15 de janeiro de 2013

Babel e a incerteza



A certeza não parece ser a substância ou a essência da experiência humana. A locomotiva da razão parece precisar de fé como combustível de seu motor.

Vamos começar com uma das afirmações filosóficas mais simples e penetrantes: “só sei que nada sei”. Pode parecer um arremedo filosófico da humildade, uma fórmula antiga da pieguice, mas acho que julgar Sócrates assim seria um tanto injusto com o homem que enfureceu a democracia ateniense com seus questionamentos e método. Parece que a fibra moral do homem, ao menos no questionamento filosófico, era inexpugnável. De qualquer forma, isso deixa de ser relevante diante da própria validade e permanência da máxima como fundamento da pesquisa: quem quer saber qualquer coisa deve primeiro admitir que não sabe de nada.  

Avançando uns 5 séculos, também o apóstolo Paulo escreve algo similar: “E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” (1Co.8:2). Entretanto, se em Sócrates temos uma quase confissão, a direção de Paulo é um pouco mais afastada de si mesmo, para extrapolá-la ao coletivo. E, de fato, sobre Deus, o absoluto mistério, quem pode bater no peito e dizer que sabe qualquer coisa?

Na Alemanha dos anos 1900, David Hilbert havia montado um programa direcionado a resolver 23 problemas da matemática que persistiam no horizonte e que, se eliminados, a tornariam um todo harmônico, completamente coerente e amparado nas regras básicas do 2+2, a aritmética. Resolvidos os problemas com base na construção elementar da aritmética e subindo de pouquinho em pouquinho a complexidade, a matemática seria uma fortaleza teórica perfeita, auto-referente e de absoluta coerência. Infelizmente para Hilbert, surgiu um outro gênio que percebeu que isso não seria possível.

O austro-húngaro Kurt Gödel desmontou a “teoria de tudo” da matemática, a torre de Babel teórica, antes mesmo de ela nascer, com seus 2 Teoremas da Incompletude. Gödel viu que era (e ainda é) impossível provar a validade de uma premissa dentro de uma teoria que a utilize. A validade da premissa só pode ser provada em uma teoria maior, que compreenda um mecanismo de prova da premissa. Assim, uma teoria que funcione (que seja consistente) não precisa, ou melhor, não pode ser completa. E a teoria que é completa e explica qualquer asserção é, necessariamente, inconsistente, ou seja, ela vai cair inevitavelmente em contradições de auto-referência. O exemplo mais comum disso está na beleza dos paradoxos que bem poderiam ser desenhados por Escher.

O paradoxo do mentiroso, que inspirou o próprio Gödel, é um reflexo dessa inconsistência da linguagem. Se um pessoa diz “eu estou mentindo”, é impossível saber se isso é uma verdade ou uma mentira, pois, se a afirmação é verdadeira, logo a pessoa está mentindo. Se, por outro lado, a afirmação é falsa, a pessoa estaria falando uma verdade, o que contradiz o enunciado do que ela está dizendo de fato. Esse tipo de paradoxo não tem solução e, aparentemente, é inofensivo em nossas vidas.

Entretanto, nossas ferramentas mais precisas não conseguem tapear esse problema de lógica, de modo que é impossível que um computador não cometa erros quando se depara com esse tipo de questão, pois se sua linguagem é completa, ela é necessariamente inconsistente pela auto-referência a uma operação que lhe é imanente. Imagine um comando de computador para imprimir a frase “esta afirmação é mentirosa” somente caso seja verdadeira. Assim, existem pressupostos que têm de ser simplesmente aceitos para que uma teoria matemática funcione.

Veja, não estamos falando de química, engenharia ou geografia, que seriam ramos menos precisos para afirmações absolutas. Na escala de precisão, nada é como a matemática, que é, por excelência, a ciência dos absolutos. Nela se verifica que existe uma indecidibilidade fundamental. Existem sistemas lógicos que são, por natureza, incoerentes. Na pior das hipóteses, os matemáticos garantiram seus empregos para sempre, pois não é possível uma matemática totalitária que mande em si mesma. Se em alguma teoria totalizadora surgirem as provas da validade de suas premissas, a teoria implode pela inconsistência e dirá a todos: “eu estou mentindo.”

