Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.

19 de janeiro de 2010

L'élégance du concept


Gilles Deleuze defende a noção de uma história não cronológica, muito mais descrita por linhas conceituais que "cercam" e tratam das circunstâncias, do que desenhada por um trilho certo à frente, evolutivo e progressivo. Este tipo de pensamento é observado quando se sobe aos Mil platôs de Deleuze e Guattari e, dali, são miradas as linhas e os contornos dos eventos, dos acontecimentos, como formas de uma geometria interconectada.
Isso seria bem descrito como uma topografia, ou melhor, uma cartografia de eventos, situados no tempo. O espaço histórico, em oposição, e com um certo prejuízo, em relação ao tempo. Um crescimento rizomático e, por consequência, orgânico e fractal (caótico, talvez) dos conceitos interrelacionados. Uma história geográfica.
Em um conceito bem mais concreto, mas não menos delicioso, o pensamento de Milton Santos sugere um contra-ponto necessário aos filósofos franceses: "território é a acumulação desigual de tempos."
Se em uma mão temos os mapas da história, na outra o relógio da geografia não deixa de marcar os progressos e delimitações de um espaço concreto, fluido no tempo.
Impossível deixar de viajar por tão tentadora trilha de imagens, caminhos e paisagens, criada na elegância, com ambas as mãos cheias de mapas e bússolas temporais e com um relógio espacial no punho.

