15 de dezembro de 2006

Hollywood à grega


É de Hipócrates, nosso pai da medicina, que vem a primeira idéia (bem, se é a primeira mesmo, eu obviamente não sei, mas é o que consta) de sistematizar o ser humano em termos de seu comportamento e relacionar este comportamento aos fluidos, ou melhor, aos "humores", que há, supostamente, dentro de nós.
Vá lá que os humores ficaram como legado histórico, mais do que científico, ainda que haja depressão (odeio essa palavra) causada por fatores bioquímicos, por falta de neuro-transmissores, problemas no "regime de escoamento" das dopaminas, e outras minas jeitosas que deixam o cérebro alegre. E já iria alguém dizer de fluidos. Esotéricos tentariam "maus fluidos". Eu paro por aqui, pois estou tentando reativar meu blog.
Bem, Hipócrates disse haver 4 tipos de gente, com seus respectivos humores: fleumáticos, sangüíneos, coléricos e melancólicos.
Eu sempre achei o Stan Lee genial, especialmente depois de ele dizer que ele não sabia uma vírgula sobre ciência e mesmo assim escrevia ficção científica.
Já viu o filme "O Quarteto Fantástico", ou leu os gibis da estória deste grupo?
Bem, você deve ter notado um camarada inteligente sem muito contato com seus sentimentos, uma moça meio triste e insegura, com falta de o intelectual acima referido não assumir uma postura mais sólida acerca de seu relacionamento, um pedregulho feio e enfezado e, por fim, o fogo personificado num playboy inconseqüente.
Cada um ali representa, do jeito mais extrapolado possível, uma das quatro categorias "humorísticas" hipocráticas.
A saber, a moça triste tem os traços mais melancólicos, o que se reflete, inclusive (se "refletir" for neste caso uma palavra apropriada), em seu poder de ficar invisível frente às suas vergonhas, aos medos e diante do perigo.
O menino do fogo é explosivo, mas não tem muito combustível; é impulsivo, imaturo, jovem demais pra ver alguma seriedade nas conseqüências da vida, encanta no início; mas se gaba demais e "nem é isso tudo", como por fim constatamos de um sangüíneo.
O doutor é o nosso fleumático do quadrinho. Elástico, cabeça, meio insensível (não por mal, mas simplesmente por ser assim), move-se com a facilidade da água. A borracha é um isolante térmico e elétrico; talvez fosse assim só pra evitar o mau tempo, quem sabe? Previsões erram sempre e o melhor mesmo é ser de borracha o tempo todo.
Por fim, o durão seria, na verdade, minha representação de todo bom troglodita que há neste mundo. Uma rocha animada que luta contra suas incompreensões com violência, sem medo, em atitudes românticas, precipitadas e nada sutis.

Nisso tudo, vemos o homem, em suas várias faces. Todas reais. Todas humanas.
E vale aqui a antiga citação latina homo non proprie humanus sed superumanus est (grosseiramente traduzido como "o homem não é propriamente humano, mas super-humano").
Somos super-humanos, não super-homens, como gostaria Nietzsche.
Virtudes, defeitos, erros, acertos, bons e maus.
E sempre seremos. Não adianta nem pensar em Clark Kent, o Superman de plantão (data venia ao trocadilho filosófico). Estamos mais próximos de algo como o Hulk.

Por fim, não só no filme, vemos que a luta do quarteto humano é contra o Destino, que pode ser extremamente mau (e, se o Destino for romeno, é melhor ficar de olho, já que no filme parece que o cara nunca tinha sido humano, nem nos tempos de carne e osso, graças às taxações pejorativas idiotizantes do alienado ideário norte-americano da Guerra Fria ).
E o que é o Destino, senão um amontoado de colheitas de Escolhas passadas, crescidas no rico solo do Imprevisível?
O homem, no fim, luta contra si mesmo, contra seu comportamento leviano, contra dúvidas, medos, paixões, vícios...
No final, o homem, eu e você lutamos contra e a favor do humano.

Bom é saber que maior que isso tudo, sempre constante, sem oscilações de humor, sem luta contra o humano, mas pelo humano é o divino: supra-humano.

26 de novembro de 2006

Cristianismo Empírico

Um dia um amigo meu começou a me influenciar e dizer que eu deveria participar de um projeto missionário.
Deixei-me levar pela idéia e acabei me inscrevendo num programa, depois de escrever informações cabeludíssimas num formulário que perguntava sobre tudo da minha vida. Como o programa era relacionado a música, gravei uma santa demo e a enviei junto com o tal formulário pra avaliarem se eu poderia participar, dadas as habilidades gravadas e as informações descritas.
Fui aceito, e, em seguida, ligaram, perguntando sobre as informações que constavam do interrogatório.
O próximo passo foi arranjar sustento, grana. Deus, pra variar, forneceu tudo, bem além da conta.
Chorei, ri, fiquei impressionado com o poder de Deus, de ver como as coisas fluem, quando Sua vontade é feita.
E agora, senhoras e senhores, sou um missionário.
Se alguém se assustou, por favor, recobre a normalidade, porque nem eu acredito.
Talvez alguém espere de mim um crente mais-que-exemplar, um super-cristão, que não peca, não sente nada, a não ser amor pelas almas perdidas, um exortador à santidade,
quase um João Batista, uma verdadeira voz do que clama no deserto.
Estou bem longe disso. O que posso prometer, com certo receio do real cumprimento, é que tentarei ser um homem menos vil. Ao menos, mais honesto comigo mesmo e meus defeitos. Mesmo assim, é pela misericórdia do Senhor que isso se dá, não por meus esforços.

Quem saberia dizer o que esperar?
E é aqui que vemos como a vida cristã é algo muito mais prático do que teórico.
Esperamos, mesmo que inconscientemente, um comportamento adequado ou ao padrão imposto ao cristão (não bebe, não fuma, não transa antes do casamento, não joga, não, não, não!) ou ao que está escrito na Bíblia. Eu fico com o que está escrito na Bíblia, pela profundidade e pela verdade que encontro ali.
Mesmo assim, superficialmente e sutilmente, me vejo constantemente tentado e, por vezes, flertando com o pecado (e geralmente é com as mulheres mesmo que flerto pecando).
O que eu espero é que o Senhor me use com o que eu penso ser impossível: eu mesmo.


22 de agosto de 2006

Iminência

Um dos momentos mais interessantes de nossas vidas é o da expectativa.
Ele é iminente. Diria também, mais por força do trocadilho atravessado na garganta do que por convicção, que é eminente.
Mesmo porque, é a hora em que ainda não houve nada e tudo o que resta são possibilidades.
A expectativa nos encurrala no canto do destino e diz, com suavidade e não sem certa dose de sadismo, desembrulhando uma caixa de surpresas: "Vejamos o que temos aqui..." Desfaz o laço, abre então o pacote e...
Paramos por aqui, pois, justamente, o tema é a expectativa.

Entretanto, ela é eminentemente desprezível.
Nossas frustrações vêm quase todas daí, da supervalorização do "antes".
Já fiz tanto isso que... deixa pra lá. Deixa rolar.
Melhor nos agarrarmos à esperança paulina. Esperença, de esperar, como quem entra num trem e espera chegar a outro lugar, mais bonito, mais vivo; contudo, nunca duvidando que por onde já passou valeu a pena ter se exposto, na iminência de certezas, mesmo que tais certezas compusessem apenas o grosso tecido da existência.
Talvez andemos na esperança da garantia, a toque de vara, como reféns do tempo.

17 de agosto de 2006

Viagem

Lembro que uma vez o professor de Geografia perguntou:

"Quem sabe dizer por que as estradas são feitas em muitas curvas nas serras? Ou melhor, por que as estradas são sinuosas e não são retas quando existe uma serra? Por exemplo, pra ir de Friburgo ao Rio, a serra é toda cheia de curvas. Por que ela não é reta?"

Um momento de silêncio natural, reservado às considerações dos alunos.
De repente, penso alto: "É por causa dos ouvidos."
Obviamente a cara do professor foi de certo espanto.
Nem esperei:
"Elas são cheias de curvas, porque, se fossem retas, não conseguiríamos frear e
chegaríamos lá em baixo muito rápido. A pressão nos ouvidos seria muito grande e eles estourariam!"