Se a partir da filosofia e teologia clássicas podemos abraçar uma docta ignorantia e na lógica moderna arrumamos um bom argumento para a desvalorização de um amontado racional completamente auto-suficiente, a demonstração do acerto dessa postura se mostra também um pilar epistemológico da mecânica quântica. É realmente fenomenal que a indefinição tenha seu equivalente no universo que nos circunda. O Princípio da Incerteza nos informa que é impossível saber a posição e a velocidade de uma partícula ao mesmo tempo e, com isso, tudo o que podemos descobrir sobre o comportamento das indomáveis partículas elementares são probabilidades de onde estão e com que velocidades estão viajando. Heisenberg sabia das coisas e teve um insight maravilhoso. O interessante é que esse é um princípio da mais alta validade, com consequências das mais inesperadas (por exemplo, a comprovação do bizarro condensado de Bose-Einstein), que surge de um raciocínio coerente, elegante e simples: para ver qualquer objeto, é preciso que a luz toque o objeto, seja refletida e entre em nossos olhos.

Mas se formos encolhendo o tamanho do objeto que queremos observar até o tamanho de uma partícula similar ao tamanho da luz (não se esqueça que a luz tem um comportamento de onda e de partícula – o fóton – ao mesmo tempo), para que o objeto seja visto teremos que lançar a luz sobre ele e captar o que for rebatido de volta. Mas, se objeto e fóton têm dimensões similares, isso será como tentar encontrar um ratinho vestido com colete de borracha dentro de um quarto totalmente escuro disparando tiros no bicho e ficar esperando a bala voltar. Talvez seja mais fácil se guiar por um gemido do ratinho. Pode-se, de outro modo, pensar a situação como um jogo de sinuca quântico, em que se quer saber onde a bola preta está, de onde veio e para onde está indo, com o único recurso de bater a bola branca nela, de olhos vendados. Na hora em que ouvirmos um “clac!” encontramos a partícula e saberemos mais alguma coisa quando a bola voltar para nós.

Enfim, o ponto é que para conhecer exatamente a velocidade e a posição de uma partícula, o observador precisará interferir na trajetória da partícula jogando alguma “coisa” que ele manipule (outra partícula) em cima dela e esperar que a partícula a rebata. O que pode ser medido será alguma diferença entre o que foi jogado e que voltou no rebote. Dessa forma, é impossível saber a posição e a velocidade das menores partículas ao mesmo tempo, pois qualquer técnica de observação no nível quântico afetará a posição ou velocidade original da partícula. Nesse nível, o observador afeta então o resultado da observação, pelo simples fato de observar.

Esse princípio é tão visceralmente oposto ao determinismo, que toda a mecânica quântica, a teoria matemática mais exata e potente que temos para explicar a realidade físico-química em que vivemos, está baseada no cálculo de probabilidades dos eventos, em vez da certeza deles. 
Existe, com razão, uma resistência grande por parte de físicos com a popularização da afirmação de que a própria observação de um evento já o altera, especialmente para questões macroscópicas em que o observador, só por observar, não afeta em nada o experimento (ou não aparentemente). Extrapolar esse tipo de raciocínio muitas vezes implica em falar besteira, mas a intervenção social de alguns observadores de fato interfere com a realidade de alguns sistemas sociais. Antes de falar da sociedade, talvez seja útil começar por uma cabeça isolada.

No mesmo século XX, Freud preparava sua psicanálise sob a sombra de uma incerteza em seu método. Imagino a fumaça de um charuto subindo de um cinzeiro, num café na fria Viena sob o sol, numa conversa com seu único confidente, Wilhelm Fliess. Fliess vai embora e, no fundo da memória, vem uma doce lembrança de como as amizades são boas, em especial na infância, aquele tempo perfeito em que não há qualquer problema com os pais ou desejos reprimidos. Mas, espere um minuto... é isso mesmo? Não! É na infância que há desejos dúbios intrincadamente relacionados com a sexualidade e o afeto pela mãe e o inconsciente movimento de rejeição do pai – pensa Freud.

Poderia ter sido assim, depois de uma conversa de bar amistosa, que a formação do conceito do Complexo de Édipo tivesse ocorrido, fruto de uma lembrança errada. Não faço ideia de como tenha sido, mas parece que resultou da auto-análise dos sonhos de Freud, após a morte de seu pai. Ele determinou que suas próprias neuroses vinham da hostilidade com relação ao seu bronco pai e à atração pela mãe afetuosa.