4 de janeiro de 2010

Um engenheiro químico em desabafo

Eu devo confessar: não estou muito satisfeito com minha profissão.
Digo isso numa postura que, ainda que incômoda em relação a tudo mais, dá folga em me situar com propriedade na assertiva que fiz acima, pois estou desempregado há um ano e meio. E não sou o único, de muitos colegas.
Aparentemente a minha situação é a seguinte: ano passado me formei por meio de um intercâmbio vivido na Alemanha, voltei logo no estouro da crise econômica (setembro/outubro) para casa e me enfiei em todos os programas de trainee possíveis das grandes empresas, de quaisquer nacionalidades que fossem.
Embora em algumas eu tenha conseguido chegar até o fim do processo de seleção me acotovelando com outros 15.000 candidatos e chegando a uma seleta mesa de 12 ou 15, não voltei com os louros. Nunca entendi exatamente qual é o critério e em que medida a avaliação psicossocial das dinâmicas, painéis e business isbraobous é séria, mas acho que pouco posso jogar culpa em qualquer lado da competição por uma vaga, quando há entre de 10.000 e 20.000 pessoas disputando-a.
Desiludido com esta dinâmica do grupo das grandes corporações privadas e percebendo que o salário de mercado é homogêneo para quaisquer empresas - estatais ou particulares -, direcionei meus olhares com atenção ao sempre chamativo eldorado dos concursos públicos.
O primeiro concurso que fiz foi o da Petrobras, (des)organizado pelo CESPE, que conseguiu a incrível marca de 18 questões anuladas em uma mesma prova (!). Fui aprovado, assim como outros 800 candidatos, mas num esquema meio loteria. Naturalmente não quero tirar o mérito e o brilho dos primeiros colocados, que merecem seu destaque, mas foi um troço muito mal feito.
Mas vida de concurseiro é assim mesmo... O motto é: não se faz concurso pra passar, mas até passar.
Com isso em mente, fui fazer uma prova em Campinas, para engenheiro químico da INFRAERO, coisa de vai-e-volta no mesmo dia, na garra. Acabei passando em 2º lugar.
Bem, se você pensou aí em me dar os parabéns, pode parar, pois o concurso, no fim das contas foi anulado. E mais: foi anulado somente para o cargo de engenheiro químico. Por quê?
Um velho problema político que ronda nossa classe profissional desde muito antes de eu nascer: o duplo registro em órgãos de classe (CRQ e CREA), gerado pela confusão da sobreposição das Leis Federais 2.800 e 5.194, de 1956 e 1966, respectivamente. Por uma questão delicada e enfadonha (com a qual não pretendo espantar meus 2 ou 3 leitores), o Conselho Federal de Química conseguiu uma sentença para mandado de segurança coletivo, alegando lesão a direito líquido e certo para "toda uma classe de profissionais".
Quem ficou mesmo certamente sem a liquidez do direito fomos todos os aprovados no certame (essas palavras vão entrando no nosso vocabulário de maneira muito natural) para cadastro de reserva, que pagaria o mesmo que uma multinacional, em torno de R$3.200,00.
Aliás, este é um ponto interessante.
No funcionalismo público brasileiro, ou você é do judiciário, ou vai penar pra encontrar um bom concurso.
Digo isso, pois pipocam concursos públicos pra tudo que é órgão ligado ao judiciário, com salários que nunca ficam abaixo de R$14.000,00 iniciais. Pelo menos eu não vi.
A coisa chega a ser tão incrível que o concurso que é um dos mais badalados atualmente para as áreas técnicas, o da Petrobras, é visto com um interesse muito secundário em provas para os advogados brasileiros. Já para os engenheiros químicos, esse é o mais concorrido, conseguindo compor uma relação candidato/vaga >140, fácil, fácil. Para, no máximo, umas 55 vagas, diga-se, e para um salário pouco maior que R$4.000,00.