Mais um momento de silêncio.
Até hoje não sei se minha resposta foi mais ensurdecedora que as supostas estradas retas.
O professor, talvez morrendo de rir por dentro, diz em tom de estímulo acadêmico: "Não era bem isso que eu esperava ouvir, mas é uma resposta."

Tempos de diletantismo, menininhas, poesia e falta de juízo total.

Humana Tragédia

Uma pergunta que sempre me fez questionar a existência de Deus, e mesmo de sua bondade, é: "como é o inferno?"
A resposta, é óbvio, nenhum homem que esteja vivo deve saber.
Dante Alighieri, que foi lá, na sua imaginação, na Divina Comédia, disse de sua entrada: "Abandone toda esperança ao entrar aqui."
Estas não são palavras de muito conforto ou mesmo de boas vindas.
A Bíblia conta de sofrimento eterno, de castigo eterno, fogo que não se apaga, bicho que não morre e outras figuras, que pretendo explorar mais adiante...
Na minha mente, parece que existe alguma coisa oposta à vida eterna, que não parece ser tão aconchegante, pelo menos existencialmente e filosoficamente. Mas o que seria isso?
E o que seria o inferno? Algum tipo de manifestação justa de um Deus de amor? A ira de um fogo consumidor? É mesmo cabível que um Deus que é o próprio amor perpetue a desgraça de uma multidão? É justo o contrário; que uma multidão de rebeldes ao Criador vivam eternamente em oposição ao mesmo Criador?
Escrevo isto, pois nunca ouvi uma explicação razoável de um batista sobre o assunto, mas só considerações simplistas do tipo que recendem a um legalismo profundo e mesmo a alguma satisfação sádica com o sofrimento alheio.

Eu nasci no dia 14/03/1983.
O que importa é que eu nasci. Você também.
Nós dois existimos e, ao que me parece, fomos alfabetizados na Língua Portuguesa.
Na nossa língua materna, inferno vem da palavra latina infernu, que quer dizer "situado em baixo (da terra). Em várias religiões o inferno foi localizado em baixo da superfície terrestre" (Nascentes, Antenor; Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Rio, 1955).
Ao que parece, a palavra tem um forte relacionamento com "inferior". Seria um lugar inferior, geograficamente (e não só isso), à terra.
Talvez outras pessoas tenham visto o magma emergir e, como é quente, tenham feito alguma correlação térmica com a condenação espiritual.

Mas eu falava de mim. Eu nasci em Campos dos Goytacases, terra de antigos guerreiros canibais. O parto foi normal (minha mãe é uma corajosa), no hospital Beneficência Portuguesa, saudável, provavelmente muito rosado e cheio de fome. Fome de comida, fome de vida.
Creio que você também tem essa fome.

O homem tem fome de vida.
Acho que não é necessário que se prove isto. Nós queremos viver, talvez por instinto. Alguém poderia dizer que é uma característica evolutiva... Eu acho que está mais perto, na verdade, do divino.
Freud escreveu o seguinte: "É, sem dúvida, impossível imaginar a nossa própria morte; e toda vez que tentamos fazê-lo podemos constatar que atuamos, na verdade como espectadores presentes. Por conseguinte, ninguém acredita na própria morte ou, para dizer a mesma coisa em outras palavras, no inconsciente todos nós estamos convencidos de nossa própria imortalidade."
Em outro ponto, no mesmo texto, ele continua: "Em relação à pessoa que efetivamente morreu, adotamos uma atitude especial - algo parecido com a admiração por alguém que realizou uma tarefa bastante difícil... A atitude convencional em relação à morte é dada pelo nosso completo colapso quando ela atinge alguém a quem amamos" (O pensamento vivo de Freud, Martin Claret, 1985).

Mas a morte nos persegue como um fantasma, com direito à caricatura de uma caveira encapuzada com uma foice na mão. E ela leva embora as pessoas.
Eu não sei no que você crê. Mas, independentemente disso, existe uma grande chance de você morrer de verdade, mesmo que você só consiga visualizar a situação como um espectador.
E o que acontece depois? Pra onde vão os não salvos, já que os salvos vão pro céu? E o que é o céu? E o "não céu"?

A Bíblia diz muitas coisas sobre a morte e o pós-morte. As citações seriam várias.
Em especial, minhas passagens favoritas estão no livro de Apocalipse, pois nem a psicodelia mais ativa dos anos 70 conseguiu chegar perto da linguagem figurada usada por João, especialmente envolvente por uma espécie indomável de poesia que não pode ser totalmente destrinchada, profunda em dizer da expectativa do lugar mais-que-perfeito, que supera nossa imaginação; a Cidade de Deus, como diria Agostinho.
E é ali, no último livro onde encontramos no capítulo 21, versículo 8: "Mas, quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos adúlteros, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte."

Resumidamente, quando lemos o Apocalipse, é possível, em consonância com toda a Bíblia, ver que existe um "itinerário" humano para as pessoas que rejeitam a Cristo como Filho de Deus; uma tragédia em poucos atos:

Nasce, vive, peca, é condenado, morre, ressuscita, e vai para a segunda morte.

Depois de brevemente falar sobre a segunda morte, a Bíblia se detém na vida eterna, fala da Cidade Santa e não menciona mais nada.
É interessante notar que no capítulo 20 de Apocalipse a morte e o hades (grosso modo traduzido como "inferno" para nós de língua latina) foram lançados no lago de fogo, que é a segunda morte (vs. 14).

Mas esta segunda morte é o quê?
Em Isaías, capítulo 66, depois de apontar que o pecado é a prática geral em Israel (e no mundo), e ainda assim estimular o arrependimento, lemos que aqueles que "não ouviram a fama do Senhor e nem ouviram a sua glória", estes anunciarão entre as nações a Sua glória.
Estes mesmos, que se ocuparam em pregar a glória do Senhor por toda a Terra, virão adorar diante do Senhor "e sairão, e verão os cadáveres dos homens que transgrediram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne."

Creio que chegamos aqui, sem eu dizer nenhuma heresia. Está tudo na sua Bíblia, pode checar. Espero continuar o texto do mesmo modo.
Isaías, reservou ao último versículo de seu livro uma linguagem de guerra. Ou melhor, uma descrição de "vencedores versus perdedores" de uma batalha, da qual todos os homens participam.
De um lado o povo de Deus e do outro, o resto do mundo. Obediência contra rebeldia. Bem contra mal.
Eu creio que nossa geração verá coisas que só imaginadas em tempos da Inquisição, em nome de supostos valores "humanos" politicamente corretos. Mas esse não é o meu ponto aqui.

O evangelho de Mateus narra que no famoso sermão do monte, Jesus disse o seguinte: "
Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem"(Mateus, cap. 5, vs. 44).
Eu creio que Jesus Cristo é Deus. Não é um deus, é O Deus. O que é, o que era e o que há de vir; o Senhor do Universo, o autor da vida, o salvador, o que me remiu de meus pecados, e eu o confesso como Senhor e Mestre de minha vida.
Se Jesus disse que devemos amar aos nossos inimigos, como conceber que, por causa de sua Justiça, condene ele as pessoas a um sofrimento eterno, inextingüível?

Entretanto, o inferno é real, pois é o Senhor quem diz em Marcos, cap 9, vs. 43 e 44:
"E se a tua mão te fizer tropeçar, corta-a; melhor é entrares na vida aleijado, do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga; onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga."

Esta imagem se repete nos versículos 46 e 48. E talvez você já tenha lido algo parecido com isto neste texto aqui.
Jesus, acreditam alguns, estaria citando o final do texto de Isaías a que me referi acima.
Bem, Isaías, por mais que queiramos inserí-lo em nossa perspectiva cristã, falava de acordo com a revelação de Deus de um modo que seus compatriotas judeus contemporâneos entendessem.
Então, num esforço literário, obviamente iluminado pelo Espírito Santo de Deus, ele falava de uma batalha com muitos mortos.

As grandes guerras da antiguidade eram extremamente sangrentas. Nenhuma novidade até aí, mesmo porque as grandes guerras da atualidade parecem que não são menos violentas que as de outrora.
Os corpos dos guerreiros mortos em combate não eram imediatamente sepultados, podendo demorar alguns dias até seu enterro. Neste período, seria de se esperar que houvesse bichos nos corpos, vermes. Se os corpos fossem muitos, haveria muitíssimos bichos.
Numa batalha de proporções gigantescas, incluindo toda a Terra, os bichos seriam tantos e proliferariam tanto pela oferta de comida excedente que, aparentemente, não morreriam. Seriam praticamente uma espécie que há em abundância e que parece não morrer nunca.