Mas vale enfatizar algo que sustenta a psicanálise: para que uma neurose decorrente de um trauma seja tratada, é preciso que se fale sobre ele. Com as ferramentas teóricas de um cientista, devemos separar algumas coisas: a experiência, a lembrança e o sintoma. Poderíamos acrescentar a esses termos também o relato do trauma. Cada um aparece de forma diferente no tempo e, como Freud e muitos psicólogos descobriram, muitas vezes, o relato do trauma não casa com o que de fato aconteceu. A memória engana.

Há, inclusive, testes para comprovar essa deficiência fugidia da memória, com listas de palavras, em que o sujeito enfia uma palavra que não estava originalmente na lista, por associação com as originais. Por exemplo, se alguém começa a falar “geometria, lados, ângulos, três, forma, polígono, pontos”, etc., é bem provável que a pessoa faça a associação com a palavra “triângulo” e, assim, quando perguntada sobre quais palavras foram ditas, ela responda “triângulo”, sem que a mesma nunca tenha sido dita. Ela não se lembra se foi dita, mas parece que sim. 

Por isso, Freud ensina que as lembranças infantis dos primeiros anos, na verdade, não emergem mas são formadas (construídas) tão logo a pessoa comece a pensar no passado, como uma criança mais crescidinha. A conclusão é que todo mundo joga um pouco do que está vivendo em cima de lembranças do passado e, assim, modifica a própria lembrança, ao sabor de algumas variações de humor e das circunstâncias imediatas, dentro de algumas margens. Há memórias boas, mas parece que mesmo nas melhores ela não é algo 100% confiável.

Isso, para mim, é como o Princípio da Incerteza aplicado à psicologia. É a sinuca psicológica. No nível mais fundamental, ao tentar acessar uma lembrança para ver sua causa, a pessoa pode eventuamente mudar o que foi a causa baseada no que está vivendo agora. Talvez esse problema decorra justamente da incerteza das partículas elementares, os elétrons que passeiam pela nossa cabeça, e da linguagem. Lança-se um acesso à memória que bate na lembrança e volta uma leitura ligeiramente diferente do que de fato ocorreu. Para Freud, a chave de interpretação dessa discrepância é a própria linguagem. Entre a “lembrança encobridora” (é o termo que ele usa) e o trauma está provavelmente uma expressão verbal que faça a associação entre as duas.

Apelando a um ligeiro e temporário ajuste no foco, o exemplo da torre de Babel talvez nos faça olhar as coisas do ponto de vista da certeza, dos projetos infalíveis e completos e sua patente incapacidade de responder de forma definitiva aos problemas sociais, justamente pela presunção da sabedoria absoluta. Migdal Bavel foi o termo cunhado para designar uma mega fortaleza militar cosmopolita, (quase) certamente a Babilônia. Era um projeto de perfeição e, provavelmente, muito pouco tinha a ver com a construção vertical de um prédio infinito, mas muito mais com um projeto antigo de hegemonia cultural. O ensinamento bíblico é de que esse tipo de projeto está fadado ao fracasso, pois, por muito pouco, os homens podem começar a se desentender. Não nos sirvamos apenas de Babel, mas da história do século XX e suas guerras, para ver que os projetos megalômanos assentados na certeza absoluta de que determinada convicção é a verdade fundamental sobre a qual a humanidade deve se estabelecer socialmente são os que mais sofrimento e confusão trouxeram ao homem. A ruína não está na engenharia civil de Babel, mas na visão de mundo, nos tijolos culturais. Na engenharia social. Parece que os projetos totalitários guardam esse resquício de certeza bem intencionada, de uma linguagem única, que se implode.