Aqui gostaria de deixar claro que, apesar da velha rixa entre advogados e engenheiros, coloco minhas armas no chão por um momento, reconhecendo que a atividade dos operadores do direito é de fundamental importância na formação de um Estado justo, equilibrado, operante e eficiente.
Entretanto, com o judiciário que temos em mãos, salvas exceções como, por exemplo, o eminente ministro do STF, Dr. Joaquim Barbosa (doutor com doutorado, coisa rara), estamos todos muito mal, de facto.
Mas, mesmo assim, se você abrir qualquer informativo de concursos, vai ver que, por exemplo, hoje, foram abertas 143 vagas para a DPU, com salário inicial de R$14.500,00.
Esse tipo de coisa simplesmente inexiste na minha carreira. Não tem. O último concurso que fiz foi para cadastro de reserva e o penúltimo foi para 1 vaga, com 1 cadastro de reserva. Nesse, eu passei, em 4º lugar, mas esse tipo de situação é quase desmoralizante.
Mas, você me pergunta, por que eu estou reclamando tanto?
Se até o momento ainda não respondi com satisfação, os motivos são muitos.
O primeiro é que se há uma coisa de que os engenheiros químicos entendem é estudar. Estuda-se muito no curso de graduação. A não ser que se queira ficar 10 anos na faculdade.
Não há caminho fácil.
Nunca colei na faculdade. Isso me garantiu notas baixas. Mas mesmo quem colou também palmilhou um duro caminho.
Então, a primeira questão, eu a colocaria como um assunto de esforço não recompensado.
A segunda, uma desigualdade de classes, não sociais, mas trabalhistas, na esfera da formação superior, em que o trabalho não é também valorizado. Problema de valorização do profissional.
Em terceiro lugar, eu diria que a escassez deveria ser notada, uma vez que engenheiros em geral são vitais para a economia. São quem começa a produzir os meios de independência econômica de um país. O café não nos salvou e nunca nos salvaria... Pra ser mais claro, a exportação de bens primários, carro chefe de nossas exportações desde a colônia, pode, no máximo, nos levar a reboque de economias maiores. Esta seria, a meu ver, uma questão delicada, de deficiência de interpretação sócio-econômica, com raízes plantadas em um histórico de políticas de curto prazo. Só mais ultimamente isso tem sido mudado, com o Lula, ao menos efetivamente.
Com isso, em termos comparativos, o peso econômico dos salários do judiciário, em termos produtivos (o que o judiciário produz não tem valor econonômico - a rigor não deveria), é indefensável, diante dos salários de mercado dos setores produtivos. A lógica do capitalismo parece ainda operar colonialmente, chicoteando seus súditos.
Quero dizer com isso que é gerado um desbalanceamento na formação de bacharéis e engenheiros, a despeito das questões de vocação, de "chamado". Pois falamos de profissão e não de sacerdócio.
Um sintoma desse desbalanceamento é ver gente boa lá no Instituto de Química da UFF com um livrinho de Direito Constitucional na mão. Não era um aluno, mas um professor.
Ou se repensa a estrutura do judiciário, pra citar, de novo o Dr. Joaquim Barbosa, no Globo de ontem, ou se pensam as estruturas brasileiras que nos podem impulsionar a uma real independência (limitada, é certo, por força do mundo globalizado). Acho que pensar nesta segunda via é mais recompensador e inteligente. Enfim, aumento de salários e oportunidades.
Do jeito que as coisas andam, está difícil ser engenheiro químico por estas bandas.