Outra coisa dita em ambos os textos, e que os conecta, é o fogo. O fogo não se apaga.
Após as batalhas, seria natural que, na ausência de coletores de corpos dos guerreiros derrotados para o seu sepultamento, os corpos fossem incinerados para evitar os tais bichos, os odores provenientes e mesmo a presença de corpos espalhados pelos arredores das cidades.
Para um número muito grande de corpos, seria necessário um fogo duradouro, um fogo que não fosse apagado.

Em outras palavras, o que os textos de Isaías e Marcos falam é que haverá grandes baixas entre os homens. Muitos vão morrer derrotados pelo pecado, por não se arrependerem, e não vão ter seus corpos sepultados de modo digno, mas seus corpos apodrecerão comidos de bichos, e serão finalmente queimados até que seus vestígios sumam da face da terra.

E só.
Eu só consigo ver até aí.
Dizer que há algum sofrimento a mais do que isso, pra mim, é demais. É cruel, é mau, porque, certamente, não é bom.
E Deus é bom.

Na verdade, toda a questão de céu e inferno, pra mim, se resume no seguinte: céu é estar com Jesus, enquanto a ausência dEle é o inferno.
Céu é conhecer plenamente o Senhor, entender a vida pelo mesmo prisma através do qual sou conhecido, a ausência de limites para o amor, vida eterna e boa, porque Deus será tudo em todos. Vida viva.
Tirando isso, não sobra nada, até mesmo porque só há sombra, graças à existência da luz.
Se só haverá a luz e viveremos no meio dela, onde estarão as trevas?

Creio que se o homem morre e não aceita a Cristo como o seu único salvador, como o seu Deus; ela deve escolher um caminho por onde andar até a morte. Depois ressucita em um lugar devastado que irá se consumir num lago de fogo. Finalmente, num ato trágico, deixa de existir, junto com o inferno, num lago de fogo suficientemente largo para que não mais haja vestígios de sua existência. O fim.

Entretanto, o homem não foi feito para isso. Nas palavras de Freud, ninguém consegue conceber sua própria morte como algo que pode ocorrer de fato. Esta é a real tragédia, pois o homem, como imagem e semelhança de Deus, foi feito para ser eterno. Desistir desta essência e ser reduzido à inexistência é a "tarefa difícil", ao meu ver. A mais difícil. Dói a mente pensar nisto.
Como diria Bandeira: "Avida inteira que poderia ter sido e que não foi!"
Eis aí a tragédia humana: a falta do divino.

13 de maio de 2006

Azedoce

Se o amor não for incompreensível, sutil, intocável, divino, inefável, imaculado, imarcescível, indefinível, soberbo, verdadeiro, majestoso, incontrolável, fino, leve, irreparável, imutável, erudito, infinito, clássico, atemporal, transcendental ao mesmo tempo em que for constrangedor, real, palpável, patético, óbvio, paciente diante de todas as fraquezas e defeitos, perseverante, rústico, fixo, constante, humilde, presente, popular, acessível, fácil, conveniente, legal, sensível, juntinho, divertido, sem esforço e passível de banalização, ele não deve valer muito a pena.
Eis minha (in)compreensão de Deus, de mim mesmo, do mundo e em relação às mulheres.

Constância

Coisa comum hoje é ouvir de alguém que acredita em "energia".
Quando eu estava no segundo grau, lembro-me que o professor de física disse que energia é a capacidade de realizar trabalho.
Ok, mas o que é trabalho?
Trabalho, segundo meu professor de Termodinâmica da faculdade é a energia em fluxo que atravessa as fronteiras entre um sistema e suas vizinhanças que não está relacionada à diferença de temperatura entre o mesmo sistema e suas vizinhanças. Ou talvez a força que se faz através de um dado percurso, para a mecânica. Grosso modo, trabalho é o fluxo de energia que não é calor.
E o calor? É o fluxo de energia que atravessa as fronteiras do sistema e que está necessariamente relacionado à diferença de temperatura entre o sistema e suas vizinhanças.

Bem, você já deve ter percebido que a palavra energia está repetida e é definida para definir coisas que a definem. Tem sérias relações de recorrência.
Enfim, ela vai se transformando em uma coisa e outra e acaba voltando nela mesma.
O primeiro Princípio da Termodinâmica diz sobre isso: a energia do Universo é constante.
Em outras palavras, energia não pode ser nem destruída e nem gerada.

Na verdade, nós temos este conceito bem esclarecido em nossas mentes, de forma intuitiva. A gente "acha" que é isso mesmo. "É, faz sentido."
E as grandes idéias são modos distintos de ver o mesmo.

Lavoisier tem a célebre frase que todos nós aprendemos desde o colégio: "Na natureza nada se cria, nada se perde: tudo se transforma."
Depois veio a Termodinâmica dizer com outra roupagem e Einstein não foi longe do lema com a equação mais famosa do mundo, E=mc². A diferença é que agora a massa é energia e a energia é massa e tudo bem com isso.
Acho bastante improvável que venha alguém que desmistifique esta idéia.

Mas não é só aí onde quero chegar.
Se essa energia é constante, ela tem que sempre ter existido, caso contrário, ela, em algum momento, teria sido gerada, o que é uma contradição da 1ª Lei da Termodinâmica. Logo, a energia do Universo não foi gerada. Não do nada.
Se ela não foi gerada do nada, então ela sempre existiu, de alguma forma.
Ora, algo que sempre existiu de alguma forma, transcende nossas perspectivas finitas e inconstantes.

A realidade desta constância é o que nos faz não sermos consumidos.
O aspecto termodinâmico é uma maneira de ver o poder de um Deus que é imutável "no qual vivemos, nos movemos e existimos" como dira Paulo em seu discurso no areópago de Atenas (Atos 17). O Deus que permeia todas as coisas, talvez o conceito de zero hindu, o Deus absoluto, não relativizável, "sem sombra de variação".

Mas isso, isoladamente, reduziria Deus às meras "energias" da vida. Não implica em fé, apenas em malabarismo teórico e capacidade de abstração física.
Não demanda fé ou amor pela tal energia. Talvez demande processos de transformação, mas não uma dependência e nem mesmo uma vaga noção de reverência a serem prestadas voluntariamente.
No século XIX, a "onda" era dizer-se ateu para ser intelectual. Hoje não é bem isso; admite-se que há algum ente, ou entes, que estão por aí e são divinos ou divinizados.
Um "maytrea", um espírito, algo que não te pede nada que possa causar uma modificação moral, mas um agente evolutivo, quase econômico e neoliberal. Um jeito de querer ver Deus "de banda", com o canto do olho.

A diferença da perspectiva cristã quando falamos de energia, criação e assuntos relacionados é que Deus se releva como o criador, que ele é bom, não evolui, ele não é "nós" e nós, definitivamente, não somos Ele. Ele, reduzidamente, pode ser a energia, mas é muito maior que ela, Ele a contém e não está contido nela, pela impossibilidade disto. E, assim, somos estimulados a ter uma relação com Ele por intermédio da fé, pois ela O agrada. E, eventualmente, quando a fé é genuína, ela se transforma em amor. E o amor se mostra na confiança, que se confunde com a fé. E temos outra relação de recorrência. Maior que a primeira.

27 de março de 2006

Entre a Escolha e o Desejo

No último texto, dei o exemplo, talvez não completamente entendido, da menina estuprada:

"Algum filho da mãe estuprou uma menina quando ela era novinha e ela cresceu uma ninfomaníaca, tentando achar explicação pro trauma no sexo desenfreado."
Na verdade, o estupro, sim, é conseqüencia da escolha da menina.

A menina escolheu não ser abusada. Entretanto, o estuprador escolheu ignorar sua escolha, o que gerou um grande problema.
Se ela não tivesse feito esta escolha, não haveria nem classificação do que seria um estupro. Seria sexo consensual, sempre, já que não há a escolha do não.
Vale notar que o que possibilitou o problema foi a diferença de poder, força e desejo entre os participantes da situação.

Podemos ir além em nossa compreensão do mundo e questionar, talvez à moda kardecista:
"E o camarada que nasceu com deficiência? Ele não escolheu esse tipo de vida."

