Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.

26 de outubro de 2009

Uma crônica da Elogiomânia


Há uma frase atribuída a Einstein que diz: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”. Em se tratando de Clive Staples Lewis, falamos então de um homem da mais alta importância, de um verdadeiro mestre da imaginação.
Quem quiser percorrer as páginas de sua autobiografia espiritual, Surpreendido pela Alegria, constatará que sua própria visão de mundo era perpassada pela imaginação de muitos outros mundos, países e povos, vivos pelo coração e com os contornos que a mente lhes poderia conferir.
Como todo bom escritor, Lewis começa como um excelente leitor de clássicos imortais e, em sua obra magna, As Crônicas de Nárnia, faz uso de toda a erudição que tinha, da maneira mais gostosa e leve possível, convidando o leitor a aventuras em reinos distantes, em mares bravios, ao encontro com bestas, feras e dragões, e, acima de tudo com o rei dos mundos, o Leão, o Leão de Verdade.
Entretanto, não se sente qualquer afetação em Lewis. São mãos honestas que escrevem. Honestas, e de um poder, por que não, mágico, que vem de fora. Ele escreve do encontro maravilhoso com o divino como um fã das boas histórias, contadas, não por manuais de religião, mas por um tio ou um amigo muito legal da família, que acho que todos nós gostaríamos de ter quando éramos mais novos.
Aliás, Nárnia faz que eu me sinta perigosamente mais menino, louco para poder também participar das aventuras, montar em corujas, fugir de gigantes, lutar contra feiticeiras, e, acima de tudo, lutar ao lado de Aslam, no auge de seus selvagens ímpetos.
Além disso, não se pode deixar de aproveitar o privilégio de ler as cenas de batalha vindas da pena de alguém que lutou na Primeira Guerra Mundial e que, na Segunda Guerra estimulou pelo rádio os ingleses a refletirem sobre suas vidas de forma a enxergar que o verdadeiro inimigo, acima de qualquer alemão, estava a ser vencido dentro de cada um de nós: o orgulho.
É em Cristianismo Puro e Simples, que C.S. Lewis, como um homem formado e formador de tradição em duas das melhores universidades do mundo fala como um igual, uma pessoa absolutamente comum, com um punhado de bons exemplos sobre a fé cristã. Parece um amador falando, mas com um conhecimento de um perito.
Escrever mais aqui sobre Nárnia talvez fosse de péssimo gosto, pois o filme já vai começar daqui a pouco. Quem sabe este não seja um primeiro convite às outras crônicas?
Deixaria aqui marcadas as palavras de elogio a um santo da igreja bendita de Jesus, o irlandês que teve as parábolas adequadas para o século XX. Um homem que viu beleza e simplicidade por trás da complexidade da fé e soube transmitir verdades incalculáveis até mesmo para a menor idade.
Se há algo que se pode falar sobre a história da fé, é que ela é incrível e, se apanharmos nossas bíblias, veremos que muitas vezes (muitas mesmo) a teologia mais adequada é contar histórias. Desde a formação do mundo, e chegando até Jesus, temos histórias que importam e histórias que pedem para ser contadas e recontadas, até que entendamos de onde partem e para onde querem nos levar.
C.S. Lewis as expõe em alto e bom som nas Crônicas de Nárnia. Basta uma mente aberta e um coração disposto para descobrir que a vida, de fato, é bem mais impressionante do que parece, com um céu aberto para além das estrelas, na presença do personagem mais fantástico e real que sempre existiu. Nossa ida para lá, estas novas terras, estes novos céus, deve ser de uma aventura emocionante, que nos vale o preço de nossa própria caminhada, de nossa jornada em meio aos perigos da vida, da distância, da descrença, da falta de amor, e da morte.
Mas por fim (Ah! Como os bons romances têm que ter um final maravilhoso!), quando a entrega é verdadeira, a aventura é sem fim.
Nas palavras finais de C.S. Lewis em Cristianismo Puro e Simples:
“Quão monótona é a semelhança que iguala todos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a diferença dos santos!
Mas o eu precisa ser entregue de verdade. Você tem, por assim dizer, de lançá-lo fora “às cegas”. Cristo de fato lhe dará uma personalidade nova, mas não é por causa disso que você deve buscá-lo. Enquanto estiver preocupado com sua personalidade, você não estará caminhando na direção dele de modo algum. O primeiro passo consiste em procurar esquecer completamente de si mesmo. Seu novo eu, seu eu verdadeiro (que é de Cristo e também é seu, e é seu justamente porque é dele) não surgirá enquanto você estiver procurando. Só surgirá quando o objeto de sua procura for ele. Acaso isso parece estranho? Saiba que o mesmo princípio vigora em assuntos muito mais terrenos. Mesmo na vida social, você jamais causará boa impressão a outras pessoas enquanto não parar de pensar na impressão que está causando. Mesmo na literatura e na arte, ninguém que se preocupe especificamente com a originalidade poderá jamais ser original; ao passo que, se você tentar falar a verdade (sem ligar a mínima a quantas vezes a mesma verdade já foi declarada no passado), nove vezes em dez será original sem percebê-lo. Esse princípio rege a vida inteira, do começo ao fim. Entregue-se, pois assim encontrará a si mesmo. Perca sua vida para salvá-la. Submeta-se à m0rte, à morte cotidiana de suas ambições e dos seus maiores desejos e, no fim, à morte do seu corpo inteiro: submeta-se a ela com todas as fibras do seu ser, e você encontrará a vida eterna. Não guarde nada para si. Nada que você não deu chegará a ser verdadeiramente seu. Nada que não tiver morrido chegará a ser ressuscitado dos mortos. Se você buscar a si mesmo, no fim só encontrará o ódio, a solidão, o desespero, a fúria, a ruína e a podridão. Se buscar a Cristo, o encontrará; e, junto com ele, encontrará todas as coisas.”
1

