá à tona, e invariavelmente vai machucar alguém.

Sim, devemos suportar muitas coisas por amor. Cristo suportou muito mais do qualquer outra pessoa. E até Ele espera algo em troca: o nosso amor. Não por necessidade, mas por amor puro e simples como só Ele tem.

Eu sonho com o dia em que conheceremos realmente nossos irmãos. Neste dia poderemos realmente confessar nossos pecados uns aos outros, sem medo de ser considerado um Pária. Ninguém precisaria ser mais crente que o outro. Conviveriamos com nossas diferenças, seguindo rumo ao alvo, que é Cristo.

Deus te abençoe meu irmão!
Tô com saudades cara, por onde tens andado?

[]s
Marcelo

t.diógenes disse...

po, bom ver-te novamante à ativa e em alto nível...
e realmante o que o marcelo diz, acho que tem razão.

espero vê-lo num café dia desses - vc nunca vai!

bjobjo

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.