Creio que a resposta também reside no fato de que não se quer ser deficiente, quando se tem consciência de que existe deficiência em detrimento de uma possível eficiência.
E aí os geneticistas e médicos entram em cena, dizendo-nos que deficiências físicas são aspectos puramente genéticos, mutações aleatóreas, prováveis, que acabaram por se tornar reais; ou doenças degenerativas.
E eu concordo, desde que o acaso que possibilitou tal realidade tenha sido criado por Deus e que os acontecimentos reais não reflitam conseqüências de pecados pregressos (de "vidas passadas") e não sejam a punição por eles.

Aliás, seria algo muito estranho que o próprio acaso tenha criado o acaso. Creio que o acaso não aconteceu por acaso.
Se recorrermos a Beniot Mandelbrot e à sua teoria da geometria fractal, veremos que existe no caos (aquele caos do efeito borboleta), um não caos. As irregularidades apresentam-se regularmente. Mas existe o caos, o aleatório. E existe a harmonia, o planejado. E a desarmonia. A vida, a morte. O desejo de viver.

Voltando às deficiências, o próprio fato de a pessoa enxergar que tem seus problemas físicos e ver suas diferenças com o que seria "saudável" faz com que ela pense que alguma coisa exterior fez que ela vivesse daquele jeito, pois ela não fez esta escolha. E é possível (eu diria "certo") que ela escolheria e/ ou desejaria não ser deficiente.
Em miúdos, a escolha de um deficiente geralmente é não ser deficiente, o que calha com o seu desejo, todavia, o "acaso escolheu" que fosse assim. Uma determinação natural e, se isso não for uma blasfêmia ou algo totalmente impróprio de se dizer, talvez até, uma escolha divina. Creio que a doença é fruto da escolha pelo pecado, desde que o homem é homem, ficando vítima da pena alguém sem a oportunidade de dizer que não queria ficar manco, coxo, cego...
Aí vemos a diferença e a interface entre desejo e escolha.
Ao acaso, que foi criado, não por acaso, aconteceu algo que não se desejaria que ocorresse. E, embora se pudesse escolher uma "normalidade" (por falta de palavra melhor vai essa mesmo), ou o conformismo com o presente e as circunstâncias, o desejo é pela transformação, pelo irreal, pelo milagre. Mas talvez isso, de novo, calhe com a escolha. Ou não.

Bem, Deus escolheu fazer que algumas coisas acontecessem ao acaso. Sim, Deus tem escolhas. Aliás, se alguém for calvinista o suficiente pra dizer que só Ele tem escolhas, não estaria longe. Particularmente, não é algo que eu diria; prefiro pensar que só Ele tem as melhores escolhas.
Isso, porque pecamos, somos falhos e só o Senhor é Deus, acima, muito acima, de tudo e de todos, poderoso para fazer qualquer coisa, insondável, maravilhosamente eterno, infinito, inquestionável.
E nosso pecado é fruto do desejo, geralmente, da carne.
E num ato de libertação, ou pensamos que seja isto, realizamos os nossos desejos. Bons ou maus. No caso irrefletido, e pecaminoso, nossos maus desejos.

Mas nossos desejos passam por nossas escolhas. Nós escolhemos ou não realizar nossos desejos, avaliando ou não, as conseqüências, prevendo, reagindo.
Geralmente, quando agimos por impulso, ou simplesmente pelo desejo, não fazemos as melhores escolhas. Mesmo que saciemos nossos desejos. E isto vemos na conseqüência da escolha.
O desejo é inconseqüente. É a vontade, às vezes infundada, a mania do paladar das grávidas, a sanha, o material.
Por exemplo, sexo é uma forma de prazer. Mas não está imbutido nele nenhum aspecto filosófico ou religioso. Não no ato. Talvez na forma de expressão de amor, ou na satisfação de fantasias, alguém queira atribuir significado, mas no fato em si, in loco, não há nenhuma expressão. Ele não imprime que necessariamente haja amor e nem fantasia, nem felicidade, eternidade, responsabilidade, etc...
O sexo não adverte contra possíveis mazelas: doenças venéreas, gravidez indesejada, má (ou boa, dependendo da novela da Globo que estiver passando pode ser boa) conduta social, entre outros aspectos.
Isso quem faz é a cabeça. É a escolha: "Espero ou não? Transo com todo mundo ou caso virgem? Roubo o bombom? Vou agora?"

Ok. Agora eu peço que você repare no "agora" da frase acima, pois o desejo é algo que demanda uma escolha no espaço-tempo. Quase uma necessidade. Quase... mas não é.

Se quiser ver por outro ângulo, nossos desejos demandam escolhas. E os desejos são temporais. As escolhas são mais firmes e atemporais, podem ser pra vida toda, definem nossa conduta moral, mas podem ser mudadas pelas circunstâncias. Podemos querer trilhar o eterno e, no momento seguinte, desistir.
Dizia Lacan que o homem deseja. Mas o homem também escolhe diante de seus desejos. Firma-se ou não diante do que crê, do que valoriza, do que estabelece, do que ama.
Amor é uma escolha, paixão é um desejo.
A paixão é a libido dos sentimentos. O amor é o sexo apaixonado dos sentimenos.
E, com isso, sem entrar em discussões etimológicas, nem todos os desejos são concupiscentes e profanos. Em si, são como forças ao dispor das escolhas. Havemos de escolher entre o uso ou desuso desta força.
Desejamos abraçar, beijar, agarrar, ganhar dinheiro, louvar, desprezar, prezar... enfim, o homem deseja.
O maior barato da nossa existência ocorre quando nossos desejos estão em sintonia com as escolhas que fazemos. Daí resultam os bons sentimentos e mais do que isso.
Gostaria de pensar que o desejo é a matéria, a energia e o tempo, enquanto a escolha é a engenharia que monta a estrutura.
Mas as escolhas podem ser terrivelmente más.

Nesse Brasil de Lulinha, nem tão paz e amor, que esconde o jogo, de Palocci envolvido com as "primas" e saindo fora que nem diabo com medo da cruz, de exército subindo o morro, de João Paulo Cunha absolvido, de CPI dos Bingos, dos Correios, do Mensalão, do mensalinho do Severino, do Dudinha Mendonça, tadinho, do Delúbio, tadinho, do Dirceu, coitadinhozinho dele, dessa roubalheira que mais parece um jogo de tabuleiro em que as regras mudam ao sabor das conveniências, do MST queimando reservas reflorestadas da Aracruz, do jeitin', da total desvalorização do trabalho, da educação e do meio ambiente, da polícia que ganha muito mal, do BBB, do CV, do PT, do PSDB, do PQP, do tititi, do homem e da mulher brasileiros... nesse Brasil, fica difícil ver que haja as escolhas corretas.
"E qual é a escolha correta?"
São tantas...
Mas, para o caso nacional, peço a atenção à Palavra do Deus vivo, no clamor de Salomão em II Crônicas 6, v. 40:
"Agora, pois, ó meu Deus, estejam os teus olhos abertos, e os teus ouvidos atentos à oração deste lugar."
A resposta veio em seguida num dos textos mais belos já escritos por mãos de homens imperfeitos no mesmo livro, cap. 7, v. 14 e 15:

"E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra.
Agora estarão abertos os meus olhos e atentos os meus ouvidos à oração deste lugar."

O que acho realmente interessante é que Deus permite ao homem fazer escolhas. Deus não precisaria disso. Afinal Ele é Deus. O único ser auto-suficiente.
Isso, eu imagino, decorre da vontade dEle de travar relacionamento com a humanidade. Relacionamentos além das circunstâncias, mas, mesmo assim, na possibilidade do desejo e da escolha mútua. A convergência perfeita.
E um passo à frente, entre a escolha e o desejo, teremos a liberdade.


22 de março de 2006

Viver não é preciso... escolher é. Ah, se é!

Já ouviu falar em Gödel, Kurt Gödel?
Bem, ele é diferente de Bond, James Bond, porque (eu acho) ele não "dormiu" com todas as mulheres mais bonitas enquanto salvava o mundo. Mesmo assim, ele foi um cara importante.
O que ele deixou sobre lógica matemática é de suma importância para nós que lidamos com as máquinas.
Em suma, ele tem um teorema que nos prescreve a escolha.
Grosso modo, sabemos que as máquinas "pensam" diferente de nós. Elas não são permissivas em seus algorítmos. Tão somente "rodam" o que foi programado e não pensam de verdade. Não analisam, não têm julgamento in dubio pro reu (a não ser que esta seja uma condição já estabelecida), não há espaço para o espontâneo e nem há escolha.
Bem, comecemos por demonstrar o que quero dizer.