Divagando um pouco, o equivalente a tentar resolver os paradoxos envolvidos nos teoremas de Gödel pela lógica ou na sociedade pela engenharia social da hegemonia cultural para a qual a humanidade parece avançar seria o equivalente ao melhor neurocirurgião do planeta fazer um procedimento em seu próprio cérebro, para curar uma deficiência. Isso, em vez de ser o ápice da conquista da ciência, parece que seria um desastre. Entretanto, parece que as ideias de hegemonia cultural são das mais sedutoras em determinadas perspectivas da religião, da ciência e da formação cultural. Nossos problemas não podem ser resolvidos internamente, podem ser somente descritos e impulsionados a novas escalas de conhecimento pela certeza do indefinido, do limite. Parece que, esbarrando em um limite, a descrição dele, a retificação da experiência, impulsiona a novos saberes e experiências, nos diferentes campos integrados: científico, artístico, afetivo, moral e espiritual.
Só é possível conviver em algum tipo de harmonia com a razão, assumindo os riscos de seu erro, quando há suposição da totalidade e de sua auto-suficiência. Nesse prisma, a Fé simples deve rir deliciosamente, imagino, pois sua ambição certamente não é megalômana como o projeto da Razão. Digo da fé como a aceitação imediata de um fato não comprovado, mesmo que a aceitação seja para que se comprove, por retificação, que o fato é infundado. Mesmo assim, se recorrerá a uma premissa melhor pela fé. Entretanto, há os perigos da fé absoluta como certeza inescapável. Daí, soa uma risada diabólica da ignorância, à qual é possível nos prendermos pela aceitação das premissas falsas e nos apegarmos a elas. Dela vivem os parasitas que vemos na TV.

A indefinição fundamental que envolve o homem em sua pequena existência é ao mesmo tempo libertação e prisão. Uma prisão pela presente desconfiança dos sentidos e da própria razão. Libertação da perfeição, pelo afastamento da presunção de se alcançar a verdade absoluta e última pelo raciocínio puro e exato. Uma prisão pelo trabalho contínuo que, mal direcionado, levará ao desgaste da busca pelo intangível. Libertação para um trabalho de transformação de prazo indefinido, em que o mal vai sendo combatido diariamente com um pouco de bem que é possível fazer, dentro da forças reais que se tem. Prisão pelo mal que devagar pode nos ir sugando para o projeto da certeza, da arrogância e da conquista triunfalista. Libertação pela possibilidade de reconduzir os caminhos perenemente, driblar o sofrimento de forma criativa, encontrar novas possibilidades de amar e ser.

O salto de Kierkegaard. Eis aí o convite da indefinição, em sua demolição do projeto de todas as torres de Babel.

18 de janeiro de 2011

Jogos e trapaças

Todo mundo já brincou, pelo menos alguma vez na vida, daqueles joguinhos de memória, em que as cartas estão viradas e o jogador as vai desvirando, aos pares. Quando as duas figuras são iguais, ele avança, deixando ambas desviradas. O objetivo é desvirar todas as cartas o mais rápido possível e, para isso, é preciso ter uma memória de curta duração boa. Atualmente, é quase impossível não encontrar esse tipo de jogo de forma virtual, desde os mais simples, para crianças, até os mais sofisticados.

Uma outra prática possível para o mesmo estilo de jogo é a cata de pés de meias iguais num mesmo baú de roupas. E, cá entre nós, embora seja bem mais útil, nossa disposição para nos divertirmos com o jogo das meias é bem menor do que com jogos virtuais. O vencedor é aquele que consegue calçar as meias do mesmo par e, ainda assim, ir animado para o trabalho. Pode-se considerar, para fins da atividade intelectual, o mesmo que o jogo virtual, só que parte da realidade prática dos homens. Mais: embora ninguém vá te zombar por desistir do jogo de cartas, experimente sair de casa com uma meia rosa e outra preta. A não ser que você seja um adolescente revoltado ou esteja indo a uma festa ploc, é ridículo.

Não é possível enxergar muita diferença entre os 2 jogos, no que diz respeito ao objetivo entre as duas atividades. O objetivo é formar os pares corretos, com base na igualdade entre as formas e cores das figuras. No caso do jogo com cartas, ou virtual, as figuras estão nas cartas. No caso das meias, elas são as próprias figuras. As diferenças são óbvias. Enquanto as cartas ficam dispostas sobre uma mesa, ou na tela do computador, de forma organizada, alinhadas de forma apropriada, as meias estão no baú, todas bagunçadas e misturadas. Enquanto uma meia só serve se houver um pé para enfiar, as cartas e figuras nos estimulam mais os olhos. Mas, no fundo, no fundo, o jogo é o mesmo.

Um é um jogo para quem está querendo passar o tempo. O outro é um jogo que ocupa o tempo. Um é diversão, o outro, trabalho braçal.