Palavras imortais, atemporais, da magia mais profunda.

1- LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
-Texto escrito e lido por ocasião de um encontro da Igreja Batista do Caminho, em que assistimos ao filme O Leão a Feiticeira e o Guarda-roupa.

12 de agosto de 2009

Nada tão simples

Não se faz um dia, acendendo uma vela
E não se monta uma noite com uma lua de papel.
Muito menos há filho sem ter sido gerado,
Ou vida só por haver.

Não, não há nada que não tenha um quê de intrigante
Nada é tão simples,
Talvez somente um beijo de mãe.

Não se faz um castelo com apenas um tijolo,
Nem se convida o inverno pra entrar,
À porta de gente que tem frio e fome.
Não se dá o braço ao leão,
Ou o pescoço à corda.

Não, não há nada que não tenha um quê de intrigante
Nada é tão simples,
Talvez somente um beijo de mãe.


- Canção do baú (dos idos de 2000 e qualquer coisa), em homenagem ao Jacaman.

24 de junho de 2009


Arte é definida como “a capacidade humana de criação e sua utilização com vistas a algum resultado, obtido por diferentes meios” (Aurélio).
Olhando pra Bíblia, vemos a manifestação de diferentes gêneros literários e uma verdadeira profusão de poesia que vai do piedoso ao erótico, como nos Salmos e em Cantares. Há no texto santo as expressões de um povo e sua cultura, com suas peculiaridades, e elas querem dizer do Deus criador, do seu Deus, que, ao mesmo tempo, é o único Deus, criador, criativo, artístico.
Assim sendo, se cremos num Deus criador e se a arte é possível, deve ser também possível enxergar que a arte é algo que nos relaciona ao divino nas criações humanas. Que é uma graça para que também, em liberdade, seja o homem um artista, um pequeno criador, em harmonia com o plano divino. Naturalmente, não poderemos nunca colocar o homem em pé de igualdade com o seu Criador divino, mas o esforço artístico deve ser contemplado como parte da vida humana em que a possibilidade de criar lhe é inerente, mas quem o dota de tal capacidade é o ser transcendente.
Daí, de observar e experimentar a natureza, suas cores, seus odores, sua música, sua textura indelével, o homem cria, recria e anda, não em marcha, mas em dança existencial expressando o divino e o diabólico que há nele.
O grande desafio ao cristão, a partir desta perspectiva, é expressar naturalmente o divino que nele habita, seja onde, como e do jeito que for.
- Texto escrito e lido por ocasião da Mesa Teológica de 20 de junho de 2009. Origado, Bianca e Silvestre!