Eu te pergunto: "Você pode dizer não?"
As possibilidades são:
(a) Você diz sim. Com isso, acaba me provando que pode dizer não. Esta é uma resposta logicamente aceitável.
(b) Você diz não. Com isso, você me diz que não pode dizer não, mas você disse "não", logo, não há validade para a sua resposta. Assim, só (a) tem validade.

Agora vamos passar para um exemplo melhor: "Você pode não dizer não?"
As novas possibilidades são:
1) Você diz sim. Com isso você me disse que consegue não dizer não. Logo, você não vai negar nunca. Você é uma pessoa verdadeira, gente boa, e eu posso te emprestar meu dinheiro e depois te extorquir, que está tudo bem.
2) Você diz não. Bem, já antevemos que, logicamente, esta não é uma opção.

Pulamos o nível de dificuldade e vamos ao melhor caso, que vai especificar o que Gödel quis dizer: "Você pode não dizer sim?"
i) Você diz sim. Não existe lógica no que você acabou de dizer, pois exatamente o que queremos saber é se você pode não dizer o que disse, "sim".
ii) Você diz não. Então, não dizer sim é algo que você não poderia fazer. Mas "não dizer sim" equivale a dizer "não". Bem, então você não poderia dizer "não". Em outras palavras, se você não pode deixar de dizer sim, então por que está respondendo "não"?
Assim, nenhuma das duas, nem (i) e nem (ii), é uma opção à pergunta.
Dê um tempinho, reflita e veja se não está começando a ficar maluco.

Bem, agora que sua cabeça desfez o nó que ela deu (o que deve ser perfeitamente normal, eu acho), continue a ler o texto.

Este é um exemplo esfarrapado, que eu desenvolvi, que, provavelmente, alguém mais inteligente já fez no passado, porque ele é meio óbvio.
Entretanto, o que é interessante é que uma máquina não consegue responder a este tipo de pergunta. Ela dá pau. Fica rodando sem parar, queima, pifa, estraga e pode não funcionar mais.
E nós? Nós conseguimos responder a este tipo de pergunta?
Bem, nem tudo é respondido com sim e não. Afinal, sempre podemos bater nos outros, apelando para o nosso lado mais animal. "Pode parar com a palhaçada! Já estou tonto!" Ou sempre podemos responder uma pergunta com uma outra pergunta "E você, pode?".
Nós sabemos que a pergunta "Você pode não dizer sim?" foi feita com uma lógica estabelecida, mas também sabemos que, fora desta lógica, a pergunta pode ser respondida com a falta de uma resposta. Vemos que há algum problema que não vai ser sanado se continuarmos respondendo "sim" e "não" indefinidamente. Paramos e refletimos que existe uma realidade que cerca esta pergunta, que lhe é adjacente e fora dela e que devem existir, portanto, outras coisas, além da pergunta, como eu, você, as frases, as palavras, as maneiras de perguntar, etc...
Isto, meus amigos, é ser superior às máquinas. Isto é ser humano.

O teorema de Gödel é mais ou menos por aí. É bem mais detalhado, mas permite ver que nem tudo paira sob o controle tirano da matemática (e ainda que fosse, eu não atribuiria tirania a esta ciência tão perfeita e bela).
Pode ser o bug mais maravilhoso do mundo das idéias.
"Tá. Mas e daí?"
E daí que, de um jeito incrível, nós somos, existimos, e ponto. Jean Paul Sartre já escreveu sobre esta dimensão da liberdade humana, de sermos, de existirmos de um jeito não-óbvio, real e até óbvio. O homem existe, está aí, é material, não pediu a sua opinião. Você não pediu a sua opinião para existir. Mas existe.
Só que Sartre, nosso bom francês comuna, que não via a essência, mas existência, talvez tivesse que limpar melhor os óculos, ou ir à Inglaterra para bater uns papos com C. S. Lewis, pois este nos mostra a realidade de um jeito mais real um pouco. Nem a realidade poderia ser tão real se não tivesse sido criada. Certamente, em meio à realidade, estamos como quem paira sobre as fundações já estabelecidas por alguém, antes de nós. Chegamos e, ei, peraí, já é hora de ir vivendo. "ir. ir indo." como diria o poeta do presente.
Às vezes isso nos aperta numa cronologia predirecionada em que não temos muita escolha do tempo, e, às vezes, nem do espaço em que interagimos e vivemos. Não escolhemos o nosso espaço-tempo, mas escolhemos o que fazemos com ele.
"E daí, de novo?"
A vida que temos de ir empurrando para o futuro é reflexo das ecolhas que fazemos e que são feitas por outros, ainda que empurremos com a barriga o que recebemos e o que fazemos.
As escolhas, nossas ou dos outros, são o remodelar da existência. São a procura da essência.
Tudo, em última análise, é uma questão de escolha.
Homossexualismo, alcoolismo, tabagismo, maconhismo, "motelismo" (termo bizarro que quis dizer das pessoas que freqüentam os motéis - não fui eu que inventei, juro), pioneirismo, lirismo, comunismo, masturbismo, abismo, hipismo, patrimonialismo, daltonismo, saturnismo, cafajestismo, modernismo, dadaísmo, cubismo, maometismo, islamismo, bombismo, zoroastrismo, cristianismo... tudo, em última análise, é uma questão de escolha.
E creio que as escolhas se dividam em classes desiguais: as dos homens e as de Deus.
E ainda que tudo pareça ocorrer ao acaso, o próprio acaso é uma escolha divina.

Bem, existem escolhas mais difíceis do que as outras, é verdade.
Algum filho da mãe estuprou uma menina quando ela era novinha e ela cresceu uma ninfomaníaca, tentando achar explicação pro trauma no sexo desenfreado. É complicado. Mas cabe a ela escolher um caminho diferente do que lhe destinaram por escolhas mal feitas dos outros. Cabe a ela escolher a cura.
João não sabia, mas, depois de dar cerveja pro filhinho, enquanto este nem tinha idade pra bradar "liberdade de escolha", seu menino, em alguns anos, estaria jogado na rua.
André não sabia que... deixa pra lá, que eu já fiz muita besteira.
Mas a mudança está ao alcance de todos. DE TODOS.
Como dizem os pastores: "Abra a sua Bíblia comigo" em 1 Timóteo 2, versículos 3 e 4:


"Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador,
o qual deseja que TODOS OS HOMENS sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade."

Aparentemente, Deus fez a escolha dEle.
Depois disso, meninos e meninas, tudo o que eu posso dizer é "Uhuuul!!! Aí, galera, cabe todo mundo na montanha russa! Foi o dono do parque que deixou."

Gilles Deleuze, desejoso filósofo, amigo de Michel Foucault, também historiador como o amigo, escreveu que a cronologia não é o mais importante na História.
Leia de novo a frase acima.
Sim, ele disse que os acontecimentos são, na verdade, eventos conectados, sem uma disposição arranjada pelo tempo. Antes, o barato da experiência humana está nas culminâncias atemporais. Você fez algo hoje que teve o ápice há uns dois mil anos, quando Hipócrates ainda falava de humores.
Talvez (essa é uma idéia minha), por exemplo, Leônidas e os 300 de Esparta tivessem a glória de sua história contada na Bíblia pela vitória de Gideão e seus também 300. E assim o "melhor, combateremos à sombra" não seria ofuscado pela morte, mas seria perpetrado pela vitória. Ou vice-versa. Quem pode não dizer que sim?

Eu entendo que o sacrifício de Cristo, há 2000 anos, tem peso hoje. Nas nossas vidas. Este é o ápice.
A salvação das pessoas de hoje é o ápice de suas vidas, o epicentro de um sacrifício que é o hipocentro; mas este hipocentro, para toda a História mundial, é o centro de tudo. O centro da glória humana, por mais espartana que ela seja, é Jesus Cristo. Em outras palavras, a convergência da necessidade humana é Jesus Cristo.