De forma semelhante, a experiência humana é cheia de atividades que, embora não se pareçam muito à primeira vista e até possam ser vistas como contrárias, no fundo guardam uma relação misteriosa de similaridade.

As religiões, por uma leitura através do prisma da antropologia e da sociologia, podem ser consideradas como sistemas de símbolos com suas próprias linguagens. O cristianismo, por exemplo, incorpora os símbolos da eucaristia, do sacramento, do sacrifício salvífico de Cristo, dentro de espectros familiares à linguagem do judaísmo, que, por sua vez manteve seus próprios símbolos e ampliou a gama de relações entre eles, na leitura da torá, no seguimento de ritos tradicionais milenares, na afirmação do monoteísmo e do messianismo davídico. Para cada símbolo, um mistério como pano de fundo, experiências variadas e razões que caminham ao lado das experiências coletivas e individuais daquele que crê. Pelo menos essa é uma maneira de enxergar as coisas. Eu, como cristão, abracei um prisma de leitura, diria, um pouco mais abrangente: o do relacionamento com Cristo. Diria que os simbolismos ajudam muito, mas não são a substância da relação.

Mas, é interessante dar prosseguimento ao raciocínio e não abortá-lo com minha experiência pessoal logo de início.

Tenho acompanhado, no passado de forma tímida, mas mais atualmente como quem quer entrar na conversa, algumas das disputas intelectuais sobre a inexistência de Deus. Dizendo assim, acho que não faço jus às declarações.

Na verdade, o ateísmo militante do presente século atua em duas frentes. Uma é a destruição da verdade absoluta, dos absolutos em geral, como se fossem o mais terrível dos pecados. Deus nos livre de crer em um Deus absoluto! Outra frente, se não faz a assertiva de que tal coisa como a verdade não existe, vai além, com um armamento extremamente pretensioso, cujo projeto é trazer para dentro da perspectiva ateísta a própria verdade absoluta. Não há verdade fora do ateísmo.

Homens como Richard Dawkins e Christopher Hitchens têm tentado, num projeto audacioso, a pregação da destruição da religião. Têm devotado suas existências à nobre causa do extermínio da fé e, dentro de seu espectro cultural, da fé cristã, como causa maior do mal na sociedade ocidental. Mas, no caso de o cristianismo não servir, há sempre o fanatismo islâmico como bode expiatório da estupidez e do desequilíbrio irracional dos produtos da religião.

Entretanto, gostaria de unir minha voz, pequena, por certo, ao gigante coro do bom senso e argumentar sobre os fundamentos epistemológicos do debate, pois parece que a presença da ciência é invocada como se fosse ela a entidade que garantisse a inexistência de deidades.

Se o ateísmo tem um mérito, esse mérito é a valorização da ciência. Se o ateísmo tem um demérito, esse demérito é a formação de um establishment científico. Guardando os rancores de alguns impulsos iluministas, a ciência é eleita como a expressão única da Razão, como expressão da verdade. Como a própria verdade. As citações são muitas para expor todas, mas vamos ficar com uma do físico norte-americano, recebedor do prêmio Nobel, Steven Weinberg:

“Eles sentiram que a ciência seria corrosiva às crenças religiosas e se preocuparam com isso. Droga, acho que eles estavam certos! Ela corrói crenças religiosas e isso é uma coisa boa!”

Não é difícil encontrar esse tipo de frase em portais do saber. Entretanto, é interessante por dois aspectos: sua penetração e sua superficialidade em termos do que se possa ter como religião. Em relação à penetração, é fato aceito (deveria ser) que, assim como há um bando de gente indo às igrejas sem entender o que seja graça, há um bando de gente odiando as mesmas sem saber o que é graça e sem o vigor intelectual dos cientistas em que se escoram. Assim como qualquer movimento social que envolva as massas, o ateísmo tem mercado. Em franca expansão. Não me espantaria se encontrasse, daqui a poucos anos, a Igreja Ateísta Geral do Naturalista Britânico a disputar sua membresia com a Católica Apostólica Romana.

O segundo ponto, a superficialidade da argumentação, se mostra uma das mais patentes contradições de um movimento que pretende negar a fé alheia, com base no que se supõe ser um elemento neutro: a ciência.

A não ser que cientistas ateus sejam pessoas nascidas de forma diferente que todas as outras, vindas de marte ou da lua, até onde eu saiba o terreno de discussão da validade dos argumentos sobre a religião é humano. Humano como a religião e suas alegadas e reais podridões.

