27 de dezembro de 2005

Jesus e sua turma

Em seu maravilhoso "O Jesus Que Eu Nunca Conheci", o escritor americano Philip Yancey mostrou (ao menos para mim) uma perspectiva bem diferente do que se espera de um Jesus histórico ou até mesmo do que se pode ouvir pelas igrejas por aí. Existe ali o relato de uma proximidade muito forte de Deus com o homem , através de uma apresentação, além de outras coisas, de um amigo das pessoas. Uma pessoa amorosa e gente boa.
Para além das minhas plenas convicções de que Jesus Cristo é o Filho do Deus vivo, uma figura divina, o próprio Cristo fez-se homem; carne.
Fez-se gente, como já escrevi (isso até hoje me deixa intrigado e é por isso que escrevo de novo, não como uma impossibilidade, mas como algo muito crível e incrível, ao mesmo tempo).
Bem, e o que fez essa pessoa divina enquanto esteve andando pela terra?
Muita coisa... Andou e viajou muito pela Palestina, falando coisas boas que serviam pra vida do pessoal, exerceu como ninguém a medicina, bebeu vinho, comeu carne, conversava e ia visitar as pessoas em casa. Não relutou em pagar o dinheiro do "leão" de sua época, mas revoltou-se com as pessoas que faziam da vida uma caminhada de hipocrisia.
Creio que isso tudo não é bagagem nova.
Mas eu não tinha atentado para o fato de que Jesus se importava mais do que eu imaginava com as pessoas.
Não quero, em absoluto, que essa última frase aí em cima soe como algo piegas, como coisa de crente que tem um textinho pronto, depois de uma lavagem cerebral bem sucedida. Antes, desejo que estas linhas desenrolem o que há por vir, de um modo muito natural.
E é agora que eu quero expor algo de que não sabia.

Jesus escolheu os seus apóstolos como quem escolhe amigos.

Em Lucas, capítulo 6, a Bíblia diz que Jesus orou uma noite inteira e depois, "quando já era dia", chamou os 12.
Mas antes disso, na (1ª) pesca maravilhosa, lemos que existe um encontro prévio com Pedro, Tiago e João (e possivelmente André).
Bem, não quero reescrever aqui os relatos da Palavra de Deus, mas após uma análise desse texto e com a referência dos textos de Mateus e Marcos, vemos que as pessoas que foram escolhidas para compor a roda de amigos mais íntimos de Jesus, já se conheciam entre si.
Mais do que isso, os filhos de Zebedeu eram sócios de Simão Pedro e André.
Estes são vínculos que já estavam estabelecidos e que já haviam marcado a vida destas pessoas.
Não era nada novo o contato entre eles.
Entretanto, conhecendo o homem (espécie humana) como nós o conhecemos, é possível que tenham estranhado o chamado de uns e outros:
"O Mestre chamou Fulanedro... Acho que ele não soube escolher muito bem..."
Isso não seria lá muito difícil de se pensar. Basta uma leitura razoável dos evangelhos pra ver que os apóstolos eram homens comuns e, às vezes, medrosos.
Nós temos uma disposição para julgar que, caso tivéssemos o mesmo empenho em amar, o mundo seria outro.
Mas paciência...
Aliás, este é, de fato, o objetivo deste texto. Não pelas muitas linhas em que o leitor tem de ser "paciente" com a qualidade, mas pelo fato de que nós temos sempre de ser pacientes com as pessoas que nós já conhecemos e com quem vivemos.
A obra lá, há 2000 anos, foi feita, no começo, por pessoas que se conheciam. Pessoas que já sabiam das dificuldades, vergonhas, defeitos e diferenças de temperamento, uns dos outros.
Contudo, os 12 foram os mesmos, até que Judas se suicidou.
Depois, em Atos, os 11 se multiplicaram e, imagino, falando primeiro com as pessoas que lhes eram queridas e com as que haviam perseverado na unidade da fé.
Às vezes é mais fácil querer sair de uma igreja do que querer lidar com as pessoas que nos chateiam ou não são agradáveis a nós. É mais fácil mesmo...
Não julgo, por favor... Tenho noção de que minhas fraquezas estão expostas em meu comportamento. Pelo menos tento não julgar.
Mas nós devemos tentar, sempre tentar, fazer com que as pessoas que nós já conhecemos sejam mais íntimas ainda. De nós e, mais ainda, de Cristo.
Devemos trabalhar com quem nós já temos desafetos. Amar quem nós sabemos que não "deveria" ser amado. Pelo menos não por nós, ora!

Se o amor é músculo, trabalhemos.
Se mandamento, obedeçamos.
Se paixão, cedamos.
Se é só amor, amemos.

Amemos, como fez Cristo, inclusive, os vis homens simples que há por aí.

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.