Resta a escolha. Retribuir a escolha. Escolher. Escolha.
E agora eu te pergunto:
"Você pode dizer sim?"
As possibilidades são todas nossas.

Bem, essa é a diferença entre nós e as máquinas.
Como eu disse mais de uma vez: tudo, em última análise, é uma questão de escolha.





16 de março de 2006

Caretice?

Chego em casa lá pelas 7 e alguma coisa da noite, abro o portão, a cachorra foge e eu vou correndo apanha-la uns 250 metros de onde estávamos. Depois de uns 5 minutos de "Nina! Niiina! Niiiiiinaaaaaa!!!", a cachorra acaba cedendo, eu agarro o bicho pelo pêlo e finalmente consigo fazê-lo(a) integrar novamente a fauna do quintal. Vou até à porta. Bato. Bato de novo. Ninguém em casa. Putz...
"Bem, acho que dá pra pegar um cimena. Quarta-feira é mais barato, mais ainda com a carteirinha." Nem me passa pela cabeça ir ao culto de oração.
Felizmente eu estava de carro e volto pra rua. Paro ali pelo centro e como dois pastéis (quanto tempo não fazia isso!) no Pastel Mania, antiga lanchonete de Friburgo que desde que eu era moleque me encantava com o letreiro vermelhão. Peço um "Indiano" (frango com molho curry) e um "Misto" (queijo e presunto) e ganho dois copinhos bem pequenininhos de mate pra lavar a refeição. Gostoso.
Atravesso a praça, vou ao Friburgo Shopping, que não está nos seus melhores dias, encontro minha prima na porta, digo pra ela ter juízo e subo ao terceiro piso.
Chego ao cinema. Lá tem 3 salas da rede Severiano Ribeiro. Vejo que filmes estão passando.
"A Pantera cor-de-rosa", um outro lá e um tal de "O Segredo de Broke Back Mountain", ou algo parecido.
Agora são 8 em ponto, eu já vi a Pantera e o próximo é "O Segredo...".
"Me vê uma meia pra esse aí, faz favor."
A moça do caixa me pede pra ver a carteirinha, eu dou um sorriso, quase flerte, agradeço, vou comprar um Bibs de amendoim. Nem lembrava mais desse doce. Dirijo-me à sala de exibição, um cara me pede a carteirinha novamente. Eu mostro e dou uma risadinha, querendo fazer graça da situação "Tudo certo aí? Ih! Vence em março, né? Tenho que ver isso. Hehe." O lanterninha faz cara feia, fez que nunca me viu, rasga o ticket e sai de perto. Não entendi.
Finalmente, entro no cinema, sento-me, hesito, penso melhor, mas acabo cedendo e abro logo o chocolate antes de o filme começar.
Entram algumas pessoas. Um cara meio afetado senta na minha frente com mais duas pessoas. Fala alto e diz alguma coisa sobre a "bicharada no cinema". Fingi que não ouvi.
De repente, entra uma primeira leva da fauna a que ele se referia.
Uns dois passam por mim e um deles senta do meu lado. Não gosto.
Entra a segunda leva, quase que trazendo plumas. Um outro cara senta do meu outro lado. Ele sorri para mim. Gosto menos ainda.
Naquele momento, olho em volta, sou um território insular: cercado de bichas por todos os lados. Não gosto nada disso!
Há confusão no ambiente, gente querendo passar por mim, gritaria de homens fazendo voz fina e rindo, causando escândalo só por esporte: "Dá licença! Cácácácácá!". Apagam a luz.
Peço licença que nem homem pro cara do meu lado que sorriu. Ele gostou da voz, mas não gostou do pedido. "Não, não! Pode ficar! Fica aí!".
"Não." Digo sério. "Aqui, fica no meu lugar que eu vou pra outro. Obrigado."
Saio e sento-me uns bancos atrás. "Ufa!!!"
Depois de um trailer, começa o filme.
Dois caras do meio de uma roça lá no Wyoming precisam de emprego, viram pastores de ovelha, poucas palavras, os caras são dois broncos. Um dorme do lado de fora, depois de ficar bêbado, e o outro dorme na barraca. O da barraca chama o outro pra entrar. Dormem. Um tenta estuprar o outro e o outro põe o um de quatro. Uma cena horrível.
Começo a entender porque o lanterninha olhou de cara feia pra mim.
Saio do cinema com uns 20 minutos (se tanto) de filme e uma promessa: "Você NUNCA MAIS vai ao cinema sem ler antes a sinopse do filme, ouviu?!!"

Não sou do tipo machão. Não gosto da frase "Bicha tem que morrer".
Mas confesso abertamente que não gostei nem um pouco da situação.
Do filme então, nem se fala. Parecia ser bom, tinha uma fotografia linda, bons atores. Mas parecia induzir comportamentos ou opiniões.
Eu saí da sessão porque imaginei que, a julgar pelo número de homossexuais no lugar e pelo que já havia passado até ali, o filme abordaria o homossexualismo como algo plenamente natural e daria um enfoque de que aquilo deve ser mais do que tolerado: bem aceito, quase elogiável.
Não sou preconceituoso. Sou conceituoso.
Sou a favor de todo tipo de amor, mas não sou a favor de todo tipo de prazer.
Creio que possa haver amor entre pessoas do mesmo sexo, afinal, eu amo meu pai, meu avô, meus tios, meu irmão, meus amigos da igreja, meus amigos que moram comigo... enfim, eu tento amar um bocado de gente. E olha que é bastante difícil.
Mas a idéia de haver qualquer envolvimento sexual com outro homem, embora tenha gente que consiga "entender" isto, para mim é odiosa, abominável, lastimável, dolorosa. A palavra é essa, "dolorosa".
Achei muito bom ouvir um ex-gay dar um testemunho uma vez. Ele não escondeu que gostava de homem. Mas, de algum jeito, sabia que aquilo não era o que Deus queria para a sua vida. Havia se convertido, mas continuava dormindo com homens. Caía, levantava, caía, levantava. Aprendia a andar com Jesus.
Eu creio que Jesus pode mudar vidas, ainda que, para elas, tudo só pareça fazer sentido às avessas. Não da sociedade, mas de si mesmas e de sua natureza.
Aliás, isso é o que acontece com todos nós.
Todos nós, quando pecamos, estamos nos "avessando".
Só Jesus pode fazer que sejamos às avessas do pecado. Nada mais.

12 de março de 2006

A Jangada


Praia de Cumbuco, Fortaleza. Janeiro de 1989. Caminhando pela praia, um casal e seus dois filhos, o menino com 5 e a menina com 4 anos. A mulher traz na barriga o terceiro.

Jangadas chegando na praia. O homem fica agitado. Antevê o passeio no mar. Afasta-se. Vai até a jangada que chega. Conversa com o mestre. Combina o preço. Volta animado. – Vamos zarpar! A mulher se assusta. – Quê isso?! Ficou louco? E as crianças? E se essa jangada virar? Não vou de jeito nenhum! E as crianças, também não. Se quiser, pode ir sozinho, que você é doido mesmo... Olha o Bateau Mouche! --Quê isso, Celaine? Ta com medo de quê? Jangada é diferente de barco. É larga e chata. Tem estabilidade. Não vira de jeito nenhum. É uma impossibilidade física! Argumento definitivo. O marujo ao lado gostou;.É isso aí, doutor. No Nordeste todo turista é doutor. – Não vira mesmo. Impossibilidade física, moça..

Jojô suspirou resignada.. Consente.Aceita.Sobe no barco. Perde o medo, se anima. Vibra. Lá vão os quatro, mais o Tito na barriga. Na arrebentação, as marolas parecem separar as varas que formam o fundo da embarcação. Mas estão bem unidas, por velhas cordas.

Logo surgem as ondas mais fortes, algumas enormes. Que varrem o convés, querendo levar-nos embora.As varas, sob o impacto dessas ondas mais violentas, se unem, ajuntando-se umas às outras. Estamos firmes, agarrando-nos à jangada. .

Curtimos bastante o passeio. Tomamos banho lá no fundo, brincamos de jangadeiro.

Logo, voltamos à praia. As marolas da arrebentação surgem, de novo. As varas da jangada pareciam novamente quase se separarem. As cordas as seguram..O mestre é bom. Sabe tudo.

Descemos na praia.. André e Débora pulam primeiro. Pedem pra ir de novo.O dinheiro ta curto. –Guarda na memória , filho. Ta nela até hoje.