E a ciência, longe de sair incólume da disputa, pelo contrário, sai manchada, cada vez que é usada para fora de seus propósitos investigativos. Aliás que é a ciência? Pergunto e ouso que me digam uma resposta. Qualquer um. Não é fácil arranjar uma definição para ciência que não a empurre para o método científico ou para “princípios”, “saber”, “instrução”, “conhecimento humano baseado na razão e experimentação”, etc.

É difícil estabelecer o que isso de fato quer dizer, pois, se vista de forma ampla, a ciência, tanto a utilizada para estudar os babuínos quanto para se estudar as estrelas, tem a característica de ser a ampliação dos saberes do homem sobre os objetos. Ou seja, por mais objetiva que seja em seu foco, a ciência é necessariamente subjetiva, pois requer um sujeito que avalie e julgue resultados objetivos. E como qualquer outra porção de experiência, a ciência, ou melhor, os cientistas, tão humanos quanto o mais religioso dos homens, julga com alguma dose de subjetividade dados objetivos. Isso vale tanto para o cientista ateu, quanto para o cientista católico ou hindu.

É memorável quão óbvio é o argumento oferecido pelo parágrafo anterior e, entretanto, é mais memorável ainda o fato de que uma confusão dos diabos atormente pessoas que exibem graciosamente suas armas intelectuais. A idéia de que a ciência pode e deve suplantar o conhecimento produzido pela religião é um projeto antigo, mas impressionantemente atual. Há dúzias de respeitáveis cientistas que alegam que a ciência deve ser a via de interpretação da realidade e, em hipótese alguma, algo como a religião. Homens que, embora sejam excelentes com as equações, provavelmente são sofríveis com poemas. E, pior ainda, homens que nem bons com as equações são, mas, mesmo assim, invocam a autoridade alheia para lhes servir de justificativa no abraçar de uma fé no vazio.

Digo fé no vazio e não o que alguns homens gostam de dizer, que seria a falta de fé. Falta de fé é a única coisa que, de pronto, numa discussão sobre ciência pode ser descartada.

“Em ciência, assim como em tantas outras áreas da vida, a fé é a sua própria recompensa.” Com essa frase, o notável David Berlinski termina um de seus capítulos do delicioso The Devil’s Delusion: Atheism and its scientific pretensions. Ele está absolutamente correto. Nada mais requer a ciência além da recompensa de que, estando suas previsões corretas, as pessoas passem a acreditar nela. Não só a ciência, mas assim acontece com a justiça e a arte, por exemplo.

Tomando a justiça para a análise de uma palavra ampla como “ciência” é, seria interessante procurar suas justificativas de forma científica, especialmente sob as perspectivas darwinianas. Que tal deixar a seleção natural cuidar de nossas crianças, em vez de qualquer espécie de amparo sócio-afetivo? Até mesmo alguns grandes mamíferos, como nossos amáveis cães, comem seus filhotes. Ou que tipo de justificativa poderiam conceitos como “direito adquirido”, “Estado de Direito”, “pessoa jurídica” ter diante da placidez do universo? A quem exigiríamos um “habeas corpus”, caso, de uma hora para outra, fôssemos enjaulados por algum déspota maluco? Isso não representaria absolutamente nada diante da realidade crua do universo, desde as partículas elementares até as explosões de supernovas. E, no entanto,essas coisas representam muito do que vivemos.

César Lattes disse certa vez que a ciência é a irmã bastarda da arte. Deve ser verdade. Mas deve ser igualmente verdade que a arte nem sempre é a irmã mais equilibrada. Justamente por ser a expressão humana do que é humano, animal e espiritual. Divino e diabólico.

Acho que eu seria um péssimo crítico de arte. Aliás, imagino que muitos críticos de arte sejam de fato ruins como eu, e ainda por cima conseguem ganhar a vida assim. De qualquer forma, em minha ignorância admitida, devo confessar que me sinto completamente contente quando participo, nem que seja só com o olhar, de uma exposição agradável das expressões artísticas dos outros. E quando é desagradável e consigo perceber que o efeito pretendido era justamente esse, de desagradar, não me sinto tão ignorante e também consigo apreciar. Afinal, é humano, como eu. Não precisa de muitas justificativas. Um suposto refinamento, que tem por objetivo traçar o itinerário da interpretação escolada, como se fosse a única possível, como já ouvi de alguns artistas, limita o contato do observador, os diferentes espectros de olhares lançados a um mesmo objeto.