2 de janeiro de 2010

Eis um novo tempo

Eis o novo, eis o retinente som da expectativa!
Eis o possível, o incerto, o incrível, o indefinível.
Eis o histórico produto do antes, da esperança, da força, da beleza, da tristeza, da tragédia e da redenção.
Um segundo mais distante do porvir, incontáveis milhões de anos do início.
Um novo tempo que vem, que virá, que já foi.
Desejo um ano radiante a todos!
Vivamos à altura do sonho!

26 de outubro de 2009

Uma crônica da Elogiomânia


Há uma frase atribuída a Einstein que diz: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”. Em se tratando de Clive Staples Lewis, falamos então de um homem da mais alta importância, de um verdadeiro mestre da imaginação.
Quem quiser percorrer as páginas de sua autobiografia espiritual, Surpreendido pela Alegria, constatará que sua própria visão de mundo era perpassada pela imaginação de muitos outros mundos, países e povos, vivos pelo coração e com os contornos que a mente lhes poderia conferir.
Como todo bom escritor, Lewis começa como um excelente leitor de clássicos imortais e, em sua obra magna, As Crônicas de Nárnia, faz uso de toda a erudição que tinha, da maneira mais gostosa e leve possível, convidando o leitor a aventuras em reinos distantes, em mares bravios, ao encontro com bestas, feras e dragões, e, acima de tudo com o rei dos mundos, o Leão, o Leão de Verdade.
Entretanto, não se sente qualquer afetação em Lewis. São mãos honestas que escrevem. Honestas, e de um poder, por que não, mágico, que vem de fora. Ele escreve do encontro maravilhoso com o divino como um fã das boas histórias, contadas, não por manuais de religião, mas por um tio ou um amigo muito legal da família, que acho que todos nós gostaríamos de ter quando éramos mais novos.
Aliás, Nárnia faz que eu me sinta perigosamente mais menino, louco para poder também participar das aventuras, montar em corujas, fugir de gigantes, lutar contra feiticeiras, e, acima de tudo, lutar ao lado de Aslam, no auge de seus selvagens ímpetos.
Além disso, não se pode deixar de aproveitar o privilégio de ler as cenas de batalha vindas da pena de alguém que lutou na Primeira Guerra Mundial e que, na Segunda Guerra estimulou pelo rádio os ingleses a refletirem sobre suas vidas de forma a enxergar que o verdadeiro inimigo, acima de qualquer alemão, estava a ser vencido dentro de cada um de nós: o orgulho.
É em Cristianismo Puro e Simples, que C.S. Lewis, como um homem formado e formador de tradição em duas das melhores universidades do mundo fala como um igual, uma pessoa absolutamente comum, com um punhado de bons exemplos sobre a fé cristã. Parece um amador falando, mas com um conhecimento de um perito.
Escrever mais aqui sobre Nárnia talvez fosse de péssimo gosto, pois o filme já vai começar daqui a pouco. Quem sabe este não seja um primeiro convite às outras crônicas?
Deixaria aqui marcadas as palavras de elogio a um santo da igreja bendita de Jesus, o irlandês que teve as parábolas adequadas para o século XX. Um homem que viu beleza e simplicidade por trás da complexidade da fé e soube transmitir verdades incalculáveis até mesmo para a menor idade.
Se há algo que se pode falar sobre a história da fé, é que ela é incrível e, se apanharmos nossas bíblias, veremos que muitas vezes (muitas mesmo) a teologia mais adequada é contar histórias. Desde a formação do mundo, e chegando até Jesus, temos histórias que importam e histórias que pedem para ser contadas e recontadas, até que entendamos de onde partem e para onde querem nos levar.
C.S. Lewis as expõe em alto e bom som nas Crônicas de Nárnia. Basta uma mente aberta e um coração disposto para descobrir que a vida, de fato, é bem mais impressionante do que parece, com um céu aberto para além das estrelas, na presença do personagem mais fantástico e real que sempre existiu. Nossa ida para lá, estas novas terras, estes novos céus, deve ser de uma aventura emocionante, que nos vale o preço de nossa própria caminhada, de nossa jornada em meio aos perigos da vida, da distância, da descrença, da falta de amor, e da morte.
Mas por fim (Ah! Como os bons romances têm que ter um final maravilhoso!), quando a entrega é verdadeira, a aventura é sem fim.
Nas palavras finais de C.S. Lewis em Cristianismo Puro e Simples:
“Quão monótona é a semelhança que iguala todos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a diferença dos santos!
Mas o eu precisa ser entregue de verdade. Você tem, por assim dizer, de lançá-lo fora “às cegas”. Cristo de fato lhe dará uma personalidade nova, mas não é por causa disso que você deve buscá-lo. Enquanto estiver preocupado com sua personalidade, você não estará caminhando na direção dele de modo algum. O primeiro passo consiste em procurar esquecer completamente de si mesmo. Seu novo eu, seu eu verdadeiro (que é de Cristo e também é seu, e é seu justamente porque é dele) não surgirá enquanto você estiver procurando. Só surgirá quando o objeto de sua procura for ele. Acaso isso parece estranho? Saiba que o mesmo princípio vigora em assuntos muito mais terrenos. Mesmo na vida social, você jamais causará boa impressão a outras pessoas enquanto não parar de pensar na impressão que está causando. Mesmo na literatura e na arte, ninguém que se preocupe especificamente com a originalidade poderá jamais ser original; ao passo que, se você tentar falar a verdade (sem ligar a mínima a quantas vezes a mesma verdade já foi declarada no passado), nove vezes em dez será original sem percebê-lo. Esse princípio rege a vida inteira, do começo ao fim. Entregue-se, pois assim encontrará a si mesmo. Perca sua vida para salvá-la. Submeta-se à m0rte, à morte cotidiana de suas ambições e dos seus maiores desejos e, no fim, à morte do seu corpo inteiro: submeta-se a ela com todas as fibras do seu ser, e você encontrará a vida eterna. Não guarde nada para si. Nada que você não deu chegará a ser verdadeiramente seu. Nada que não tiver morrido chegará a ser ressuscitado dos mortos. Se você buscar a si mesmo, no fim só encontrará o ódio, a solidão, o desespero, a fúria, a ruína e a podridão. Se buscar a Cristo, o encontrará; e, junto com ele, encontrará todas as coisas.”
1

Palavras imortais, atemporais, da magia mais profunda.

1- LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
-Texto escrito e lido por ocasião de um encontro da Igreja Batista do Caminho, em que assistimos ao filme O Leão a Feiticeira e o Guarda-roupa.

12 de agosto de 2009

Nada tão simples

Não se faz um dia, acendendo uma vela
E não se monta uma noite com uma lua de papel.
Muito menos há filho sem ter sido gerado,
Ou vida só por haver.

Não, não há nada que não tenha um quê de intrigante
Nada é tão simples,
Talvez somente um beijo de mãe.

Não se faz um castelo com apenas um tijolo,
Nem se convida o inverno pra entrar,
À porta de gente que tem frio e fome.
Não se dá o braço ao leão,
Ou o pescoço à corda.

Não, não há nada que não tenha um quê de intrigante
Nada é tão simples,
Talvez somente um beijo de mãe.


- Canção do baú (dos idos de 2000 e qualquer coisa), em homenagem ao Jacaman.