De repente, a gritaria. O povo da praia gritava e apontava para o mar. A jangada que vinha atrás de nós virou! Espalhou gente p´ra todo lado. Jocelaine lembra: E a impossibilidade física?

Jangada vem do idioma de Malabar.

--”Lá vem papai de novo com esse negócio de etimologia. Que saco!” –“ Ebenezer e suas bobices!”

Jangada significa a união de dois barcos.

Há 25 anos, os dois barcos daqui de casa se juntaram. Renunciaram a caminhos próprios, sonhos individuais. Escolheram um passeio juntos. De lá p´rá cá, a jangada aumentou..Tem passado por marolas, os pequenos problemas que tendem a nos separar. O jornal jogado no sofá. O dever de casa que não foi feito.

As grandes ondas, os grandes problemas, têm sido muitos. E nos unem cada vez mais. Desemprego, morte de entes queridos. Doenças de todo tipo. Da mais superficial à mais profunda. Fomos do dermatologista ao psiquiatra. Da pereba à depressão.

Mas essas varas frágeis, imperfeitas, são unidas também por velhas e fortes cordas. Solidariedade, paciência, fé, esperança e amor. Confiamos no Mestre. O nosso Mestre. Este, sim, sabe tudo. Nossa jangada não vai virar. Impossibilidade..... metafísica.

O passeio só começou!...

- Texto escrito por meu pai, Ebenezer Jr., por ocasião das mesmas comemorações do texto abaixo. Achei o texto, pra variar, muito bom, com a cara do meu velho.

11 de março de 2006

As Bodas

25 anos equivalem a 300 meses, são iguais a 9131 dias e somam 219 mil horas e 144 minutos. Segundos a perder de vista.

Fosse em horas de vôo, este tempo asseguraria a perfeição nos céus. Mas aqui na terra, em um casamento feito por gente de carne e osso, e não de lataria e de motor, perfeição é ainda um conceito distante e por se conquistar.

Mas a matemática a que submetemos este tempo, em contato com a carne, é quase perfeita: multiplicamos magicamente. Juntamos uma pessoa que se entrega mais uma outra pessoa que aceita e obtemos uma família de cinco, ao fim. O mais interessante é que isso faz sentido. 1 casamento, 2 pessoas, 3 filhos e vamos aprender a contar com um pai e uma mãe.

De novo na conta do tempo, 25 anos é muito tempo. A maioria das guerras não agüenta tanto, a maior parte das espécies de animais não vive isso tudo, e, aliás, nem eu cheguei lá ainda. Destes 25, peguei carona nos últimos 23. Eu diria que foram os melhores, mas sou suspeito, eu não existia antes disso.

Mas a real questão de um casamento é: por quê?

Podemos elaborar algumas respostas: não somos animais comuns, precisamos de alguém pra andar ao lado, pra dar risadas das nossas piadas, para ser cúmplice em uma gafe (aliás, são tantas), alguém que tope percorrer o Nordeste em um único dia, pode ser medo da solidão, a perpetuação da raça, ou uma conveniência social.

Creio que talvez estas sejam respostas razoáveis, mas não dissolvem dúvidas, não estabelecem verdades. Apenas nos dizem que precisamos de uma aventura e uma causa, mas não falam qual é a causa nem se a aventura vale a pena.

E qual é a causa? Ter filhos? Certamente, se meus pais soubessem o trabalho que eu lhes daria, não teriam nem pensado nisso. E acho que não falo por mim apenas, mas Débora e Tito podem confirmar.

Se não são os filhos, é o quê? Diversão? Sexo? Rock n´ Roll? Medicina? Odontologia? Ciência? Teologia? Igreja? Ter mais parentes para poder entrar em festas sem ser penetra? Acho que não é bem isso.

Mas casar deve ser divertido. Entretanto, penso que ninguém quer morar num parque de diversões ou dormir numa montanha russa. Mesmo assim, o oposto, a segurança excessiva, também não é lá o mais adequado. Qualquer noivo não gostaria que sua noiva usasse um cinto de castidade.

Assim, os excessos parecem ser os vilões e devemos descarta-los da resposta. Andar com temperança é o ideal para o homem. Mas também a temperança parece escapar de nossas mãos. Ainda que juntássemos o homem mais inteligente do mundo e a mulher mais prática, bonita, e que dê jeito em todas as coisas; ainda assim, provavelmente exageraríamos nos elogios.

Eu creio que há algo maior, mais sólido e menos escorregadio do que a temperança. E talvez tenhamos de apelar para o óbvio. Paulo fala de ágape como coisa perfeita. Ele não era casado, mas como boa parte das pessoas é louca o suficiente para deixar que suas cerimônias de casamento sejam realizadas por gente que fez voto de não se casar e se dispõe a não namorar, creio que o apóstolo pode ser ouvido sem problema.

Ele nos diz de amor, sem ser piegas, enjoativo ou tolo. Amor transcendental. É isso que junta e segura as pessoas. É Deus. É o próprio ágape.

Com meus pais eu aprendi que Jesus é esse Deus de amor e sem Ele nada vale muito a pena. Mas em algum momento, eu rasguei estas lições, pra me entregar completamente a elas mais tarde.

E se há algo que possa ser dito do casamento de Ebenezer Soares Ferreira Jr. e Jocelaine Barrozo von Held Soares, conhecidos como meus pais, é que Deus está aqui. “Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem.”

André von Held Soares, 10 de março de 2006.

- Texto feito por mim e lido ontem na festa de comemoração de 25 anos de casamento de meus pais.

9 de março de 2006

A Realidade


"Além de ser complicada, pela minha experiência, a realidade costuma ser inesperada. Ela não é clara, não é óbvia, raramente é do jeito que você esperava. Por exemplo, quando você entendeu que a Terra gira em torno do Sol da mesma forma que todos os demais planetas, você naturalmente esperou que todos os planetas tivessem sido feitos para se emparelhar - todos a distâncias iguais uns dos outros, ou, pelo menos, a distâncias que aumentam em uma mesma regularidade, ou que fossem do mesmo tamanho, ou, ao menos, que fossem ficando maiores ou menores à medida que você se distanciasse do Sol. Na verdade, você não pode encontrar explicação ou razão (que nós podemos ver) para os tamanhos e nem para as distâncias. Alguns planetas têm uma lua; outro, quatro; outro duas; alguns não têm nenhuma e um outro tem um anel.
A realidade costuma, de fato, ser algo que você jamais teria imaginado. Essa é uma das razões porque eu acredito no cristianismo. Trata-se de uma religião que você nunca teria conseguido inventar. Se ela só nos oferecesse o tipo de universo que sempre desejamos, eu teria a forte impressão de que a estaríamos inventando. Mas, na verdade, não se trata do tipo de coisa que alguém pudesse ter inventado. Ela tem aquela singularidade imprevisível que as coisas reais têm."

- C. S. Lewis
Extraído de Cristianismo Puro e Simples [Mere Christianity]

24 de fevereiro de 2006

Lógica da lógica

Creio que um hábito saudável que mantenho é o de manter à mão uma caderneta, em que anoto minhas incursões no mundo das idéias. O texto à frente, de minha autoria, foi retirado destas andanças introspectivas e foi escrito em 08/03/05.

"Às vezes, minhas melhores idéias, ou melhor, as melhores idéias vêm quando estou tomando banho. Uma delas foi uma definição poética para a lógica:

"Lógica é o passo seguinte."

Isso porque o pensamento é a tal caminhada, mais do que o caminho. É construir, mais do que a construção.
Cada etapa lógica do pensamento leva a outra posterior, que leva a outra, etc. sendo sempre lógico que a sucessão seja algo lógico. A lógica na própria lógica, como prova de sua lógica.
Lógico? Lógico!"