O mesmo comentário pode ser aplicado a panoramas cada vez mais específicos dentro das artes, como na música, na literatura, na poesia, etc.

Isso posto, fica difícil olhar a ciência como o martelo do mundo. Da mesma forma que eu não desejaria viver numa sociedade surrealista o tempo todo, mas posso imaginar que isso seja divertido, não acho que as ciências devam ocupar o centro de todos os debates a respeito da verdade.

O que me traz de volta à reflexão a respeito da própria verdade e de como a acessamos. Nada mais misterioso do que um homem dizer que não acredita em verdade absoluta. Isso é simplesmente impossível, ou só é possível se, no minuto seguinte, ele disser que mudou de idéia. A própria idéia de enunciar um absoluto requer sua existência. Se o absoluto não existe, como é que se pode afirmar algo tão absoluto como a inexistência de verdades absolutas? A lógica, aí, dá pau. O que se pode dizer é que alguém não acredita em algumas, ou muitas, proposições que se vestem com a roupagem de verdades absolutas. Mas ainda fica difícil de saber como é que essa afirmativa ajuda a não ter fé. Pois, de qualquer forma,alguma fé sempre existirá: ou positiva ou negativa.

O outro mistério e esse é engendrado por aqueles que chegaram à conclusão acima e a desenvolveram até mais longe, afirmando que negam o Absoluto, mas aceitam um outro tipo de absoluto, que é o de que tudo o que não seja visível, palpável e físico não deve ser acreditado. Queria ver alguém falar isso do amor ou da angústia, com a mesma eloquência.

Retornando ao jogo de cartas, o que um ateu que toma emprestado os símbolos da ciência faz, no íntimo, é uma transposição religiosa. E isso pode ter se desenvolvido a partir de uma conversão ao ateísmo, ou da simples permanência na vontade de em nada crer. Em vez do crucifixo, a régua, em vez dos santos, a intercessão é dos homens e mulheres piedosos da busca pela verdade científica acima de todas as outras, em vez da eucaristia, a maravilha da competição argumentativa. E há dogmas de diferentes qualidades. Uns mais fortes que outros. Diria, por exemplo, do darwinismo, lato sensu. Darwinismo biológico, darwinismo social, psicologia behaviorista evolucionista, etc. O dogma é mais forte que a morte. E defendê-lo, embora visivelmente seja senso comum, é o martírio maior.

As cartas são viradas numa dimensão que pode ser especialmente criada com o fim de defender uma realidade que apóie a causa ateísta: multiverso, teoria M, e toda a matemática especulativa sem a mínima comprovação. Viagens no tempo que só requerem o devaneio e levam ao êxtase de Teresa de Ávila. Tudo coisa da cabeça, um punhado de equações, computadores e nenhuma realidade observável.

Por outro lado, ainda no jogo de colocar as figuras juntas, quando lidamos com as meias, vemos que a situação real é bem mais difícil. Pés de meias somem, se foram mal lavadas, as meias desbotam, rasgam, fedem. Requerem o cuidado necessário para sobreviver à realidade e, somente com o cuidado real, podem ser manejadas com o tempo. Quero dizer com isso que, embora a religião tenha suas doses de escape e possa ser considerada um jogo de memória, ela é muito mais que isso, pois, assim como as meias, precisam ser limpas para serem usadas. Muito mal comparando, é claro. As religiões sinceras, sobretudo o cristianismo, requerem pureza e, mesmo assim, lidam com o sofrimento quotidiano, dando significado à vida, na própria vida, sem invenção de universos adequados para funcionar as tentativas de abstrações matemáticas. Se há um céu, é porque ele é uma nova terra, uma nova cidade.

Por fim, para ver como a ciência nos ajuda, a partir de sua própria história no ocidente (e não só nele) eu traria as palavras de Werner Heisenberg para dentro da conversa: “O primeiro gole do copo das ciências naturais faz o ateu; mas ao fundo do copo o espera Deus.”

Vil Homem Simples


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."(João 1,v. 14)
Sempre existiu algo intangível na Palavra. Mas isso já foi quebrado.