14 de maio de 2009

Doce suspiro

Ah, a vida!
Talvez a melhor maneira de fazer a vida correr seja deixando que ela vá, ligando-se às correntes mais primárias de sua origem. No Deus que coloca o universo pra expandir. Impressionante como Deus, mesmo permitindo o acaso, projetou um acaso criativo, nunca alheio à Sua harmonia, mas ao mesmo tempo livre, complexo, intocável, solto, permissivo; enfim, paradoxal.
É fantástico ver-se desenvolver, ver-se andar na matéria, fazer energia (no sentido mais físico da palavra) fluir do corpo, movimentar, remodelar, entrar na matéria e entender a mágica da existência pura, bruta, organizada subjetivamente no concreto!
Ao mesmo tempo a vida pede um olhar metafísico, pra fora, ou por entre a matéria, na expectativa mesma da reconciliação universal da simples existência do todo, do inseparável.
A encarnação de Deus é pra mim o grande mistério, maravilhoso, que fuzila qualquer esperança de olhar pra uma outra espiritualidade que não esteja calcada no possível, na relação, na liberdade de ida e volta, na possibilidade infinita do amor autêntico.
Imagino que a criação seja o ato mais grandioso de qualquer ser. Pensando num Deus criador, olhar em volta, ver homens e mulheres, árvores e a confusão de beleza de pôr-de-sóis, dos infinitos matizes que nunca deixam de espantar; pensando neste ser, é impossível não pensá-lo como alguém que lança cordas diárias para recolher nossas
Quem duvidaria que se conte a história de que este Deus, no anseio por ver a beleza sair de Suas mãos para um universo do que é partilhado, do que pode ser reinterpretado livremente, por ciência, filosofia e, sobretudo, arte, enfim, que Ele tenha soprado numa porção da matéria, num punhado de barro e tenha feito o barro, a partir dali, em si, ter vida.
Vida interpretativa, criativa, imitadora do Pai, como quem aprende como as coisas devem ser feitas.
Ah! Doce suspiro por uma vida eterna junto do Criador da criação.

12 de maio de 2009

Saltando

Um dia eu pensei em ter um grande amor. Essas coisas de amor são difíceis...
As pessoas são alvo dos mais diferentes acidentes de vida. Perdem os parentes, os amigos, as paixões; perdem os rumos e vêem as coisas virarem pelo avesso. Emoções, afeto e ternura são passadas pelas mãos das desilusões, transformam-se em desventuras, depressão, doença, e, por fim, nos prostram.
Detonam o grito da existência dolorosa, do calor insuportável, do frio do mundo, do escuro da alma.O desencontro da tristeza é a coisa mais terrível que pode assolar uma pessoa normal. Há a reincidência, o questionamento, a interminável pergunta: por quê? por quê? por quê? por quê, ó Deus!?!?
Por que o meu sofrimento interminável pelas questões da vida que eu não controlo?!
Por que um coração sofre? Por que ele padece e vai às raias do desespero e quase sucumbe?
Eu não sei.
Mas sei que do confronto do nosso coração com o mundo, em colocá-lo diante de nós e de ouvi-lo; de colocá-lo diante de Deus, a gente vai mudando, ganhando perspectiva, olhando pra frente.
O tempo passa, as dores vão virando queixas, as queixas viram procura, a procura vira escolha, a escolha é um salto.
Um salto de amor a gente tem que dar.
Nossa situação existencial, já disseram, é cheia de saltos: a gente salta pra Deus, pra verdade, pro amor.Graças a Deus, na minha vida, eu encontrei e encontro hoje os pousos certos dos meus pulos.
Um Deus que segura, a verdade que existe e chama e o amor dos meus queridos, da minha querida.É uma alegria pular nos braços dos que nos amam. É uma alegria muito grande pular nos braços de alguém a quem você ama e que te ama de volta.
É uma alegria pular nos braços da Priscila.
O salto é necessário, é preciso, é bom, é coisa de Deus, é o imperativo da vida nas suas composições mais profundas, mais elementares.Obrigado, Senhor, pela vida humana. Tenho mesmo que agradecer pelas pessoas que me seguram. E agradecer-lhes, todas. Em especial, agradecer a quem me agarrou pelo coração e me dá ânimo para a caminhada a quatro pernas do futuro.