11 de fevereiro de 2006

The Autobiographer


Tive a oportunidade de ler um dos livros que mais cativou minha atenção durante a adolescência: "The Autobiography", por Benjamin Franklin.
Coloquei o título em inglês pois, além do evidente charme (não gostaria que fosse encarado como pedantismo), foi nessa língua que li a obra, propositalmente, não por evitar erros de tradução (afinal, existe o velho dito latino tradutori traditori est); mas pelo fato de que estava ficando meio enferrujado no meu pobre anglo-saxão.
Creio que funcionou como uma espécie de WD 40, já que eu entendi o livro, que, por sinal, é muito bem escrito, num inglês de parágrafos enormes, sintético e envolvente.
O livro é dividido em 4 partes, mas, a bem da verdade, são só 3, pois a última parte tem apenas 5 páginas e não foi terminada, não havendo ponto final na vida contada até ali.
Por isso, eu diria que são 3 partes e a quarta é meramente um apêndice, ou uma idéia inacabada, pelos diversos afazeres do homem.
Na primeira parte, ele faz um apanhado de sua família, fala desde quando havia registros dos Franklin e começa a se descrever como um fã de leitura e um trabalhador precoce, fazendo velas e sabões no negócio de seu pai. Depois, trabalha com um de seus 14 irmãos em sua casa de impressão. Ali, começa a arriscar as primeiras letras, escrevendo anonimamente, com sucesso. Deixa este emprego em Boston e vai para a Filadélfia. Passa uns bons perrengues até chegar lá, onde constitui, com o tempo, reputação, embora a hora de sua chegada seja das mais risíveis. Conta de sua primeira viagem à Inglaterra e vários nomes de personagens que lhe acompanharam na juventude.
Neste primeiro momento, Franklin se descreve como uma pessoa de sorte, alguém que foi favorecido por circunstâncias e pessoas certas que cruzam o seu caminho; pois a sorte favorece os destemidos.
Entre outras expressões e histórias, aparece o termo Errata, que, no livro, significa algo como coisa que ele, se pudesse reviver de novo sua própria vida, corrigiria.
Um bom pedaço, que não ouso traduzir:

"Revelation had indeed no weight with me as such; but I entertain´d an Opinion, that tho´certain Actions might not be bad because they were forbidden by it, or good because it commanded them; yet probably those Actions might be forbidden because they were bad for us, or commanded because they were beneficial to us, in their own Natures, all the Circumstances of things considered."

Na 2ª parte, encontramos melhor florescimento de idéias que lhe renderam, segundo o próprio Franklin, suas conquistas futuras, para mais do que sua boa sorte inicial.
É aqui que vemos um pouco de sua, eu, modestamente, diria, "filosofia funcional"; algo como os procedimentos para uma vida de excelência.
Como fosse teísta e, quase definitivamente e "recalcitrantemente" (se é que isso de fato pode existir), não cristão, cria no valor da virtude e da elevação moral como alicerces da vida. Grosso modo, cria na punição do vício e recompensa pela virtude.
Neste ponto do livro, ele relata:

"It was about this time that I conceiv´d the bold and arduous Project of arriving at moral Perfection."

Tal projeto o levou por parte de sua vida e foi estendido a amigos de um clube de discussões montado por ele, o Junto, que pasou a adotar, depois de um tempo, como requisito de entrada, a tentativa, por parte do candidato a uma cadeira na membresia do clube, de lidar com as seguintes virtudes durante uma semana para cada:

"These names of virtues with their precepts were
1. Temperance.
Eat not to Dulness.
Drink not to Elevation.
2. Silence.
Speak not but what may benefit others or your self. Avoid trifling Conversation.
3. Order.
Let all your Things have their Places. Let each Part of your Business have its Time.
4. Resolution.
Resolve to perform what you ought. Perform without fail what you resolve.
5.
Frugality.
Make no Expence but to do good to others or yourself: i. e. Waste nothing.
6.
Industry.
Lose no Time. - Be always employed in something useful
. - Cut off all unnecessary Actions. -
7.
Sincerity.
Use no hurtful Deceit.
Think innocently and justly; and, if you speak; speak accordingly.
8.
Justice.
Wr
ong none, by doing Injuries or omitting the Benefits that are your Duty.
9.
Moderation.
Avoid Extreams. Forbear resenting Injuries so much as you think they deserve.

10. Cleanliness.
Tolerate no Uncleanness in Body, Cloaths or Habitation. -

11.
Tranquility.
Be not disturbed at Trifles, or at Accidents common or unavoidable.
12. Chastity.

Rarely use Venery but for Health or Offspring; Never to Dulness, Weakness, or the Injury of your own or another´s Peace or Reputation
13. Humility.

Imitate Jesus and Socrates. - "

Havendo enumerado estes valores e máximas, Franklin ainda se detem na descrição de tais valores, e admite que a 13ª virtude, a humildade, não havia sido incluída originalmente como algo realmente pertinente ao seu esforço frente à "perfeição moral". Entretanto, advertido por um amigo Quaker seu (aliás, as demoninações e seitas diferentes são apresentadas, ao longo do relato, como algo feito com o intuito de semear mais a discórdia do que o oposto), Franklin não subestima os perigos do orgulho:

"In Reality there is perhaps no one of our natural Passions so hard to subdue as Pride.[...]You will see it perhaps often in this History. For even if I could conceive that I had compleatly overcome it, I should be proud of my Humility. - "

E, com isso, passamos à terceira parte.
Aqui, já sabendo de seu ímpeto moral, vemos o cidadão Benjamin que reivindica para si a alegação de conquistar os postos de sua vida por esforço moral, mais do que favorecido pela antiga sorte.
Neste ponto do livro conhecemos: "Honest Ben", o cientista, o político unanimamente eleito sempre, o inventor, o doutor em lei, o Master of Arts por Harvard e Oxford (sem manter grandes correspondências com tais instituições e mesmo assim sendo prestigiado por estas e muitas outras), o líder civil, o escritor e o filósofo. Todos são parte integrante do carácter de quem Edmund Burke chamaria de "the friend of mankind".
É interessante que, embora alguém possa considerar que, uma vez que suas ocupações foram muitas, Benjamim Franklin teria sido relapso ou pouco merecedor de grandes méritos nos variados pleitos, ele foi, de fato, grande, em conteúdo e substância, em todas as áreas de sua contribuição.
No livro vemos que existe quase uma fusão em seus diferentes interesses. Por exemplo, ele conta de um grande pregador (Mr. Whitefield) que aparece em Filadélfia e reune multidões. Ele observa não somente as técnicas de oratória, o conteúdo dogmático e o impacto social de sua chegada; mas estima ainda qual é a área geométrica que compreende a semi-circunferência em que pode ser ouvida a sua voz em uma de suas pregações, a fim de projetar um prédio que comporte o mesmo número de pessoas.
Outro exemplo relatado é a observação da iluminação pública em Londres, que era mal feita, pela maneira como o vidro, dentro do qual ficava a vela para a iluminação, se enchia da fumaça muito rapidamente e acabava impedindo a luz, gerando mais gastos públicos com cera, por conta disso. E por aí vai...
Conta da relação entre ele, seus arregimentados e os índios norte-americanos e da relação destes com o rum. Ele transcreve de um orador nativo que vinha se desculpar por uma algazarra da noite anterior ao seu encontro:

"The great spirit who made all things made every thing for some Use, and whatever Use he design´d any thing for, that Use it should always be put to; Now, when he made Rum, he said, LET THIS BE FOR INDIANS TO GET DRUNK WITH. And it must be so."

Quanto aos detalhes técnicos e históricos, o livro foi escrito até 1757, quando Franklin ainda não tratara de seus maiores assuntos políticos, ainda não tinha uma relação com George Washington e nem exercera suas mais pronunciadas qualidades de diplomata. Outra coisa que o livro não fala é de sua relação e influência na maçonaria, em que teve, na França, a oportunidade de assistir à cerimônia de iniciação de Voltaire.
Mesmo assim, ainda que ele narre o famoso eposódio da pipa, que estabeleceu definitivamente a relação entre os relâmpagos e suas propriedades eletromagnéticas, do modo mais sucinto possível (1 linha), o livro se firmou como uma das maiores peças literárias da época, mais pelo autor do que pelas memórias do escritor de "Poor Richard´s Almanac".
Há quem diga, inclusive, que esse trabalho, Autobiography, pode ser visto como uma alegoria de Pilgrim´s Progress (O Peregrino), do grande autor John Bunyan, em que Franklin se expõe mais como um personagem do que como "ele, por ele mesmo", como poderia querer a Marília Gabriela.
Creio que, dentre os iluministas de época, Benjamin Franklin fez mais do que marcar o seu tempo: marcou o destino de sua nação, como mais do que um pensador, um realizador.
E talvez fosse isso fruto de sua ambição, pois:
"Nothing humbler than Ambition, when it is about to climb"



Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.